O Dom
3 Capítulo Dois - A Floresta
Notas iniciais
Claire
A seda rosa escorregou pelo seu corpo como se fosse líquida. Claire amarrou o roupão na cintura enquanto preparava-se para dormir, e vislumbrou o seu reflexo no espelho. Afastou o cabelo molhado para longe do rosto enquanto escovava os dentes e o violeta de seus olhos era realçado pelos azulejos cor-de-rosa que revestiam a parede. Seus traços sempre a atormentaram, porque era um lembrete constante de quem ela era e o que precisava ser.
Matrine.
A palavra formigou em seu pulso, e ela afastou a manga do roupão para observá-la. Gravada na pele desde o seu nascimento, o nome do clã colocava uma pressão física e psicológica em todos os seus atos. Quando descobriu a sua legilimência, sentiu-se aliviada. Tinha medo de ser uma sem-dom, ou ter algum dom inferior, o que causaria vergonha à família.
Caminhou para fora do banheiro com passos leves, temendo acordar Duvessa. A amiga havia chorado o dia inteiro, e as lágrimas só sumiram quando ela finalmente adormeceu. Claire abriu as janelas e sentiu o ar frio da noite tocar o seu corpo enquanto o vento uivava lá fora. Com delicadeza, subiu no parapeito e sentou-se, com o joelho direito encolhido perto do rosto. Puxou um livro de bolso e começou a ler, com a ajuda do luar que o iluminava.
Foi quando sentiu sua cabeça formigando, e pontadas que pareciam agulhas abrindo-lhe o crânio. Depois que descobriu o seu dom, ela tinha presenciado coisas estranhas, como se ele estivesse aflorando, mas aquilo era diferente. Era quase como se tivesse avisando a garota que alguma coisa não estava certa. A menina fechou os olhos e respirou fundo, tentando esclarecer o que estava sentindo.
Por instinto, olhou para a floresta que ficava nos limites da escola. O internato decidiu por preservá-la, já que havia lá a presença de criaturas mágicas que não podiam perder o seu lar. Viu uma agitação entre as árvores, e logo em seguida alguns feixes de luz. Ela sentia, dentro de sua mente, que alguém ali estava precisando de ajuda.
Percebeu que estava fazendo barulho quando escutou Duvessa resmungando atrás de si e virou-se, em desespero.
— O que você está fazendo, Claire? – Duvessa estava de pé, levemente assanhada e com seu pijama infantil de gatos pretos. Esfregava os olhos com sono – Você pode, por favor, ir dormir?
— Receio que não seja possível – Claire mordeu o lábio inferior, como sempre fazia quando estava nervosa – Alguma coisa na floresta está falando comigo, Duvessa, e está em perigo. Precisamos ir.
— Você enlouqueceu? A floresta já é perigosa o suficiente de dia, eu não consigo nem imaginar o que é que pode ter lá uma hora dessas.
— Bom, então eu descobrirei. Você vem comigo ou não?
— Não – Duvessa deu de ombros.
— Tá – Claire saltou da janela, concentrando sua magia para que a queda de dois andares não a machucasse. Flutuou até que seus pés tocassem o chão.
— VOCÊ PERDEU O JUÍZO? – Duvessa gritou com as mãos no parapeito da janela, olhando para baixo com uma expressão que era a combinação perfeita de raiva com choque – Uma altura dessas pode te matar!
— Mas eu não morri, não foi? Eu preciso ir – ela sentia a cabeça formigar cada vez mais, e precisava criar coragem para ir até a floresta – e essa é a última vez que eu vou te chamar.
— Então não me deixe cair, ok? – a amiga bufou e então passou as pernas pela janela, pulando na direção dela, que focou todo o seu poder para que a amiga não sofresse o impacto da queda.
Quando se levantou, Duvessa ainda estava reclamando que Claire precisava parar de ser tão impulsiva, mas a menina não ligou. Tinha o seu objetivo em mente e começou a correr, atravessando o gramado do Instituto Saint Cyprian com medo de ser pega pelos guardas noturnos. Depois de correr metade do caminho, desejou que tivesse visto os guardas do que aquela pessoa para de braços cruzados na sua frente.
— Ora, ora – Morgana Faychild tinha um sorriso malicioso no rosto, e seu olhar cruel deixava bem claro que suas intenções não eram boas – Se não são a esquisita e sua fiel companheira, a sem-dom. É claro que estou surpresa em como uma garota de família como você, Claire – e pegou em seu pulso, observando a palavra Matrine – quebrando as regras. Não imagino que tenha sido essa a educação que você recebeu em casa.
— Será que você pode, pela primeira vez na sua existência, cuidar da sua vida? – Duvessa perguntou; a sobrancelha levantada de forma desafiadora, e a raiva pela inimiga estampada no rosto. Claire sentiu as gotas de suor em seu pescoço, indicando o nervosismo – porque até onde eu saiba, você também está quebrando as regras, princesa.
— Ah, eu só estou acordada até tarde porque estava ajudando a professora Underwood com a arrumação da biblioteca. Garanto para você, sem-dom – e pronunciou essas palavras com nojo – que eu tenho nobres motivos aos olhos do diretor. E você?
— Morgana – Claire falou, a voz doce abafada pela respiração pesada – Eu sei que no auge do seu egocentrismo a única pessoa com a qual você se importa é consigo, mas se não for muito incômodo, pode sair da nossa frente para que possamos ajudar alguém?
Faychild tateou uma mecha do seu cabelo negro, fingindo surpresa.
– Ah, docinho... Eu não perderia isso por nada. E então amigas, podem me dizer para onde estamos indo? – sorriu.
Claire precisou fechar os olhos e se acalmar para que não batesse nela naquele momento. Sabia que Morgana não iria sair do seu caminho e queria lhe acompanhar porque tinha a probabilidade da aventura lhe render uma grande história, que sem dúvidas contaria para todos da escola sem ao menos mencionar Duvessa ou Claire. Era do seu feitio.
— Para a floresta. Posso apostar que você não iria perder isso por nada, não é, princesa? – a encarou. Morgana podia ser uma pessoa horrível, mas sem dúvidas era poderosa. Podia ser de grande ajuda.
— Pode apostar que não! – recebeu como resposta.
E as três puseram-se a correr novamente, Duvessa ao lado de Claire com raiva no olhar; não podia ter arranjado companhia mais detestável. Morgana, por incrível que pareça, estava tentando memorizar alguns feitiços ao invés de vangloriar-se.
As árvores as deixaram na sombra quando adentraram a floresta, e Duvessa convocou uma esfera de luz nas mãos, que iluminava o caminho. Claire se arrependeu quase que instantaneamente, porque lá dentro era possível escutar o barulho de todos os animais selvagens que rondavam pela noite, mas não precisaram andar muito para que descobrissem a origem dos problemas.
Duas vozes masculinas grunhiam enquanto lutavam, e uma delas era muito familiar. Duvessa fechou a palma da mão, cessando a luz, e Claire sibilou um shh para as duas, pedindo por silêncio. As meninas amontoaram-se atrás de uma árvore para que pudessem observar a cena que ocorria às suas frentes. Uma figura que elas logo reconheceram como o professor Vincent estava coberta de ferimentos. Sangue escorria de um corte no rosto do professor, que atravessava o seu olho. A outra figura era algo que Claire só havia visto nos livros de criaturas mágicas. Um corpo magro, há muito apodrecido e com ossos expostos estava enrolado da cabeça aos pés em bandagens brancas, que flutuavam de forma fantasmagórica. A múmia atacou o professor com suas faixas enquanto ria; a voz ecoando pela floresta.
— Ora, Vincent, onde está a sua força? – aproximou-se, só para ver algumas bandagens queimando com as chamas que o professor tinha em mãos. O homem olhou de leve para as três garotas, enquanto a múmia continuava a falar – Há vinte anos você não era assim.
— Ah, são os ossos do ofício – respondeu – Tantos anos ensinando magia básica que fui perdendo a prática – caminhava para trás com passos curtos, e a criatura o acompanhava. Claire não sabia o que ele estava fazendo, mas Morgana parecia estar percebendo, porque tirava as raízes da árvore à sua frente com o uso da telecinese – AGORA!
Tudo aconteceu em milésimos de segundo. A múmia olhou para trás enquanto uma árvore milenar caía preparada para lhe esmagar. Claire e Duvessa ajudaram Morgana com a magia e soterraram a criatura.
— Muitíssimo obrigado, garotas – Vincent correu até elas, arfando – Mas Kraegor não foi derrotado ainda. Precisamos sair daqui antes que ele se regenere – e disparou um feixe de luz que abriu o caminho.
Contudo, o homem não conseguiu dar dois passos sem desmaiar de exaustão. Todas elas estavam cansadas pela grande quantidade de magia que usaram, e sangue escorria da boca de Morgana, então não sabiam se conseguiriam carregar ele.
Enquanto o observava, Claire sentiu as bandagens agarrarem sua perna e ela foi lançada para o ar, em meio aos gritos, mas a múmia não a soltou. Duvessa e Morgana estavam ajoelhadas ao lado do professor, e ficaram imóveis, mortificadas de medo. Com ele desacordado e elas enfraquecidas, nunca conseguiriam derrotar o monstro.
— Ora, seria esse sangue nobre? – a múmia aproximava-se de Claire, apoiada pelas faixas. Claire percebeu que monstros não tinham higiene bucal quando a criatura falou perto dela, e sentiu que ia desmaiar com o fedor – Ah, não pode ser... Uma Matrine?
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