O Doce Silêncio Em Baker Street

1 O Doce Silêncio em Baker Street


O Doce Silêncio Em Baker Street

Um dia comum na rotina de Baker Street, mesmo que seja difícil de acreditar que algum dia nessa casa possa ser comum, começava assim.

Todo dia, com o bater das sete horas do Big Ben, eu abria os olhos e me virava para o lado de Holmes da cama. Podia estar lá ou não, mas era um ato inerente do qual não conseguia me livrar, não importando o que eu fizesse. Quando estava, abria os olhos ao sentir que eu o fitava e sorria para mim, depositando um singelo beijo de bom dia na minha testa. Quando não estava, e essas ocasiões eram mais frequentes, visto os hábitos diurnos de meu marido, as possibilidades eram maiores. Ele poderia me acordar contra a minha vontade, ter a audácia de tomar o café da manhã sem mim ou mesmo não estar lá por estar numa daquelas semanas em que se trancava em seu laboratório por dias a fio.

Completaríamos quatro anos de casamento dali a dois meses, e nesse ínterim eu já havia me acostumado com os modos de meu marido, assim como ele também se habituara aos meus. Ele sabia que em dias de chuva, seria fácil me encontrar sentada próxima à janela lendo algum romance de Edgar Allan Poe, de fato, ele nunca deixara passar o comentário sobre o fato de “Esse escritor tomar o seu tempo mais do que merece”. A possibilidade de Edgar Allan Poe ser o único homem de quem Holmes possuía ciúmes sempre me divertiu muito, embora eu saiba que esses sentimentos não ocupam tanto espaço no coração dele. Sherlock possuía outras formas de expor que me amava.

Ele não era a pessoa mais sensível e romântica do mundo, mas conseguia me surpreender quando se esforçava. Fosse me instigando para um duelo com espadas pela casa, o que sempre pareceu enlouquecer nossa senhoria, ou com palavras galantes de sua autoria ou copiadas de algum excêntrico escritor inglês – que não Poe – quando queria ser cortês, ou mesmo convidando-me para passeios por Londres e idas até a ópera. Dentre todas elas, a minha favorita era o silêncio.

Ao contrário do que habitualmente atribui-se a essa palavra, algo frio, constrangedor, como quando não queremos falar com alguém, quando referida a Holmes, era completamente diferente. Sherlock possuía uma capacidade incrível para se expressar sem utilizar um vocábulo sequer, e eram essas palavras não trocadas diretamente que eu mais gostava de ouvir, bem como os olhares não divididos, mas dados, os que eu mais gostava de receber.

_ Senhora Hudson? – chamei descendo até a cozinha.

_ Sim, querida? – respondeu ela terminando de arranjar uma bandeja de chá.

_ Algum sinal do senhor Holmes? – perguntei mirando com desejo uma torta que estava acabando de ser preparada.

_ Não o vejo desde ontem à noite, Anne. – respondeu ela preocupada. – Será que aconteceu alguma coisa?

_ No máximo ele teve uma brilhante ideia enquanto dormia. – brinquei. – Não se preocupe, ele deve estar onde sempre está quando não o vemos.

_ O laboratório, é claro. – concluímos em uniosso.

É inegável a dependência que Sherlock e eu possuímos um do outro, mas melhor do que ela é como conseguimos isso de forma saudável e nem um pouco enjoativa ou grudenta. Eu já estava acostumada com suas horas infindáveis de trabalho dentro do laboratório, e de fato, um pouco daquela mania ficou comigo. Havia dias em que mesmo eu gostava de ficar trancada no quarto para tocar ou reler os antigos diários de Watson. Isso quando não me ocupava em ajudar à senhora Hudson com a organização da casa. Conseguíamos passar horas sem nos falar, sem exigir satisfações um do outro como, por exemplo, saímos de casa e ficávamos horas fora... Embora isso seja comum e muitas vezes eu deixasse a pergunta escapar.

_ Correspondência, Sherlock. – avisei com uma leve batida na porta do laboratório.

_ Agora não. – ele respondeu com a voz bem distante da porta. Como de costume, não insisti e tornei a descer as escadas em direção à sala de estar. Se sequer a chance de um novo caso o interessava, o assunto lá dentro deveria ser sério.

No fim da tarde, quando ele finalmente saía para andar pela casa e me encontrava próxima à janela com o seu rival, sentia uma forte necessidade de chamar a minha atenção, de mostrar que saíra um pouco dos escombros de sua solidão para me ver e demonstrar que estava lá, mesmo que eu não estivesse. Então, ele retirava seu violino do console da lareira e começava a tocar. Dividida entre as palavras de Poe e o doce som da música de meu marido, eu sentia o dia passar pacificamente. Por último, dividíamos o chá às seis horas...

_ O que houve com a sua mão? – perguntei fitando uma mancha vermelha na mão dele.

_ Nada, só um pouco de...

_ Ácido? Holmes... – suspirei irritada.

_ O que? Anne... não é a primeira vez...

_ Não, realmente, não é. Sinceramente, Sherlock, você ainda vai acabar ficando sem uma das mãos. – ralhei recolhendo a bandeja.

_ Eu não sei, elas parecem bem para mim. – brincou ele me segurando com força pela cintura.

_ Holmes, eu vou deixar a bandeja cair e a senhora Hudson já perdeu xícaras o bastante por nossa causa. – adverti segurando as asas da bandeja com força.

_ Solte-a. – ele sussurrou no meu ouvido.

_ Holmes... – eu ri virando o rosto para mirá-lo.

_ Solte-a. – insistiu ele agora num sopro próximo dos meus lábios.

_ Está bem. – concordei colocando-a sobre a mesa de centro. – E agora? – perguntei dando de ombros ao passo que ele sorria para mim e me beijava passionalmente.

E era no doce silêncio de Baker Street que eu sabia que poderia passar o resto dos meus dias.

Notas finais
A ideia surgiu e eu tive que passá-la para o papel... Deixem reviews para eu saber se gostaram ou não, ok? Bjiiinhos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!