O Diário
7 Capitulo 7
Notas iniciais
7.
Eu era estupida! Mais que isso, boba, idiota! Por que tive a brilhante ideia de tirar minha pulseira? Ela nunca me atrapalhou em nada e logo hoje me senti incomodada por está-la usando?! Agora eu a tirei e a perdi!
Boa Hinata!
Estava agachada em baixo do piano tateando o chão para tentar achar a pequena corrente de ouro. Só poderia estar aqui! Eu não me movera mais do que nos bastidores ate o palco e fiquei a maior parte do tempo aqui na lateral junto aos instrumentos musicais. Com um pouco se azar, talvez tivesse rolado ou fora chutada para algum lugar nas primeiras fileiras. Teoricamente seria tão fácil... Por que eu não a encontrava?
Ouvi um barulho de coisas caindo nos bastidores e me levantei as pressas indo checar e logo na entrada já vi uma poça de tinta espalhada e varias coisas debruçadas sobre ela. Estiquei os olhos por sobre matérias de limpeza, pedaços de papelão, arvores de taboas dos cenários antigos e telas de cidade, tudo caprichadamente encharcados com os líquidos viscosos de cor azul e laranja berrante.
E finalmente reparei nele, tirando uma das caixas sujas da cabeça e se levantando ensopado.
Era ele... De novo, ele...
– Era o que faltava... – Ele se lamentou, estava de costas para mim e provavelmente não me ouviu chegar, não sabia que eu o observava.
– Você esta bem? – Criei coragem para perguntar.
Sua primeira reação foi dar um pulo de susto, ficando de pé quase imediatamente, depois se virou lentamente, me encarando com um sorriso lindo que não pude identificar o significado.
– Você?! – Ele endireitou a postura e coçou a nuca sem jeito por ter sido pego na bagunça, só então percebeu que sua mão estava suja de tinta e que acabara pintando os cabelos também. – Aah, droga...
Tentei segurar o riso pela reação e expressão que ele esboçou, não queria que pensasse que eu estava de deboche ou algo assim.
– O que aconteceu aqui?! – Perguntei para disfarçar.
– Aah, eu estou cuidando do cenário... Estava... – Ele respondeu cruzando os braços e encarando o estrago que provocara. – Sou um desastrado, acabei escorregando.
– Mas por que você esta fazendo isso? Deveria esta em casa, decorando o... – Parei de falar percebendo o que eu iria dizer, aquele fato fora uma surpresa tanto para mim quanto para ele, ainda não acreditava que era mesmo real. Sentir-me tímida de repente, mas ainda assim, conclui. – Decorando o texto...
– É mesmo... – Ele sorriu. – Você deve estar bem decepcionada, não é?!
– Como assim? Por que eu estaria decepcionada?
– Ué... Você estava esperando contracenar com alguns daqueles galãzinhos de colegial e acabou acontecendo “isso”...
– Ah sim... – Eu ri da forma que ele falou gesticulando.
– Imagina... Eu vim aqui cuidar dos bastidores como um castigo, então o professor olha para mim e “boom”! Acabo virando protagonista?! Eu realmente não tenho ideia de como isso acabou acontecendo...
– Não aconteceu o mesmo comigo?! Eu não queria contracenar com nenhum galã! Eu deveria estar cuidando da musica. – Então encostei-me na parede e suspirei. – Metade das garotas do clube de teatro devem me odiar... O que Ebisu-sensei estava pensado?!
Ele se escorou na parede ao meu lado e suspirou também, parecia tão desconfortável com a peça e a situação quanto eu. Ele também não queria fazer aquilo, também parecia sufocado pelas expectativas de todos.
Fiquei pensando no motivo: Por que logo eu? Ou ele? Por que a gente?
– Ele disse que nós temos “química”... – Ele falou casualmente.
Corei ao ouvi-lo falar assim e meu coração pulou uma batida, mas não queria que ele percebesse e então não pensei muito para prosseguir.
– Ele quer provar alguma coisa. Ebisu-sensei vive dizendo que é um gênio que foi injustiçado pela “indústria teatral”.
– Seja lá o que isso signifique... – Ele deu um sorriso torto.
– Acho que só significa que ele quer fazer uma peça de sucesso com dois amadores sem qualquer talento ou motivação. Ouvi dizer que os “gênios” gostam de desafios.
– E que desafio... – Ele deu os ombros. – Parece mais que ele tem um ego enorme.
– Não da nem para imaginar... Como eu vou fazer uma garota desbocada e extrovertida?!
– Ora, não é como se o papel de riquinho engomadinho fosse perfeito para mim, certo?!
Nós ficamos em silencio.
Eu me imaginava fazendo uma das poucas cenas de que me lembrava do roteiro, aquele jeito de falar cheio de gírias e palavrões e expressões exageradas e a ferocidade de uma garota de rua.
Encarei o rapaz ao meu lado e percebi que ele provavelmente pensava o mesmo que eu, tentando se encaixar em um personagem de falas perfeitas, educação impecável e sotaque inglês, pronto para esperar a ‘hora do chá’.
Então começamos a rir, sem mais nem menos, ao mesmo tempo. Nossas conclusões foram as mesmas...
– Vai ser interessante de ver... – Ele falou casual e então estendeu a mão em um cumprimento. – Sou Naruto Uzumaki!
Eu o retribui e apertei a sua mão, então percebi que a tinta ainda estava fresca e aquele simples gesto acabou me sujando também.
– Ah, droga! – Ele se apressou em pegar um pano para nos limpar. – Sou um desastrado!
Ele me fazia rir, de uma maneira diferente de qualquer outro. Ele não tentava ser engraçado, mas seu próprio jeito espontâneo e natural alegrava o ambiente.
O sorriso que ele me lançou travou minhas reações, aquelas fileiras de dentes perfeitos me hipnotizaram, tamanha pureza que transmitia. Meu olhar não conseguiam desviar-se e, quando tentavam, acabavam caindo em outra armadilha: seus olhos azuis.
Meu coração batia rápido quando me dei conta de que segurava minhas mãos junto as dele para limpa-las. Aquele contato tão repentino fez meu rosto arder de vergonha, estava certamente corada, e ele acabaria percebendo se eu não fizesse nada.
– Hinata, Hinata Hyuuga! – Eu disse timidamente, disfarçando. – Prazer em conhece-lo, Naruto-kun...
– O prazer é todo meu...
Eu sorri contagiada por seu sorriso, deixando-me cair na cilada conjunta de olhos e dentes perfeitos que era direcionada a mim. Nunca senti as reações que cada gesto dele me provocava, tudo era inédito e desconhecido. E eu gostava.
Curiosa, querendo saber do porque eu me sentia tão bem com alguém que acabara de conhecer, percebi que iria mesmo ser muito interessante contracenar com ele.
***
Foi ali que começou. Os dois se conheceram naquele momento... E Hinata não se lembrava do antes ou depois e não sabia do contexto da conversa... Mas precisava?
Ela tinha parado de escrever seu diário quando essa lembrança soou na sua mente sem aviso. Deixou uma frase no meio e ficou pensativa sobre aquilo, tentando entender e analisando essas e outras das lembranças recentes com o loiro.
Seu “ódio” de antes desapareceu...
Como essa onda de sentimentos era contraditória. Em uma lembrança ela o queria distante para escapar das más sensações que ele a proporcionara e em outra ela estava agradecida por sua proximidade e dominada por seu sorriso que a cativava e acalmava.
Uma foi seu primeiro contato e a outra foi o ultimo... E tudo era diferente...
Se decepcionou com ele. – essa foi a única conclusão logica que ela pode tirar disso.
Mas por que?!
Ela cobriu a cabeça com as mãos, se esforçando ao máximo para recordar o que ela viu, ou o que Naruto fizera naquela noite que despertou sua fúria.
Repassou seus passos mentalmente: Ela entrou na sala; ele estava lá surpreso ao vê-la; ele tentou se explicar com mentiras; a raiva a dominou;
Ela entrou e viu... Nada...
Ele tinha feito... Nada...
Não conseguia se lembrar...
Como pode brigar com Naruto hoje por causa de algo que ela simplesmente não se lembrava? Um acidente é apenas isso, como pode falar daquela maneira sobre isso, acusando-o?! Ela praticamente o culpou, isso era tão injusto. Sua raiva era tanta que deixou-a controla-la e ele tinha razão por responder da forma que respondeu.
Ela não sabia nada sobre si mesma, não teria motivo para ele revelar algo dele.
Naruto havia entrado no quarto tão simpático e com aquele sorriso, o mesmo de quando se conheceram, e, por causa dela tudo se foi. Seu bom humor desapareceu com as palavras ríspidas e frias que ela proferia em um momento de raiva idiota.
E por que? Não sabia!
Poderia ter feito tanta coisa diferente: em vez de gritar e acusar, poderia ter sido calma e perguntado como uma pessoa normal; Naruto responderia, obviamente, era sempre tão gentil e preocupado com ela.
Suspirou, pensando... Fora as lembranças embaralhadas dela, só vira Naruto uma vez, no dia anterior, e sua presença a marcou e a fez se sentir bem. Como se sentir tão confortável com alguém que mal conhecia?! Ela se perguntou o mesmo no dia em que se conheceram nos bastidores e naquela ocasião decidiu se aproximar para descobrir o motivo.
Hinata se deitou, repousando a cabeça no travesseiro, queria desvendar seus sentimentos de novo, vê-lo e desfazer essa confusão em sua cabeça. Queria que ele direcionasse novamente seu sorriso cativante e seus olhos azuis da mesma forma como antes.
Então ela constatou enfim que estava arrependida de como agiu com Naruto naquela hora e queria se desculpar.
Sentiu-se estupida, tanto quanto naquela hora em que perdeu sua pulseira por retira-la do pulso sem motivo. Fizera o mesmo com Naruto, sentiu-se incomodada e então o afastou, agora estava sem ele e desesperada para encontra-lo.
Era uma comparação idiota, mas que mostrava precisamente o que sentia.
***
– Tsunade-sama, suspeitou de alguma coisa?! – Kakashi perguntou chegando a mesa da cafeteria do hospital com dois copos descartáveis de café.
– Não, ela estava muito preocupada com a garota. – Kurenai pegou o seu e bebeu um gole minimo.
– Melhor, para evitar uma situação desagradável. – Kakashi pensou um pouco se sentando ao lado da mulher. – O que houve na sessão? O que Hinata disse?
– Kakashi, existe um código de privacidade entre um médico e seu paciente. Você deveria saber. – Ela disse.
– Relaxa, quebrar as regras de vez em quando não faz mal nenhum, principalmente se é para um bem maior. – Ele pegou o livro da mochila, lendo-o.
– E o que seria um bem maior?!
– Ajudar uma pobre garota confusa e sem memoria, claro.
– Claro. E isso não tem nada haver com vingança, obviamente.
– Huum, talvez só um pouquinho...
– Kakashi, Asuma e eu aceitamos te ajudar, mas você sabe como é difícil reabrir um caso. Se quer mesmo levar isso ate o final, vai ter que colaborar com a gente!
– Tudo bem... – O socorrista colocou o livro na mesa e empurrou em direção a mulher. – Isso é tudo ate agora.
Kurenai analisou, não parecia com os livros de capa colorida berrante que ele sempre lia, com o tempo poderia ter mudado o gosto literário, mas era difícil de acreditar. Ao abri a primeira folha percebeu que era escrito a mão com uma caligrafia linda, mas as bordas eram debotadas como se fosse um livro velho ou um novo mal cuidado.
Leu cada letra atentamente e então, quando percebeu o conteúdo, passou as paginas mais rapidamente, apenas passando os olhos por cima dos títulos e datas.
– Os maiores segredos de uma das famílias mais tradicionais da cidade... – Ela devolveu livro. – Onde você conseguiu isso?
– Apenas encontrei por ai. – Kakashi voltou a ler. – Sou um cara sortudo.
– A Hinata...?
– Não, eu também pensei que fosse, mas comparei a caligrafia e vi que não era.
– Isso não seria suficiente? Asuma deveria ver isso.
– Nada é tão simples, ainda precisamos de provas e uma testemunha ajudaria também. – Kakashi disse. – Infelizmente a única que temos é uma garota boba, inocente e desmemoriada... O que você acha?
– Eu disse que iria ajuda-la. – Kurenai afirmou.
– Eu agradeço! Agradeço por Asuma atender o meu pedido também. É bom saber que tenho algum apoio.
A doutora o observou, ele tomava um gole de café enquanto mantinha o livro a frente do rosto, lendo-o atentamente. Provavelmente já o lera centenas de vezes. Kakashi podia esconder seus sentimentos, mas ela via como ele estava, de fato, preocupado com a situação e talvez com aquela garota também.
– É bom ver você se importar novamente com alguém depois do que houve com a Rin e o Obito.
– Kurenai! – Kakashi fechou seu livro de forma audível. – Hinata não é minha paciente, muito menos minha amiga! – Ele encarando a psiquiatra serio. – Para mim, ela é apenas mais uma peça do quebra-cabeças, uma personagem cuja historia me intriga. Só isso!
– Sinto muito. Apenas pensei alto.
– Não... – Ele balançou a cabeça negativamente, se mantinha extremamente calmo. – Suas psicologias não funcionam comigo e não quero que tente usa-las em mim novamente.
– Tudo bem, vou me deter apenas na garota Hyuuga. – Ela se rendeu.
Kakashi então esticou os olhos para a entrada quando viu Naruto chegando com uma cara furiosa, sentando-se em uma mesa distante. Sakura e Ino o acompanhavam, mas ele parecia querer expulsa-las de lá com o olhar.
– Você o conhece?! – Kurenai olhou para trás, encarando o rapaz.
– É outra peça do quebra-cabeças, uma que eu ainda não consegui encaixar na historia.
***
Ela não tinha um sono tranquilo, não teve ontem e não teria agora. Tentou adiar esse momento, mas o cansaço, provavelmente provido dos remédios, a venceu. Agora estava presa no mundo de sua mente vulnerável e perdida, com o suor frio grudando lhe os cabelos na testa e a respiração alta com leves toques de dor, seus músculos estavam travados enquanto se revirava na cama assombrada por sua imaginação e tentando escapar de seu maior medo...
Levantei com uma dor fortíssima na nuca e minha visão estava turvada, todo estava escuro e minha garganta estava seca. Meus ouvidos pareciam surdos, um silencio mórbido como se nem meus próprios sons pudessem se propagar pelo ambiente.
Ambiente? Onde eu estava afinal? Elevei meus olhos me encontrando em um corredor, atrás de mim havia uma porta dupla sem maçanetas, tentei empurra-la, mas estava presa. Um tapete avançava por baixo dos meus pés ate o outro lado onde havia outra porta dupla entreaberta.
Não queria prosseguir, não queria checar a outra ponta do corredor, um tipo estranho de receio tomou conta de mim, o pânico do desconhecido que parecia irreal.
Então, ao mesmo tempo que constatei meu medo, uma musica inundou meus ouvidos. Era lenta e melancólica melodia de piano, tinha um ritmo pesado e triste, perfeita para um filme dramático onde o único objetivo era arrancar lagrimas de seus espectadores.
Por um motivo que eu mesma desconhecia, andei em direção da melodia para a porta a frente, o fim do corredor. Eu estava sendo atraída de uma forma que eu não conseguia resistir.
Toquei a maçaneta timidamente e terminei de abri-la devagar. Encontrei uma sala era ampla, mas estava quase vazia... Havia uma lareira acesa em uma das paredes e uma grande vidraça que levava a uma sacada do perceptivo segundo andar.
Um piano de calda estava centralizado bem no meio com um ressalto no chão como um pequeno palco. E a musica vinha de lá, mas, do ângulo que eu estava, não era possível ver quem estava tocando.
Me aproximei a passos lentos, cada vez mais curiosa a cada nota tocada e quando finalmente cheguei ao alcance do pianista me surpreendi: Não tinha ninguém lá, a musica de fato saia do instrumento, mas nenhuma de suas teclas se movia;
– Você é minha! – Ouvi e senti um abraço as minhas costas.
Mãos grandes se pesadas se agarraram aos meus braços me virando bruscamente. Aquele homem estava lá e seu toque machucava, queimava minha pele. Ele me empurrou para trás, me forçando a me sentar sob as teclas. O som barroso do contato do meu corpo com o instrumento se sobressaiu a sala encerrando a musica de antes. Eu tentei gritar, mas ele me calou segurando meu queixo com força.
– Shh... Eu gosto do seu silencio...
Me vi novamente em um ambiente em negativo, um tipo de resposta as minhas lagrimas porque realmente chorei, inaudível pelo pânico que possuía meu coração.
Percebi que meus olhos ardiam, era sangue que se espalhava pela minha face. Então minha respiração falhou quando o senti cravando as unhas no meu pescoço.
Hinata abriu os olhos, pulando da cama reagindo ao tamanho o susto. Sentiu o rosto encharcado e tocou-o hesitante para se certificar de que eram mesmo só lagrimas. Ela se levantou e foi cambaleante para o banheiro. Ficou em frente o espelho e então lavou o rosto as pressas tentando lavar o nojo que seu pesadelo provocava.
Suas mãos estava tremulas novamente e ela segurou as laterais da pia tentado controlar a respiração que se mantinha presa na garganta.
– Foi um sonho... Apenas um sonho... – Ela repetia para si mesma. – Imaginação...
A garota levantou o rosto, encarando seu reflexo, ergueu um pouco a cabeça e analisando seu pescoço atrás de alguma marca. Não havia nada... Ela respirou pesado novamente e afastou o cabelo para um lado se inclinando mais para visualizar a sua nuca.
Estava lá: um leve sinal, um corte cicatrizado que ela soube imediatamente ser o mesmo de seu pesadelo.
Voltou a chorar e se virou de costas para o espelho, desabotoando três botões de seu “uniforme de paciente” na altura do meio das costas e afastou o tecido branco. Fitou o reflexo, esticando o pescoço para ver melhor e conseguiu enxergar outra cicatriz maior e bem mais marcada em sua pele pálida.
Hinata perdeu as forças por um momento, sentando-se no chão, tremula, enojada, com a visão torta pelas lagrimas e a respiração quase morta.
– São reais... Todas elas... – Chorou ainda mais. – Ele é real...
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