O Dominador de Sonhos
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Itália, 1087
— Alegremo-nos! — repetiu as palavras de Margarie. — Meu filho, meu herdeiro, encontrou o caminho do lar depois de ter sido roubado!
Algo dentro de Ben se remexeu, e ele começou a respirar pela boca. Uma série de informações parecia estar sendo forçada para dentro de sua cabeça, fazendo-o piscar diversas vezes, antes de conseguir voltar a enxergar claramente a cena à sua frente.
— Meu pai. — Ele sorriu. — Pensei que nunca mais o encontraria. Por anos viajei por terras à procura de minha verdadeira origem, quando finalmente encontrei um servo que em palavras e gestos agitados afirmou saber de quem eu herdara a aparência.
— Esta é uma noite que não deve ser esquecida! — proferiu para todos no salão. — Aqui, Giovanni, realizaremos nossa desejada aliança — continuou, voltando-se para o pai de Margarie. — Com meu filho, que é apenas um ano mais velho que a tua, poderemos realizar um casamento.
Os homens uniram-se em uma conversa, como se os negócios fossem mais importantes do que o reencontro com o jovem Morelli, enquanto Ben estendia a mão respeitosamente à Margarie, convidando-a para uma dança.
— O que exatamente foste isto? — ela indagou, enquanto se deixava levar por Ben em uma dança.
— Algum problema, bela donzela?
— O senhor parecias perdido até alguns instantes atrás! E estas roupas? Nunca vi tais modelos e panos em reino algum. Obviamente és um Morelli, mas vejo que tua história não passa de uma mentira.
— Uma... mentira? — Ben franziu o cenho.
Algo novamente pulsou dentro do garoto, e seus olhos se arregalaram. Sem perceber, viu-se encravando os dedos no tecido da cintura de Margarie, onde sua mão estava para conduzi-la.
— Podemos nos retirar daqui por um momento? — o garoto sussurrou.
Margarie pareceu preocupada, e olhou ao redor. Segurou a mão do moreno e o puxou por uma das grandes portas, arrastando-o pelos corredores. Ela parecia conhecer o lugar perfeitamente bem, embora claramente fosse um castelo dos Morelli.
Chegaram até o jardim, onde haviam apenas contornos escuros devido à falta de luz. A brisa acalmou Ben, que observou os movimentos de Margarie atentamente.
— Aqui é melhor para o senhor?
— Tu falas engraçado — disse, em seguida notando que suas próprias palavras lhe soavam daquela forma. – Certo, algo de muito errado está a acontecer. – Dessa vez seu rosto se contorceu em uma careta.
— Errado? Então tua história realmente não passaste de uma mentira.
— Não foste uma mentira. O que disse sobre o servo e a procura, as lembranças vivem em minha cabeça, mas é como se não fossem minhas. Possuo outras também, em outro tempo e outra identidade, mas elas são falhas e incoerentes.
Margarie o observou por um momento, parecendo ponderar suas palavras. Então se aproximou, tomando a mão do mais velho e parecendo ligeiramente envergonhada.
— Como devo lhe chamar, meu senhor?
— Ben — ele disse automaticamente, embora latejasse em sua cabeça um outro nome.
Sua expressão devia ter algo de errado, pois a garota esperou.
— Acredito não ter consciência de meu próprio nome, senhorita. Posso jurar que me chamavam por Benjamin, mas minha mente diz-me que sou Mattheo.
— Mattheo — ela decidiu, abrindo um sorriso. — É melhor que seja este, senhor Morelli. Benjamin não soa como um nome que uma pessoa deveria possuir.
— E tu serias? — indagou, observando-a.
— Margarie Favalessa, do mais próximo feudo ao norte, e meu pai, Giovanni Favalessa, está para se tornar vassalo do teu.
Ben, de repente, entendeu. Por que ela conhecia tão bem o castelo, por que estava ocorrendo uma comemoração, e por que a garota chorava, e por que se irritou com sua aparição. As palavras da loira fizeram sentido em sua mente: pois vá até lá e vos diga que não voltarei, não casarei com aquele velho Morelli.
— Não tinha conhecimento de que donzelas eram utilizadas em acordos entre suserano e vassalo.
— Utilizadas? — Ela parecia irritada com o uso da palavra. — Saiba que fui escolhida pelo próprio Joseph para ser tua esposa, e o senhor será muito generoso em proteger o feudo de minha família dos constantes ataques.
— Joseph é assim tão poderoso, ou teu pai estava tão desesperado para casar tua filha?
Margarie estreitou os olhos para ele, segurando o vestido com força, como se fosse fazer algo terrível se o soltasse.
— Pois saiba que Joseph é um dos mais poderosos senhores feudais aqui próximos.
— E onde estamos, exatamente? — Por um lapso, Ben voltou a si, precisava se localizar de alguma forma.
— Ora, estamos... estamos...
— Tu não sabes? — Ele jogou a cabeça para trás e riu, embora se sentisse nervoso por dentro. — Oh, senhorita, estás mais perdida que o senhor à tua frente. Como podes...
Uma lembrança parecia estar sendo infiltrada em seu cérebro, e ele se esqueceu de como falar enquanto via as cenas à sua frente. Era como ver tudo dentro do corpo de outra pessoa, era de dar calafrios.
A camponesa rodopiava agilmente sobre os pés, segurando a saia gasta pelo trabalho. Ela sorria timidamente, olhando-o de baixo através dos cílios. Mattheo sorriu e deu uma piscadela.
Os cabelos negros dela balançavam com o vento, e seus movimentos os faziam se estender para longe de seu corpo. Os olhos escuros inocentes estavam brilhando, carregados de sentimento, como se o admirasse, como se o... amasse.
Mattheo se aproximou, olhando para os lados para ver se não havia ninguém por perto. Puxou-a para um canto escuro e lhe roubou um beijo, despedindo-se, enquanto ainda ouvia a risada feminina ecoando em seus ouvidos.
— Mattheo! — Era Margarie pedindo por atenção.
Ele piscou os olhos, percebendo que ela segurava as mangas de sua camisa. Estava perto, a garota estava perto demais. Os olhos acinzentados cheios de preocupação.
— Estás sentindo-te bem? Quer sentar-te um pouco?
A raiva dela havia sumido, e ele notou novamente naquele rosto a beleza de quando a viu pela primeira vez. Não naquele dia, não naquela época, mas em sua própria época. No futuro, onde uma garota com os mesmo cabelos, os mesmos olhos, o mesmo rosto, o havia arrebatado.
Agora se sentia bem, enquanto lentamente deixava de lado a lembrança que não era sua, e retomava aquelas que havia vivido. Se lembrou finalmente daquele rosto e o tomou nas mãos, sentindo a pele quente.
Ela enrubesceu, e abriu um pequeno sorriso.
— Te ajudarei com qualquer que seja o problema — Margarie disse. — Ouviste o senhor, vosso pai: não mais terei que me preocupar em me casar com o velho, nós é que seremos unidos por um matrimônio para firmar a aliança entre ambos, acabarei por estar para sempre com o senhor.
— Você — ele disse num sussurro, pela primeira vez naquele lugar estranho sentindo que falava algo com naturalidade ao pronunciar a palavra em português.
— O que disseste?
— É algo da minha época, acredito. Não sou teu senhor; chame-me de você.
— Você — ela repetiu, envergonhando-se ao sentir que poderia estar falando algo desconhecido como uma tola.
Então Ben se aproximou o suficiente para que os lábios de ambos se tocassem pela primeira vez. Mas, enquanto fechava os olhos, e sentia a presença de sua futura mulher, o nome que estivera até então guardando para si surgiu em sua mente: Alexia.
Fale com o autor