O Diário Póstumo de Afrodite
8 Capítulo 7 - Prelúdio do Fim
Notas iniciais
Saga se ajeitou na cadeira e sorveu um gole do café preto que começava a esfriar dentro da xícara.
Fez uma breve pausa na leitura do diário e o colocou de lado, sobre a mesa talhada em madeira e pintada de branco que ele e o Afrodite haviam colocado na pequena varanda tempos atrás.
Passou as mãos sobre os cabelos escuros, puxando-os para trás, e esfregou com as pontas dos dedos as pálpebras. Seus olhos estavam avermelhados devido às várias noite de insônia que vinha tendo; a pele fina abaixo deles estava escurecida, revelando a quem quisesse ver o estado caótico que sua mente, espírito e corpo se encontravam.
Uma lágrima solitária desceu por seu rosto abatido quando lhe veio à mente àquele dia, o que antecedia o pior da sua vida.
Acabara de chegar à imobiliária para assinar a rescisão do contrato, quando avistou numa baia aos fundos Radamanthys e Valentine numa conversa animada.
Caminhou a passos curtos até o local e, sem pretender, entreouviu o assunto do qual eles conversavam, algo como balada e motel na noite passada.
— Como assim? Você não me disse que passaria a noite com seus irmãos? Mentiu para mim? – perguntou indignado por ter sido enganado.
— Saga, eu posso expl...
— Então me explica! – interrompeu a fala de Radamanthys que ficou estático, sem reação por alguns segundos. Valentine, prevendo uma desavença pelo clima ruim, saiu de fininho.
— Eu, eu... Não podia continuar com essa relação. Sabe, foi tudo tão de repente, tudo tão bom e divertido, mas agora acabou. Não dá mais. – quando Saga fez menção de que iria dizer algo, Radamanthys sinalizou com a mão pedindo que esperasse. — E eu sei que fiz você largar daquele loirinho metido, e me sinto verdadeiramente mal por isso, mas... A magia inicial passou. Ou talvez a graça em nos relacionarmos estivesse justamente na adrenalina que se apoderava de nossos corpos toda vez que você escapava do Afrodite para ficar comigo. A sensação de perigo, o medo de sermos pegos, tudo, foi tudo muito excitante.
— E você me diz isso assim, agora? – bufou, não acreditando nas informações que entravam pelos seus ouvidos — O Dite... Eu... Meu emprego... – não sabia nem em que pensar.
— Eu... Sinto muito.
— Sente? Sente muito mesmo? Droga! Eu larguei o meu marido por você, eram sete anos de casados, sete! – acusou — E ainda perdi o meu emprego aqui na imobiliária depois do que aconteceu.
— Bem, mas a sua demissão não foi minha culpa, foi do...
— Indiretamente foi. Tanto sua quanto minha.
E a verdade era essa. Se avaliasse bem a situação ainda, veria que ele mesmo era quem tinha mais culpa em tudo. Sua covardia, sua infidelidade o levou a isso.
Hades havia o demitido depois do fracasso na venda da mansão. Saga até tentou se defender dizendo que foi por um mal entendido que Afrodite havia rasgado o contrato, mas não teve jeito. Hades era impiedoso e não pensou duas vezes em colocá-lo para fora do quadro de funcionários da empresa.
Saga passou a mão direita sobre os cabelos, os jogando para trás, depois a espalmou sobre a testa. A outra mão que segurava uma pequena maleta com documentos tremia. Ele sentia o ódio queimar no seu estômago. Se pudesse quebraria algo. Mas acalmou-se o máximo que pode.
Já estava prestes a deixar Radamanthys de lado e ir até a sala do seu ex-patrão terminar o que havia ido fazer ali, quando seu telefone tocou.
Era Kanon.
A notícia que veio não podia ser pior. Bem, na verdade, podia. Mas Saga não pensou nisso, só se apressou em deixar o prédio rápido e se dirigir até o hospital onde o ex estava internado.
Como assim Afrodite estava doente? Será que era por sua causa? Não tinha como saber, mas se sentia o pior dos seres humanos por num momento como aquele não estar ao lado do loirinho.
Dirigiu tão depressa que não soube precisar o tempo que levou da imobiliária até o hospital. Mas foi rápido, muito rápido.
Adentrou o prédio, parou na recepção pretendendo perguntar onde Afrodite estava, porém, antes que a recepcionista viesse lhe atender, Kanon e Aioros saíram de uma porta grande e caminharam até onde estava.
— Cadê ele? Ele está bem?
— Saga... Ele está... – Kanon estava nervoso, as palavras não sabiam como sair da sua boca.
— Saga, vamos sentar numa mesinha lá no refeitório, por favor? O que temos para falar é sério. – Aioros disse da sua maneira paciente, mas pela feição no seu rosto, Saga sabia que o acontecido com Dite era mesmo muito sério.
— Onde ele está? Eu quero vê-lo.
— Não Saga! Primeiro vamos fazer o que o Oros falou: vamos ao refeitório e lá conversamos melhor. E depois você pode ver o Di.
Ainda meio relutante quanto a ir ao refeitório antes de ver se o Afrodite estava bem, Saga concordou e seguiu com eles.
...
— É minha culpa... – a essa altura Saga chorava arrependido sobre a mesa de metal.
— Não Saga, não é. Ninguém sabia; só ele e os médicos com os quais ele se consultava periodicamente. E pelo jeito a doença já é antiga, embora ele só tenha descoberto há poucos meses. E nós, os amigos e familiares – disse se referindo a Albáfica e também a Shion — só ficamos sabendo hoje pela madrugada. Como eu disse, ele passou mal ontem durante a exposição com o tal do Máscara da Morte e, por isso, veio parar no hospital. Os médicos que o atenderam foram quem nos contaram o estado da saúde dele.
Saga levantou a cabeça e afastou a mão de Aioros que tentava acariciar a sua.
— Posso vê-lo agora? – perguntou enquanto enxugava com as costas das mãos o rosto molhado pelas lágrimas.
— Claro que pode.
— Se ele quiser.
Aioros e Kanon falaram ao mesmo tempo, e o último se arrependeu de ter dito o pensamento em voz alta. Aioros o olhou torto por isso.
Saga nada pode dizer a não ser concordar mentalmente com o irmão.
— Vamos. – Aioros demandou e os outros o seguiram em silêncio.
Saíram do refeitório, pediram permissão ao guarda que estava parado em pé próximo a porta que dava acesso aos dormitórios e a atravessaram logo depois, seguindo diretamente para o quarto onde Afrodite estava acomodado.
Algumas pessoas estavam sentadas nas cadeiras distribuídas pelo corredor; outras, dentro dos quartos onde estavam seus entes queridos.
No quarto de Afrodite estavam: Albáfica sentado na cadeira próxima à cama; Milo e Camus do outro lado, sentados em cadeiras que roubaram do corredor; Shion num canto próximo à janela; Aiolia e Mu abraçados encostados à parede também próxima à janela; e Aldebaran e Esmeralda em pé no meio do quarto, conversando sobre algo. Shaka e Ikki haviam saído a pouco, o indiano dizendo ir preparar um chá calmante para servir aos outros.
Quando entraram no quarto e todos os olharam instintivamente, Saga sentiu-se envergonhado, mas cumprimentou a todos do mesmo jeito.
Quando avistou Afrodite deitado na cama hospitalar, obviamente meio abatido pela repentina demonstração de avanço da doença, seus olhos encheram-se de água novamente e ele teve de se segurar para não derramar mais lágrimas.
Afrodite, ainda com mágoa, abaixou a cabeça, desfez o sorriso que ousara aparecer quando acordou e avistou os amigos todos ali, e apertou forte a mão do Albáfica.
Saga se aproximou lentamente da cama, não sabendo ao certo se tentava ou não uma aproximação maior. Respirou fundo.
— E-Eu nem sei o que dizer, nem... – as lágrimas venceram e desceram pela sua face —... Desculpe-me por tudo. E-Eu ainda te amo e só percebi isso agora que... – não conseguiu terminar de falar.
Afrodite suspirou cansado e pediu que os outros saíssem do quarto; queria conversar a sós com o ex.
Albáfica pensou em se negar a sair, pois acreditava que a presença de Saga afetaria negativamente a saúde do irmão, mas calou-se. Se era o que Dite queria, então que fosse assim. Não iria de maneira alguma negar um pedido dele, não quando ele estava à beira da morte.
— Pois bem, pode começar. – disse assim que a porta bateu e que só restaram os dois no quarto.
Saga se aproximou mais e sentou na cadeira antes ocupada por Albáfica.
— Di, me desculpa, eu estava enganado... – calou-se um pouco e depois continuou — Por que não me disse? Se tivesse dito eu...
— Você teria ficado comigo por pena. Sabe que eu não gosto que sintam pena de mim.
— Mas antes você não sabia que eu... Que eu, bem, você sabe.
— Que você estava me traindo? É, eu não sabia. Mas eu te amava, e por mais egoísta que eu seja não poderia ver você, nem ninguém sofrendo antecipadamente a minha morte.
Analisando o que o mais novo disse, Saga percebeu que ele disse “amava”, no passado.
— Você ainda me ama? S-Sabe, porque se sim, nós podem...
— Podemos? E o seu amante? Já sei! Ele te deu o pé na bunda, não foi?
Não era a intenção de Afrodite ferir Saga. Ele jurou que o trataria da melhor maneira possível, ou talvez apenas com impassibilidade, pois sabia que ele também – mesmo que não o amasse mais – sofreria a sua ausência depois que partisse. Entretanto, vê-lo ali todo arrependido, com o rabo entre as pernas, estava sendo irresistível para Afrodite não destilar um pouco do veneno que possuía.
— Di, por favor, não me trate assim. Eu sei que fiz por merecer, mas eu ainda te amo. Muito! – Saga notou que só agora percebia isso.
— Eu, eu te amo. – apontou para o próprio peito – Saga, você se lembra de quando eu descobri do rapaz com quem você estava mantendo uma relação, e quando você quis me deixar? Então deve se lembrar também que eu implorei para que não me deixasse, ou que tentássemos de novo. Sabe por que eu fiz isso?
Saga não disse nada, apenas o mirou condoído, então Afrodite continuou.
—Porque eu te amo. Porque queria passar o restante dos meus poucos dias de vida contigo, mas você não teve compaixão de mim. Você me humilhou. – Afrodite, embora ferisse o outro com suas palavras, não conseguiu segurar as suas lágrimas e as deixou cair. — Porque eu te amo Saga!
Quando Saga ia responder às palavras de Afrodite, um homem alto, moreno, de semblante duro, abriu a porta do quarto, interrompendo a conversa árdua que estavam tendo.
Saga o reconheceu dos jornais. Se não estava enganado, o nome dele era Ângelo Vetraska, o tal Máscara da Morte que Aioros havia citado mais cedo. Havia sido na exposição organizada por ele que Afrodite passara mal.
Ângelo entrou no quarto e, não se importando com a presença de Saga, caminhou até o outro lado da cama, pegou nas mãos do Afrodite e perguntou se ele estava bem.
Aquele contato incomodou Saga que baixou o olhar.
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