O Diário dos Números
2 Capítulo 1 - O Pote de Geleia
Notas iniciais
Da pequena janela do avião, Preston observava a mancha azul-escura expandir-se até se tornar o Lago Champlain. Mas, para ele, aquela imensidão era apenas a tampa de um vidro se fechando. Sentia seu mundo encolher, como o de uma aranha capturada e jogada dentro de um pote de geleia.
O silêncio perdurou por quase toda a viagem, até que o décimo suspiro profundo do rapaz fez sua irmã gêmea pausar a leitura no Kindle para fazer outro tipo de leitura: a de pensamentos.
— É só um ano, Preston. Para de encarar o lago como se fosse o seu túmulo — disse Daphne, fechando a capa do leitor. O tom era doce, o que em "Daphnês" significava o início de uma guerra dialética.
Preston não a alimentou. Manteve os olhos fixos na linha do horizonte. Daphne riu, ajeitando a postura.
— Ótimo, use o tratamento do silêncio para contar os dias. Mas que tal pensar pelo lado estratégico? Fazer o Senior Year em Nova Iorque ia te deixar sendo... apenas mais um. — Ela disse como uma ofensa grave. — Yale tem gavetas cheias de "prodígios de Manhattan". Lá, você é só mais um número na planilha. Mas aqui?
Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando com a astúcia de quem já estava reescrevendo o cenário a seu favor.
—...Aqui você vira o "gênio isolado na natureza". O sobrevivente que trocou o barulho pela... — ela fez um gesto teatral para a janela do avião — ... introspecção? Princeton adora esse tipo de narrativa de "retorno às origens". Se a mamãe usou o visual rústico desse lugar para se alavancar e está agora vencendo em Paris, o mínimo que você pode fazer é usar esse tédio todo para turbinar sua application. Sorria, sua desgraça acabou de virar um diferencial competitivo.
Preston finalmente desviou o olhar da janela, mas apenas para olhar feio para aquela "Poliana maquiavélica".
— Tudo bem, Tony, fique mal-humorado se quiser — concedeu ela, erguendo as mãos em rendição à teimosia dele. Ainda assim, um sorrisinho de satisfação escapou quando o irmão lançou um olhar mortífero ao ouvir o apelido de infância. — Mas é melhor desamarrar essa cara antes de descermos. O papai está radiante que viemos passar a "temporada" com ele. Se você chegar lá com essa expressão de enterro, ele vai tentar te animar falando de motores ou tipos de graxas. Ou pior ainda: jogar Hockey.
O garoto avaliou e ponderou. Forçou um sorriso protocolar. Daphne revirou os olhos e bagunçou carinhosamente os cabelos acaju de seu irmão gêmeo.
— Melhorou, como você diria... um por cento? — sorriu a moça. — Agora, presta atenção: postei o primeiro capítulo novo e os comentários estão bons, mas preciso de alguém insuportável para encontrar os furos. — Preston franziu o cenho, porém Daphne continuou: — Você adora criticar tudo o que eu faço mesmo. Pelo menos agora vai ser útil. É sobre um príncipe que se apaixona por um camponês analfabeto, pode ler e criticar sem piedade…
Comparado ao caótico e superlotado JFK em Nova Iorque, o Aeroporto Internacional de Burlington parecia uma caixa de sapatos (mas sem os sapatos). O barulho das rodinhas das malas que Preston empurrava tinha pouquíssima concorrência, competindo com o zumbido baixo da ventilação e alguns murmúrios esparsos. A luz do local era amarelada e as lojas pelas quais passavam exibiam nas vitrines um monte de "sei-lá-o-quê".
Daphne tentava ligar para o pai enquanto caminhavam. Preston, já sem fôlego, se jogou na cadeira de balanço mais próxima da porta de desembarque assim que pararam. Foi quando o pai finalmente atendeu. Após alguns minutos de conversa ao telefone, Daphne voltou-se para ele:
— Papai não vai poder vir nos buscar. Pneu furado. — A moça sentou-se ao lado do irmão, resignada. — Uma amiga dele que mora em Burlington vem nos buscar. Diana, é o nome dela…
Pouco depois, uma mulher de cabelo curto, casaco grosso e jeito prático aproximou-se, acompanhada por uma garota pálida de cabelos pretos lisos, que parecia saída de um desenho da Branca de Neve.
— Vocês devem ser os filhos do Rupert! — A mulher sorriu.
— Daphne Deloria. E este é meu irmão gêmeo, Preston. — A jovem prontamente se levantou, apertando a mão da mulher, seguida por um Preston discreto, mas cortês.
— Prazer, sou a Diana Montgomery e esta…
Antes que a mulher terminasse as apresentações, a garota ao seu lado tomou a frente:
— Eu ouvi certo?... D-Daphne Deloria? A Daphne Deloria?
Daphne abriu um sorriso radiante e assentiu. A moça, que se chamava Chloe Montgomery, deu um gritinho abafado e correu para um abraço cheio de pulinhos, ignorando completamente a existência de Preston.
Caminharam contra o vento até o estacionamento, onde um Land Rover Defender branco esperava por eles, brilhando sob o céu acinzentado como um tanque de guerra de luxo. Já dentro do carro, Diana informou que, antes de irem para Wildale, precisariam pegar seu sobrinho, irmão de Chloe, que terminava um treino de hóquei em Burlington. Ele morava em Wildale.
Para Preston, Burlington parecia uma cidade de maquete. As casinhas de tijolinhos vermelhos e o clima claramente universitário, sem muita cerimônia, davam lugar a mansões vitorianas e, rapidamente, à zona industrial no centro.
Diana estacionou em frente a uma fortaleza de vidro temperado e aço escovado que reluzia sob o céu nublado. O complexo exalava uma bruma branca e silenciosa pelo teto. Preston fixou os olhos na bandeira acima do pesado portão: sobre o fundo vinho, as iniciais douradas RBB (Royal-Bears Burlington) sustentavam a figura de um urso vermelho, coroado e de mandíbula aberta.
Mas não foi o brasão que fez Preston congelar.
O portão não demorou a se abrir, deslizando para o lado com um som limpo e cortante.
Saindo lá de dentro, o rapaz pálido que surgiu aparentava ter dezesseis ou dezessete anos e, embora fosse mais baixo que a média, era absolutamente sólido. Vestia a jaqueta varsity com o corpo azul celeste metálico brilhante, contrastando com as mangas de couro creme, e ostentava o 'WW' bordado no peito com um 'C' ao lado (provavelmente o santo graal da popularidade da cidade vizinha Wildale).
Ao sacudir os cabelos negros, espalhando gotículas de suor, ele despiu o moletom antes de entrar. A regata branca que usava por baixo estava encharcada e o ar-condicionado do carro foi imediatamente vencido por uma onda de calor corporal, desodorante e cheiro de borracha velha.
Ele usou o moletom para forrar o banco e sentou-se. Preston encarava o banco da frente, o pescoço travado como quem tem um torcicolo por catatonia. A irmã, por sua vez, apenas arqueou a sobrancelha, fazendo o inventário do caos: a regata colada como uma segunda pele, a invasão de espaço pessoal disfarçada de camaradagem e aquele tipo específico de sorriso que pedia desculpas sem sentir nem um pingo de remorso. Daphne conhecia o arquétipo; já o escrevera em três histórias diferentes.
Aquele garoto não apenas estudava na escola local; pelo modo como ele ignorava a própria transpiração excessiva como se fosse um presente para os meros mortais ao redor, ele claramente se sentia o dono do Willdale Highschool.
Ele, ainda ofegante, soltou um suspiro profundo e sorriu para a tia, exibindo covinhas e dentes brancos de doer a vista. Recebeu um beijinho no ar da tia Diana e cumprimentou a irmã (que se virou no banco da frente apenas para lhe mostrar a língua). Assim que o carro partiu, virou-se para Preston ao seu lado, estendendo a mão com um sorriso de político em campanha:
— Prazer em conhecer, sou o Denis.
O sorriso mínimo de pura educação de Preston evaporou num instante. "Prazer em conhecer?", pensou ele, a palavra ecoando na mente. Era como engolir pedras de gelo.
Denis, percebendo o vácuo, recolheu a mão.
— Ah, foi mal! — Ele limpou a palma na própria bermuda e ofereceu-a novamente. — Essa Hell Week aqui no centro dos Royals custa uma fortuna, mas é realmente infernal. Achei que fosse cuspir meu coração naquele último tiro de suicídio.
Preston, refletindo que a humilhação poderia ser pior, não viu saída: apertou, de contragosto, a mão estendida. Sentiu imediatamente o choque térmico: a palma de Denis era úmida, quente e calejada, contrastando violentamente com a sua própria mão fria e seca. O rapaz devolveu um sorriso tão sincero quanto a raiz quadrada de menos um.
— Preston Alan Deloria. Daphne Calliope Deloria — apresentou-se encarando Denis, na esperança de criar alguma mínima faísca.
— Ah! — Denis exclamou, e Preston sentiu um aperto no peito. — Vocês são filhos do técnico Deloria! Que honra, seu pai treina o nosso time há anos! Ele alavancou nosso time com pura tática!
"Prazer em conhecer", Preston ainda pensava nisso. Ele sustentou o olhar de Denis por um segundo, tentando decifrar se aquilo era um lapso de memória real ou apenas uma atuação impecável. A dúvida era corrosiva, mas ele se recusou a demonstrar qualquer abalo. Se Denis queria ser um estranho, Preston o trataria como tal. Devolveu um aceno automático, buscou refúgio nos fones de ouvido (mesmo sem música) e recostou a cabeça, fitando o teto do carro.
Denis talvez tenha notado que Preston não queria ser incomodado, pois ficou em silêncio o resto da viagem. Daphne já voltava a conversar do banco de trás animadamente com sua "zangão número um" sobre a fanfic do Príncipe e o Plebeu, da qual aparentemente Chloe era uma fã obcecada.
O resto da viagem foi uma tortura física e mental. Sair de Burlington foi rápido, mas a estrada secundária para Wildale era uma serpente de asfalto. Não havia buracos, mas curvas. Muitas curvas.
A cada guinada do volante de Diana, a força centrífuga empurrava o corpo pesado e quente de Denis contra Preston, o qual estava no meio do banco de trás. O jogador de hóquei sentava-se de pernas abertas como que de propósito, e sempre que seus joelhos se tocavam, Preston sentia a repulsa e a raiva aumentarem.
O rapaz tentava se distrair calculando a velocidade média do carro sem olhar para o painel, usando apenas os marcos de milhagem da estrada. Deveriam estar a umas quarenta milhas por hora. Se fossem mais rápidos, chegariam logo; se fossem mais devagar, a força g nas curvas seria menor. Diana, infelizmente, escolheu a velocidade exata para maximizar o desconforto.
A estrada era um corredor ladeado por coníferas de um verde profundo e opressivo de fim de verão. As reservas pareciam infindáveis e, em alguns pontos, margeavam o Lago Champlain, que fingia ser oceano, embora todos soubessem que não passava de um aquário glorificado.
— ... Eu estudei com seu pai, sabia? — Diana precisou falar duas vezes para despertar o jovem do seu transe autoimposto. — Ele era assim, igual a você. Calado…
Diana riu, saudosa.
— É quase como se eu estivesse voltando para a nossa época de colégio, vocês são praticamente idênticos. Na personalidade, quero dizer. Claro, na aparência você puxou a Ellie.
Preston tentou focar no horizonte, onde o lago espelhava o céu acinzentado e cheio de nuvens. Denis jogava Sonic no celular, exageradamente focado, e Daphne explicava para Chloe detalhes de sua nova história, que usaria a paisagem rústica de Vermont como cenário. Segundo ela, o lago seria o portal para uma tribo de Sereianos e, apesar da inimizade com os humanos, um tritão e um pescador se apaixonariam. — ... A Ellis caiu rapidinho nesse jeito misterioso do Rupert. A garota mais bonita e popular do colégio! Vai ser um concorrente e tanto para o meu sobrinho, galã de Wildale... E às vezes em Burlington — Diana falou a última frase mais baixo, piscando pelo retrovisor para Denis.
Ouviu-se, vindo do celular, o som inconfundível dos anéis sendo perdidos no jogo, seguido pela musiquinha de "game over". Denis deu uma risadinha morna, sem tirar os olhos da tela preta, enquanto Preston forçou um sorriso torto diante do elogio esquisito.
— A Daphne nunca iria se deixar encantar por um "tipo" como o do meu irmão... — Chloe disse, orgulhosa, quebrando a tensão. — Ela escreve sobre eles, sabe como a mente primitiva de um bad boy funciona.
— Ofensas gratuitas? — Denis riu, girando o celular na mão, a postura relaxando instantaneamente.
— Que calúnia, meu sobrinho é um príncipe! — Diana fez cara de má, arrancando risadas de todos, menos de Preston.
Não demorou muito para passarem pela placa de madeira: "Bem-vindos a Wildale".
Preston sentiu o ar faltar. Aquele era o limite oficial do pote de geleia onde o haviam aprisionado.
Wildale era um local onde a humanidade parecia intrusa. Conforme a estrada estreitava, a mata alta e desordenada bloqueava o sol de fim de tarde com uma agressividade silenciosa, aumentando a sensação de claustrofobia. Em certo ponto, o asfalto bifurcou-se como uma língua de cobra: um caminho descia para um vale sombreado, onde telhados modestos surgiam entre a cortina verde-escura; o outro subia para o monte iluminado, onde casas de vidro brilhavam arrogantes.
Diana, obviamente, tomou a estrada para a sombra.
O casarão dos Deloria surgiu após alguns quilômetros de isolamento. O terreno era cercado por uma muralha de matagal e arvoredo, sem nenhum vizinho à vista num raio de milhas. A casa, de tijolos vermelhos e acabamento em madeira escura, era simples e grande, mas tinha a aparência cansada de quem se esforçava para não deixar o tempo avançar.
Diana buzinou três vezes. Do galpão ao lado, um gigante surgiu.
Rupert Deloria era inconfundível. Alto, com o cabelo ruivo agora desbotado e a barba feita. Vestia um moletom ocre surrado sobre uma camisa xadrez, ambos manchados de graxa. Ele sorria de orelha a orelha, suado (provavelmente da troca da roda). A imagem de "urso alegre" formou-se claramente na mente de Preston.
Diana desceu e o abraçou, indiferente à sujeira. Denis saltou logo atrás, dando um "Técnico Deloria..." respeitoso a Rupert e ajudando a descarregar as malas na porta da casa sem ninguém precisar pedir, erguendo o peso com uma facilidade irritante.
— Até a escola, vizinhos! — disse Denis, simpático, dando um aceno sem jeito para Preston antes de entrar no carro.
"Vizinhos?", pensou Preston, calculando mentalmente a densidade demográfica. Numa cidade de umas quatro mil pessoas espalhadas por aquela área, a definição de vizinhança era, no mínimo, estatisticamente forçada.
Diana acelerou, levando Denis rumo ao topo da colina e deixando os Deloria na brita barulhenta da entrada.
— Bem-vindos de volta, meus filhos. — Rupert fez menção de abraçá-los, mas travou no ar.
Preston e Daphne haviam dado um passo para trás instintivamente, sincronizados. O sorriso do homem vacilou. Ele olhou para as próprias mãos sujas, depois para as roupas impecáveis dos gêmeos.
— Acho que... depois de um banho. — e limpou nervosamente as mãos numa flanela que tirou do bolso.
Daphne sorriu, ignorou a graxa e se esticou para beijar a bochecha do pai. Preston apenas acenou, e depois ofereceu um sorriso esquisito — pois Daphne o fuzilou com o olhar.
O pai pegou as malas da filha, levando-as para o quarto amplo do andar de cima. Sobrou para Preston carregar sozinho as suas para o quarto dos fundos. O cômodo estava limpo, arrumado pelo pai para a chegada deles. No entanto, pouquíssima coisa mudara ali: não era amplo, mas também não era um cubículo, e a janela era uma claraboia, o que dava um ar abafado ao local. Ainda assim, aquele era o quarto de Preston, e por muitos anos em sua infância fora seu refúgio das brigas dos pais, onde sua paixão pelos números fora lapidada em solidão e silêncio.
Preston deitou-se na cama e pegou seu tablet, abrindo o arquivo mestre sobre a Teoria de Ramsey. Precisava da frieza dos dados. Precisava provar que, no meio do caos absoluto, a ordem sempre emerge.
Mas, naquela noite, os números na tela pareciam distantes, sem sentido. Eles não conseguiam abafar o som dos grilos lá fora, nem o rangido da casa velha assentando nas fundações.
Seu olhar vagou pelo quarto, evitando propositalmente o canto escuro perto da janela. Ele sabia qual tábua estava solta. Recusou-se a olhar. Preston desligou o tablet e o colocou sobre a mesa de cabeceira. A escuridão tomou conta do quarto.
Contudo, sem a luz da tela para distraí-lo, a realidade desabou sobre ele, fazendo pressão sob o seu peito, um aperto sufocante de quem percebe que foi esquecido. A mãe estava em Paris; o pai, num mundo à parte de graxa e tacos; Daphne, já reescrevendo a realidade para sobreviver e ele... Ele nem lembrava do seu nome.
Preston virou-se para a parede, puxando o lençol até o ombro. Sentiu uma lágrima quente escorrer pelo nariz, cruzando a ponte do rosto para molhar o travesseiro do outro lado. Ele a limpou rapidamente.
Fechou os olhos, forçando uma respiração linear, e repetiu para si mesmo, tentando acreditar na frase mais idiota que Daphne já tinha dito na vida:
Era só um ano.
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