O Elixir
2 Alice
Notas iniciais
Sonhava com abelhas. Grandes abelhas, do tamanho de um cão vindo a me perseguir por estradas tortuosas dentro de um labirinto como sempre imaginei em "Alice no País das Maravilhas". Creio que seja uma espécie de carma. Sou assombrada por tudo que envolve o conto desde minha infância, com minha mãe decidindo me nomear Alice devido sua paixão pelo livro de Charles Dodgson. Sempre fui associada à Alice. Desde o jardim de infância quando possuía cabelos louros — claros e belos olhos azuis, e as outras crianças pediam onde estava o chapeleiro. Meus vestidos azuis e fachas no cabelo postos pela minha mãe não ajudavam, e os comentários aumentavam a medida que crescia.
Então quando fiz 13 anos decidi pintar meu cabelo de ruivo, a fim de acabar com essa perseguição de uma vez por todas. Mas, aqui estou eu, sendo perseguida por abelhas gigantes dentro do labirinto verde, com um belo coelho branco a me acompanhar. Franzo o cenho, irritada, e logo me repreendo por isso, afinal é apenas um sonho. E nem é o mais estranho que já tive. Acabava de pensar em como irei me livrar das abelhas, pois não podia continuar a correr eternamente, quando escuto uma voz familiar me chamar. Olho para os lados assustada a pensar de onde vem a voz, que se torna mais alta a cada instante. Então tudo se torna um borrão quando o sonho acaba e vejo-me encontrada na cama, um vulto a me sacudir.
— Alice! — Ouço a voz me chamar e me sacudir mais forte, fazendo minha cabeça girar. Grunho e empurro a mão para o lado, piscando repetidamente a fim de focar no que está havendo. Por fim, suspiro ao ver quem é.
— Você não podia me deixar dormir por mais um instante? — Reclamo para ele, me cobrindo com o travesseiro. Já perdi as contas de quantas vezes Oliver interrompe meu sono. Ele se senta de forma displicente em minha cama, um olhar levemente divertido em seu rosto quando fala.
— Pode voltar a dormir se não se importa em se atrasar no primeiro dia de aula. — Paro de respirar ao ouvir suas palavras e me ponho a sentar rapidamente, todo meu sono perdido em um instante.
—As aulas! Eu esqueci completamente. —Falo com um suspiro irritado ao olhar para o relógio, e percebo que falta apenas dez minutos. Levanto rapidamente ignorando o fato de estar apenas com uma enorme camiseta, e vou até o banheiro levando o uniforme do colégio nas mãos. Oliver e eu nos conhecemos há tanto tempo que virou uma daquelas raras amizades onde não importa o que vestimos um na frente do outro. Troco-me rapidamente no banheiro e escovo os dentes, sem me dar o trabalho de comer algo. Ao entrar novamente no quarto, olho irritada para Oliver.
— Por que não me acordou antes? — Pergunto enquanto jogo meus materiais de qualquer jeito na mochila.
— Eu tentei, mas você parecia muito concentrada... Até babava. — Ele fala com seu sorriso levemente irritante no rosto. Estreito meus olhos para o garoto, mas não consigo ficar brava com ele. Sou conhecida por meus atrasos regulares, e se ele não viesse a me acordar provavelmente teria perdido metade da aula. Suspiro e desço as escadas correndo enquanto passo uma maquiagem leve rapidamente no rosto, Oliver me seguindo descontraído com as mãos no bolso. Minha mãe nos cumprimenta da mesa, e dou um rápido beijo nela antes de sair para as ruas apressada, os prédios cinzentos da escola não muito longes.
— Então... — Começou ele ao meu lado. —Ansiosa? —Ele me olha de canto, uma mecha de cabelo a cair em seu olho esquerdo. Reprimo o impulso de movê-la.
— Ansiosa para a escola? Vejo que não se sente bem hoje, pois não me faria essa pergunta. — Falo com uma careta ao pensar em voltar para aquele lugar.
Tirando Oliver e matemática, não há nada que eu goste na escola. Claro, sou considerada uma das melhores alunas de Erinel Sckopel, minhas notas e comportamento são exemplares, e afirmam que possuo uma inteligência acima dos padrões comuns. Mas isso é tão indiferente para mim como sempre foi. Sempre fui debochada e humilhada na escola. Nunca soube exatamente o porquê, apenas é um fato que as pessoas não gostem de mim. Parece algo triste falando dessa forma, mas depois de algum tempo você passa a não se importar. Pelo menos isso é algo que se aplica a todos, menos Oliver.
Oliver nunca se conformou com o fato de eu ser o centro de piadas, e faz o máximo que pode para me defender, o que o causou diversas brigas e suspensões. Meus inúmeros comentários a respeito de fazê-lo parar e a afirmar que não me importo de ser provocada não o atingem, fazendo o garoto se envolver em cada vez mais brigas.
Olho para o rosto que tanto conheço aos pensamentos invadirem minha mente, o analisando. Seus cabelos são escuros, quase negros, sua pele levemente bronzeada e possui belos olhos que variam do verde para o castanho conforme o clima. Nesse momento estão verde-escuros, e ao observá-los, reparo na grossa cicatriz branca que paira sob sua pálpebra esquerda, resultado da mais violenta briga que se envolveu. Por minha causa. Desvio o olhar rapidamente e paramos ao chegar na escola. Grande, antiga e cinzenta, mais parece uma prisão do que uma escola. Mas acho que não há muita diferença. Aproximo-me dos portões com o coração na garganta, enjoada como sempre fico em meu primeiro dia.
— Hey. — Olho para o lado e vejo Oliver me olhando de forma reconfortante. Ele sempre sabe como me sinto. — Vai ficar tudo bem. — Consigo sorrir minimamente quando sua mão pousa em meu ombro. Suspiro fundo e nos aproximamos a adentrar o portão justamente quando escutamos o sino soar. O ano letivo inicia. Mas mal sabia eu o que me aguardava.
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