O Elo de Sangue
1 Apenas outro primeiro dia
Até então, tecnicamente o dia não havia começado. Não para ela. Não havia motivos para estar se sentindo tão mal. Não era algo que a assustasse ou a deixasse tão ansiosa àquele ponto, era apenas outra madrugada com um novo dia batendo à porta. Obviamente ela jamais encarara o primeiro dia de aula como algo tão difícil e arriscado. Era a garota perfeita, aparência perfeita, notas perfeitas, família perfeita... Não que ela fosse perfeita, apenas gostava de causar essa impressão. Desde que nasceu, sempre havia sido tratada como a garota perfeita e especial, e acabou por gostar disso. Agora ela estava ali, de frente para aquela visão nada agradável ou legal. Ninguém merecia ver aquilo, então ela simplesmente apertou a descarga. Sua mãe a havia tranquilizado (ou pelo menos tentado) dizendo que havia sido simplesmente resultado de uma ansiedade pré-ocasional causada pelo primeiro dia de aula que se aproximava. Nesse aspecto, não era nada legal se ter uma mãe psicóloga.
Aurora se levantou do chão, cambaleante, sentindo uma forte vertigem. Sua face queimava como se uma tocha estivesse a centímetros de sua testa. Desequilibrou-se e encostou-se à parede, fechando os olhos e respirando fundo. Abriu os olhos e se deparou com dezenas de pontos coloridos em sua frente. Fechou os olhos outra vez e quando os abriu novamente sua visão estava normal, dentro do possível. Equilibrou-se novamente e caminhou num passo lento até a porta, abrindo-a lentamente e sentindo um frio repentino correr por sua espinha. Olhou para frente e cerrou os olhos, concentrando-se na imagem embaçada e duplicada do que parecia ser uma mulher de roupão.
― Certo, tome isso. – Disse a mulher de roupão, estendendo uma caneca negra lustrosa com um líquido esverdeado dentro. Havia preocupação em seu tom de voz – Deve melhorar... Eu espero.
Sua mãe era sempre muito controlada... Exceto quando o assunto era a vida de sua filha. Nesse caso, era difícil controlá-la. Apesar de estar mal, Aurora se sentia culpada por estar fazendo sua mãe perder uma noite de sono por algo tão estúpido como nervosismo antes do primeiro dia de aula do ano. Ora, ela já estava no último ano. Deveria ser madura suficientemente para lidar com esse tipo de coisa. Além do mais, o que de tão ruim poderia acontecer? Um ligeiro desejo repentino de sorrir passou por sua mente, mas ela se conteve. Não era o momento certo para rir.
― Obrigada, mamãe... – Disse a garota, franzindo os lábios num ligeiro movimento, quase parecido com um fraco e doentio sorriso.
Estendeu a mão para apanhar a caneca e a levou lentamente até os lábios. Eles sempre foram avermelhados e sedosos como pétalas de rosa, mas agora pareciam mais vermelhos que o comum, como se estivessem queimando em brasa. Talvez fosse a febre. Nada que um bom sono pelo resto da madrugada não resolvesse.
Olhando para a mãe, Aurora sentiu um aperto no peito. Mordeu os lábios e assentiu com a cabeça, olhando-a com um sorriso solidário.
– Eu estou bem, pode ir.
Isso não a deixou convencida. Mirian jamais ficava convencida com o que quer que fosse vindo de alguém. Mas seu sono a venceu. Olhando para a filha, não via nada que a impedisse de voltar a dormir por mais algumas horas antes de ter de acordar para o trabalho. Aproximou-se e tocou sua testa com a palma da mão. Temperatura normal. Permaneceu fitando-a num dilema mental interminável.
― Tem certeza? – Insistiu.
Aurora assentiu com a cabeça, fitando os olhos da mãe. Por fim, deixou um leve e pacato sorriso tranqüilizador estampar seus lábios. Caminhou lentamente até o acolchoado azul turquesa, que a aguardava para o resto da madrugada silenciosa antes de, infelizmente ter que se levantar para ir ao barulhento colégio enfrentar todas as dezenas de olhares curiosos dos estudantes e desafiadores dos professores. Mirian deixou escapar um suspiro aliviado e então respirou fundo, erguendo as mãos para o alto, em sinal de rendição e caminhou até a porta, abrindo-a e saindo do quarto, deixando a garota sozinha na escuridão noturna.
Agora ela podia pensar com calma sobre aquele sonho. Não, não havia sido um simples sonho. Não podia ser um mero sonho. Havia sido tão real. O medo penetrando sua mente... Seus sentidos, sua racionalidade.
Primeiro, uma estranha visão obscurecida pela névoa densa e espessa. A silhueta negra do que parecia um homem. A imagem embaçada tremia rapidamente, tornando assim impossível dizer quem era o homem misterioso. Aurora parecia estar escondida atrás de uma árvore, esgueirando por entre as frestas dos galhos. Estava observando o homem em sua frente com uma aparente cautela. A sombra se mantinha à frente, estática, virada na direção da garota. O brilho amarelado da luz dos antigos postes à gás da cidade tocando lentamente a superfície da negra silhueta obscurecida pela contrastante negritude noturna.. Então, uma dor tremenda se instalou em sua cabeça. O sangue em suas veias e vasos capilares pareciam ter se convertido em metal fundido, carbonizando lentamente seus neurônios de dentro para fora. A dor era insuportável. Aurora acordou assustada, encharcada de suor e com a cabeça explodindo de dor. A febre a dominava. Uma imensa ânsia de vômito acompanhada de uma sufocante queimação na laringe e então o jantar estava voltando pela boca.
Agora ela se sentia melhor. O líquido esverdeado de sua mãe parecia ter ajudado. Seu olhar transpassava a janela ao lado da cama e ia de encontro ao brilho do luar que iluminava a rua negra e gélida, logo abaixo. A noite era silenciosa e misteriosa. Como se estivesse guardando segredos há séculos. Uma série de pensamentos aleatórios invadiram seus pensamentos. Aurora pensou em quantos fatos aquele local já havia presenciado. Por quantas guerras a cidade já havia passado? Há quantos milênios aquele lugar existia? Nenhuma resposta veio em seus pensamentos. De qualquer forma, aquele não seria um dia comum. Ela sentia, de algum modo.
Olhando para as casas ao longo da rua, cada elemento presente no espaço se mantinha em uma sinistra harmonia. A calçada rústica de pedras brancas fundidas ao solo dava uma sensação de antiguidade gótica ao ambiente. As árvores baixas na frente das casas faziam com que a rua parecesse uma pequena vila. A névoa encobria todo o asfalto negro, como um extenso tapete de fumaça estendido sobre o solo.
Apesar da noite pacata, fria e solitária como uma noite qualquer, Aurora sabia que o dia seguinte não seria um dia comum. Uma sensação estranha a estava incomodando. Talvez não fosse algo ruim. Talvez fosse apenas uma mudança na escola, o anúncio de um novo professor do qual fosse gostar, mas algo a dizia que não seria tão fácil assim.
Ela desistiu de continuar pensando naquilo quando uma leve sonolência a atingiu. Aquilo era assunto para o dia seguinte. O que quer que fosse acontecer, não podia ser tão ruim. Aquele estranho sonho não a perturbaria mais, disse a si mesma. Ela iria ser a garota perfeita de sempre, obtendo notas perfeitas como sempre e nada poderia estragar aquilo.
Séculos haviam se passado desde a última mudança. Ele tinha que se adaptar desta vez. Não era uma escolha. Não era algo que dependia apenas dele. Era para um fim maior. Se controlar no meio de tantas pessoas era extremamente complicado, porém ele havia tido treinamento o suficiente para isso. Ele não iria falhar nem deixar que nada transpusesse sua meta. Contavam dele. E ele não os decepcionaria.
O fulgente alvorecer da fria manhã se estendia pelas gramíneas aos pés da mansão. Alessio apreciava a maciça camada nebulosa ao longo das ruas de pedra ainda excedentes da época da colonização da cidade. San Marino era uma acanhada e serena cidade do interior, mas que ocultava mistérios e segredos que iam além da própria compreensão racional humana. Mesmo com séculos de história e existência, a cidade mantinha uma rústica e antiga engenharia urbana do século XVIII, quando a cidade enfrentou uma lúgubre, ríspida e voraz guerra da qual jamais se esqueceriam. Uma guerra que mesmo séculos de prosperidade jamais poderiam apagar.
Aquele local havia sido marcado eternamente com o sangue de centenas de civis inocentes. Todos os arquivos e documentos da época haviam sido perdidos durante a guerra, assim como o real motivo da batalha. A batalha havia ficado conhecida como “A era sombria”. Os civis da era presente não faziam idéia da batalha. Nem se importavam com a história que os levara até ali. Esse era apenas um dos infindáveis e desafortunados atributos da ignorância das novas gerações, corrompidas pelas viciosas e cômodas tecnologias contemporâneas. Mas Alessio sabia da verdade. Sabia a verdade sobre aquele local e mais que isso... Ele era a verdade. Sua existência transpassava as translúcidas barreiras racionais e estúpidas da suposta realidade humana.
O alarme disparou e ele se despertou do transe que o levara a séculos de distância do momento presente. Era hora de ir. Uma nova “vida” o aguardava. Aquilo era realmente hilário. Alessio jamais poderia ter uma “vida”. Era seu fado imortal e incorrigível. De qualquer forma, era hora de ir. Não seria tão demorado quanto para alguém comum, então ele apenas se conformou em levantar do amontoado de tecidos e almofadas e se vestir. Apanhou uma camiseta preta no armário e a vestiu.
Virou-se para apanhar os livros, no criado, ao lado da cabeceira da cama e deu uma rápida olhada no espelho à sua frente. Tinha de estar apresentável, se quisesse ter sucesso com a garota. Ele ainda não a havia conhecido e esperava que Lúcio estivesse certo sobre ela, ou então tudo aquilo seria inútil e perda de tempo. Alessio caminhou até o cabideiro de figueira ao lado da porta e recolheu seu casaco, colocando-o sobre os ombros e respirando fundo. Já havia feito aquilo milhares de vezes. Apenas fechou os olhos e se concentrou nas sombras à sua volta... No poder que emanava delas. Visualizou em sua mente o local em que desejava chegar. Deixou que seu corpo se fundisse à escuridão, como uma só matéria... Uma só composição. E então abriu os olhos.
Como de costume, havia conseguido. Lá estava ele num beco isento de iluminação solar atrás de uma cafeteria. À frente, o local que deveria freqüentar durante todo o ano. Não seria tão simples. Seria tedioso e Alessio sabia que não teria nenhuma diversão, exceto talvez conhecer a garota. Aquilo seria interessante e ele estava ansioso por isso. O som estridente de um badalar metálico e agudo compenetrou seus tímpanos, o lembrando do que era óbvio e até então não havia parado para pensar. Era hora de enfrentar as regras e a burocracia. Hora de aceitar a subordinação hierárquica. Após séculos de diversão e de uma vida inteira livre de normas, ele não se sentia muito preparado para novamente ter de se importar com o que era certo ou errado, no entanto, não seria uma escola que o amedrontaria. Olhou para os lados para se certificar de que ninguém o havia notado. Aprumou os ombros e inspirou o ar dos pulmões. Estava pronto.
O som metálico já havia soado três vezes seguidas, partindo de cinco minutos atrás, pelo que ele calculava, no entanto, nenhum dos jovens que estavam no caminho parecia se importar com tal alerta. Aquilo o fez pensar. Qual era o sentido em se ter um sinal se ninguém se importava com o que poderia acontecer se não obedecerem ao sinal? Mais um indício de que a nova geração havia se entorpecido em sua ignorância, com o decorrer dos tempos. A cada passo, diversos olhares o miravam. Ele não os encarava de volta. Apenas caminhava firmemente a passos rápidos em direção à sala em que deveria estar no primeiro tempo.
Sentiu uma leve tremulação nas sombras à sua esquerda, a alguns metros de onde estava. Sua curiosidade o venceu. Curvou a cabeça levemente e olhou de relance para duas garotas que o observavam e cochichavam entre si atrás de uma árvore baixa perto de uma fonte d’água. Lúcio e Giuseppe o haviam advertido com relação ao quanto aquilo seria complexo. Estar tão próximo de todas aquelas pessoas comumente intimidava e irritava a maior parte deles. As infinitas sensações, emoções e sentimentos emanando deles os deixavam completamente confusos. Até então, Alessio não estava tendo problemas em se controlar. Algo difícil até mesmo para alguém muito experiente como os próprios Lúcio e Giuseppe.
Sua linha de raciocínio foi completamente perdida quando sentiu algo tocar seu ombro. Virou-se instintivamente para trás. Quando notou o que estava prestes a fazer, conteve o impulso de auto-preservação e estagnou sua mão no meio do percurso antes de se chocar contra o alvo que o olhava com um sorriso no rosto. Alessio contrafez sua ação anterior, abrindo a palma da mão e a estendendo para cumprimentar o homem que permanecia parado e sorrindo.
Era um homem de meia idade, alto, robusto e com uma expressão confiante no rosto, como se nada pudesse abalar seu sorriso. Seus cabelos grisalhos e sua barba bem aparada concediam-no um ar relativamente jovial. Seus olhos transmitiam uma mensagem positiva e amigável. O homem estendeu sua mão rapidamente para retribuir o gesto de Alessio enquanto sustentava o sorriso nos lábios.
― Olá! Sou Henrique, professor de Filosofia desta turma. – Exclamou exuberante, apontando para a porta de madeira polida atrás de Alessio. – É novato por aqui?
Alessio permaneceu entorpecido, examinando inerte o homem à sua frente. Ponderou o que dizer da melhor forma possível. Não era algo complicado. Talvez se fosse rude o suficiente o homem o ignoraria pelo resto do tempo. Ou talvez o professor conduzisse a ação para o lado pessoal e se inclinasse a incomodá-lo pelo resto no ano. De qualquer forma, para o bem dos outros, era melhor ser cuidadoso.
― Olá. – Respondeu Alessio de maneira fria e enfada como se estivesse hesitante em falar com o professor. – Acho que estou nesta turma.
Alessio estendeu a mão direita, expondo uma folha de tamanho médio entre os dedos longos e finos. Henrique o recolheu e o examinou atentamente. Sorriu, como sempre e abriu os braços amigavelmente.
― Bem, seja bem vindo ao terceiro ano, senhor... – O professor fez uma pausa, desviando o olhar para a folha de papel. – Lazzari!
Quando ela acordara naquela madrugada sentindo seus pulmões arderem a cada movimento de inspiração e expiração, ela não imaginara o quanto aquele dia poderia se tornar “interessante”. Era óbvio, para a maioria, que aquele seria um primeiro dia de aula como qualquer outro. Professores irritantes, aulas irritantes, regras irritantes, novatos irritantes... “A maioria deles”, pensou Aurora estampando um esplendido sorriso picante sobre os finos e afeiçoados lábios vermelhos.
Havia se recuperado da febre às quatro da manhã, finalmente pegado no sono às cinco e, com isso, só havia dormido novamente por uma hora. Não era uma de suas melhores noites, mas o dia havia compensado.
Primeiro, tomara seu café da manhã como em todas as manhãs, exceto por uma benevolente e inesperada visita. Aurora e Diana eram amigas de infância, uma amizade tão forte que nem mesmo a distância pudera destruir. Não se viam há três anos, quando a garota teve de deixar San Marino para estudar fora do país. Nesse período, morara com sua tia materna, Francesca, seu tio Eugenio e seus primos, Luca e Bianca. As duas passaram a trocar mensagens pela internet, desde então, para não perderem o contato.
Aurora quase fora sufocada por um abraço de urso inesperado. Quando notara a garota em sua frente, sorrira como nunca e então fora sua vez de retribuir o afago. As duas passaram um bom tempo na sala de estar contando as novidades uma para a outra até serem interrompidas por Mirian, que as alertara sobre a aula, que começava dentro de dez minutos. Mais uma aprazível e inesperada notícia. Diana voltara de vez, para ficar. As duas teriam um longo ano juntas novamente, como nos velhos tempos.
Ambas caminharam juntas para a escola como sempre faziam, até Diana empacar rispidamente numa esquina, a poucos metros dos portões de entrada do colégio e olhar para o outro lado da rua. Ela havia dito algo sobre um cara bonito com ar misterioso saindo de um beco escuro.
Logicamente, Aurora não havia dado atenção àquilo. Era apenas outro garoto bonito atravessando a rua. Ela já tinha garotos o suficiente para se preocupar e já era assediada o suficiente no colégio. Era a parte legal de ser uma garota bonita. Podia flertar com todos, e depois dispensar todos. Era seu passatempo predileto, até... Bem, até ela amadurecer o suficiente para não ligar mais para aquelas bobagens.
Agora, ali estava ela. Sentindo a mão inquieta de Diana cutucar suas costas à medida que o olhar do garoto se voltava para a sala de aula. Aurora estava a ponto de se virar e protestar, quando sentiu seus batimentos pararem instantaneamente. Sua boca havia se tornado um deserto e seus olhos deviam estar estáticos. Estava ereta e rígida sobre a cadeira. Aqueles intensos e inexpressíveis olhos castanhos a examinavam minuciosamente, observando cada ligeiro movimento de seu corpo. Pareceram minutos, mas fora apenas uma olhada. Ainda sim, ela não pode evitar permanecer pensando naquilo por mais algum tempo.
Aurora foi desperta de seu transe por uma mão que a virou bruscamente para trás. Diana a observava com um sorriso maldoso, mordendo os lábios.
― Eu disse! – Sussurrou exasperadamente.
― Então é ele? – Interrogou Aurora.
― Ele tem um ar sexy e misterioso. – Diana fendia os olhos, analisando de cima a baixo o garoto. Sorriu e suspirou. Aurora permanecia inerte, observando Diana com uma proposital expressão de tédio. – Ah, vamos, Aurora! Diga que não está curiosa!
― Certo, ele é... Bonitinho. – Retrucou, entre um suspiro e outro.
Um som oco irritante findou os murmúrios da classe. O professor Henrique estava encostado no quadro, de pernas cruzadas, tamborilando o dedo anelar no quadro, chamando a atenção para que todos se calassem.
Aurora girou cento e oitenta graus para frente, como uma bela e exemplar aluna nota dez, que é o que ela sempre fora. Se queria continuar assim, deveria fazer por onde. Sentiu uma onda de calor correr por seu corpo de uma só vez. Uma gota de suor escorreu de sua testa. Ela a afagou rapidamente, secando sua testa antes que alguém visse. Não queria chamar a atenção para si nem se quer por um segundo. Não esse ano. Notou um olhar em sua direção vindo de logo à frente. Desviou o próprio olhar e imaginou um ponto fixo no centro do quadro negro. Manteve o olhar fixo nele enquanto a sombra passava ao seu lado.
Ela sabia que ele a estava observando enquanto passava, e tão pouco quando se sentou em uma carteira, logo à frente, na fileira ao lado da sua. Ela não iria se permitir demonstrar qualquer tipo de reação à presença notável do rapaz. Ele não iria causar nenhum efeito sobre ela, e ela jamais o concederia alguma chance. Era isso o que faria e ponto.
― Sejam bem vindos ao terceiro ano, estudantes remanescentes, repetentes e novatos! – Começou Henrique, sorrindo alegremente, como sempre fazia. – Alguns de vocês devem ter notado a mudança aparente no ambiente. – Disse ele, apontando para as paredes da classe.
Agora eram de um vermelho vinho, com detalhes em dourado na parede. As molduras infantis antes presentes aos montes na classe – provavelmente para lembrar aos alunos do lugar para onde iriam, caso não se esforçassem – agora haviam sido substituídos por um quadro de avisos e um cartaz que dizia “Bem vindos, estudantes!”. O piso agora de madeira laminada brilhava em contraste com o brilho da luz do sol, que vinha das novas janelas modernas de vidro na parede esquerda. O ornamentado jardim, do lado de fora, podia ser visto de dentro da sala.
Como Aurora não havia notado todas aquelas mudanças quando chegou? Era estranho, mas ela não se sentia mais tão envolvida nas atividades escolares quanto antes. Ainda sim, aquilo não a impediria de ser a garota de sempre. Notou o olhar intenso de Berto ao seu lado esquerdo, lembrando-a do que acontecera. Aquilo não a faria se sentir triste novamente. Estava decidida a se manter bem pelo resto do ano.
― O colégio passou por mudanças administrativas e, consequentemente, mudanças na infraestrutura. – Prosseguiu o professor. – A nova administração será apresentada a vocês numa, eu espero, breve palestra, que será realizada no pátio daqui a alguns minutos. Enquanto isso, eu quero que façam uma coisa. – Um sorriso animado transpareceu em seu rosto. Ele entregou uma folha em branco para um aluno que estava sentado na primeira mesa, à sua frente. – Bem, preciso elaborar uma nova lista de chamada. Portanto, quero que assinem seu nome completo na folha, todos vocês. A folha irá circular pela turma enquanto realizamos uma dinâmica. Formem um círculo bem grande.
Aurora olhou de relance para Diana, que a olhou de volta com um sorriso agudo. Elas sabiam exatamente o que se passava na mente de cada uma. Tinham anos de prática. Era como se pudessem ler os pensamentos uma da outra. As dinâmicas de Henrique sempre eram interessantes e todos interagiam, no entanto, a turma estava cheia de rostos novos e talvez pudessem não reagir da mesma maneira que a antiga turma. No fundo, Aurora sabia que seria algo divertido para um primeiro dia de aula.
Sorriu e olhou para o lado, notando o intenso olhar recíproco e fixo do novato misterioso. Ele não havia dito uma palavra durante a aula inteira. Ela observava diversos olhares vindos das outras garotas da turma. Olhavam fixamente o rapaz, cochichando entre um sorrisinho maldoso e outro. Ainda sim, o garoto insistia em ignorá-las e permanecer concentrado em atordoar Aurora.
Na verdade, ela gostava disso. Gostava de se sobressair às outras garotas. Gostava de ter a atenção dos garotos e, principalmente, gostava de ter a inteira atenção de alguém que prendia o interesse de todas. Ela não pôde conter um leve e tímido sorriso que se formou em seus lábios enquanto olhava nos olhos do garoto. Ele sorriu acanhadamente de volta.
― Bem, eu vou escolher um de vocês para começar a dinâmica e então, sintam-se à vontade para escolher o próximo da fila. – Disse o professor, sorrindo como sempre. – O participante escolhido terá de falar para turma seu nome, sua idade e uma breve e resumida história sobre si mesmo que leve ao motivo pelo qual ele está aqui. Para começar, que tal você... Garoto da goma de mascar? – Disse Henrique, sorrindo de canto e indicando um garoto no canto direito da sala, encostado na parede com um boné escuro cobrindo o rosto.
O garoto teve um leve “baque” e se enrijeceu sobre a cadeira, tirando imediatamente o chiclete da boca e o arremessando na lixeira. Tirou o boné e ajeitou o cabelo louro com os dedos, olhando desajeitado para o professor.
― B-bem... – Gaguejou o garoto e então prosseguiu, tentando parecer o mais confiante possível. – Meu nome é Breno. Tenho dezessete anos e... Eu vim para San Marino no final do ano passado com meu pai. Ele é um corretor de imóveis, então estamos sempre mudando.
Aurora sentiu uma pontada de compreensão com relação a Breno. Algo na breve história do garoto lhe soava familiar, entretanto ela não tinha tempo para pensar sobre aquilo. Por algum motivo, sua cabeça não parava de pensar se quer por um segundo no provável olhar vindo do novato em sua direção. De alguma forma, aquele irritante e lacônico olhar a havia hipnotizado. Não conseguia tirá-lo de sua mente. Era como se sua mente estivesse sendo... Controlada.
Não ter controle sobre sua própria cabeça a deixava frenética! Tamborilava os dedos sobre a carteira de madeira inquietantemente. Uma gélida gota de suor desceu por sua fonte. Ela a enxugou imediatamente. A onda de calor veio à tona. Sua visão se entorpeceu. Ela ouvia diversas vozes ao mesmo tempo em sua cabeça, e então...
― Aurora!
Henrique a olhava com o típico sorriso de animação. Obviamente, ele devia a estar chamando há algum tempo, porém, a garota não havia notado por causa de sua estranha “atração” pelo novato que não saia de sua mente se quer por um segundo. O que estava havendo com ela? Nunca se sentira assim antes.
A classe inteira a encarava. Aurora engoliu seco e se ajeitou na cadeira. Respirou fundo, revidando os diversos olhares de canto que vinham em sua direção. Suspirou e sorriu, recuperando a pose.
― Sim, professor?
― É a sua vez. – Disse ele, com uma feição alegre no rosto.
Ali, estagnada sob diversos olhares acusadores, ela se sentia relativamente desconfortável. Como se fosse um corpo estranho dentro de sua própria pele. Não havia motivo para temer. Era apenas coisa de sua cabeça. Sempre fora a “queridinha” do colégio. Amada por todos os professores, odiada por todas que queriam ser como ela. Desejada por todos os garotos.
Levantou confiante e encheu os pulmões de ar, sorrindo como sempre. Seus cabelos, negros como a noite reluziam intensamente sobre o brilho do sol, que transpunha a janela, iluminando toda a sala. Sua pele, branca como neve, contrastava com o negro intenso de sua franja, que descia sobre seu rosto, como as águas de uma cascata. Seu sorriso, encantador e iluminado como sempre, arrancava olhares pretensiosos de todos os lados da sala.
― Como o professor disse, me chamo Aurora. – Disse mantendo o sorriso sexy e ao mesmo tempo inocente, se dirigindo à turma. – Eu nasci aqui. Desde que me lembro, estudo nessa escola. E... É isso.
― Obrigado, Aurora. – Disse o professor, deixando escapar uma palma de animação.
Aurora sentou em seu lugar novamente, sorrindo tranquilamente, nada como a garota desesperada de alguns segundos atrás. Essa bipolaridade frenética a estava enlouquecendo. Desviou o olhar rapidamente para o lado direito. Como esperava, ainda estava sendo observada pelo novato misterioso. Sorriu de canto, ajeitando uma mecha do cabelo e a deslizando para trás da orelha enquanto mantinha o olhar meigo e inocente fixo nos olhos castanhos do rapaz. Aqueles olhos, que antes a deixavam tensa, agora a faziam se sentir à vontade e tranqüila... Segura, era assim que se sentia perto do garoto.
Ela não entendia por que se sentia assim. Mal conhecia o garoto. Ainda não havia trocado uma palavra com ele, mas... Algo nele a conquistara. Não era sua bela aparência. Era... Mais que isso. Muito mais.
― Desde então eu vivo aqui. E é isso. – Uma garota à esquerda de Aurora findou sua apresentação.
― Muito bem! Então... Que tal... Você! – Interrogou Henrique novamente. Desta vez apontando para o garoto misterioso.
Um misto de curiosidade e excitação tomou conta de Aurora, mas ela não ia deixar transparecer isso. Apenas respirou devagar e ajeitou o corpo sobre a cadeira, passando o peso de um lado para o outro.
O garoto misterioso se levantou lentamente, seus movimentos eram lentos e suaves. Como se tivesse total controle sobre si e calculasse cada ato de seu corpo. Seu olhar se manteve sério, porém amigável, como se tentasse passar uma imagem segura, calma e branda. Seus olhos corriam de um lado para o outro da turma, encarando todos, um de cada vez. Suspirou e sorriu discretamente.
― Ah... Me chamo Alessio. Alessio di Lazzari.
Sua voz era grave e suave. Seu tom de voz era agradável e suas cordas vocais pareciam estar em perfeita harmonia. Um leve e discreto sotaque europeu era notado em sua fala, o que só o deixava mais atraente. Aurora disfarçou um leve sorriso ao ouvir a doce e deleitosa voz do rapaz.
― Tenho dezessete anos. – Prosseguiu. Sua fala era pausada e tranquila, num ritmo hipnotizante. Era impossível desviar a atenção do que ele falava. – Os primeiros Lazzari procederam de Bolonha, séculos atrás, numa desesperada tentativa de sobreviver à peste negra que assolava a Europa. Por acidente, acabaram se tornando alguns dos principais colonizadores de San Marino. Desde então vivem aqui. Eu, por outro lado, nasci em Bolonha e vivi lá por... Um bom tempo. Cheguei há pouco tempo com parte da minha família.
A sala estava num completo silêncio. Todos escutavam atentamente o que o garoto misterioso havia dito. Alessio... Então esse era seu nome. Um nome sexy e charmoso. Uma história interessante. Família importante. Bela aparência. Alessio parecia ser o tipo de garoto que todas corriam atrás e que poucas o tinham. Nesse quesito, era bem como a própria Aurora.
― Bem, em termos históricos, você tem uma história bem... Interessante, Alessio... Estou curioso para saber mais sobre seus familiares colonizadores. – Disse Henrique, sorrindo. Desta vez sua fala era um pouco mais séria do que o comum, o que espantou um pouco Aurora.
Um som metálico irrompeu sobre o silêncio da sala, anunciando o fim da aula. Ou não. A classe se levantou e os vários murmúrios se deram por começar. Cada “grupinho” com um assunto diferente, porém, olhavam para Alessio e cochichavam entre si. Estava claro que o garoto misterioso se tornara o centro das atenções, mesmo que subjetivamente.
― Está na hora, pessoal! A palestra vai começar. – Anunciou o professor. – Será no ginásio principal. Os assuntos abordados serão expostos no momento da palestra. Saiam da sala devagar e sigam para o local. Não quero que a turma se separe muito, tentem se manter próximos um dos outros. Eu os encontro.
Pouco a pouco, os alunos se levantaram e caminharam em direção à saída. Diana rapidamente laçou o braço entorno da cintura da amiga, sorrindo e cutucando-a enquanto saiam da turma. A garota deu uma rápida olhada para trás, certificando-se de que Alessio não as estava ouvindo. Sorriu de um jeito provocante e olhou nos olhos de Aurora.
― Eu vi aquela troca de olhares! – Sussurrou expressivamente, mantendo o sorriso picante – Quer dizer, não havia como não notar, vocês estavam quase se comendo com os olhos! Qual é, Aurora?! Não pode negar, você está atraída por ele!
― Ah... Ele... Até que é bonitinho, e parece ser legal. Não quer dizer que eu esteja atraída por ele – Aurora fez uma breve pausa e um sorriso maldoso escapou de seus lábios. – Certo, ele me atraiu... Um pouco. Mas isso não significa nada!
― Ah! Eu sabia! – Exclamou Diana, num tom mais alto que o do resto da conversa. Alguns estudantes que caminhavam logo à frente pelo corredor pararam e olharam para trás.
― Certo, fale mais alto. – Retrucou Aurora.
― Desculpe, acho que me exaltei um pouco. Em fim... Sabe que pode confiar em mim pra contar esse tipo de coisa. Sou sua melhor amiga. Não há por que esconder os detalhes de mim.
Agora estavam no Ginásio principal. Quem quer que fosse o novo diretor da escola, ele ou ela queria causar uma boa impressão. Logo no centro exato da quadra, se encontrava um palco de mais ou menos um metro e meio de madeira e coberto por um carpete vermelho vinho. Altas cortinas de seda dourada caiam do teto metálico do ginásio até o piso da quadra, rente à parte de trás do palco.
Uma espécie de faixa se encontrava atravessada de um lado a outro do palco. Estava coberta por um pano branco. Uma faixa dourada mais fina se estendia no fundo do palco.
Instrumentos musicais se encontravam sobre o palco juntamente com vários microfones. Alguns sobre pedestais e outros sobre suportes, no canto do palco. Alguns jovens afinavam os instrumentos e se aqueciam como se estivessem se aprontando para um show.
Aquilo estava completamente estranho. Primeiro, não era do costume da escola realizar palestras com a diretoria, seja ela administrativa ou pedagógica. Segundo, todo aquele aparato e ornamentações luxuosas e chamativas não definiam bem a característica de uma “Escola”. E as surpresas ficavam cada vez maiores.
Todas as luzes do ginásio se apagaram instantaneamente. Aurora deu um passo repentino para trás. Seu coração disparou. No centro do palco, uma luz forte e branca se acendeu de maneira lenta com um forte som estrondoso, como o de uma onda aguda de uma guitarra distorcida. O som ia se estendendo cada vez mais. Um telão? Sério? Aquilo era mesmo necessário?
A tela se escureceu de uma só vez. O número cinco na cor branca iluminou o ginásio. Gritos histéricos vinham de toda parte. De repente a “palestra” havia se tornado um Show de Rock’n Roll. O número quatro veio logo em seguida, como uma contagem regressiva.
― E aí, galera do Colégio San Marino?! – Gritou uma voz rouca no microfone. – Estão prontos?!
Aurora devia estar sonhando... Era isso! Nada daquilo podia ser real! Como aquilo podia estar acontecendo? A escola de pernas pro ar? Provavelmente era aquele o sonho de muitos dos alunos, mas... Algo estava errado. O telão não parava de piscar a cada segundo, exibindo números numa contagem regressiva. Três... Dois... Um.
“Droga!”, pensou ele. Era a única coisa na qual conseguia pensar desde que chegara àquele ginásio. Se aglomerações já eram algo abstruso para alguém como ele, aglomerações e algazarras eram ainda piores. O som das pulsações daquele irritante instrumento o deixava atônito e descontrolado. Era quase impossível se controlar. Pessoas gritando e sorrindo. Emoções e sentimentos em completa desarmonia e confusão. Aquilo já durava cinco minutos. Ele estava a ponto de explodir.
Fechou os olhos e correu bem rápido para um canto afastado da multidão. Respirou fundo e devagar, tentando se controlar. “Se concentre! Se concentre!”. Ele só precisava aguentar por mais algum tempo. Aquilo não podia durar o dia inteiro.
Estava a ponto de irromper em fúria quando o som acabou. Só restara o som das irritantes e histéricas vozes no meio da escuridão. Todas as luzes haviam se findado. Um flash de luz cortava a densa escuridão, tocando o piso no centro do palco. Por detrás de uma cortina vermelha de seda com bordas douradas em renda surgiu a silhueta escura de um homem de meia idade. Apanhou o microfone e sorriu para a multidão de alunos que sustentavam seus gritos irritantes.
― Tudo bem, pessoal! Certo, Certo! Vamos nos acalmar. – Disse o homem, sorrindo e erguendo a mão direita.
Ao levantar o braço, a manga de sua camisa desceu até metade do antebraço e Alessio pôde notar imediatamente, com um baquear de surpresa uma marca insólita cravada em sua pele.
Não podia ser! Ele saberia se... Ou não? A incerteza o domava. Por que estariam ali? Esse não era o designo. Iriam arruinar todo o plano.
Um diagrama extremamente antigo, até mesmo para Alessio, com inscrições em aramaico se encontrava cauterizado em sua epiderme, como uma marca de nascença. Ele sabia que era mais que isso. Aquilo ia muito além de uma simples queimadura ou tatuagem, embora se parecesse muito com uma. Mas se ele estava fazendo aquilo, estava agindo por baixo dos panos. Lúcio jamais concordaria com aquilo. Alessio tinha de impedir aquilo.
― Quero dar as boas vindas a todos vocês. – Continuou o homem, em seu microfone, sorrindo de um jeito subjetivo e soberbo, como se planejasse algo a cada segundo. – Este evento tem como intuito apresentar a vocês, estudantes, a nova diretoria do Colégio Estadual de San Marino, que organizou essa festa. E podem crer, muitas outras estão por vir! Surpresas incríveis os aguardam!
Os estudantes gritaram, aplaudiram e se silenciaram quando o homem ergueu novamente o antebraço. Havia algo em seu tom de voz. Uma mensagem oculta. Um duplo sentido sugestivo e camuflado. Algo também lhe era familiar. Seu jeito. Seu tom de voz. Sua maneira moldável de falar juntamente com sua máscara social adaptável a qualquer ambiente, por mais hostil e desafiador que fosse. Não era ele, mas sim obra dele. Alessio não tinha dúvidas.
― E agora quero que recebam com uma salva de palmas o novo diretor administrativo do Colégio Estadual de San Marino! – Prosseguiu o homem. – O senhor Lúcio Lazzari!
Alessio estava imóvel. Fixo e preso no tempo. Seu olhar estava focado e inerte no rosto do diretor. Uma corrente elétrica correu por todo seu corpo. “Não...”, pensou ele com um ar lamentoso.
O olhar do diretor corria por todos os rostos diante dele. Um brilho de excitação iluminava seu olhar, acompanhado de um sorriso saudoso e orgulhoso. Sua idade era camuflada por uma aparência jovial, devido às suas roupas. Uma calça jeans preta, uma camisa cinza de algodão e um par de botas negras de camurça. Um cabelo desgrenhado e ligeiramente repicado. Era o tipo “professor galã”.
Os gritos dos estudantes se intensificaram. Agora era impossível suportar ao barulho. O diretor manteve o sorriso e saudou a todos com uma mão erguida, logo em seguida a fechou, em sinal de silêncio. Todos se calaram.
― Estou muito feliz por ser o novo diretor desta escola. – Disse em sua característica voz grave. – Vocês terão o prazer de conhecer o restante da presidência amanhã, durante a “Festa de boas vindas”. Droga, acabei adiantando o segundo aviso.
Os estudantes aplaudiram e voltaram a gritar de excitação. Um diretor que deixava escapar palavrões sem se importar era tudo o que eles queriam. Um diretor acessível e mais... Jovem. Essa era a palavra. Queriam um diretor que fosse como eles. Obviamente, Lúcio sabia muito bem disso e, como o astuto homem que era, não deixaria de usar isso a seu favor.
Lúcio sorriu e retomou seu discurso, que parecia estar em seu fim.
― É isso aí, galera! Espero vocês aqui amanhã às sete em ponto! Vocês estão dispensados das aulas de hoje agora. Amanhã será e festa e então voltaremos à ativa na segunda! É isso e... Bom final de semana... – Encerrou o diretor e sorriu novamente, sendo aclamado por intensas salvas de palmas e gritos de aprovação.
Alessio não podia perdê-lo de vista. Não iria. Olhava fixamente para cada movimento do diretor. Quando notou sua descida do palco até o piso do ginásio, andou abruptamente em sua direção. Estava a ponto de abrir a boca para falar algo, mas obviamente Lúcio sentiu sua aproximação e virou-se rapidamente, sorrindo ironicamente.
― Ah! Alessio! Bom te ver, meu rapaz...
― O que significa isso? – Questionou-o Alessio, apontando para o palco decorado e toda a ornamentação extravagante.
― Ah, você notou? – O tom de voz do diretor era irônico e sarcástico. – Já não se fazem mais sedas em Milão como antigamente, não é mesmo?
― O selo de possessão, eu a vi. Por que estava controlando aquele homem? – Seus questionamentos estavam apenas se iniciando, entretanto ele sabia que Lúcio não seria intimidado e poderia acabar com aquele interrogatório em apenas um segundo. Portanto, Alessio preferiu controlar seu tom de voz. Ao ouvir a pergunta, Lúcio apenas deixou escapar uma expressão pretensiosa no rosto.
― Bem... Digamos que alguém tem de tomar conta de você, ficar de olho nas coisas e se certificar de que o plano está fluindo como o combinado, certo? – Agora o tom de voz do diretor era um tanto sério, acusador e ameaçador.
― Se é tão simples para você, por que simplesmente não usa o selo contra ela e consegue logo o que tanto quer?
O sorriso irônico de Lúcio desapareceu de seus lábios. Sua expressão se enfureceu. Seus olhos se enegreceram totalmente. Seus olhos haviam desaparecido e no lugar, havia apenas escuridão. Alessio se deu conta do que havia dito.
― Você não está em condições de fazer nenhuma exigência... Garoto! – Lúcio sussurrou gravemente.
Sua voz era estrondosa e chiada, como a de um... Monstro. Suas negras órbitas oculares se iluminaram com labaredas de fogo incandescentes. Alessio sentiu uma dor agonizante penetrar sua cabeça. Ela queimava como se seu sangue tivesse sido substituído por lava vulcânica. Caiu de joelhos no chão, arquejando de dor com as mãos imprensando a cabeça.
– Se lembra de onde veio, Alessio? – Prosseguiu Lúcio, num tom calmo e com as órbitas flamejantes direcionadas ao rosto de Alessio. – Saiba que com a mesma facilidade com a qual o tirei de lá, posso lançá-lo novamente.
Alessio estava a ponto de arrancar a própria cabeça do lugar. A dor era excruciante. Não havia como evitar. Não havia como impedi-lo.
Num instante a dor passou. Alessio estava ofegante, prostrado aos pés de Lúcio. Ele o olhava com um ar enojado. Lúcio fechou os olhos então os abriu novamente. Seus globos oculares haviam voltado ao normal. Ele olhou para os lados, procurando por alguém que tivesse visto a cena. Ninguém, para sua sorte. Ajeitou a roupa e deu de ombros entre um suspiro entediado.
― Mas respondendo à sua pergunta, ainda não posso fazer isso. Não sei muito bem o porquê, mas a garota não é afetada pela marca. Suspeito que tenha algo a ver com sua linhagem. Estou inclinado a descobrir isso nos próximos dias, e uma posição como esta de diretor me deixaria isento de suspeitas.
Alessio o encarava friamente. Se ele pudesse... Infelizmente Lúcio era mais forte. Não havia nada que o garoto pudesse fazer para impedi-lo. Por enquanto.
Ele não sabia qual era a real intenção de Lúcio. Não sabia o que planejava agora, e com certeza, depois do episódio do dia, ele jamais confiaria em Alessio novamente a ponto de revelar seus segredos. De uma coisa Alessio tinha certeza. O ano seria longo e nada agradável.
Lúcio sorriu de canto e caminhou lentamente em direção à saída do ginásio. Parou e se voltou para trás novamente.
― Convide a garota para acompanhá-lo à festa de amanhã... – Lúcio deixou escapar um olhar maléfico, com intenções subjetivas, como sempre fazia.
Alessio sabia que ele tinha algum plano para o dia seguinte. Não o mandaria convidar a garota a menos que pudesse tirar proveito para conseguir o que queria. Aurora não estaria segura, e não havia nada que Alessio pudesse fazer para impedir Lúcio. Nada além de se juntar a ele.
O diretor sorriu e virou-se novamente em direção à saída, caminhando tranquilamente. Ergueu os braços e deixou escapar uma curta gargalhada.
― Que os jogos comecem, meu caro estudante!
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