O Duque (Sendo Reescrita)
30 Bônus V
Notas iniciais
BÔNUS V
Eu sentia o líquido descendo por minha garganta, queimando-me por dentro como se fosse fogo. As palavras de Hermione vinham a minha mente a todo o momento, lembrando-me constantemente de que nada à impediria de me deixar.
— Ela não ousaria! — gritei, num súbito acesso de raiva, jogando o capo que estava em minhas mãos contra a parede.
Eu a odiava naquele momento. A maneira como conseguia fazer-me perder o controle e deixar-me em um estado tão patético... A bebida naquele momento não tinha mais o mesmo sabor, a brisa fria queimava-me a pele, a tranquilidade da noite irritava-me de maneira odiosa. Talvez fosse o álcool, ou minha mente enlouquecendo aos poucos devido a feroz luta contra meu egoísta desejo de ir até seu quarto e trancá-la para que não partisse ao amanhecer. Pareceria um monstro se o fizesse? Ou apenas um tolo inseguro...?
Céus! Eu estava decididamente enlouquecendo!
Contra meu desejo, minhas pernas moveram-se sozinhas e, antes que me desse conta, batia com extrema força contra a porta, sentindo-a tremer sob meus punhos.
— Mas o que... Severus?
Os longos cabelos vermelhos de Lílian brilhavam como labaredas de fogo à pouca iluminação proveniente da vela em suas mãos. Sua expressão, num primeiro momento perdida entre a sonolência e a surpresa, transformou-se em irritada.
— Mas o que você tem na cabeça para acordar-me a essa hora da madrugada?!
Instintivamente, levei minha mão até seus cabelos. Tinham a mesma maciez que me lembrava...
— Deixe-me entrar...?
Lílian olhou-me novamente surpresa antes de afastar-se para dar-me passagem. Ouvi-a fechar a porta em seguida.
Os raios de luz da lua penetravam livremente pelas cortinas entreabertas. Os passos de Lílian eram suaves, quase inaudíveis no assoalho. Senti suas mãos em meus ombros, apertando-os levemente. A pouca brisa que entrava no quarto fazia seus cabelos balançarem levemente, eu podia vê-los pelo enorme espelho a minha direita. O cheiro de sua pele trazia-me lembranças tão nostálgicas...
— O que houve, Sev? Há anos que não o vejo assim — murmurou Lílian, de maneira delicada.
Por um instante, foi como se aquela não fosse mais Lílian, a mulher, e sim minha pequena Lily, a garotinha que corria comigo pelos campos, aquela por quem me apaixonei. A única que poderia verdadeiramente me ajudar naquela confusão que me sufocava.
— Eu...
As palavras simplesmente não saiam de minha boca. Era quase como se algo as segurasse antes que o fizesse.
— Nunca tivemos segredos um para o outro, Severus — disse Lílian, tirando as mãos de meus ombros. A voz atipicamente séria. — Você é meu melhor amigo desde sempre, quero poder ajuda-lo no que for... — Ela ficou a minha frente e segurou meu rosto com ambas as mãos. — Eu o amo, Severus. Sabe disso, não é?
— Assim como ama o Potter.
— Eu os amo de maneira distinta, mas ao mesmo tempo com a mesma intensidade. Você sabe disso. James sabe disso. Nós temos nossa própria história, Severus. Há coisas que nunca poderei compartilhar com mais ninguém além de você, por isso quero que confie em mim para o que for.
Mesmo na escuridão, eu podia sentir seus olhos verdes olhando-me intensamente. Lílian não desistiria tão facilmente, talvez tenha esse o motivo de eu ter ido até ela. Com qualquer outra pessoa, provavelmente eu me negaria dizer qualquer coisa, mas não com Lílian...
— Conte-me, talvez sinta-se aliviado — disse.
Eu podia ouvir o som de minha respiração, os gritos incessantes em minha mente.
— Hermione pediu-me para voltar a casa dos pais — disse-lhe. Lílian olhou-me confusa.
— E suponho que você a proibiu, não?
Tirei suas mãos de meu rosto, afastando-me.
— Não.
— Você a deixou ir? — perguntou com clara surpresa em sua voz — Assim tão facilmente?
— Não entendo por que a surpresa!
Ela riu.
— Oras Severus, isso é apenas inesperado, afinal, você é uma pessoa tão possessiva.
Pensei por um momento em suas palavras.
Talvez fosse esse o problema.
— Apenas isso não é o bastante para deixa-lo dessa maneira Severus, em toda minha vida o vi assim apenas uma vez...
— A véspera de seu casamento — murmurei. Lembrava-me perfeitamente desse dia.
Ouve um incomum momento de silêncio entre nós dois até que ouvi a voz de Lílian novamente.
— Eu realmente tentei — disse ela. — No dia de seu casamento, quando disse que seria melhor que terminássemos nosso relacionamento, que mais pessoas se machucariam se continuássemos juntos, eu tinha razão. Continuar tudo foi um erro.
— Por que não me mandou embora quando a procurei? Por que veio até mim?
— Somos tão parecidos, Sev. Você deveria saber — respondeu-me sorrindo. — Eu fui por egoísmo. Mesmo sabendo que era errado, eu queria estar com você. Foi assim desde o começo. Eu o conheço melhor que que qualquer um, até você mesmo.
Passei as mãos por seus cabelos, e percebi a maneira séria com a qual me olhava.
— Você deve dormir — falei. — Afinal, não pode ficar se cansando sem motivo.
— Eu estou grávida, Severus. E não doente! — disse, irritada. — Por quer fugir dessa conversa agora, sendo que foi você quem veio me procurar?!
— Não estou fugindo de nada. Boa noite, Lílian.
Virei-me e fui em direção a porta.
— Eu nunca mereci seu amor, Severus — disse Lílian, fazendo-me parar por um momento. — E essa garota também não o merece.
***
Hermione mantinha-se em silêncio desde que sentara-se a mesa. Eu sabia que a presença de Lílian a incomodava, entretanto, queria que ela entendesse a situação, que desistisse dessa estúpida ideia de ir para a casa dos pais.
O prato encontrava-se abandonado a minha frente desde o momento em que a vi. Estava atento a cada movimento seu. A delicadeza com que segurava os talheres, e levava a pequena xícara de porcelana aos lábios... o olhar acusador que lançava-me quando pensava que não a olhava...
Embora por fora mantivesse a costumeira aparência, por dentro sentia-me ridículo, como um maldito pirralho que nada sabia da vida. Patético.
— Se me dão licença —o murmúrio quase inaudível de Hermione fez-me desviar a atenção dos estúpidos comentários em minha mente para vê-la levantar-se.
Por menos que um segundo olhou para mim.
Levantei-me logo que pôs-se a andar.
Não sei dizer se ignorava minha presença, ou ainda não havia percebido que a seguia. Chamei-a pouco antes que entrasse na carruagem que a aguardava.
— Quero que fique com isso — disse, mostrando-lhe o pequeno colar prateado que comprara por fazer-me lembrar dela. — Espero que isso lhe ajude a lembrar-se de mim — murmurei antes que desse conta das palavras que saiam por minha boca. O singelo pingente descansava em seu colo. — Sei que não sou uma boa pessoa em todos os momentos, por isso quero pedir-lhe perdão.
Mas o que eu estava dizendo?!
— Severus...
— Hermione, a carruagem quer sair — disse-lhe da forma mais controlada que pude, soando de forma indiferente.
Abaixou a cabeça olhando para o chão.
— Venha — falei, estendendo-lhe o braço.
Parado, em frente à porta da carruagem, por um momento desejei beijá-la como se nada mais importasse, entretanto, acabei por apenas beijá-la na testa, de uma maneira irritantemente respeitosa.
— Até daqui a duas semanas — disse eu, sem ter uma única palavra sua em resposta.
Mantive-me um considerável tempo no mesmo local, até que a carruagem estivesse fora de meu alcance, apenas desejando voltar no tempo e impedi-la de ir.
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