O Décimo andar

16 Primeiro dia de trabalho


O primeiro dia de trabalho no escritório Meirelles & Associados começou com um ritual de passagem no nono andar. Eloah se encarava no espelho, ajustando o blazer que abraçava suas curvas de forma impecável. Estava elegante, mas havia algo em seu olhar — uma confiança amadurecida — que a tornava magnética.

​— Minha filha, você está uma verdadeira advogada! — Marta exclamou, entrando no quarto com o celular em mãos. — Fica parada aí, preciso registrar esse momento. São Paulo finalmente conheceu a mulher que você se tornou.

​Eloah sorriu, permitindo que a mãe tirasse a foto. Logo depois, sentiu a mão firme de Ricardo em seu ombro.

​— Parabéns, Dra. Cavalcante — disse o pai, com um brilho de orgulho sincero nos olhos. — A chave do seu sucesso está nas suas mãos. E a do seu presente também.

​Ele lhe entregou as chaves do carro novo que haviam comprado para marcar a conquista. Eloah desceu até a garagem, sentindo o cheiro de couro novo do veículo, e dirigiu pelas ruas movimentadas da metrópole. O trajeto foi um borrão de adrenalina até o prédio espelhado.

​Dentro do elevador social do escritório, o silêncio era absoluto. Eloah fechou os olhos e respirou fundo três vezes, sentindo o ar gelado preencher os pulmões enquanto os números digitais subiam. Nove... dez... cobertura.

​Ao chegar, foi conduzida por uma secretária até uma sala ampla, com vista para a cidade. Enquanto organizava seus pertences sobre a mesa de carvalho, o som da porta se abrindo fez seu sangue gelar por um segundo.

​Arthur entrou. Ele não sorriu, nem mencionou o passado. Estava focado, com uma pasta de couro sob o braço e uma expressão de quem não tinha tempo a perder.

​— Bom dia, Dra. Cavalcante — disse ele, a voz grave e profissional, colocando a pasta sobre a mesa dela. — Vamos pular as cordialidades. Este é o seu primeiro caso.

​Eloah abriu a pasta e começou a ler. O rosto dela ficou rígido à medida que passava os olhos pelos depoimentos.

​— Um caso de abuso? — ela perguntou, a voz firme.

​— Sim. Um homem influente acusado de abusar da própria sobrinha — Arthur explicou, cruzando os braços e observando a reação dela. — Ele está prestes a ser inocentado por falta de provas técnicas e uma defesa agressiva que está destruindo a credibilidade da vítima. Nossa missão é reverter isso. É um caso pesado, sujo e emocionalmente exaustivo.

​Ele se inclinou sobre a mesa, os olhos prateados fixos nos dela, mas agora com um brilho de desafio intelectual.

​— Você disse que queria entender como o poder funciona nas entrelinhas, lembra? Pois bem. Aqui está a sua chance. Se você quer ser a melhor, terá que aprender a lidar com o pior do ser humano. Está pronta para isso ou o Direito ainda é apenas uma teoria para você?

​Eloah sustentou o olhar dele, sentindo o peso da responsabilidade. O "jogo" entre eles agora tinha um propósito muito maior do que qualquer tensão pessoal: a justiça.