O Dominador de Sonhos
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Vila Velha, 03 de dezembro de 2010
— Leonardo?
Na cozinha, um barulho de vidro quebrando se fez ouvir, e Leo permaneceu estatelado, com os punhos cerrados e mal piscando, enquanto seu pai entrava no cômodo após tê-lo chamado.
Na pia de granito, uma faca estava largada sobre a tábua de cortar carne. Desde o escorredor até o chão, cacos de vidro se espalhavam.
— Mas o que...? — o mais velho questionou, deixando a frase incompleta.
— Pode deixar que vou arrumar isso — Leo adiantou-se, se direcionando para os fundos da casa, onde ficava a vassoura e os outros utensílios de limpeza.
— O que aconteceu aqui?
— Não foi nada. Eu só derrubei os copos.
— Ado!
Ele viu as perninhas rápidas indo em direção ao cômodo. Observou seu pai se adiantar para frente, tentando impedir que ela entrasse na cozinha descalça. Sentiu seu próprio desespero ao imaginar Camila caindo sobre aqueles cacos.
E viu quando sua irmã foi jogada para trás, os pezinhos perdendo o chão por um instante, e então caindo sentada a alguma distância, como se um vento súbito a tivesse levado de volta.
— Ado fez bagunça — disse, observando o irmão, completamente alheia ao que acontecera. — Papai deveria deixar a sobremesa dele pra mim. — E abriu um sorriso para Ricardo.
O homem sorriu minimamente de volta para a filha, virando os olhos para Leo, quando ela correu para o quintal da casa.
— Meu filho...
— Não me pergunte. Foi o que houve com os copos. De repente, eles estavam se mexendo por aí como se tivessem vida.
— Estou começando a achar que ambos precisamos dormir.
Leo observou o pai pelo canto do olho.
— Pode ser.
Ele se lembrou de Alexia. Da crise, de como ela dizia ter visto algo impossível, e imaginou se fora algo como o que acontecera agora com ele próprio.
Sua cabeça latejava, e o que mais o incomodava era justamente isso: quando os copos começaram a se mexer, era como se algo se repuxasse dentro de seu cérebro. Sabia, de alguma forma, que fora ele próprio quem fizera aquilo, mas era tão irreal.
Terminou de limpar o cômodo sentindo seu pai segui-lo com os olhos. Pegou o celular e foi até os fundos da casa, tentando ligar para Tiago. Caixa postal. De novo. Desde que Alexia havia passado mal, ou seja lá o que tivesse acontecido, estava tentando falar com ele, mas nem sinal.
— Amanda não seguiu meu conselho afinal — murmurou.
Ela querendo ou não, ele havia falado sério. Não era só por Alexia.
Quando os três amigos andavam juntos — Tiago, Alexia e ele —, era comum as garotas acharem que Leo era aquele que ficaria com várias garotas em uma festa, enquanto Tiago procuraria apenas aquela que faria sua namorada, ou o que fosse. Mas era exatamente o contrário. Seu amigo não enganava nenhuma mulher, elas tiravam as próprias conclusões e ele acabava conseguindo o que queria com todas. Havia motivo para repreendê-lo por algo assim?
E ainda assim sentia que havia algo de errado na relação de Tiago e Amanda. Talvez por isso ter afetado tanto Alexia? Aliás, se perguntava por que afinal de contas isso tivera um efeito maior em Lexi. Ela já se tornara indiferente a todas as vezes que o Morelli estava com garotas, e Leo sabia que a loira era apaixonada pelo amigo desde sempre.
As coisas pareciam fora de lugar.
Resolveu sair. E, enquanto atravessava a porta da frente, sabia que seu pai ainda estava fazendo especulações sobre o que poderia ter causado aquela espécie de empurrão em Camila.
–X-X-X-
Alexia sorriu para Patrícia, que colocava uma vasilha cheia de pipoca em seu colo. A mais velha acariciou o topo de sua cabeça gentilmente e foi até a cozinha mais uma vez, voltando com uma jarra de suco gelado e copos.
Patrícia era uma mulher de cabelos cacheados escuros e olhos verdes. Possuía uma beleza simples e natural, porém, notável. Ela sentou-se ao lado da loira.
— Sua mãe me contou que você teve uma crise por causa do estresse, está tudo bem? — perguntou com a habitual voz baixa e gentil.
A garota fitou a mulher ao seu lado em agradecimento. Patrícia trabalhava ali há anos, e estava cuidando sempre da menina como se fosse sua própria mãe. Costumava dizer que gostaria que a filha a conhecesse, mas nunca levara a menina até ali e ninguém sabia onde ela morava, e com o tempo a mulher parara de falar na tal criança.
Lexi assentiu, mordendo o lábio.
— Alguma coisa que queira me contar? — Patrícia abriu um sorriso juvenil.
— Você vai achar que é loucura.
— Tente, pequena Lexi.
— Certo. E se eu disser que acho que... — Mordeu o lábio por um momento. — ...que estou prevendo o futuro?
Patrícia franziu o cenho, pensativa, o que fez Alexia retomar a palavra.
— Não era a reação que eu esperava, mas você pode muito bem estar tentando lembrar o nome do hospício mais próximo. Ou então o número da Clínica de Reabilitação para Dependentes Químicos da Serra, mas juro que nunca me meti com drogas. — Franziu o cenho. — Não que eu saiba pelo menos.
Dessa vez, a morena riu, balançando a cabeça.
— Não é nada disso, estou fazendo os cálculos. Quando seu amigo Tiago completará 19 anos?
— 21 de dezembro. — Alexia suspirou. — Pelo menos você só quer mudar de assunto.
— Precisamos chamar Vinícius, será que você pode ir até a casa de seu amigo e trazê-lo até aqui? Bianca não deve ter voltado ainda.
— Trazer o Sr. Morelli? Bianca não...? Peraí, você conhece os pais de Tiago?
— Só faça isso, Alexia. Rápido.
A urgência na voz da morena e os olhos intensos fizeram com que Alexia levantasse num salto, derrubando parte da pipoca. Ela saiu da casa mecanicamente, seguindo o habitual caminho até a casa de Tiago, sem entender o motivo daquilo tudo. Talvez fosse uma doença cerebral contagiosa que infectara Patrícia.
O celular de Tiago dava apenas caixa postal, então ela se viu tocando a campainha diante do casarão. Dênis atendeu rapidamente, deixando-a entrar e a acompanhando até os fundos da casa, onde Vinícius estava sentado sozinho, observando o mar ao longe.
— Sr. Morelli? — indagou.
— Como vai, Alexia? Estava mesmo querendo falar com você, preciso da sua ajuda com Tiago.
Ela franziu o cenho.
— O que houve?
— Há mais ou menos uma hora, ele juntou suas coisas e disse que passaria um tempo fora de casa. Levou uma quantia considerável de dinheiro também, porque sabia que eu ameaçaria bloquear seu cartão. Acho que você e Leonardo são os únicos que podem impedir ele. E também... — Ele parou, fitando-a sem realmente parecer estar vendo Alexia ali.
— Também...?
— Não é nada, nada com o que precise se preocupar. Só estou divagando.
— Mas o que...? — Ela se interrompeu. — Certo, você e Patrícia estão agindo muito estranho, então que se resolvam! Essa coisas de ficarem falando e falando e não explicando nada me irrita, então você vem pra minha casa comigo e os dois que se entendam!
— Patrícia? — Os olhos azuis brilhantes de Vinícius pareciam assustados.
— Pois é, já saquei que vocês se conhecem. Agora vamos logo, antes que eu resolva esquecer que respeito os mais velhos.
Alexia se viu novamente sentada no sofá da sala com os braços cruzados. Patrícia estava em pé perto de uma ponta do sofá, olhando para Vinícius com a expressão séria; o homem, em contrapartida, estava na mesma posição perto da outra ponta, fitando-a como se estivesse vendo um fantasma.
— Há quanto tempo, Vinícius. — A morena abriu um pequeno sorriso.
O Morelli pareceu ainda pior quando ouviu sua voz, mas isso não durou muito. Sua expressão mudou de assustada para irritada, e os olhos brilhavam com raiva.
— Depois de tanto tempo é isso que você tem a dizer? Patrícia...
Ele se aproximou num movimento rápido, colocando a mão nos ombros da mulher e fechando os olhos.
— Patrícia, eu pensei que você estava morta — sussurrou.
Lexi puxou a bacia de pipoca para o colo e começou a comer de forma desinteressada. Sentia que invadia uma conversa pessoal, mas afinal eles estavam na sua sala de televisão e talvez fossem ajudar com o que seja lá que estivesse acontecendo.
— Patrícia?
A mulher não respondera por todo aquele tempo, só ficara ali o encarando. Havia algo de estranho em sua expressão.
— Muitas coisas aconteceram.
Sua resposta soou tão evasiva que Alexia encolheu-se no sofá. O Morelli se afastou, passando a mão pelo rosto e acabando por sentar na poltrona.
— Estou esperando. Acho que mereço explicações.
Patrícia torceu as mãos de forma nervosa e mordiscou o lábio. Para Alexia, ela parecia como uma adolescente em frente ao primeiro cara de quem gostou.
— Ai. Meu. Deus — soltou a mais nova. — Não me diga que vocês dois eram um casal?
Os olhares que viraram em sua direção foram o suficiente para saber que era verdade.
— Nós estudamos juntos desde nossa infância — Patrícia começou, fitando um ponto acima da cabeça loira da garota. — Ele foi para o internato dos meus pais em Manaus porque diziam que deveria ser afastado do maior número possível de pessoas que não soubessem o segredo dos Morelli.
— Não é algo fácil de digerir — continuou Vinícius. — Mas não somos como as outras pessoas. Um garoto conseguiu transcender as barreiras do espaço e do tempo viajando para o passado através de sonhos.
Alexia arqueou as sobrancelhas. Vinícius falava aquilo com naturalidade, como de estivesse falando sobre o tempo, e não era algo que poderia aceitar assim.
— Isso não é uma brincadeira, Alexia. Não reaja como se não tivesse previsto o futuro.
A garota sentiu o estômago revirar com as palavras de Patrícia. Não era tão fácil de digerir, literalmente.
— Você prevê o futuro? — Vinícius pareceu sem fala por um instante, em seguida sussurrando algo ininteligível para si mesmo.
— Esteve ocupado demais brincando de detetive, em vez de ensinar o que deveria ao seu filho, tipo como as coisas funcionam antes que ele faça alguma besteira — acusou Patrícia.
— Não é como se eu tivesse algum controle sobre isso.
— Eu sei! Mas como você pôde se esquecer de Thaís? Da mulher que quer te tirar o filho?
O Morelli estreitou os olhos para a morena.
— Eu nunca me esqueci dela. Mas, antes de me acusar, acho que me deve explicações, Patrícia Twennis.
— O quê? — As palavras de Alexia saíram antes que pudesse reprimi-las.
— Não é hora para isso, Vinícius! Eu sei muito bem do que minha filha é capaz, e ela está disposta a fazer o que Thaís ordenar.
— Acho que não podemos fazer nada até explicar tudo que aconteceu. — Ele virou os olhos para a loira por um instante. — E acho que ela também concorda com isso.
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