O Duque que me Amou
11 Um Beijo e Mil Consequências
Notas iniciais

Após mais um dia aprendendo sobre o ducado, ela estava entediada.
E, sozinha decidiu “explorar” o castelo.
Traduzindo: fugir dele.
— Não se perca, mo cher — provocou ele, quando ela saiu.
Katniss revirou os olhos.
Mas meia hora depois… estava perdida.
Edenbrooke parecia crescer quando ela caminhava.
Corredores longos, escadas que levavam a outras escadas, portas para salas que pareciam replicar-se…
— É um labirinto — murmurou Katniss, desesperada.
Virou à direita. Parou.
Virou à esquerda. Confusão.
Desceu dois degraus. Subiu outros quatro.
Quando empurrou uma porta pequena no final de um corredor estreito… um sopro de vento perfumado entrou.
Katniss saiu para um jardim escondido atrás do castelo.
Era silencioso, cercado de vegetação alta, flores silvestres e um velho salgueiro-chorão. Sob ele, um balanço pendia de cordas grossas, mas a porta que levava a outra parte do jardim estava trancada com uma grande ferradura de ferro.
Ela tocou na madeira.
— O que tem aqui dentro? — murmurou.
— Você está perdida, mo cher?
Katniss girou tão rápido que quase caiu do balanço.
Peeta estava ali, recostado na entrada, braços cruzados, expressão muito satisfeita.
— Eu não estou perdida.
— Você atravessou três alas, duas passagens de serviço e encontrou o jardim mais escondido da propriedade. — Ele arqueou a sobrancelha. — Está completamente perdida.
Katniss cruzou os braços.
— Estava explorando.
— Você já tentou explorar meus lábios?
Ela empurrou o peito dele.
— Você não presta.
— Você vive repetindo isso — disse ele, aproximando-se. — No entanto, nunca olha para mim quando diz.
Katniss virou o rosto.
Sentiu o coração acelerar perigosamente. Afinal, lembrou-se dos lábios dele após o “Pode beijar a noiva.”
Peeta deu um passo atrás quando percebeu que ela estava ficando desconfortável.
— Venha — disse com voz baixa. — Quero te mostrar uma coisa.
Quando a porta da biblioteca se abriu, Katniss perdeu o fôlego.
O lugar era enorme.
Dois andares de estantes, escadas deslizantes, janelas altas com cortinas abertas para o céu crepuscular… e a sensação de que o mundo inteiro cabia ali dentro.
Peeta caminhou até uma mesa e pegou um livro grande, com capa de couro verde.
— Achei isto para você … — Ele fez uma pausa, a expressão leve. — Espero que goste.
Katniss tocou a capa com delicadeza.
— O Livro dos Celtas…
— Um compilado raro — explicou ele. — Lendas, rituais, histórias de clãs… Achei que gostaria.
Ela olhou para ele com suavidade que não costumava ter.
— Peeta… obrigada.
Ele abriu um leve sorriso.
— Mo cher, espero que aprecie este lugar tanto quanto eu. Agora… se me der licença, tenho assuntos a tratar.
Ele se dirigiu à porta.
Katniss o chamou quase sem pensar:
— Peeta…?
Ele parou.
— O-obrigada pelo… pelo sangue. E pelo que disse ontem. Sobre nunca me forçar a nada.
Os olhos dele suavizaram.
— Nunca, Katniss. Não tenha medo de mim.
E então saiu.
Deixando-a sozinha na biblioteca — com um presente que pesava mais que ouro.
À noite quando se recolheram no quarto Peeta se dirigia para a poltrona, mas Katniss segurou sua mão, notando o quão cansado ficara de dormir ali.
— A cama é grande dorme de um lado que durmo do outro — falou ela, sincera.
Ele não protestou e praticamente desmaiou de tão exausto que se encontrava.
As duas semanas seguintes foram… intensas.
Katniss tentou manter distância. Peeta parecia fazer o oposto.
Ele provocava:
— Mo cher, vai derrubar a flecha no pé se continuar segurando assim.
Ela retrucava:
— Talvez eu mire no seu pé.
Ele insistia em acompanhá-la nas saídas até a área externa.
Ela insistia em resmungar cada segundo.
Mas à noite, quando liam juntos na sala de estudos…
Era um silêncio confortável.
Ele numa poltrona. Ela na outra. Cada um com seu livro, mas sempre atentos um ao outro.
Peeta observava quando ela sorria ao ler algo.
Katniss observava quando ele mordia a ponta do dedo ao se concentrar.
E nenhum dos dois admitia nada.
Ao final de uma tarde, enquanto Katniss lia sobre mitologia gaélica, Darius entrou na sala.
— Vossa Graça… Finnick Everdeen está no salão de entrada.
Katniss saltou da poltrona.
— FINNICK?!
Peeta observou o brilho nos olhos dela — e percebeu algo guardado ali, saudade.
Katniss correu até o irmão e o abraçou tão forte que quase o derrubou.
Finnick riu, bagunçando o cabelo dela.
— Tem alguém com saudade de casa, hein?
— Você não tem ideia — respondeu ela.
Peeta se manteve a uma distância respeitosa, permitindo que os irmãos tivessem seu momento.
Finnick tirou um envelope dobrado do bolso.
— Chegou uma carta das Colônias. Do Cato.
O coração de Katniss quase parou.
Ela abriu rápido.
A escrita firme do irmão dizia:
“O treinamento é duro. A disciplina é rígida. Passei muito mal no navio, mas já me recuperei.
Diga a Katniss que estou vivo — e que tenho orgulho dela.”
O ar escapou dos pulmões dela.
Katniss sorriu — primeiro sorriso sincero desde o casamento.
Finnick continuou:
— Papai ficou emocionado. Disse que você devia ficar tranquila.
Katniss abraçou Finnick de novo.
Peeta observava de longe.
E sentiu algo apertar seu peito.
Ele queria ser aquele motivo de sorriso.
Um dia.
Finnick partiu no final da tarde, deixando o castelo com sua postura descontraída, o sorriso fácil e uma piscadela cúmplice para a irmã.
Mas assim que a porta se fechou atrás dele…
O silêncio caiu sobre Katniss como neve pesada.
Era impressionante como a ausência do irmão preenchia mais espaço do que sua presença.
Peeta observou-a à distância durante o jantar, durante a leitura, durante as horas em que ela apenas caminhava pelos corredores — inquieta.
Ele não forçou conversa.
Apenas a acompanhou com o olhar, preocupado.
Quando ela se recolheu mais cedo naquela noite, ele entendeu.
Katniss estava se sentindo só.
E ele não sabia como alcançá-la.
Na manhã seguinte, o quarto dela estava vazio.
O robe ainda dobrado. A cama arrumada.
Nenhuma criada sabia onde ela estava.
Quando Peeta soube, sua respiração falhou.
— Ela saiu a cavalo sozinha? — Sua voz era grave, quase perigosa.
— Sim, milorde — disse uma criada. — Não avisou ninguém.
O mundo pareceu estreitar. Peeta sentiu o pânico gelar sua espinha.
Depois do sequestro, ele não dormia totalmente tranquilo.
E agora ela estava… sozinha.
Ele arrancou o casaco, subiu no primeiro cavalo que viu selado e disparou em direção à floresta.
Ele a encontrou perto do lago que atravessava a propriedade, jorrando água fresca para o cavalo.
A luz filtrava-se entre as árvores, iluminando-a como se fosse parte da própria floresta.
Peeta desceu do cavalo quase num salto.
— KATNISS!
Ela olhou para trás, assustada.
— O que foi agora?!
— Eu… — respirou ele fundo, a mão trêmula. — Eu pensei que tinha acontecido algo. Você não pode simplesmente sair assim!
Katniss estreitou os olhos.
— Eu posso fazer o que quiser.
— Não quando há um homem perigoso solto querendo levá-la!
Ela jogou água no rosto para espantar a raiva.
— Eu não sou sua prisioneira!
— Nunca disse que era!
— Mas AGE como se fosse!
Peeta aproximou-se, indignado:
— EU ESTOU TENTANDO MANTER VOCÊ VIVA!
Ela ergueu o queixo, desafiadora.
— Pois pare de tentar controlar minha vida! Não preciso que você venha me salvar o tempo todo! Eu não pertenço a você!
Peeta avançou um passo.
Katniss avançou outro.
Agora estavam tão próximos que ela teve de ficar na ponta dos pés para encará-lo de igual para igual.
— Eu não sou sua posse, duque. — Sua voz estava firme, afiada. — E se você pensar que pode mandar em mim, saiba que prefiro enfrentar qualquer perigo do que lidar com você no meu caminho.
— Você é insuportável — sussurrou ele, furioso.
— E você é arrogante, controlador e acha que um título te dá direito de...
Ela não terminou.
Porque Peeta segurou seu rosto entre as mãos e a beijou.
Não foi um beijo gentil.
Foi um beijo tomado de fúria, de medo, de desejo acumulado por semanas. Um beijo que arrancou o ar do peito dos dois.
Katniss congelou.
Depois correspondeu, sem perceber, com a mesma intensidade.
Era como cair de um penhasco e descobrir que sabia voar.
Mas então…
Algo dentro dela revirou. Uma ansiedade quente, desconhecida, arrepiante. Um fogo que subiu da garganta para o estômago e queimou tudo no caminho.
Katniss o empurrou, assustada.
— N-não… — ofegou ela. — O que… o que foi isso?
Peeta também ofegava. Seu rosto estava vermelho.
Seus olhos, duas tempestades azuis.
— Isso — disse ele, aproximando-se devagar. — É o que sinto quando você olha para mim desse jeito.
— Eu não estou pronta pra isso — confessou ela, quase num sussurro.
Peeta piscou, machucado, mas firme.
— Eu sei.
O vento soprou entre eles.
Ela respirou fundo, o peito subindo e descendo ainda rápido.
Ele tocou o próprio peito, tentando controlar o ritmo do coração.
Então Peeta disse, com a voz mais honesta que Katniss já ouviu dele:
— Não vou mentir pra você, Katniss. Eu… — Ele engoliu seco. — Estou ardendo por você. Quando me toco é só em você que eu penso.
O mundo dela parou.
Ela ficou imóvel.
Fria.
Quietinha por dentro, como se o chão tivesse sumido.
Peeta continuou, agora com os olhos brilhando:
— Mas não vou te apressar. Não vou exigir nada. Não vou tocar em você sem que queira. Não vou transformar sua vida em uma prisão… Mesmo que você ache o contrário.
Katniss deu um passo atrás.
Não por medo dele.
Mas por medo dela mesma.
— Eu não… — Sua voz falhou. — Não sei o que fazer com isso.
Peeta assentiu, dolorosamente doce.
— Então não faça nada. Não ainda.
Ele ergueu o cavalo pelas rédeas.
— Vamos voltar para casa, mon cher.
Ele virou primeiro dando espaço. Dando tempo. Dando escolha.
Katniss permaneceu ali por alguns segundos, respirando o cheiro da floresta, da água, do couro do cavalo… tentando deixar seu corpo entender o que sua mente não conseguia.
Peeta estava apaixonado.
E ela… estava sentindo algo que a deixava completamente aterrorizada.
Finalmente montou no cavalo e seguiu atrás dele, em silêncio.
❆❆❆
O quarto estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela chama trêmula de duas velas.
O pesadelo ainda colava ao corpo de Katniss como uma sombra úmida — e Peeta, sentado à beira da cama, continuava a acariciar seus cabelos com movimentos suaves.
— Foi apenas um pesadelo, mon cher… — murmurou, a voz rouca de preocupação.
Ela inspirou fundo, tremendo ainda com o susto.
Quando ele fez menção de se levantar, Katniss agarrou seu antebraço com força inesperada.
— Não… por favor… fica.
Aquelas palavras desmontaram Peeta por dentro. Ele sentou novamente, inclinando-se para ela.
— Eu vou ficar. — Sua mão deslizou para o rosto dela com ternura. — Só vou pegar um pouco de vinho para te acalmar.
Ele se afastou apenas por alguns passos, serviu a taça e entregou a ela.
Katniss bebeu um gole pequeno, suficiente para aliviar o tremor no peito.
Quando ele voltou para a cama, ela naturalmente buscou seu calor, deitando no espaço ao lado dele e encaixando o rosto na curva do ombro do duque.
— Ele… ele me levou para longe — sussurrou, a voz falhando.
Peeta a abraçou com o corpo inteiro.
— Só foi um sonho — garantiu, firme. — O castelo é seguro. Você está segura comigo.
Katniss fechou os olhos, absorvendo a sensação de proteção. A palavra segura nunca soara tão real.
Houve um breve silêncio, até que a pergunta dela preencheu a escuridão:
— Aquilo que me disse… sobre… arder. E… se tocar pensando em mim… o que significa?
Peeta congelou.
Depois soltou uma risada quase nervosa — algo entre confissão e rendição.
— Significa… exatamente o que parece, Katniss. Eu te desejo. Muito mais do que deveria admitir.
Katniss sentiu o coração acelerar.
— E… quando me beijou… o que eu senti? — Ela engoliu. — Foi como uma tempestade por dentro. Uma… inquietação. Como se algo estivesse… acordando. Isso… isso é normal?
Peeta virou-se para ela, lento, cuidadoso.
— É desejo, mon cher. É assim que o corpo responde quando quer alguém.
Katniss ficou corada até as orelhas.
— Então… você pode… me ensinar?
O coração dele quase parou.
— Katniss… você sabe o que está pedindo?
Ela ergueu o rosto, vulnerável e corajosa.
— Sei que… eu quero compreender. Eu quero sentir... Com você.
Peeta respirou profundamente, como se tentasse manter o próprio controle preso por fios finos.
— Então me deixe tocar em você. Só se quiser.
Ela hesitou um segundo — e assentiu.
A permissão foi mais poderosa que qualquer beijo.
Peeta se aproximou devagar, como se ela fosse feita de vidro fino. Seus lábios tocaram o pescoço dela com uma lentidão reverente, quente o suficiente para enviar um arrepio até a base da coluna de Katniss.
Ela arfou, surpresa.
Peeta sorriu contra a pele dela, um sorriso lento, quase faminto.
— Isso dói?
— N-não… — murmurou ela. — É… é bom.
As mãos dele deslizaram pela cintura dela, encontrando o tecido fino da camisola azul-claro.
A transparência deixava pouco para a imaginação, e ele precisou fechar os olhos por um momento para não perder completamente o controle.
— Você é tão linda, mon cher… — sussurrou, como se aquilo escapasse sem querer.
Katniss sentiu o corpo esquentar de um jeito completamente novo.
Peeta então tocou o tecido na altura dos seios dela, hesitando — esperando qualquer sinal para parar.
Katniss inspirou fundo e assentiu.
A ponta dos dedos dele deslizou por baixo do tecido delicado e encontrou a pele sensível do seio dela.
Katniss arqueou levemente, surpresa pelo choque quente que percorreu seu ventre.
— Peeta… isso… — Ela mordeu o lábio, tentando conter o gemido.
— Só sinta, mon cher… — sussurrou ele, com devoção.
Ele a beijou com calma, mas profundamente, guiando o ritmo, permitindo que ela explorasse timidamente o movimento dos lábios.
No início foi hesitante, quase desajeitado, mas logo ela se agarrou ao pescoço dele, pedindo mais sem perceber.
O corpo dela falava antes da mente compreender.
Peeta sentiu e respondeu.
Ele explorou a curva da coxa dela com a mão livre, subindo devagar, dando tempo para que Katniss respirasse, entendesse, aceitasse. Quando seus dedos tocaram onde ela era mais sensível, Katniss perdeu o ar.
— Oh… Peeta…
A voz dela quebrou algo dentro dele.
Ela estava quente. Pronta. Confiando nele.
E Peeta era um homem com muito autocontrole, entretanto, nenhum que resistisse a ela daquela forma.
Ele manteve os movimentos lentos, cuidadosos, enquanto seus beijos desciam pelo pescoço dela.
Katniss tentou conter os sons, mas falhou miseravelmente.
E ele sorriu contra sua pele.
— Meu amor… você está tão entregue…
Ela puxou o rosto dele e o beijou com uma intensidade que o fez perder o próprio fôlego.
Quando se afastaram, ofegantes, Peeta murmurou:
— Katniss… sabe o que acontece se continuarmos?
Ela olhou dentro dos olhos dele.
Os dela tremiam.
Os dele queimavam.
— Eu quero isso... — disse ela, quase num sussurro. Depois… posso voltar a te odiar.
Peeta riu baixinho, como se aquela confissão fosse a coisa mais linda que ela já dissera.
Então ele se levantou, retirou as roupas devagar, deixando que ela fosse descobrindo o corpo dele como se estivesse lendo um livro proibido.
Ela desviou os olhos no início, tímida.
Peeta tocou sua mão e a levou ao peito dele.
— Pode me olhar — disse, suave. — Não vou a lugar nenhum.
Katniss deixou os olhos descerem… e corou violentamente.
Peeta a beijou para acalmá-la.
— Vai se acostumar comigo — murmurou contra os lábios dela.
Em um rompante, ela puxou o rosto dele, desesperada por mais daquele calor. Ele a deitou delicadamente na cama, separou suas pernas com cuidado e…
O resto aconteceu devagar. Com cuidado, pausa, respiração compartilhada, gemidos encaixados na garganta um do outro, mãos que tremiam e depois aprendiam. Um corpo descobrindo o outro pela primeira vez.
E quando a dor inicial a fez prender o ar, Peeta beijou sua testa, sua boca, seus dedos — até que ela começasse a se mover sozinha, guiada por instintos recém-despertos.
Ele esperou por ela.
Katniss encontrou o ritmo que seu corpo pedia — tímida no início, depois ousada quando descobriu o ponto que fazia sua respiração falhar.
Peeta murmurou seu nome como uma prece.
E quando ela finalmente se abriu completamente, entregue, vulnerável e deslumbrante… Peeta a segurou como se ela fosse sua única verdade no mundo.
E foi assim que sua primeira vez aconteceu:
Não como imposição e nem como contrato, mas como um momento inevitável.
Um toque que virou desejo. O desejo que virou entrega. Uma entrega que virou tremor. Um tremor que virou onda. E uma onda que a levou inteira a ele.
Peeta estremeceu logo depois, escondendo o rosto no pescoço dela, como se admitir que a amava fosse algo tão íntimo quanto o ato em si.
Katniss ficou ali, respirando rápido, sem entender tudo que sentia…
Mas entendendo, pela primeira vez, o poder de ser desejada.
E de desejar também.
O quarto ficou em silêncio depois que a respiração dos dois finalmente desacelerou. O tipo de silêncio que não é vazio, mas cheio. Cheio de tudo que havia acontecido ali.
Katniss estava deitada com a cabeça apoiada no ombro de Peeta, a pele ainda quente, o coração disparado como se tentasse acompanhar o dele.
Peeta não disse nada.
Apenas passou os dedos pelas costas dela, devagar, desenhando círculos suaves que a deixavam arrepiada. Ele não tocava para provocar — tocava para acalmar, para cuidar, para memorizar.
— Está bem? — perguntou ele, baixo, como se temesse que qualquer som mais alto quebrasse o encanto.
Katniss demorou alguns segundos para responder.
Porque… ela não tinha certeza.
Então apenas sussurrou:
— Acho que sim.
Peeta sorriu contra o cabelo dela.
— Isso é… um sim bom?
Katniss mordeu o lábio.
— É um sim… confuso.
Ele riu baixinho.
— Confuso eu entendo.
Peeta se afastou apenas o suficiente para olhar para ela, com uma expressão suave que ela nunca tinha visto antes.
— Vou cuidar de você, mon cher. Sempre.
Antes que ela pudesse responder, sentiu o corpo ser levantado com cuidado.
Peeta a colocou sobre os lençóis limpos, cobriu seu corpo com o manto leve e desapareceu por alguns segundos.
Quando voltou, trazia um pano úmido, morno, perfumado com lavanda.
Katniss arregalou os olhos.
— Peeta… o que está fazendo?
— Cuidando de você — disse ele simplesmente.
Ela tentou segurar o pano, sem jeito.
— Eu mesma posso…
— Eu quero. — A voz dele era firme, mas terna. — E quero que saiba que nada do que aconteceu aqui é motivo de vergonha. Nem para você, nem para mim.
Katniss sentiu o rosto esquentar.
Mas deixou.
Peeta a limpou com a mesma delicadeza com que alguém toca um livro antigo — com cuidado, reverência e atenção.
Quando terminou, acariciou suas pernas com as pontas dos dedos, sem intenção a mais além de conforto.
— Se doer amanhã… me avise.
Katniss desviou o olhar.
— Você não precisa ser tão… gentil.
Ele se inclinou e tocou a ponta do nariz dela com o próprio.
— Com você, eu sempre preciso.
E então, sem esperar, a beijou de leve na bochecha — um beijo completamente diferente do de antes.
Doce, calmo e intenso à sua própria maneira.
Katniss respirou fundo, mergulhada em sentimentos que não sabia nomear.
Peeta apagou as velas, deitou-se ao lado dela e a puxou para seu peito novamente.
E dessa vez, ela não resistiu.
Adormeceu ali mesmo, com a sensação de que algo muito maior que os dois havia começado naquela noite.
❆❆❆
O sol da manhã atravessou as cortinas do quarto, iluminando o dossel da cama e denunciando cada fibra do mundo real.
Katniss abriu os olhos devagar. Sentiu a rigidez leve nas coxas e o corpo mais quente que o normal. Sentiu o coração dar uma batida estranha ao lembrar da noite anterior. E então percebeu algo ainda mais perturbador:
Peeta estava olhando para ela.
Sentado na poltrona ao lado da cama, com uma xícara de chá na mão, completamente vestido, expressão calma… mas com um brilho divertido no olhar.
— Dormiu bem? — perguntou ele.
Katniss desejou desaparecer como vapor.
— Dormi… normal.
— Normal? — Ele arqueou a sobrancelha. — Você se mexeu tanto que chutou minha perna três vezes.
— Eu… eu tenho sono agitado! — rebateu ela, corando.
— Eu percebi.
Katniss saiu da cama rápido demais.
Um erro.
— Ai… — Ela apertou a coxa discretamente.
Peeta levantou devagar.
— Está doendo?
— NÃO! — exclamou ela, alto demais. — Só… estiquei rápido demais.
— Posso massagear se quiser.
— NÃO! — respondeu, mais rápido ainda. — Não, obrigada. Eu… eu consigo andar.
Ela deu um passo. Depois outro. E no terceiro tropeçou, sem motivo. Peeta correu para segurá-la.
— Katniss…
— NÃO FOI NADA! — Ela praticamente gritou.
Peeta mordeu o lábio inferior para não rir.
— Você não é obrigada a agir como se nada tivesse acontecido.
— Nada aconteceu! — retrucou ela.
Peeta se aproximou um pouco mais. Perigosamente mais.
— Então por que não consegue me olhar nos olhos?
Ela tentou encará-lo.
Falhou.
Olhou para o teto. Para o chão. Para a porta. Para qualquer lugar, menos para os olhos dele.
— Eu posso olhar sim! — Tentou provar, virando o rosto para ele.
E então seus olhares se encontraram.
O mundo derreteu ao redor. Todo calor da noite passada voltou como um vendaval. Katniss desviou imediatamente, o rosto pegando fogo.
— Está vendo? — disse Peeta, com sorriso leve. — Não tem problema sentir vergonha. Eu também senti… na primeira vez.
Ela ficou imóvel.
— T-ter… primeira vez?
Peeta ergueu a sobrancelha.
— Cherry… acha mesmo que eu nasci sabendo o que fazer? — disse ele suavemente. — Todos aprendem. E aprender com você… foi muito mais do que eu poderia sonhar.
Ela quase perdeu o fôlego.
Peeta deu um passo para trás, dando espaço.
— Quando quiser conversar… ou repetir… — Ele tossiu, tentando não parecer ansioso. — Estarei aqui.
Katniss sentiu o estômago revirar, não de medo, mas de algo muito, muito mais perigoso.
Ela caminhou em direção à porta, tropeçando só mais um pouquinho, e disse:
— Eu… vou… tomar café.
Peeta sorriu para si mesmo.
Ela estava completamente abalada.
E ele… completamente perdido por ela.
Nos dias seguintes ao primeiro encontro íntimo do casal, Peeta percebeu que Katniss evitava encontrá-lo em corredores estreitos, mas também permanecia por perto nos grandes salões. Havia uma dança ali, não declarada, mas constante.
Para distraí-la (e distrair a si mesmo do desejo quase permanente que sentia desde aquela noite), Peeta dedicou-se a organizar a viagem à França.
— Em dois dias partimos para Paris — anunciou ele, durante o café da manhã, tentando parecer indiferente.
Katniss mastigou o pão lentamente, sem olhá-lo.
— Paris… é tão longe assim? — perguntou ela.
— Depende da rota — explicou ele. — Vamos de carruagem até o porto e depois de navio. Mais seguro para você, mon cher.
Ela revirou os olhos.
— Claro. Porque tudo é sobre me manter “segura”.
— Isso e o fato de você provavelmente matar o cocheiro se ficássemos três dias seguidos na estrada juntos.
Katniss apertou o guardanapo.
Ele tinha razão.
Peeta sorriu para si mesmo.
Ela não percebeu.
Antes da viagem, Peeta insistiu:
— Vamos visitar sua família. Eles devem estar preocupados.
Katniss resmungou, mas aceitou.
A casa Everdeen estava aquecida pelo cheiro de pão, ervas e conversas altas. Haymitch recebeu a filha com um abraço esmagador.
— Finalmente! Está se alimentando direito? Ele não te faz acordar às cinco da manhã? Não te obriga a...
— Pai, eu estou bem. — Katniss riu, um pouco tímida.
Gale a examinou com olhar crítico.
— Você está com… mais cor.
Katniss tossiu.
Finnick apareceu por trás dela, abraçando-a pelos ombros.
— Hmmm… uma cor bem específica, eu diria…
Katniss empurrou o irmão, corando violentamente.
— Cala a boca, Finnick!
Ele ergueu as mãos, inocente.
— Não falei nada! Só observei que você está… diferente.
— Diferente como? — Haymitch perguntou, curioso.
— Diferente tipo… — Finnick estreitou os olhos com teatralidade. — Com aquela cara de quem finalmente dormiu direito.
Katniss bateu no braço dele com força.
— Finnick!
Peeta, sentado à mesa, mordeu o lábio com dificuldade para não rir.
Haymitch o encarou como um falcão desconfiado.
— Você… está cuidando dela? — O pai perguntou, sério.
Peeta assentiu.
Katniss baixou o olhar — e foi sua primeira demonstração pública de timidez desde… tudo.
Finnick arregalou os olhos silenciosamente, formando um ahhhh mudo.
O almoço inteiro teve cheiro de pão fresco e provocações de irmãos.
— Então, duquesa… — Gale cutucou. — Como é viver em um castelo?
— Barulhento — respondeu ela. — E cheio de empregados perguntando se quero mais chá. O tempo todo.
Peeta ergueu a sobrancelha.
— Você não me disse que era um problema.
— Não é — rebateu rápido ela. — Desde que eles não me sigam até a floresta.
Finnick quase engasgou rindo.
— Ah sim, porque agora muita coisa mudou — provocou.
Katniss chutou a canela dele debaixo da mesa.
Peeta observava tudo com um brilho no olhar.
Katniss, ali, rodeada pela família, parecia um raio de sol indomável.
E, por um momento, ele sentiu uma pontada de medo:
Um dia ela poderia perceber que não precisava dele… e ir embora.
❆❆❆
A viagem começou cedo com a carruagem que os levou até o porto. A maresia encheu o ar quando embarcaram no navio que atravessaria o Canal da Mancha.
Durante todo o trajeto, Peeta parecia contê-la com o olhar — não por controle, mas por ansiedade real.
Katniss, porém, estava hipnotizada.
— Olha essa água… Peeta, parece prata derretida!
Ele sorriu.
— Você nunca viu o mar assim?
— Nunca vi o mar de perto — confessou. — Eu… pensei que seria mais assustador.
— É — concordou Peeta. — Mas também é liberdade.
Katniss encostou no corrimão, olhos brilhando. O vento batia em seus cabelos, deixando-a com aparência de pintura.
Peeta teve que olhar para o mar para não perdê-la ali mesmo.
No dia seguinte, quando os portões da capital francesa surgiram no horizonte, Katniss ficou completamente sem palavras.
— Peeta… isso… isso é real?
Paris era agitada.
Carruagens, vendedores de flores, mulheres com vestidos coloridos, prédios elegantes decorados com ferro ornamentado. E o som — música, risadas, conversas animadas.
— Bem-vinda a Paris — disse Peeta, tocando levemente a mão dela.
Uma carruagem mais luxuosa os levou até a residência Mellark em Paris — quase maior que Edenbrooke, com colunas brancas, jardins internos e criados uniformizados na porta.
Katniss entrou devagar, sentindo-se pequena, maravilhada e… um pouco assustada.
— Isso tudo é… realmente necessário?
— É Paris — disse Peeta, quase rindo. — Aqui tudo é exagerado.
Ele caminhou atrás dela enquanto ela examinava cada detalhe.
— E haverá um baile — disse ele, com calma. — Em Versalhes.
Katniss virou-se tão rápido que quase tropeçou.
— Em… VERSALHES?!
— Sim. — Peeta estendeu a mão para segurá-la, mesmo sem ela cair. — Prometo ficar ao seu lado o tempo todo.
Ela engoliu seco.
Versalhes.
O lugar que só ouvira em histórias.
E agora estaria lá como duquesa.
Era assustador e fascinante.
O anúncio da chegada do Duque de Bro Waroch circulou pela alta sociedade parisiense em questão de horas.
E como Katniss descobriu no jantar daquela noite… As damas da corte eram venenosas com seda e perfume.
Uma baronesa loira a observou como quem analisa um animal exótico.
— Então esta é a nova duquesa? — disse ela, sorrindo falsamente. — Que… interessante. A família Everdeen não é conhecida pela… ahn… tradição aristocrática.
Katniss arregalou os olhos.
Peeta pousou a mão nas costas dela — firme.
— A duquesa não precisa de tradição quando tem coragem e honra o suficiente para enfrentar qualquer aristocrata.
A baronesa arqueou as sobrancelhas.
— Que comentário ardente, Vossa Graça. Cuidado, ou pensarão que está apaixonado.
Peeta não desviou os olhos.
— Eles podem pensar o que quiserem.
Katniss sentiu o coração acelerar.
A baronesa, porém, fechou o sorriso ao perceber que o duque falava sério.
Outras mulheres cochichavam.
Homens observavam Katniss com curiosidade.
Alguns com interesse demais.
E Paris, como um grande palco de perigos silenciosos, abria suas cortinas para recebê-la.
Porém, Peeta, ao notar a tensão dela, inclinou-se discretamente para seu ouvido:
— Não tema ninguém aqui, mon cher.
Ela respirou fundo.
Paris era imensa. Versalhes seria ainda mais.
No entanto… talvez… ela não estivesse tão sozinha assim.

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