O Décimo andar
11 O Horizonte e a Loucura
A casa de praia de Arthur no litoral norte era tudo o que se esperava de um homem como ele: uma fortaleza de vidro e madeira integrada à natureza, isolada o suficiente para que o resto do mundo não existisse. Ricardo e Marta estavam encantados, desfrutando do vinho e da hospitalidade, sem desconfiar que, sob o mesmo teto, o perigo rondava a filha.
A noite caiu quente, com uma lua cheia que iluminava o mar como um farol prateado. Eloah, sentindo o peito apertado pela proximidade constante de Arthur dentro da casa, escapou para a areia. Ela caminhou até onde a água molhava seus pés e se sentou, abraçando os joelhos, deixando que o vento salgado bagunçasse seu cabelo.
O som dos passos na areia fofa foi abafado pelas ondas, mas ela sentiu a presença dele antes mesmo de ouvir sua voz.
— A areia de São Paulo é mais fria que a do Rio, não é? — Arthur perguntou, sentando-se ao lado dela, mantendo uma distância que parecia meramente formal.
Eloah olhou para ele. Arthur estava sem sapatos, com a calça cáqui dobrada e uma camisa de linho branca com as mangas arregaçadas. Ele parecia menos o advogado implacável e mais um homem em busca de paz — ou de guerra.
— É diferente — ela respondeu, voltando a olhar para o mar. — Tudo aqui é diferente. Às vezes sinto que estou vivendo a vida de outra pessoa.
— E essa "outra pessoa" gosta do que está vivendo? — ele perguntou, a voz fundindo-se ao som das ondas.
— Ela está assustada — Eloah admitiu, a honestidade surgindo sob o manto da escuridão. — Assustada com você. Com a faculdade. Com o que meus pais diriam se soubessem que o colar que eu escondo sob a blusa foi você quem deu.
Arthur ficou em silêncio por um longo tempo, observando o perfil dela iluminado pelo luar. A rebeldia de Eloah parecia ter dado lugar a uma vulnerabilidade que o desarmava.
— Eu trouxe vocês aqui porque não aguentava mais ver você apenas em elevadores e corredores de faculdade — ele começou, a voz ganhando uma densidade nova. — Eu pensei que, mudando o cenário, eu conseguiria colocar as coisas em perspectiva. Que eu lembraria que você tem dezenove anos e toda uma vida pela frente, e que eu já vivi metade da minha.
Eloah virou o rosto para ele, o coração começando a acelerar.
— E funcionou?
Arthur deu um sorriso amargo, enterrando as mãos na areia.
— Não. Só piorou. Eu passo o dia fingindo que sou o vizinho perfeito para o seu pai, enquanto meu único pensamento é como tirar você de perto deles. Eu nunca fui um homem de perder o controle, Eloah. Eu construí minha vida sobre a lógica e a estratégia.
Ele se inclinou mais perto, o olhar prateado fixo no dela com uma intensidade que a deixou sem ar.
— Mas a verdade é que eu estou totalmente louco por você. É uma loucura que desafia qualquer código que eu já estudei. Eu olho para você e esqueço as regras, esqueço a idade, esqueço as consequências. Eu só vejo você.
As palavras atingiram Eloah como uma onda gigante. O deboche, as respostas rápidas, o sarcasmo... tudo desapareceu. Ela abriu a boca para dizer algo, para brincar ou para fugir, mas nada saiu. Pela primeira vez, o mestre das palavras a tinha deixado sem nenhuma.
Arthur levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando sua bochecha com uma ternura que doía.
— Você me deixou sem palavras, Arthur — ela sussurrou, finalmente.
— Então não diga nada — ele respondeu, aproximando o rosto do dela. — Apenas entenda que, daqui para frente, não existe mais volta.
Ali, na areia deserta, com os pais dormindo a poucos metros de distância, o beijo que trocaram não foi de provocação, mas de uma promessa perigosa. O jogo de gato e rato tinha acabado; agora, eram apenas dois náufragos em um mar de sentimentos que nenhum deles sabia como navegar.
Como Eloah reagirá a essa declaração agora que o "jogo" se tornou um sentimento real e profundo?
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