Após uma noite mal dormida, MacReady se levantou do sofá por volta das seis da manhã. De forma implacável, as descobertas da noite anterior o atormentaram toda a noite. Durante a madrugada, ele notou a luz do quarto de Childs acesa. Imaginou que ele sofria do mesmo tormento.

— O marido da minha prima trabalha para o exército — Childs disse — Ele está à nossa espera na base de Fort Lewis. De lá podemos retornar para Squak Valley Park. Assim mostramos tudo para eles, colocando um fim neste pesadelo.

— Eu imagino o quanto deve ser difícil para você, Childs. Afinal você está trabalhando para a Syntronic — ele disse antes de alisar a própria barba — Mas eu sei que você sabe que esta é a decisão certa.

Sem dizer uma palavra, Childs concordou balançando a cabeça.

Saíram do pŕedio e entraram direto no carro. Antes que Childs pudesse girar a chave na ignição, três carros surgiram do nada, bloqueando a passagem. Alguns homens armados saíram pela porta de um furgão branco.

— Dê a volta Childs! Vamos! Eles nos descobriram — MacReady gritava.

Childs desistiu de dar a partida no carro antes de dizer:

— Eu sinto muito Mac.

Dois homens retiraram MacReady do carro. Enquanto ele era carregado para o furgão, manteve seus olhos firmes em Childs, que permaneceu no carro, assistindo toda a cena.

Cerca de quarenta minutos depois, MacReady teve a certeza de que eles estavam a caminho do Centro de Pesquisas Avançadas B ao reconhecer as redondezas. Childs acompanhava o furgão em seu carro logo atrás, enquanto os outros dois carros iam na frente.

Ao se aproximarem das instalações, ele notou um heliporto que passou despercebido durante a noite anterior. Para sua surpresa, pouco tempo depois, um helicóptero pousou trazendo Phillipe Simon a bordo.

Estacionaram diante do prédio que servia de entrada para a instalação subterrânea. Os homens do furgão escoltaram MacReady até uma sala de reuniões no subsolo, onde ele foi deixado sozinho.

Poucos minutos depois, surgiram Childs, Phillipe Simon e Seth Garrett na sala. Rapidamente eles ocuparam as cadeiras da longa mesa de reuniões.

— Olá Sr. MacReady. Meu nome é Phillipe Simon. Sou o diretor da Syntronic Medical Research. Eu fui notificado pelo Sr.Childs que você encontrou o nosso tesouro.

— Corte as preliminares seu engravatado de merda! Eu sei quem você é! Eu não sei quem é este homem ao seu lado- ele disse fulminando Childs com o olhar.

— Então era por isso que você sabia que este lugar ficava no meio do nada. Você já tinha estado aqui antes. O que aconteceu com você Childs? Costumava ser alguém em quem eu podia confiar.

— Ele não te contou? — Phillipe Simon perguntou.

Childs abaixou a cabeça.

— Vamos Childs — o diretor disse colocando a mão sobre o ombro dele — É melhor que ele saiba de tudo através de você.

Ainda com dificuldade de encarar MacReady, Childs começou a falar olhando para a mesa.

— É o meu filho Brian, ele está doente, com uma forma rara de câncer. Eu só descobri quando nós voltamos do pólo sul. Ele não tem muito tempo, Mac. A cura está naquele contêiner — ele disse apontando na direção da outra sala.

Em um instante, MacReady entendeu o drama do amigo. Imediatamente o rosto de sua filha Laura, surgiu em sua mente.

— Eu sinto muito pelo seu filho Childs, mas você não pode acreditar que alguém seja capaz de controlar essa Coisa! Você viu com seus próprios olhos o que aquilo fez com a nossa equipe.

— Está enganado Sr. MacReady — Phillipe Simon interrompeu — Nós temos a tecnologia para isso. Você ficaria surpreso com o avanço que fizemos. Nós o encontramos congelado — ele disse entregando a MacReady um envelope com fotos — Ele estava terminando a absorção de seu colega Nauls quando tentou fugir antes da explosão de sua base.

MacReady folheava as fotos onde aquilo que parecia ser o corpo de Nauls era removido dentro de um bloco de gelo pela equipe da Syntronic.

— Nós tivemos o cuidado de preparar o módulo de contenção com as melhores tecnologias. As paredes são revestidas com várias mantas que levam fibra de carbono, fibra de quartzo e carbono-silício. O mesmo material usado na construção de foguetes. O vidro é laminado com policarbonato, poliuretano e polivinil. Possui nível três de blindagem. Além disso, nós o mantemos congelado na mesma temperatura em que foi encontrado.

— Vocês devem estar loucos! — disse MacReady — O filho da mãe permaneceu milhares de anos congelado, quando o encontraram, ele fez uma carnificina na base sueca. Não satisfeito copiou um cachorro e foi parar na nossa base. Por que diabos vocês acham que esta caixa irá contê-lo?

— Eles eram noruegueses Sr. MacReady — Phillipe Simon o corrigiu — Entendo a sua preocupação por conta dos horrores que vocês viveram no pólo sul, mas espero que nosso cientista Seth Garrett, responsável pela pesquisa, ajude a mudar o seu ponto de vista.

— Antes de mais nada Sr. MacReady, é um prazer finalmente conhecê-lo. Childs sempre menciona o seu nome quando relata o que vocês enfrentaram no pólo sul — Seth Garrett disse num tom nervoso — Posso garantir que todas as precauções necessárias foram tomadas antes de iniciarmos nossa pesquisa. Todos os procedimentos de recolha de sangue do espécime são realizados por braços robóticos. Os testes são realizados em compartimentos similares ao que você viu.

— Espere um minuto! — MacReady interrompeu — Vocês andaram extraindo o sangue daquele Coisa? Você só pode estar de sacanagem! Que tipo de testes vocês realizaram?

— Acalme-se Mac — disse Childs — Dr. Garrett tem tudo sob controle.

— Creio que se você assistir os vídeos, tudo ficará mais claro — ele disse apanhando o controle remoto da mesa.

O grande monitor na parede da sala mostrou um braço mecânico, perfurando o gelo com uma fina agulha para extrair sangue da cópia de Nauls. Após a coleta, o sangue passava por uma série de cabos metálicos que estavam ligados à outra caixa.

A cena mudou, mostrando um porco no interior da segunda caixa. Outro braço robótico injetou o sangue no animal. Imediatamente uma série de mutações começaram a ocorrer. Patas de artrópodes surgiam aleatoriamente no dorso, enquanto sua cabeça se abria ao meio fazendo surgir um tentáculo, que procurava freneticamente onde se agarrar.

— Veja! — Seth Garrett disse visivelmente empolgado — Tudo parece desordenado. Como se tratasse de um simples mecanismo de sobrevivência, mas lembre-se de que estamos lidando com uma forma de inteligência capaz de construir aquela espaçonave.

A cena seguinte apresentou a estranha mutação sendo incinerada dentro da caixa. Um processo químico entrou em ação imediatamente após, eliminando todos os restos mortais da aberração.

Ele avançou o vídeo para outra experiência. Desta vez, uma cabra era usada como cobaia. Quando a injeção alcançou o pobre animal, as mutações começaram.

— Notem que a mutação para a cabra foi totalmente diferente. Enquanto que no porco apareceram patas de artrópodes, aqui surge a cabeça de um réptil no estômago. Procuramos identificar a existência de algum padrão a partir destas experiências — ele disse ainda demonstrando empolgação.

— Antes que você continue com seu programa educativo sobre como matar animais inocentes, você pode me adiantar o que vocês descobriram a respeito do filho da mãe? — MacReady questionou.

Ele ajeitou os óculos com o dedo indicador antes de responder:

— A respeito do padrão das mutações, todas as nossas experiências foram inconclusivas. A manifestação parece aleatória.

MacReady balançou a cabeça decepcionado.

— Mas nós descobrimos algo inesperado — ele avançou o vídeo com um sorriso no canto da boca.

Outro porco apareceu na cena. Os braços robóticos se movimentavam para injetar o sangue. Seth Garrettt pausou o vídeo para explicar.

— Depois de dois meses de trabalho exaustivo tentando descobrir um padrão para as mutações, todos da equipe se encontravam muito desanimados, inclusive eu. Foi quando eu tive uma ideia diferente. Os testes bioquímicos revelaram que a chave para o capacidade de cópia dos organismos residia na enzima CYP450. Esta enzima está presente em praticamente todos os seres vivos do nosso planeta. Este tipo de enzima atua de forma endógena e exógena, estando associadas às membranas citoplasmáticas e ao retículo endoplasmático liso. O nosso especialista em astrofísica procurou deduzir como seria o sistema planetário de onde ele veio a partir do estudo da espaçonave. Mas os noruegueses explodiram grande parte do equipamento, tornando impossível qualquer conclusão. Então parti de uma simples hipótese, formulada a partir de duas teorias. Usei o pressuposto de que o seu planeta de origem também possui os movimentos de translação ao redor de um estrela e rotação, como a Terra. A segunda teoria foi criada em função da primeira. Como resultado do provável movimento de rotação de seu planeta de origem, ele também deve possuir dia e noite. Portanto, seria possível que este ser também precisasse de um ciclo de sono, durante o período noturno.

— E daí se o desgraçado também dorme? — MacReady interrompeu sem perceber onde Garrett queria chegar.

— Eu decidi testar a hipótese de que todas as mutações ocorrem, porque ele está no seu estado de vigília, em outras palavras, está acordado. Neste ponto arrisquei um palpite de que algo diferente poderia acontecer, se aplicássemos um tranquilizante junto com o sangue.

MacReady ouvia a explicação com atenção, mas ao mesmo tempo cético.

— A minha teoria era que dessa maneira seríamos capazes de provocar uma espécie de reset. Forçando nosso visitante a retornar a sua forma original.

Garrett tornou a colocar o vídeo para tocar. O braço robótico se moveu lentamente na direção do animal, aplicando o sangue do alienígena na altura do coração.

— Adicionamos uma miligrama de carfentanil, um tipo de tranquilizante utilizado para sedar elefantes. Esta dose não seria letal para um porco.

Imediatamente o porco caiu no chão inconsciente. Bastaram poucos segundos para os primeiros sinais de mutação começassem a aparecer.

O dorso do porco se abriu e parte de suas vísceras se espalharam pelo chão. Ao invés de patas de artrópodes, tentáculos ou membros de répteis, surgiram dois braços humanos a partir da massa disforme que se misturava no chão. Aos poucos, as duas pernas foram tomando forma. A cabeça do porco se partiu dando origem à uma cabeça da forma humana. Antes que o transformação estivesse completa, duas protuberâncias surgiram nas costas e foram se desenvolvendo até seu alcançarem cerca de quatro metros de envergadura.

A figura humanóide sem sexo definido, com cerca de dois metros e meio de altura, permanecia deitada numa poça de sangue e vísceras, indicando um sono profundo. As asas brancas davam um aspecto angelical à imagem. A partir da cabeça humana no centro, surgiram cabeças de leão, boi e águia.

MacReady, que até aquele instante assistia tudo sem conseguir emitir uma palavra, levantou da cadeira antes de dizer:

— Você só pode estar de sacanagem!

— É lindo, não?

Ainda sem acreditar nos seus próprios olhos, MacReady foi incapaz de responder.

— Subitamente a origem deste ser ficou clara para mim — Garrett continuou tirando os óculos para falar — Após longos anos sem nenhuma espécie de fé, confiando apenas na ciência e na realidade objetiva, me encontrei profundamente abalado por esta descoberta. Passei algumas semanas sem dormir direito, muito perturbado. Comecei a ter sonhos com lembranças da minha infância, quando eu estudava numa escola católica. — Garrett parou por um momento antes de continuar — Esta criatura combina perfeitamente com as descrições bíblicas das visões de Ezequiel. Ele só pode ser um enviado de Deus com alguma missão específica!

— Grato pelas explicações Dr. Seth — Phillipe Simon interrompeu preocupado com a fixação religiosa de Seth Garrett — Mas acredito que o Sr. MacReady não está interessado neste ponto de vista.

— Enviado de Deus? Desde quando Deus precisa de uma espaçonave para enviar um dos seus? — MacReady disse apontando para o monitor — Pense bem Garrett, eu te garanto que isso não é nada divino — concluiu antes de tornar a sentar.

— Nós respeitamos a leitura religiosa do Dr. Garrett, mas do ponto de vista científico o valor desta descoberta é incalculável — prosseguiu Phillipe Simon — Estamos diante da cura potencial para todas as doenças que assolam a humanidade. Se formos inteligentes poderemos até alcançar a imortalidade! As possibilidades são infinitas.

MacReady olhou para o rosto de cada um que estava sentado naquela mesa. Ao fundo, a imagem do alienígena adormecido permanecia em pausa no monitor. Os dois seguranças armados permaneciam de pé, perto da porta, na frente do cartaz que indicava que era proibido fumar.

— Afinal, o que vocês querem de mim? — MacReady perguntou antes de acender um cigarro.