O Doador de Sonhos

3 Ato III - Enquanto corria, seu rosto brilhava... ATUALIZADO


Notas iniciais
Quer saber por que escolhi o parque de diversões? Acesse: emanuelhallef.wordpress.com

Para uma melhor apreciação, por favor, leia ouvindo: Skinny Love

Quando pressionou o botão, algo sumiu de dentro dele.

Não estava sem humanidade?

Seu baú de emoções fora aberto sem a sua permissão, outra vez. Movia-se agora de leve e seus gestos eram fáceis e novos. De cabeça baixa, se afastou lentamente da máquina de caça-níquel. Fechou os olhos e respirou fundo, erguendo a cabeça para o alto. As pupilas, por detrás da máscara, escurecidas e alargadas. De súbito um animal atormentado, faminto, assustado como uma corça. E seu corpo era apenas memórias frescas, onde se moldaram, como pela primeira vez, as sensações que um dia sentiu.

Não queria continuar com aquilo, outra vez. Torturar um inocente por causa das suas consequências do passado?

Recuou mais alguns passos, com as mãos sobre a cabeça. Ajoelhou-se e começou a gritar. Anne, do outro lado, com as mãos pressionadas no vidro da velha cabine da roda-gigante, esperava que as portas se abrissem para correr para ajudá-lo. Mas, ao invés disso, todo o parque de diversões parou.

De alguma forma. E a sua maneira.

A montanha-russa, que deveria prosseguir com o seu percurso interminável pelos longos e grossos trilos de metal e ferrugem, acabou retrocedendo com muita velocidade. Os cavalos começaram a girar para o sentido contrário, ainda cavalgando gradativamente... Com isso, o barulho de um sino badalando tomou o lugar e sobrecarregou a atmosfera.

Anne percebeu as cores voltarem com lentidão e em pontos específicos dos brinquedos. Podia jurar que viu um lilás-cintilante nos olhos dos cavalos, mas, ainda assim, o preto e branco continuava impregnado e vivo. A menina não sabia por que sentia uma felicidade repentina, quase dolorosa, um quebranto no coração, como se ela fosse feita de uma massa mole e alguém mergulhasse os dedos nela, revolvendo-a com maciez.

Havia silêncio no parque...

Cada vez mais entendia o parque de diversões. E de algum lugar invisível subia um vapor úmido e comovedor. De novo o coração lhe doeu levemente e ela sorriu, o nariz franzido, a respiração fraca. Estava gostando de presenciar a maneira como o parque lutava para se libertar, de qualquer que fosse as correntes que o prendia.

O homem encapuzado se levantou, tonto, observando por entre as vestes negras as cores que tentavam retornar. Seus olhos se abriram de um ódio maior do que qualquer coisa que já sentira antes... Houve uma pequena pausa de repouso. Foi se recuperando aos poucos, novamente o corpo insensível, opaco e forte como uma coisa viva... E, de fato, ele estava vivo.

Ainda furioso, saiu correndo em direção à roda-gigante, necessariamente no lugar onde Anne o observava.

— O problema está em você, sua anormal! — rosnou o homem, afastando-se ao falar, tão depressa que caiu, tropeçando em suas próprias vestes longas e sujas de lama. Levantou-se logo em seguida, com a fúria acesa, se reaproximando da cabine de Anne — Você não está com medo de mim! TENHA MEDO DE MIM! — uivava o pobre rapaz, batendo repetidas vezes no vidro do cubículo onde a menina o olhava sem entender absolutamente nada.

— Como quer que eu tenha medo? — perguntou Anne, calma, mas respirando muito acelerado, enquanto seu coração saltitava de um desejo incomum, ansiando por uma oportunidade de falar o que sentia.

— Não seja tão estranha... Você está em um parque de diversões abandonado. Não consegue ver cor alguma. Está de frente a um homem desconhecido, estranho, com uma capa e uma máscara feita de ossos humanos cobrindo o rosto. Não sabe onde está e nem por que está aqui. E muito, muito menos o que vai acontecer com você! Deveria estar em pânico, gritando, chorando, implorando pela minha misericórdia, mas está me olhando com PENA!

— Não estou com pena de você. Não sou de sentir pena das pessoas. E as cores não estimulam alegria, não para mim. E olhe para você mesmo... — Anne sorriu com sarcasmo, os lábios de baixo se delineando — Implorando pelo meu medo. Vai precisar de muito mais que um simples parque de diversões em preto e branco para me assustar.

— Anne, por favor... — o homem, por detrás da máscara, soava por causa do vapor da sua própria respiração acelerada. E, pela primeira vez em sua vida, implorava alguma coisa a alguém — Tenha medo de mim!

Enquanto discutiam, as cores continuavam se aglomerando em pontos verticais e horizontais dos brinquedos. Alguns cavalos estavam pintados de um azul muito fraco, e continuavam retrocedendo... Lá no palco, palmas abafadas eram ouvidas. E, ainda do carrossel, um som agudo era transmitido por eles.

Pareciam sinos badalando. O homem ouvia o barulho e parecia ser atormentado por eles...

Tlim... Tlim... Tlim...

Olhou ao redor de si mesmo, arfando de leve, francamente iluminado, como em uma vertigem. Tinha consciência de que o resto do parque se perdia no clarão das cores. O homem se lembrou das pessoas que um dia brincaram naqueles brinquedos: das crianças, das mães que as acompanhavam, talvez dentro de um sonho intransponível e secreto. Agora estavam perdidas e soltas por caminhos que nem mesmo o homem conhecia.

Ainda sentindo as badaladas, a figura encapuzada parou de girar. Suspirou, ergueu a cabeça determinado e sorriu por detrás da máscara — Eu sei de uma coisa que te faz sentir medo, Anne. Algo que te espanta, que te deixa sem saber o que fazer, o que pensar, para onde ir... Eu não queria usar isso contra você, minha cara, de verdade. Mas preciso do seu medo — o homem estalou os dedos ao terminar de falar.

De detrás da parte inferior da roda-gigante, três corpos surgiram. Andavam de um lado para o outro, seguindo uma mesma reta — Hey, vocês?! — gritou o homem, fazendo as figuras pararem imediatamente.

Desta vez Anne sentiu o medo devorando-a crua.

Eram palhaços... E não tinha nenhum rastro de cor em suas expressões ou nas suas roupas folgadas e largas. Seus cabelos pareciam ser molas, pequenas molas que eram sacudidas quando andavam. No seu rosto, ao invés de olhos, nariz e boca, uma máscara de um gato tristonho se destacava; sua medonha cara ofídica descorada e gorda, seus olhos acinzentados de pupilas verticais encarando-a — eram feitas de esmeraldas e refletiam uma luz alucina. A menina se entreolhou, colocando a cabeça entre as pernas, sentada no lugar mais fundo da cabine. Palhaços eram as únicas coisas que a faziam sentir medo. E, definitivamente, aquelas coisas eram piores do que simples palhaços de circo.

Os três comediantes passaram pelo homem e seguiram em direção à roda-gigante. Pararam em frente a cabine de Anne e colocaram suas caras feias sobre o vidro da janela, apertando-as... A menina sentiu que estavam ali e começou a gemer. As lágrimas desciam de seus olhos e ela só queria sumir. Queria que tudo acabasse de uma vez por todas.

— E agora que está com medo. O jogo, de uma vez por todas, vai começar. Prepare-se! — disse o homem, apertando com as duas mãos o botão da máquina de caça-níquel.

E a roda-gigante recomeçou a funcionar...

Portland, Oregon, Estados Unidos.

17 de Outubro de 1996.

Estavam na Nourmealand Boutts Street. Aproximavam-se da ponte que ligava o povoado de Grinemauld ao centro da cidade. Anne fora transportada para, especificamente, dentro de um Tempra, onde haviam três pessoas que conversavam animadamente a respeito de um assunto muito sério.

O homem que estava ao volante tinha cabelos grisalhos, olhos verde-esmeralda, estatura mediana e usava óculos. A mulher sentado ao seu lado tinha longos cabelos encaracolados amarrados em um coque. Olhava diretamente para a estrada, mas sua atenção estava no banco dos passageiros.

Anne os observava como plateia. Sentia o desconforto da poltrona do carro, o cheiro do perfume da mulher, do vento que entrava bisbilhoteiro pelo vidro da janela do carro.... E o mais intenso: o toque das mãos do menino que estava sentado ao seu lado, olhando para a esquerda, onde as montanhas eram apenas vultos — o carro estava indo rápido demais.

A criança tinha uma aparência bastante peculiar. Cabelos loiros, olhos acinzentados (uma cor que Anne nunca viu em toda a sua vida) e uma pequena cicatriz do lado inferior dos seus lábios. Ela sentiu vontade de perguntar onde estava, mas fora interrompida pela mulher...

— Não consigo acreditar que foi tão egoísta, Tom! — ela vociferou, com o braço apoiado no vidro da janela do carro, enquanto sua mão estava pressionada em sua testa — Seu amigo da escola só queria o lápis de cor!

O menino não olhava para a mulher — Não vou emprestar... — resmungou, agora batendo os dedos indicadores um no outro.

— Isso se chama egoísmo. Você é egoísta, meu filho!

— Eu sabia que ele ia quebrar se eu emprestasse, mamãe. E foi um presente do meu avô... Tenho muitos ciúmes dos meus lápis — respondeu Tom e Anne viu que em seu rosto havia sinceridade.

— Só tivesse dito não e pronto, não precisava arranhar o rosto do seu amigo, Tom. Não é assim que lidamos com as pessoas, meu filho. Elas não são os brinquedos que você estava acostumado a brincar naquele orfanato.

— Não são mesmo... Meus brinquedos não falam, mamãe.

A mulher sorriu com a ingenuidade do filho — Não foi isso que eu quis dizer, meu amor. Estou falando que você deve respeitar seus amigos da escola. O respeito precisa ser conquistado, Tom, você não pode exigi-lo de ninguém. Muito menos tentando impor medo as pessoas...

A criança olhava para baixo, envergonhado, e Anne sentiu sua mão se fechar em punho. As lágrimas desciam dos seus olhos e o menino, juntamente com Anne, sentiram vontade de esconder sua cabeça em algum lugar. Não por arrependimento, mas por vergonha de ver que sua mãe estava decepcionada.

Mas, o que eles não sabiam, é que o fim os aguardava de braços abertos no final daquela estrada...

Notas finais
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