Eu já fui à Casa Presidencial um montão de vezes. Tipo, quando você mora na região próxima ao presidente, mais ou menos na segunda série você passa a fazer uma visita praticamente anual a ela, e depois precisa escrever um relatório idiota a respeito do passeio. Já visitei todas as salas em que os visitantes vão. Mas, no domingo a noite, foi a primeira vez que eu visitei a Casa Presidencial não em excursão, mas como convidada de verdade.

Foi bem esquisito. Minha família inteira estava sentindo toda aquela esquisitice, menos, talvez, a Rin. Mas como ela havia acabado de receber um carregamento de livros novinhos, isso já era de se esperar. Além disso, eu desconfio que a Rin seja, secretamente, um robô e, por isso, imune as emoções humanas.

O resto de nós, no entanto, estava totalmente atordoado. Dava pra ver que a minha mãe estava particularmente nervosa, porque colocou o tailleur mais distinto que tinha no armário e também suas pérolas, e arrancou o celular e o Palm Pilot do meu pai, para que ele não tentasse usar nenhum dos dois durante o jantar. A Kaede usava sua melhor roupa, que incluía sapatos de salto alto roxos com fivelas cintilantes, e não gritou conosco nem uma vez, nem quando o Buyo entrou correndo como um louco lá de fora e sacudiu o corpo, espalhando água pelo tapete recém aspirado. Até mesmo a Kikyo gastou umas duas horas a mais na sua rotina de beleza e saiu do banheiro com cara de quem ia apresentar um programa de televisão.

- Então, seja lá o que você fizer, Kagome, não vai ficar tentando esconder a comida de que você não gosta embaixo do prato – disse Kikyo enquanto saíamos da garagem com o carro, algo não muito fácil de se fazer, já que tinham muitos repórteres lá. Eles gostam de pular no capô para tirar uma foto rapidinha do meu pai quando ele vai comprar leite de manhã.

- Kikyo! – eu já estava bem nervosa sem ninguém me encher. Não precisava mesmo que ela piorasse a situação ainda mais. – Caramba, eu sei como me comportar em um jantar, ta bom? Não sou criança.

O negócio é que, em casa, quando tem alguma comida de que eu não gosto no jantar, eu pego tudo e dou para o Buyo por debaixo da mesa, e ele come qualquer coisa. A primeira família não tem cachorro.

Então, a questão era: o que é que eu ia fazer se eles servissem brócolis (por favor, alguém me armodace) ou, pior ainda, qualquer coisa com tomate ou peixe, duas coisas que eu não suporto e sempre aparecem em refeições chiques? Eu sabia que não dava para esconder debaixo do prato. Supondo que alguém o pegasse e visse tudo aquilo ali embaixo? Isso seria tão vergonhoso quanto o troço do abacaxi.

Quando chegamos lá tinha um montão de repórteres. Quase tantos quanto na frente da nossa casa. Só que lá eles tinham um lugar próprio para eles. Quando viram nosso carro, os repórteres começaram a se projetar em nossa direção, e o pessoal das câmeras começou a virar suas luzes fortíssimas para nós.

- Ali está ela!- eu os ouvia dizer – é ela! Tira foto! Tira foto!

E não eram só os repórteres que estavam tentando tirar fotos. Todos os turistas, quando perceberam a confusão, também começaram a tirar.

Uns caras de uniforme saíram da guarita atrás do portão e olharam as hordas de repórteres em disparada por cima do ombro. Um deles deu um passo à frente para bloquear o caminho que eles estavam usando para chegar até o carro, enquanto o outro vez sinal para que entrássemos pelo portão.

Enquanto tudo isso acontecia, minha mãe virou-se do assento direito dianteiro e mandou, como uma voz em tom de súplica:

- Kikyo, eu apreciaria intensamente se, pelo menos desta vez, você não ficasse falando de roupas durante toda a refeição. Rin, eu sei que você tem algumas perguntas para fazer ao presidente a respeito de ETS, mas estou fazendo um pedido pessoal para que você os guarde para si. E Kagome. Por favor. Estou implorando: não comece a brincar com a comida. Se você não gostar de alguma coisa, simplesmente deixe no prato. Não vai ficar lá meia hora só mudando a disposição das coisas.

Achei que isso foi injusto. Quando você muda a disposição da sua comida, a maior parte das pessoas acha que você comeu pelo menos um pouco.

Quando estacionamos na frente da casa, um homem de uniforme que estava parado na frente de porta se retesou em uma posse de total atenção enquanto outro veio abrir a porta da minha mãe.

Daí todos nós pisamos em um tapete vermelho e a porta da frente se abriu, e lá estava a primeira dama nos cumprimentando e nos chamando para entrar. Bem atrás dela estava o presidente, que apertou a mão do meu pai e disse:

- Como vai, Yuri?

Ao que meu pai respondeu:

- Muito bem, obrigado, senhor presidente.

Então, o presidente e sua mulher nos conduziram para dentro da casa tão casualmente como se apenas tivéssemos dado uma passadinha ali para um churrasco no quintal. Só que, obviamente, ninguém usa meia calça fina nem tailleur para um churrasco de quintal. Preciso reconhecer, apesar de todo mundo estar sendo tão atencioso e tal, que me sentia bem desconfortável. E não era só por causa do meu gesso idiota, nem porque a Kikyo tinha me obrigado a usar tudo de beleza dela, nem mesmo porque eu sabia, simplesmente sabia, que de um jeito ou de outro ia acabar aparecendo couve-flor no meu prato. Mas eu estava entrando em pânico porque, por mais à vontade que o presidente e sua família parecessem, a gente tava lá.

E nem eram aquelas partes públicas, que todo mundo conhece. Era a parte da família mesmo, sabe?

Daí entramos na sala e a primeira dama nos mandou sentar e ofereceu algo para bebermos, e eu me sentei, e o Inuyasha entrou...

E estava exatamente igual àquele dia no ateliê da Ayame Boone! Estava usando uma camiseta do Do As Infinity, em vez da Save Ferris. Mas, fora isso, era como se aquele outro Inuyasha, com as calças de pregas da escola, nem mesmo existisse.

- Ah, Inuyasha – disse a mãe, desolada, ao vê-lo – Achei que tinha mandado você se trocar para o jantar.

Mas o Inuyasha só sorriu e esticou o braço para pegar um pouco de castanhas de um potinho que estava sobre a mesa de centro na minha frente.

- Eu me troquei para o jantar sim – respondeu.

Daí o jantar ficou pronto. Comemos em uma das salas de jantar formais. Dava pra ver que a Kikyo ficou muito feliz com isso, já que a roupa dela, que era azulão, combinava com a sala. A Kaede também ficou animada com o serviço de jantar. Era a louça formal da casa, com a borda de ouro de verdade. Kaede disse que não se pode colocar pratos com a borda de ouro no lava-louças, é preciso lavar tudo a mão. A idéia de que alguém iria lavar a mão o prato em que Kaede estava comendo a deixava muito feliz.

Eu era provavelmente a única pessoa infeliz da sala. Isso porque, assim que nos sentamos, percebi que estava encrencada, já que a primeira coisa que serviram foi uma saladona com tomates-cerejas gigantescos. Por sorte, o molho era OK, do modo que eu comi toda a alface em volta do tomate e fiquei torcendo para ninguém perceber que eles continuavam ali.

Só que, infelizmente, eu estava sentava no lugar de honra, bem ao lado do presidente, e ele reparou total. Ele se inclinou pra mim e mandou:

- Sabe que esses tomates aí foram importados da Guatemala? Se você não comer, vai causar o maior incidente internacional.

Eu tinha muita certeza de que ele estava brincando, mas não foi nada divertido pra mim. Eu não queria que ninguém pensasse que eu não estava apreciando totalmente o fato de eles oferecerem um jantar tão bacana pra gente, ou qualquer coisa assim.

De modo que o que eu fiz foi colocar os tomates dentro do guardanapo dobrado no meu colo quando ninguém estava olhando.

Isso funcionou surpreendentemente bem. Tão bem que, no prato seguinte, que era sopa de marisco, eu comi toda a sopa e daí, de novo quando ninguém estava olhando, coloquei todos os pedacinhos de marisco no guardanapo.

Quando a sobremesa era pra ser servida, já tinha meio quilo de comida no meu guardanapo, inclusive um pedaço de linguado recheado de caranguejo; uma seleta de legumes com ervilhas, cenouras e cebolinhas; algumas batatas coradas e um pedaço de focaccia de cebola.

Foi muito fácil pra mim esconder toda essa comida, já que os adultos estavam envolvidos em uma conversa muito animada. A única coisa que eu não consegui me esquivar de comer foi o tomate cortado para parecer uma rosa, que foi servido como guarnição das batatas coradas, e que a primeira dama colocou no meu prato, toda gentil.

- Uma rosa para uma rosa – disse, com um sorriso simpático.

O que eu podia fazer? Tinha que comer. Todo mundo estava olhando pra mim. Engoli o melhor que pude em uma única bocada e tomei por cima mais ou menos a metade do meu copo de chá gelado. Quando coloquei o copo na mesa, vi que a Rin, que tinha começado a me observar com extrema atenção no minuto em que a primeira dama colocou o tomate no meu prato, fez uma coisa muito estranha: ergueu as mãos e fingiu que estava aplaudindo. Às vezes ela faz umas coisas fofas assim, que me fazem desconfiar que talvez ela não seja um robô, no final das contas.

Foi mais ou menos a essa altura que percebi uma coisa terrível: meu guardanapo estava vazando. Aquele monte de comida lá dentro ainda não tinha manchado aminha saia, mas isso ia acontecer já, já. Eu não tinha outra saída além de pedir licença e fingir que ia ao banheiro. Então, bem sorrateira, levei o guardanapo comigo, todo amassado na mão, como se tivesse esquecido que ele estava lá.

Para todo lado que se vai na Casa Presidencial, tem agentes do Serviço Secreto de olho em você. Na verdade, são uns caras e umas moças bem legais. Quando saí da sala se jantar, perguntei a uma delas onde ficava o banheiro mais próximo e ela me acompanhou até lá. Quando estava trancada lá dentro, em segurança, joguei o jantar na privada e dei a descarga. Eu me senti meio mal, desperdiçando toda aquela comida, quando tem um monte de gente morrendo de fome, sabe como é.

Mas o que mais eu podia fazer? Teria sido muita falta de educação ter deixado tudo aquilo no prato.

O problema do guardanapo, ensopado de caldinho de carne de caranguejo, foi resolvido com muita facilidade pois o banheiro, que era muito chique, tinha um monte de toalhas de mão para os visitantes, e uma cesta dourada para jogá-las depois de usar. Lavei as mãos, usei algumas toalhinhas e as joguei na cesta, em cima do guardanapo. Quem esvaziasse a cesta ia achar que eu simplesmente tinha me distraído e jogado o guardanapo ali.

Eu estava me sentindo muito bem com aquilo tudo (mesmo com o fato de, sabe como é, eu estar quase morrendo de fome, já que não tinha nada no estômago além de uma guarnição de tomate) quando, no caminho de volta até a sala de jantar, eu praticamente dei um encontrão no Inuyasha, que parecia estar indo em direção ao banheiro do qual eu acabara de sair.

- Ah – exclamou ele quando me viu – E aí?

- Tudo certo – respondi. Daí, porque aquilo era estranho, por ele ser o filho do presidente e tudo o mais, tentei me desviar dele e sair fora o mais rápido possível.

Só que não fui rápida o bastante, já que ele me deu aquele sorrisinho dele e mandou:

- Então. Você não jogou o guardanapo na privada também, jogou?