O Diário de Daniel Müller
1 Uma história sem final
O que você vai ler nas linhas a seguir são transcrições de gravações, feitas por William Müller, irmão do autor do diário mais misterioso das últimas décadas. Todos os comentários elaborados no desenvolver da narrativa, bem como a interpretação e compreensão dos sons gravados foram feitos pelo próprio William. O diário foi feito por um habitante de Porto Alegre, cidade capital do Rio Grande do Sul, no Brasil. As informações contidas nele não foram confirmadas e o Caso Müller permanece um mistério.
Diário de Daniel Müller, dia 25 de outubro de 2014
Meu nome é Daniel Müller, tenho 37 anos e sou um vendedor de artigos raros. Minha loja funciona há oito anos, mas recentemente coisas estranhas vêm acontecendo. Decidi deixar tudo registrado nestas gravações. O que você vai ouvir a seguir serão meros esforços para relembrar fatos ocorridos que ainda me assombram e me fazem duvidar da minha própria memória.
Dia 18 de outubro: saio para comprar alimentos para reabastecer a casa. Volto por volta das 19 horas. Minha casa fica em cima da loja que tenho certeza de ter fechado antes de sair, mas ao voltar percebo que ela não só estava aberta como também havia algo no chão. Aproximo-me e descubro se tratar de uma cesta com algo que parecia ser um vestido branco dobrado. Pensei que não deveria tocar em nada e chamar a polícia, mas a curiosidade foi maior. Respondi aos meus impulsos e quando percebi do que se tratava fui invadido por uma onda de terror: o vestido... (nesse momento Daniel faz uma pausa e é possível ouvi-lo inspirar profundamente antes de continuar) pertencia a minha filha que morreu em um acidente de carro... (o comerciante começara a pigarrear) ela só tinha... nove aninhos. (Aqui nota-se um soluço e a gravação é cortada).
Dia 19 de outubro: decido não trabalhar. A noite havia sido longa e ao amanhecer eu não conseguia tirar o acontecimento do dia anterior da cabeça. Passei o dia todo com mal-estar, mas decidi não contar a ninguém o que havia acontecido. Tenho certeza que não levaram nada da loja, nem da minha casa.
Dia 20 de outubro: percebo que já havia sofrido o suficiente e que se lutei até agora para superar a morte da minha filha e esposa, poderia continuar lutando. A melhor coisa a fazer seria abrir a loja e manter minha cabeça ocupada.
Às quatro horas da tarde recebo uma cliente que diz ser uma vidente. Estranhamente não lembro do diálogo que tivemos, mas lembro que ela havia mencionado coisas relacionadas a família. Tentara praticar a quiromancia e disse que eu estaria correndo grande perigo se não ajudasse a mim mesmo. Ofereci uma bola de cristal que havia adquirido há algum tempo para que visse o futuro com mais clareza, mas quando me virei ela havia desaparecido.
Dia 24 de outubro: depois de alguns dias sem nada de estranho me ocorrer, acordo de madrugada, às 3 horas, com 16 chamadas perdidas. O número? 000666. Naturalmente fiquei assustado no começo, mas depois resolvi realizar uma chamada para o número e é claro, esse número não existe.
Pois bem, finalmente chegamos ao dia de hoje. São exatamente 18 horas e 37 minutos e o dia está nublado. Pesquisei na internet algumas coisas sobre os acontecimentos que vêm me ocorrendo, mas a única informação que consegui extrair de mais de um site foi que contam as lendas que é às 3 horas da madrugada que o mal está com maior força e pode realmente influenciar na terra dos homens. Eu acho que n... (Aqui a gravação começa a oscilar e o zumbido formado não nos permite ouvir o que Daniel fala).
Diário de Daniel Müller, dia 27 de outubro de 2014
Ontem minha úlcera na perna começou a doer insuportavelmente e acabei tendo que repousar no hospital. Voltei hoje de manhã e ela já... (BAM! Um barulho extremamente forte ressoou pelo quarto onde Daniel estava). Ufa. Eu acho que... (ele respirava rápido) É, foi só a porta batendo com o... (Neste momento é possível ouvir um grito abafado de espanto, alguns barulhos e logo ele recomeça a falar com a voz vacilante) Devo... Devo estar delirando... (sua respiração é pesada). Estou em meu quarto e acabo de ver um vulto... Acho que... Parecia muito uma silhueta humana... Eu... Eu realmente não sei como, mas juro que acabo de ver um vulto flutuando na janela do meu quarto! Preciso sair pra pegar um ar.
Diário de Daniel Müller, dia 28 de outubro de 2014
Estou ficando paranoico, ouço ruídos e vejo vultos para todos os lugares que olho e até mesmo alguns clientes perguntaram se estava tudo bem comigo. Fora isso o dia não teve mais nada de anormal. Marquei uma consulta no médico para saber se havia algo de errado comigo. Espero que não seja alguma coisa preocupante.
Voltei. Ainda é dia 28. Depois de ter gravado, fui para a cozinha pegar um copo d’água e esbarrei em algo que me deixou com muito medo: as paredes estavam cobertas com marcas de mãos. Resolvi chamar a polícia e expliquei o que havia me acontecido nos últimos dias, tentando ao máximo emitir os detalhes paranormais. Eles concluíram que alguém, provavelmente um grupo de adolescentes, havia conseguido a chave da minha loja e estava tentando me assustar manipulando esses eventos. Indicaram-me uma troca de fechadura. Eu não quero mais ficar aqui. Agora são 23 horas e 18 minutos, vou fazer as malas e ficar em um hotel por enquanto.
Diário de Daniel Müller, dia 29 de outubro de 2014
Hospedei-me em um hotel aqui no centro. Acho que o barulho típico de cidade grande amenizará meu medo. São 2 horas da madrugada, é melhor eu ir descansar.
Acabo de acordar, são 3 horas e 31 minutos. (Havia uma enorme inquietude no tom de voz de Daniel). Recebi mais 16 ligações do número estranho, mas dessa vez ele deixou uma mensagem na caixa postal. (Ele suspirou e, após uma breve pausa, conseguiu continuar). Vou mostrar a mensagem e vocês tirem suas próprias conclusões... (A voz costumeira do homem da caixa postal começou a falar: Você tem, uma, mensagem em sua caixa postal. Para ver suas mensagens digite um. Para... *BIP* Mensagem recebida às, três, horas, do número, zero, zero, zero, seis, seis, seis. E então a mensagem começa. Não é possível distinguir nada, parece um monte de vozes embaralhadas falando muito rápido. Ela se prolonga por exatamente 2 minutos e 13 segundos e para.)
Realmente não faço ideia do que fazer, ainda nem fui machucado ou ameaçado diretamente e já pensei em suicídio... mais de uma vez.
Diário de Daniel Müller, dia 30 de outubro de 2014:
Não sei o que está acontecendo. (Pela primeira vez a voz de Daniel passa a impressão de desespero. Ele parece estar realmente alterado). Acabo de acordar, já passou das 21 horas, estou em meu quarto. Estou... estou vendo uma silhueta nas minhas fotos em cima da cômoda! Todas elas! Todas estão apresentando um vulto negro escondido no cenário! Eu vou... AH! (Após o grito, Daniel começa a falar realmente alto e amedrontado, é possível notar o quão aterrorizado ele está pelo tom de voz). Eu juro! Eu vi! Eu vi! Eu vi! Não, isso não pode estar acontecendo... O que eu fiz de errado?! DROGAAA!
– Pai? – Uma nova voz entrou na gravação. A respiração de Daniel fica mais pesada, sua voz vacilante.
Filha?
– Pai, estou com frio.
FILHA! (O barulho que se sucede é provavelmente da gravadora caindo no chão. As vozes a seguir se tornam mais fracas, mas é indiscutível que nesse ponto Daniel começa a chorar.)
Calma filha, papai vai te esquentar. Pega essa... Filha? FILHA?! SOFIA! Onde você...
(A gravação é interrompida por um chiado e, provavelmente, cortada ou encerrada.)
Diário de Daniel Müller, dia 31 de outubro de 2014:
É dia 31 de outubro. (Nesse ponto a voz de Daniel está tomada por uma estranha quietude e pacificidade). Acabo de acordar, são exatamente 3 horas. Meu quarto está diferente: está tomado por uma luz vermelha, as paredes estão com marcas, provavelmente símbolos, não tem mais porta nem janelas, a cama é uma mesa de arame farpado e tem velas espalhadas por todo o lugar. (Uma música começa a tocar.) Meu celular está tocando... HAHAHA! (Ele ri histericamente.) Mas é claro, é o número da besta! (Seu tom de voz é de deboche e é inevitável assumir que nesse ponto Daniel já perdeu a razão.) O Capeta tá me chamando! Dexa eu atendê no viva-voz pra vocês ficarem a par dos nossos assuntos... Oi! Luci? Sou eu o Dan!
E a gravação novamente é interrompida com um chiado extremamente alto. Apesar dos relatos dos vizinhos de não terem ouvido nem visto nada, a gravadora se encontrava no chão do quarto de Daniel. Ele está até hoje desaparecido e ninguém nunca mais ousou pôr os pés em sua loja. Resolvi transcrever as gravações neste texto para divulga-las na esperança de que alguém, algum dia, saiba me dizer o que aconteceu e onde está meu irmão.
Agradeço sua atenção,
William Müller.
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