O ECO DO SOL
7 Onde Fica a Casa
Notas iniciais
Capítulo 7: Onde Fica a Casa
A penumbra do quarto de hospital foi lentamente cedendo espaço para os primeiros raios de sol que cortavam o horizonte de Phoenix, tingindo as paredes brancas de um tom dourado e suave. Renée havia secado as lágrimas de seu surto silencioso e agora se mantinha sentada na ponta do sofá-cama, com os joelhos encolhidos contra o peito, observando-me com uma curiosidade quase infantil. Para manter o disfarce, mudei sutilmente minha postura de mármore, relaxando os ombros e oferecendo-lhe um olhar manso, desprovido de qualquer ameaça.
Conversamos por longos minutos em sussurros compassados para não despertar Bella. Renée, fiel à sua natureza volúvel e cativante, saltava de um assunto para o outro com a velocidade de um pássaro em pleno voo. Ela falou sobre suas técnicas de pintura com os dedos na pré-escola, passou para uma teoria peculiar sobre como o alinhamento de Saturno influenciara o acidente de Bella e terminou compartilhando uma receita de suco verde que jurava ser milagrosa para curar ossos quebrados. Através de sua mente aberta, eu conseguia ver o brilho genuíno de sua excentricidade. Renée era, sem dúvida, uma criatura divertida. Havia uma leveza quase poética em sua incapacidade de se fixar no peso do mundo, e me peguei exercendo toda a paciência do universo com ela. Eu não a julgava mais. Entendia o labirinto de traumas que a moldara.
— Você é um rapaz muito paciente, Edward... — disse Renée, rindo baixinho de si mesma após se perder no meio de uma frase sobre plantas medicinais. — A maioria dos garotos da sua idade já teria revirado os olhos e saído correndo de uma mulher tagarela como eu.
Olhei para ela, permitindo que a suavidade do meu tom de voz expressasse a mais pura e profunda verdade, algo que tocasse o cerne de suas inseguranças maternas.
— Eu jamais correria, Renée. Na verdade, eu só tenho a agradecer — respondi, fixando meus olhos nela com uma doçura solene. — Obrigado por trazer a Bella ao mundo. Obrigado por cuidar dela e por permitir que ela se tornasse essa pessoa extraordinária, forte e única que ela é hoje. Se não fosse por você, eu nunca teria tido a chance de conhecê-la.
Aquelas palavras mansas agiram como um bálsamo no coração calejado de Renée. Através da nossa ligação psíquica, senti o impacto de minha declaração em sua alma. Uma onda de alívio e gratidão a inundou, desarmando-a por completo. O elogio sincero à sua maternidade tão imperfeita acionou um gatilho doce em seu fluxo de pensamentos, fazendo-a flutuar em direção à primeiríssima memória que guardava a meu respeito.
A imagem que se projetou na mente de Renée foi a tela brilhante de um laptop na sala ensolarada de seu apartamento em Phoenix, meses atrás. Era uma chamada de vídeo pelo Skype. Na tela, a imagem ligeiramente pixelada de Bella aparecia contra o fundo da parede de madeira escura de seu quarto em Forks. Renée estava do outro lado, gesticulando e falando sobre Phil, quando percebera uma mudança drástica na fisionomia da filha. A Bella que costumava ser contida, séria e quase opaca na webcam, parecia subitamente... iluminada. Havia um rubor sutil em suas bochechas e um brilho inédito em seus olhos castanhos.
— Mamãe... tem uma coisa que eu preciso te contar... — a voz de Bella na memória era tímida, mas carregava uma firmeza vibrante que Renée nunca ouvira antes. — Eu conheci alguém. O nome dele é Edward Cullen.
Naquela conversa, enquanto Bella descrevia o "garoto " do piano que parecia entender seus pensamentos mais profundos, Renée assistira à transformação da própria filha. Bella falava de mim não com a paixão passageira de uma adolescente, mas com a entrega madura e definitiva de quem encontrara o seu lugar no universo. Renée compreendera ali, naquela chamada de vídeo, que o sol que Bella abrira mão ao deixar o Arizona fora amplamente compensado por uma luz muito mais intensa e eterna que ela encontrara na névoa de Forks.
O bipe do monitor cardíaco mudou de ritmo de forma abrupta, arrastando Renée e eu de volta à realidade imediata do quarto de hospital. Na cama, as pálpebras de Bella tremeram. Um suspiro fraco escapou de seus lábios e seus olhos castanhos finalmente se abriram, piscando contra a claridade suave da manhã que invadia o recinto.
Renée deu um pulo do sofá-cama, o pânico materno assumindo o controle enquanto ela se precipitava para o lado esquerdo do leito, cobrindo o rosto de Bella com beijos ansiosos e carinhos desesperados.
— Oh, meu Deus, Bella! Você acordou! Minha filhinha, que susto você me deu! — Renée começou a falar atropeladamente, as palavras saindo em um fluxo frenético de cuidado e possessividade. — O Edward e a Alice me contaram tudo, querida. Você caiu daquelas escadas terríveis, atravessou uma vidraça... foi um milagre não ter sido pior! Escuta aqui, você perdeu muito sangue. Eu já conversei com o Phil e nós decidimos: você vai voltar para Jacksonville comigo agora mesmo. Você não vai ficar mais nem um segundo naquela cidade úmida e perigosa. Eu vou cuidar de você, nós vamos comprar roupas novas, pegar sol... você vem embora comigo, Bella!
Bella piscou devagar, a mente ainda ligeiramente enevoada pelos sedativos, mas sua essência teimosa e pé no chão não tardou a emergir. Ela desviou os olhos da mãe por um breve instante, encontrando os meus na escuridão do canto do quarto. Um entendimento silencioso passou entre nós. Com um esforço visível, ela ergueu a mão ilesa e tocou o braço de Renée, parando o monólogo desesperado da mãe.
— Mamãe... para, por favor... — a voz de Bella surgiu fraca, mas dotada de uma convicção inabalável que cortou o ar do quarto. Um sorriso terno e maduro moldou seus lábios secos. — Eu já disse que vou ficar em Forks. Eu não vou para Jacksonville. Lá... Forks é a minha casa agora.
Ao ouvir a afirmação categórica da filha, Renée estancou. Ela recuou um passo, olhando para Bella e, em seguida, voltou seu rosto na minha direção. Ela observou a forma como eu olhava para Bella, como se o mundo inteiro estivesse contido naquele leito de hospital, e o paralelo com o jovem Charlie Swan se completou em seu peito de uma vez por todas. Uma onda de gratidão profunda, imensa e avassaladora a Deus e ao destino preencheu a alma de Renée. Ela sentiu uma paz que há muito não experimentava. Sua filha não estava desamparada; Bella encontrara um homem disposta a mover o céu e a terra por ela. Bella encontrara a sua verdadeira casa nos meus braços.
No entanto, aquela mesma projeção de gratidão absoluta agiu como uma lâmina de gelo que perfurou o meu peito morto, fazendo minha consciência pesar com a força de um milhão de oceanos.
Eu me mantive estático, a expressão congelada em uma máscara de dor oculta. Renée confiava em mim. Ela via em mim o salvador de sua filha, o sol que compensaria todas as negligências do passado. Mas ela não sabia da verdade terrível que eu carregava no fundo da minha alma imortal. Olhei para a perna engessada de Bella, para os hematomas em seu rosto e para o cheiro de sangue que ainda me torturava. A fragilidade dela nos meus braços era uma sentença de morte. Eu sabia o que precisava fazer. Para mantê-la viva, para protegê-la do mundo de monstros ao qual eu pertencia, eu teria que cometer o ato mais doloroso da minha existência.
Eu teria que ir embora. Teria que deixá-la, quebrar o seu coração e abandoná-la na escuridão de Forks, exatamente como Renée fizera com Charlie. Eu estava prestes a destruir a única casa que Bella já conhecera, e a certeza daquela traição iminente pesou sobre mim como uma condenação eterna enquanto o sol de Phoenix terminava de iluminar o quarto.
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