O Dominador de Sonhos
1 Prólogo
Notas iniciais
Parte I — A História
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto."[¹]
Prólogo
Itália, 1087
O garoto piscou, aturdido. Estava no meio de uma construção de pedra, uma enorme construção de pedra. Piscou mais algumas vezes, ele estava realmente ali. Será que estava louco? Sua mente estaria lhe pregando uma peça?
Ficou tentado a beliscar o próprio braço, mas era ridículo, sabia que não estava sonhando. Tentou relembrar os últimos minutos, mas tudo o que vinha à sua mente era um clarão azul e imagens indistintas. Fragmentos sem sentido.
— Ben? Como... Você acabou de sair por aquela porta. — A mulher, com uma expressão assustada, apontou para uma porta de madeira do outro lado do cômodo.
Ele havia passado por aquela cena minutos antes, podia jurar. E também conhecia aquela mulher, obviamente, embora não soubesse exatamente de onde. Girou sobre os calcanhares para olhar à sua volta.
Um garotinho de cabelos negros e pele extremamente branca brincava na areia da praia. Ele abriu um sorriso infantil, e os olhos azuis brilharam quando olhou para Ben.
Estremeceu. Dessa vez ele tinha uma lembrança um pouco mais forte da imagem daquela criança, ele sabia onde já a tinha visto: nos álbuns de fotos de sua mãe, de quando ele mesmo tinha aquela idade. Isso não tem como ter acontecido, convenceu-se.
As tapeçarias nas paredes eram grandes e deslumbrantes, sempre em cores azul e prata, geralmente a imagem de um grande brasão preenchido por uma águia de enormes e afiados olhos azuis.
Havia uma coisa sobre Ben, uma coisa que o fez sentir-se familiarizado com a águia. Seus olhos possuíam um tom de azul diferente de qualquer outro que alguém já tivesse visto, e os olhos daquela águia eram da mesma cor.
Antes que pudesse pensar um pouco mais, ouviu um barulho que parecia de tecido contra parede — ali, mais especificamente, contra pedra —, e uma série de baixos soluços.
O jovem franziu o cenho, tentando entender de onde vinha. Estava bastante próximo, mas a péssima iluminação do corredor o impedia de enxergar mesmo alguns metros à frente.
Lembrou-se de já ter visto em uma cena de um... um filme, isso, ele vira num filme, que as tochas dos castelos podiam ser retiradas do suporte; então aproximou-se e segurou a base de madeira, retirando da parede, e trazendo para si, meio atrapalhado.
Empunhou a tocha à sua frente e varreu o local com a iluminação, encontrando uma entrada escura na parede à sua direita. Andou um pouco até o vão e o iluminou.
Um rosto branco com olhos acinzentados inchados pelo choro levantou-se para ele. A garota era linda, ele notou. O movimento do fogo formava sombras sobre suas feições, mas ele conseguia ver o suficiente. O nariz era fino e reto, embora avermelhado pelo choro; as maçãs do rosto altas; e os cabelos loiros pesados e lisos.
Agora que havia encontrado a origem do barulho, não sabia o que fazer, então só a olhou, surpreendendo-se quando sua expressão feminina se retorceu em uma máscara de raiva.
— Meu pai mandou que me buscasse, não foste? — ela perguntou, em alguma língua arcaica, e, embora ele tenha entendido, soube que não era a língua que usara nos dezenove anos de sua vida. — Pois vá até lá e vos diga que não voltarei, não casarei com aquele velho Morelli.
À menção do nome Morelli — seu próprio sobrenome —, Ben endireitou-se, fazendo com que a chama se voltasse contra seu próprio rosto. Viu a expressão de descrença da jovem, que ficou boquiaberta.
— Oh! Como pode? Tu és um Morelli, não és? Mas Joseph é o último de tua família... — Seus olhos se arregalaram. — A não ser que...
Ela levantou-se num salto, agarrando o outro pela camisa, e o arrastando. Ben observou o vestido que ela usava com certa comicidade, tinha mais pano que se juntasse o guarda-roupa de todas as garotas de sua escola.
Deixou-se ser guiado por corredores, salas, enormes portas de madeira, tochas, até chegar a uma parte movimentada no castelo. Serviçais corriam para lá e para cá, pessoas com trajes estranhos conversavam e observavam o castelo com certa satisfação.
Ben entendeu que alguma coisa estava completamente fora de lugar, mas não sabia o quê. Talvez o fato de sentir-se desconfortável com seus jeans e camisa polo. Talvez estivesse numa festa a fantasia.
Uma explicação melhor ainda: talvez estivesse drogado em uma festa à fantasia. Isso explicaria toda essa loucura.
De repente, viu-se diante de um trono. Ele nunca havia visto um trono antes, tinha certeza disso, a festa havia sido tão bem decorada, que ele podia acreditar que tudo aquilo era de verdade.
Um homem apareceu, inicialmente irritado, e, depois de olhá-lo, surpreso.
Ben observou-o de volta, tinha os inconfundíveis olhos azuis dos Morelli. Lembrou-se das palavras de sua companheira por um instante.
— Margarie? — Não fora o Morelli quem falara, mas outro homem próximo à ele.
— Veja, meu pai, veja! Alegremo-nos! Estava a andar perdida pelos corredores do castelo, quando este garoto apareceu perguntando por Joseph. Ele só pode ser um de tua linhagem, veja só os olhos!
O jovem não achou que fosse uma boa hora de questionar-lhe por que mentia. Agora todos estavam voltados para ele, que enfiou as mãos nos bolsos, desconfortável com a atenção. Observou por baixo dos cílios enquanto Joseph se aproximava em descrença.
O mais velho estendeu a mão até o rosto do garoto, e este ficou parado, sem entender. Estava tentado a erguer uma sobrancelha e afastar-se, mas não queria zombar das lágrimas nos olhos de Joseph.
— Alegremo-nos! — repetiu as palavras de Margarie. — Meu filho, meu herdeiro, encontrou o caminho do lar, depois de ter sido roubado!
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