O Duque que me Amou
3 Uma chance e nada mais
Notas iniciais


Os dias se escorriam e Katniss tentava levar sua rotina diária como sempre fazia. Acordava pela manhã, arrumava sua cama, escovava os cabelos, tomava seu dejejum e ia ajudar Ripper ou a Dolores em alguma tarefa como – regar o jardim, tirar as ervas daninhas, replantar alguma flor que precisasse – dentre outros afazeres. No entanto, seus pensamentos eram preenchidos pela mesma frase proferida ainda há alguns dias.
— Darei um tempo para a mademoiselle pensar.
Ela não queria pensar naquilo, porém parecia uma tarefa impossível de se realizar. Ainda mais por ter recebido uma dúzia de tulipas no dia anterior que, vinha acompanhado de um pequeno bilhete escrito com uma perfeita caligrafia, tão digna de um duque.
“As mais belas flores para a mais bela das jovens.
Com amor, Peeta Ryan Lavoisier Mellark
Duque de Bro Waroch”
Ela teve vontade de jogar as flores no lago próximo a casa, mas eram tão belas para serem descartas daquela maneira que desistiu no último minuto.
— Parece que o duque está mesmo empenhado em te cortejar, irmã – gracejou Finnick com seu típico sorriso travesso. Ele que atendera o mensageiro que trouxera as flores para a irmã.
— Ele está se dando ao trabalho, pois o que consigo sentir por ele é apenas ódio – grunhiu a jovem, tentando soar convincente.
— Cuidado irmãzinha, o ódio e o amor são uma linha tênue – disse enquanto se preparava para mais uma tarde de pesca.
Ela o encarou com a testa franzida e os lábios retorcidos. O típico gesto de quem daria uma bela bronca.
— Fique você sabendo que, jamais me apaixonarei por ele ou por qualquer outro homem da face da terra.
— Tsc, tsc, tsc... sua determinação pode estar em perigo. – Finnick movia a cabeça de um lado para o outro em negação aquelas palavras.
— Mas de que lado você está mesmo? – perguntou ela, irritada.
— Tudo bem. Se está tão empenhada assim em não se apaixonar, vou respeitar sua decisão. Entretanto, não venha chorar nos meus ombros depois que ele partir seu coração por se sentir rejeitado – declarou o irmão, terminando de organizar as iscas. Ela pensou em replicar, mas desistiu de perder seu tempo. Até mesmo de forçar a mente para pensar naquilo. — Quer ir pescar?
Katniss deu de ombros e aceitou o convite do irmão.
❆❆❆
Peeta adquiriu um passatempo muito agradável no fim do dia. Após sua cavalgada, ele tomava um relaxante banho em sua banheira de bronze e partia para seu escritório. Ficava imaginando maneiras de conquistar a mademoiselle Everdeen.
Escrevia bilhetes afim de serem acompanhados por alguns presentes. Dentre esses presentes havia até mesmo guloseimas da confeitaria do vilarejo. Ele descobrira recentemente que ambrosia dos deuses— um tipo de croissant recheado – era o preferido dela. Enviara uma caixa contendo exatamente doze ambrosias. Talvez se ele não a conquistasse através de flores e poemas, de repente, a conquistaria com gulodices.
Por que mesmo estava empenhado em conquista-la? Era taxado como um libertino nato pelos os que o conheciam em Paris, e por que, naquele momento sentia até certa pressão em vê-la apaixonada por ele? Seria orgulho? Podia até ser, mas de uma coisa tinha certeza, a única maneira de ter toda a herança que o falecido duque deixara, seria se casando e tendo um herdeiro entre um ou dois anos. Ou tudo seria passado para seu tio, irmão mais novo de seu pai, Seneca Crane Mellark, Peeta achava o tio arrogante e muito narcisista. Em poucas ocasiões sociais se encontravam e preferia que continuasse assim.
Uma batida na porta o fez tirar os olhos do livro que lia.
— Entre.
— Milorde, acabou de chegar uma carta para o senhor.
O coração de Peeta deu algumas galopadas. Seria ela que tivesse enviado? O mordomo lhe entregou o envelope, mas logo o jovem soltou um som muxoxo. O selo era de madame Lavinia Boucher, uma viúva da alta sociedade. Ele abriu o envelope notando que se tratava de um convite para um baile.
Um baile.
Peeta teve uma extraordinária ideia. Junto da carta vinha alguns convites. Ele poderia levar Katniss e os três irmãos, pois, obviamente o pai não iria deixa-la ir sozinha com ele.
Naquela noite ele fora se deitar com uma determinação obstinada. Seu plano para o dia seguinte era de visitar a família Everdeen.
❆❆❆
Gale colhia alguns legumes da horta, quando avistou um cavalo se aproximar.
Ele passou as mãos sujas sobre a testa suada e estreitou os olhos para visualizar melhor a figura que se colocava adiante.
— Vossa graça, a que devo o prazer de sua visita?
— Bom dia, Everdeen – cumprimentou Peeta.
— Pode me chamar por Gale – disse o moço fazendo uma leve mesura.
— Sua irmã está, Gale?
— Infelizmente não, vossa graça. Está pescando com nosso irmão, Finnick.
— Ela vai demorar para chegar?
— Bem, não tenho certeza. O dia está bem quente e os dois gostam de nadar...
Peeta parou de escutá-lo depois da palavra “nadar”. Ele podia ir até lá e conferir de perto aquela donzela.
— O lago fica em que direção?
Gale quase se engasgou com a própria saliva.
O que o duque pretendia?
— Vossa graça não prefere entrar e tomar um refresco, enquanto aguarda eles voltarem?
— De forma alguma. Preciso falar com sua irmã com certa urgência – declarou decidido.
— Certo, se é assim, explicarei onde estão. – Gale não compreendia a natureza de tal ansiedade do jovem montado em seu cavalo. Ele tinha muito zelo por sua irmã e não deixaria qualquer um, mesmo este sendo um duque, se aproveitar dela. No entanto, Katniss sabia se virar sozinha e cria que daria um fora nele num piscar de olhos.
— Obrigado pela informação, Gale. Mais tarde espero conversar com você também.
Sem mais delongas Peeta guiou o cavalo e galopou em alta velocidade. Deixando para trás um Gale atordoado.
Finnick estava satisfeito com os peixes que pescara naquela manhã. Os cotriades iriam ficar perfeitos no ensopado que Ripper preparava com crustáceos, legumes e ervas aromáticas.
— Será que depois do jantar podemos nos esconder na sala da mamãe para bebermos choucher? – perguntou Katniss com um sorriso divertido.
— Se o nosso pai descobrir que estamos acabando com a reserva de venda, irá nos matar.
— Ele não vai descobrir.
— Como tem tanta certeza?
— Porque estou repondo.
— E onde está conseguindo? – perguntou, mas logo sacudiu a cabeça. — Ah, esquece nem precisa responder.
— Thresh ficou satisfeito com os esquilos que fiz a troca. Me elogiou, pois disse que não são todos que conseguem atirar somente no olho – disse ela com orgulho.
Thresh fabricava artesanalmente a bebida chouchen, obtida a partir da fermentação de mel no suco de maçã. Era a mais típica de toda a região.
— Um dia desses o pai descobrirá que está barganhando com o Thresh.
— Ele saberá apenas se contar a ele.
— Cato desconfia dessa trama e sabe que ele não consegue guardar segredos tão bem como eu.
— Se ele contar, falo os segredos sujos que esconde – falou decidida ao cruzar os braços.
— Que tal um mergulho?
— Vamos ver quem chega do outro lado primeiro?
— Maninha sabe muito bem que nado melhor do que você.
— Ah, é? – Ligeiramente ela tirou o vestido ficando apenas com sua combinação e deu um pulo de cabeça no lago agitando a água.
Finnick balançou a cabeça em negativa, mas sorria e tirando a camisa pulou atrás da irmã. Suas braçadas, longas e sincronizadas, a alcançaram rapidamente que nadava tão bem quanto. Ao imergir da água ela deu um gritinho de vitória. Era raro, mas as vezes conseguia ganhar de seu irmão.
— Não valeu! Além de ter pulado na minha frente, seus braços não estão cansados como os meus – fingiu indignação.
— Aceite a derrota maninho. – Katniss apoiou os braços na margem gramada, impulsionando para sair da água e deparou-se com um par de botas impecavelmente engraxadas. — Droga! – xingou baixinho.
Bem devagar ela subiu o olhar e bem parado ali, assistindo toda a cena, estava Peeta.
— Parabéns! Nada muito bem mademoiselle.
Ela mordiscava os lábios procurando um insulto, porém, estava tão surpresa em vê-lo que não conseguiu dizer absolutamente nada.
— Vossa graça, está aqui para dar um mergulho?
Katniss quis matar o irmão, mas ao invés disso começou a caminhar até a outra margem para buscar seu vestido.
— Na verdade, vim conversar com sua irmã – disse Peeta com naturalidade.
Ele passou a observar a silhueta de Katniss que marchava com determinação. A transparência de sua roupa de baixo combinado com seu rosto iluminado pelo sol e a água que escorria de seus cabelos molhados e soltos; apenas a deixavam mais atraente. Como ele teve vontade de agarrá-la ali mesmo e a possuir.
Katniss sentiu os olhos do duque a queimarem, então, recolheu seu vestido do chão e se escondeu atrás de uma frondosa árvore para se vestir rapidamente. Aproveitou e pegou a camisa do irmão indo entregar a seguir.
— Vamos logo pra casa, Finn – decretou ela.
— Vou recolher nossa pescada.
— Mademoiselle preciso da sua atenção por um instante. –– Peeta parecia a paciência em pessoa, todavia, sua vontade era de puxar a jovem pela cintura e a apertar contra si. Institivamente fechou os olhos apenas para reorganizar seus pensamentos.
— Preciso ir para casa me trocar, senão posso ficar doente. – Katniss só queria sair de sua presença.
— Como queira, conversaremos na sua casa – decidiu ele, a contragosto.
A jovem revirou os olhos. Quando ela se livraria de uma vez por todas dele?
❆❆❆
Mais tarde já em casa e devidamente seca, Katniss preparou chá para ela e os demais que consistiam em seu pai, Gale, Finnick e o duque.
— Onde está o Cato, não o vi o dia todo? – perguntou o Sr. Everdeen.
— Ele está no porto jogando – contou Gale.
— Como? – O pai gostaria de ter entendido errado.
— Errr... acho que acabei expressando alto demais meus pensamentos – comentou o mais velho.
— Lidarei com o Cato mais tarde.
O chá transcorreu entre uma conversa e outra até, sugestivamente, o Sr. Everdeen despachar Gale e Finnick da sala, deixando apenas Peeta e Katniss.
— Ontem recebi um convite para o baile de madame Boucher e gostaria de levar você e seus irmãos.
Katniss arregalou os olhos. Quando ele desistiria de infernizá-la, oras bolas?
— Sinto muito, mas meu pai não deixará – declarou ela, fingindo desapontamento.
— Ele já deixou, na verdade. – Um sorriso vitorioso estampava o semblante do duque. — Seus irmãos irão, obviamente.
— Mas não temos roupas chique como as da alta sociedade – entoou.
— Sem problema algum. Um grande alfaiate meu está vindo de Paris. Chega amanhã e terá o imenso prazer em vestir você e a seus irmãos – conclui ele.
— Pra mim já chega! – Katniss levantou-se eretamente e fitou os olhos do duque sem a menor condescendência. — Onde pensa que irá chegar com esse falso gracejo, vossa graça? – desdenhou.
— Ao altar, eu espero. – Ela arregalou os olhos e antes que sentenciasse ele foi mais rápido. — Contudo, adianto que não estou agindo com falsidade – pigarreou ele. — Eu -- eu a desejo Katniss – gaguejou, se odiando por isso. — Eu a desejo ardentemente – expressou, aproximando-se dela que deu dois passos para trás.
No início ficou embasbacada. Nunca alguém tinha dito aquelas palavras para ela. Katniss podia sentir a respiração dele a centímetros de seu rosto, já que, tinha de ergue-lo para encarar o duque. Entretanto, seu silêncio foi momentâneo.
— Pois quero que saiba, vossa graça – começou ela, fitando-o com determinação —, eu não sinto nada por você.
Então ela se retirou.
Peeta ficou atordoado por um tempo. Nenhuma mulher o rejeitara antes. Todas faziam fila para requerer sua atenção, esta, no entanto, nem sequer se abalara. Ele poderia desistir de Katniss e arranjar outra num piscar de olhos. Não poderia? Claro que poderia, afinal, era Peeta Mellark, o duque de Bro Waroch. Todavia, Katniss obtinha uma espécie de imã que o atraía insaciavelmente. Ele a conquistaria. Ela se renderia a ele. Ah, e como se renderia.
❆❆❆
— Papai eu não quero saber de estar no mesmo ambiente que aquele homem! – exclamou Katniss.
Já estava cansada de se objetar. Naquela manhã só queria montar em seu cavalo e galopar até a outra extremidade da floresta Breizh Izel e ir visitar sua amiga Annie. Como ela sentia falta de estar em meio aquelas pessoas que a aceitavam tão bem como era. No entanto, seu pai, seu amado pai, tentava lhe convencer de ir ao baile.
— Querida, ele é um duque... – enalteceu ele.
— E daí?
— Está apaixonado por você e em breve poderá se tornar, a duquesa de Bro Waroch.
— Pai, não estou apaixonada – disse sincera.
— Eu e sua mãe também não estávamos apaixonados.
Então, Haymitch iniciou a velha história de como entrou em um matrimônio sem sentir aquela sensação de borboletas revirando-se no estômago. Em como era para Lenore ter se casado com seu irmão mais velho, ao qual ela estava apaixonada e ele morrera em um naufrágio semanas antes da união. Os pais de ambas as famílias decidiram que Haymitch seria o ideal, já que ela tinha um bom dote e ele vinha de uma família respeitada.
— Vocês foram a exceção, não vale nesse assunto do duque. – Ela tinha os braços cruzados enquanto andava de um lado para o outro no escritório do pai.
— Você irá afundar o assoalho. — Haymitch sabia que a filha não gostava de ser contrariada, mesmo assim, sentia algo semelhante no ar. Um déjà vu. — O duque é um rapaz muito apessoado, acredito que qualquer jovem aqui de Trébeurden adoraria estar no seu lugar.
— Beleza não é tudo, papai – entoou ela.
— Então admite que ele é belo?
— Grrr... papai! – rugiu em um excesso de raiva.
— Só quero que dê uma chance de se conhecerem de verdade. – Ele se levantou da cadeira e foi até ela segurando suas mãos entre as dele. — Katniss, não te entregaria a nenhum homem da face dessa terra. Você sempre foi a minha menininha, mas estou envelhecendo a cada dia e não vou estar aqui eternamente. – Ela fez menção de protestar e o pai não deixou. — Por tanto, quero partir deste mundo sabendo que está em boas mãos.
— Não seja melodramático, papai.
— Não estou sendo.
— Tenho o Gale e o Finn...
— Shhh... não seja teimosa como seu pai – recriminou ele.
— Como se eu tivesse escolha. – A morena torceu os lábios em um resmungo.
— Você tem uma escolha e é essa – ilustrou ele com as mãos. — Irá ao baile com o duque e seus irmãos. Vai conceder quantas danças o duque quiser, sem pisar no pé dele e dará a chance de conhece-lo melhor.
— Eu tenho outra escolha? – Quis saber ela.
— Por enquanto esta é sua única opção.
Katniss se afastou um pouco e olhando um retrato pintado de sua mãe que se encontrava na parede atrás de seu pai disse:
— Uma chance e nada mais.
❆❆❆
No dia seguinte, Katniss se encontrava frente a um espelho sendo espetada aqui e ali.
— Trouxe apenas a última moda de Paris para vesti-la, cherry – disse Cinna com uma empolgação nunca vista por Katniss.
— Meus seios estão aparentes demais – repreendeu ela.
— Ohhh não, em Paris algumas mulheres são ousadas até mais.
— Não sou parisiense, Sr. Phipps.
— Bem, sendo assim, vou colocar um tecido transparente como as madames depois de enterrarem seus entes queridos.
— Cinna, não se esqueça de que ela é uma mocinha recatada do campo que não está apta para a arte da sedução – gracejou Octavia.
Katniss a fuzilou pelo reflexo do espelho. Estava concordando com aquilo apenas para tranquilizar o pai um pouco. Jamais aceitaria ser controlada pelo sentimento do duque ou qualquer outro ser humano que quisesse impor algo sobre si.
Ao cair daquele mesmo dia Katniss estava parecendo-se com uma princesa de conto de fadas. Seus cabelos estavam presos em um belo coque e alguns cachos caiam aqui e ali em seu belo rosto. Haviam pontinhos de pérola por todo o penteado. Seu vestido lhe caía perfeitamente, o azul claro e acetinado, contrastavam com os olhos cinzentos proporcionando um ar angelical. As mãos se encontravam enluvadas com um cetim branco. Nos pés, um par de sapato que mais pareciam uma joia do que um calçado.
O sino despertou-a de seus devaneios. Logo estava indo de encontro com o duque. Seus irmãos já se encontravam com ele parados à porta.
Peeta distraído com algo engraçado que Finnick dizia, quase perdeu o folego quando Katniss surgiu. Ela caminhava com passos hesitantes. Parecia um elegante cisne banhada pela lua.
— Boa noite mademoiselle, Katniss – cumprimentou ele, fazendo uma leve mesura.
— Boa noite, vossa graça – respondeu curvando-se levemente.
Cato soltou um risinho e foi reprovado pelo seu olhar.
Os irmãos Everdeen estavam trajando elegantes roupas. Aparentavam ser da alta sociedade e não simples camponeses. Katniss fingiu não reparar em Peeta, mas ele vestia um sofisticado terno que não conseguiu distinguir a cor por conta da escuridão noturna.
Uma refinada carruagem os aguardava com a porta aberta. Peeta segurou sua mão enluvada dando apoio para ela subir. Ele sentou-se de frente para a ela e Finnick ao seu lado. Gale e Cato iriam a cavalo. Durante o trajeto, Katniss ficou em silêncio apenas apreciando a escuridão do lado de fora. O irmão puxava conversa com Peeta e engraçado como era, divertia o duque com anedotas dando-lhe o prazer de rir como nunca.
Chegando ao único teatro da cidade o cocheiro abriu a porta da carruagem, Finnick desceu e Peeta segurou novamente a mão de Katniss ajudando-a descer.
— Srta. Everdeen está deslumbrante esta noite – elogiou ele, fazendo-a revirar os olhos.
Uma valsa ecoava enquanto se encaminhavam até a entrada. Gale e Cato logo se juntaram a eles. Assim que Peeta adentrou o aglomerado salão de baile quase todos lhe dirigiram olhar.
Katniss olhou em direção ao tablado e avistou os poucos músicos de Trébeurden. Sua amiga, Madge Undersee tocava majestosamente o piano de calda. Ela sorriu ao notar Gale encarando-a. Porém, seu sorriso não durou muito quando Peeta pediu que dançasse com ela.
— Não me responsabilizo se pisar no seu pé – comentou ela, ao segurar em sua mão.
— Vou me arriscar – encorajou-se.
Ela jamais admitiria em voz alta, mas Peeta estava perfeito naquela roupa. O terno, o qual não conseguia ver a cor antes, era de um azul marinho que deixavam os olhos do rapaz em um tom de azul mais escuro.
Quando Madge começou a deslizar os dedos sobre o piano iniciando Reverie de Debussy, Katniss não conseguiu resistir a dança. Por mais que o parceiro em questão fosse quem fosse, ela amava dançar, ainda mais aquela canção. A jovem quase fechou os olhos enquanto era conduzida pelo salão e no ápice da música, Peeta a segurou em seus braços curvando-a para trás. Ela ficava desinibida quando dançava. As salvas de palmas a deixaram perplexa quando a música se encerrou. Ela não notou o quanto tinha chamado a atenção. Seus pés se moveram rapidamente até a saída mais próxima.
Seus pulmões tentavam voltar ao ritmo normal, mas a adrenalina por todos estarem de olho nela, ao passo de Reverie ser tão magicamente poderosa, não conseguia respirar corretamente. Seus olhos se fecharam por um instante e quando os abriu, notou as mãos apertando o parapeito da sacada. A lua estava cheia e o céu estrelado dando um ar fresco para aquela época quente.
Ela escutou passos atrás de si e pensou em mil e uma maneiras de dar um fora no duque.
— Você não se cansa nunca, vossa graça?
— Sinto-me lisonjeado em ser chamado assim. – Aquela voz não pertencia a Peeta e nem de longe um de seus irmãos. — Nunca iria imaginar você sendo cortejada por alguém da realeza.
Ela não desejava se virar, mas foi obrigada só para encarar o dono daquela voz que tanto a repugnava.
— Fique sabendo que isso não é da sua conta. – Ludibriou ela.
— Sempre com o veneno certo na ponta da língua, não é Katniss? – irritou-se, ao se aproximar dela.
— Preciso entrar...
— Ainda não terminei com você! – gritou ele, a segurando pelo braço.
— Não te devo nada. – Katniss sentia seu coração quase sair pela boca de tanto medo e irritação. Nunca imaginara encontra-lo ali.
— Acho que me deve sim – desdenhou. — Mais do que me foi prometido.
— Basta, Sr. Blight! – Apesar de bonito e exuberante, Jordan Bligth não passava de um trapaceiro e sádico.
— Tire as mãos dela! – A voz impetuosa de Peeta bradou ao mesmo tempo que avançara no homem que ainda segurava Katniss.
— Vossa graça nãooo... – exaltou-se Katniss. Bem sabia que um embate com Bligth resultaria até em morte.
Graças aos céus os três irmãos de Katniss surgiram e conseguiram afastar Peeta do homem.
— Eu não disse que voltaria pra pegar minha recompensa, Cato. – O homem ofegava enquanto tirava um resquício de sangue do canto da boca.
— Se chegar perto da minha irmã, mato você – ameaçou Gale. O homem não parecia vacilante diante da situação. Ainda assim, perante a quatro cavalheiros, preferiu se afastar e imergir na escuridão.
Katniss tremia nos braços de Finnick que a amparava.
— Você está bem, mademoiselle Everdeen? – preocupou-se Peeta.
Ela sabia que não estava depois do susto que acabara de presenciar.
— Não, mas vou ficar – respondeu, tendo os dedos apertados no terno do irmão.
— Quem é este sujeito e o que ele quis dizer com recompensa? – Peeta direcionou o olhar a Cato, mas foi Gale quem respondeu:
— É uma longa história, vossa graça.
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