O Diário
4 Capitulo 4
Notas iniciais
4
Eu estava perdida em um campo escuro, não conseguia enxergar a trilha, minha cabeça doía e eu me sentia cansada. Parei e me sentei, usando uma pedra de encosto, fechei os olhos, esperado o mal estar passar.
O ar a minha volta ficou quente e percebi que começara a chover, não queria sair dali, mas já estava ficando encharcada.
Abri os olhos e vi como o céu estava avermelhado, um tom que era anormal a tudo que já tinha visto. Era como se tudo se tornasse uma imagem negativa de uma foto.
Então percebi que os pingos que caiam sobre mim era avermelhado e viscoso, com um cheiro incomum... Sangue?!
Me levantei desesperada, tentando me cobrir e tirar o liquido de mim, em vão. Queria correr desse lugar, me afastar mesmo não sabendo o caminho para casa!
Antes de tomar a iniciativa, algo me rodeou, barrando todas as passagens, era um tipo de poder ou energia, fogo? Eu não conseguia distinguir.
Ouvi algo como um tipo de risada sombria e olhei para a minha frente encontrando aquela criatura enorme me encarando com seus olhos vermelhos. Parecia ser feito do mesmo tipo de “magia” que me prendia.
Abaixo dele havia aquele homem, parado apenas observando, seus olhos se abriram lentamente revelando serem os mesmo da criatura. Além disso, todo o poder parecia vir dele.
– Você agora é minha! – O ouvi, mas era uma voz rouca e emanada de puro ódio.
Cai sentada, exausta, com uma dor no coração que parecia querer explodir, não podia respirar, nem me mexer, ou gritar...
***
Hinata abriu os olhos surpresos e se pôs sentada de supetão, o movimento rápido a fez sentir uma pequena dor nas costelas. Estava ofegante, suando frio e tremendo sem parar.
O que tinha acontecido? O que eram aquelas imagens? E essa sensação sufocante que a atormentava, como se algo estivesse aos poucos estraçalhando sua alma?
Antes de por seus pensamentos em ordem, a porta se abriu e uma enfermeira apareceu apressada.
– Senhorita, esta tudo bem?!
– Onde eu...?! – Hinata tentou falar, mas teve que parar, pois sua cabeça doía de forma insuportável, cobriu as têmporas com as mãos tentando controlar sua respiração desregular.
A enfermeira se aproximou e checou brevemente a menina, percebendo como ela estava agitada e com o pulso acelerado. Tentou faze-la se deitar, mas a mesma se negou se desfazendo raivosa de seus toques.
– Melhor eu chamar, Shizune-senpai...
***
– Sim, Kakashi... – Tsunade falava ao celular em sua sala. – Tudo anotado! Entrarei em contato com ela e, dependendo de como for, a chamarei antes do fim de semana... Agradeço mais uma vez.
Ela desligou e ouviu alguém bater na porta.
– Entre! – Ela mandou e então Hiashi atravessou a porta.
– Mandou me chamar? – Ele perguntou.
– Sim, queria falar com você, é serio. – Tsunade disse. – Por favor, sente-se.
– É sobre a Hinata, certo?!
– Sim, os resultados dos exames que pedi dela chegaram.
– E então?!
– Não a nada de errado! Fisicamente, ela esta perfeita!
– Isso é ótimo! – Hiashi deu um verdadeiro sorriso.
– Não, não é! – Tsunade disse simples. – Se não há problemas físicos então sua falta de memoria é um problema psicológico.
– Como assim?!
– Significa que ela esta mentalmente perturbada e que um trauma causou esse bloqueio.
– Isso... É possível?
– O acidente foi o estopim, mas acho que isso já estava na cabeça dela a algum tempo. Embora só um psicólogo possa afirmar com certeza.
O Hyuuga ficou quieto e pensativo, Tsunade podia notar que ele estava analisando a situação, mas o que passava pela cabeça dele era uma incógnita. Não parecia preocupado com a filha, na verdade, estava nervoso.
Decidiu prosseguir com calma para tirar o máximo de informações possível.
– Hiashi, no dia do acidente, por que Hinata estava na rua as três da manha, tão longe de casa?!
– Eu... – Ele foi pego de surpresa pela pergunta, pensou um pouco antes de responder. – Eu não sei. Ela deve ter saído escondida!
– As coisas que ela carregava foram espalhadas no impacto com o carro, o socorrista que a atendeu é muito observador, me disse que tinha o suficiente na mochila para uma pequena viagem.
– Isso é ridículo! Hinata não tinha motivo para fugir!
– Mesmo?! – Ela disse em um tom irônico que fez o Hyuuga a encarar furioso.
– Sim! Minha filha tinha uma boa vida.
Um silencio tomou conta do lugar e Tsunade respirou fundo antes de prosseguir.
– Hinata tinha ferimentos que não condiziam com o atropelamento e cicatrizes que afirmam que isso era constante.
– Do que esta falando?
– Eu fiquei quieta esse tempo porque não queria criar alarde ao “agressor”, decidi esperar que ela acordasse para acusa-lo oficialmente!
Tsunade desviou o olhar por um segundo sentindo certo ódio ao se lembrar a amnesia da garota, mas depois encarou o Hyuuga novamente.
– Mas parece que o desgraçado tem sorte!
– O que esta insinuando?!
– Não estou insinuando nada! Só quero descobrir como as coisas aconteceram. Porque ela estava sofrendo abusos e você ou não percebeu, ou não se importou.
Hiashi se levantou de supetão, batendo na mesa com as mãos, enraivecido.
– Quero que de alta para Hinata, imediatamente!
– O que? Você não pode esperar que eu de alta para a garota no dia após despertar de um coma!
– Não importa, quero leva-la para casa hoje ainda!
– Não posso permitir, ela ainda não esta bem!
– Se os exames não mostram nada, então ela esta bem e vou leva-la...
Ele se encaminhava para a porta da sala, indo rápido.
– Por que tanta pressa em tira-la daqui? Tem medo que ela se lembre de algo? Que ela fale o que não deve para alguém?
– Tsunade! – Ele disse firme em tom de repreensão, olhando para trás para encara-la, era possível ver uma veia de ódio pulsando de sua testa.
– Tsunade-sama! – Uma enfermeira entrou na sala sem cerimonia, mas se arrependeu ao ver o clima pesado que dominava o local.
– O que quer? Não deve entrar assim na minha sala.
– Perdão, mas é urgente! Shizune-senpai esta chamando!
– Shizune?! Por que?
– Eu não sei, mas é algo com a Srt. Hyuuga.
Tanto Tsunade quanto Hiashi foram apressados para o quarto de Hinata, sem saber direito o que esperar. Ao chegar, a diretora entrou impedindo que o Hyuuga viesse junto, mantendo-o no corredor, observando pela vidraça.
Hinata ainda estava sentada na cama, chorando ofegante, Shizune tentava tranquiliza-la e a enfermeira que a atendera primeiro estava ao lado.
– O que houve?
– Eu a ouvi gritando quando passava pelo corredor. – A enfermeira explicou. – Quando entrei, ela parecia alterada, decidi chamar a Shizune-senpai.
– Ela esta mais calma agora, mas Hinata estava quase catatônica quando cheguei...
Tsunade suspirou pesado e fez sinal de que as duas saíssem e, assim que estava sozinha com sua paciente, se sentou na cama e perguntou gentil:
– O que esta sentindo?
– Estou bem... – Mentiu.
– Hinata, não posso te ajudar se você não deixar. Vamos, diga a verdade!
A Hyuuga baixou a cabeça, limpou suas lagrimas e desviando o olhar, fugindo do tom de reprovação de Tsunade.
– Minha cabeça esta doendo um pouco...
– Só isso? Nenhum outro sintoma?
– Não...
– E o que aconteceu?
– Eu não sei... – Hinata respondeu simples, mas notou outra vez o olhar severo da médica e resolveu poupar tempo das reclamações dela e prosseguiu. – Eu estava com o Naruto, não vi ele ir embora, acho que peguei no sono... E então...
– Então você teve um pesadelo?! – Tsunade perguntou vendo um aceno positivo da paciente. – E sobre o que era?
– Não tenho certeza... Tinha um homem e um monstro e estava chovendo sangue... Eu me sentia muito mal.
– Você já sonhou com algo parecido alguma outra vez?
– Não, acho que não. – Hinata suspirou. – Estou tão cansada...
A médica analisou sua paciente, suas mãos ainda tremiam, depois desviou o olhar focando-se no quarto e nos objetos que ela não tinha vista lá antes: Um Livro, um celular e...
– E esse caderno aqui?! – Tsunade pegou-o folheando as parte das folhas em branco.
– A Sakura quem trouxe, é da escola.
– Hinata, eu tenho um pedido para você. – A diretora disse com um sorriso simpático. – Quero que você escreva aqui todas as suas novas experiências.
– Como assim?
– Bem... Quero que você escreva: Se você tiver outro pesadelo; Se alguém parecer familiar, ou se lhe tratar mal; Se achar algum lugar bonito; Se sentir algo diferente; Ou se ficar confusa sobre algo; Escreva sobre tudo que achar relevante.
– Como um diário?
– Isso, exatamente, como um diário!
– E por que?
– Bem, a sua mente esta liberando informações o tempo todo, mas você não esta conseguindo interpretar inteiramente. Se escrever eventualmente acabara passando essas informações para o papel também.
– Entendi. – Hinata pegou o caderno e abriu em uma parte em branco.
– Não precisa fazer isso agora, é melhor descansar um pouco. – Tsunade sorriu.
– Acho que não vou dormir nunca mais...
O sorriso da médica desapareceu, percebendo que a garota era ainda mais vitima do que imaginava, Hinata era mais do que inocente, estava aleia a tudo que estava acontecendo de tal forma... Tsunade sentiu uma imensa vontade de revelar o pouco que sabia, mas era obvio que não poderia fazer isso, seria ríspida de mais, traumatizante, a garota não merecia passar por isso.
Saiu do quarto, deixando a menina escrevendo seus medos, e encarou Hiashi que estava com um olhar interrogativo sobre a situação da filha.
– Depois disso, ainda quer leva-la embora?!
– Se não assinar a alta dela ate o fim da noite de amanhã... – Ele começou calmo. – Entrarei em contato com um advogado para conseguir uma ordem judicial para leva-la e trata-la em casa por um médico particular de minha escolha.
Ele saiu e Tsunade xingou baixo, desejando não ter falado sobre a condição de Hinata ao pai, agora estava correndo o risco de não poder mais acompanhar o caso dela, alias, se ela fosse para casa estaria novamente ao alcance de quem quer que a estava abusando e, sem memoria, a garota estaria ainda mais exposta ao perigo. Hiashi não entendia isso, ou fingia que não entendia.
A reação dele foi muito estranha...
Ela acabara de voltar a sua sala com Shizune, onde poderiam conversar sem correr o risco de serem ouvidas.
– O pesadelo da Hinata era...
– Sim, Shizune. Tenho certeza que foi sobre o seu agressor. Quantas vezes ela pode ter sonhado sobre isso e nem fazer ideia?!
– Parece perturbador.
– Ela pode não lembrar dos traumas, mas eles ainda existem.
– E se chamarmos a policia?
– E só serviria para alertar o agressor, Hinata nem sabe de nada e Hiashi não parece ter interesse em fazer uma denuncia.
A diretora se sentou em sua cadeira, colocou as mãos no rosto e suspirou profundamente. Esse assunto já estava a desgastando.
– Acha que foi o Hiashi-sama?
– Se eu tivesse suspeitas sobre ele, mesmo que mínimas, não permitiria que ela fosse para casa, mesmo sob essa pressão.
– Então vai mesmo dar alta para ela?
– Não tenho escolha, pouco custa ele conseguir ordem legal e tira-la do país!
– E isso seria ruim? Ela ficaria longe e sendo tratada pelos melhores médicos. – Shizune disse casual recebendo um olhar mortal da diretora, então se corrigiu imediatamente. – Não que a senhora não seja uma das melhores, mas...
– Hiashi esta escondendo algo, pode nem estar relacionado com a Hinata, mas ainda tenho um mal pressentimento sobre isso. – Tsunade explicou.
– Entendo... Quando a senhora mete algo na cabeça, ninguém te faz mudar de ideia.
– Exatamente.
***
Naruto andava com um sorriso bobo pelos corredores do pequeno apartamento. Estava feliz por ter ficado aquele tempo com a garota e conversado com ela.
Hinata... Ele sorriu de novo ao pensar nela.
Foi estranho no começo, mas pode ver pela forma que ela o olhou que ainda era a mesma de sempre.
Kakashi estava certo, não poderia deixar as coisas terminarem assim, se ele podia fazer mais por ela. Se a ajudasse a se lembrar das coisas boas, tinha certeza de que ela não o odiaria mais.
– Que cara de idiota é essa? Posso saber? – Ele ouviu a voz vinda do escritório.
– Ero-sannin?! Não sabia que estava em casa. – Naruto entrou.
E velho estava sentando a mesa com varias folhas de papei espalhadas, uma delas em sua mão. Havia uma garrava de bebida pela metade ao lado e um prato com tira-gostos.
– Resolvi tirar uma hora de folga das minhas pesquisas. – Ele respondeu simples. – Mas e você? Por que esta andando por ai como se tivesse visto um passarinho verde?
– Não que seja da sua conta, mas eu falei com a Hinata hoje.
– Aah, a garota Hyuuga. Como ela está?
– Do mesmo jeito que ontem. – O loiro deu outro sorriso coçando a cabeça e se sentou. – Só que ela se lembra de mim, mas só um pouquinho...
– Um pouquinho?! O que é “um pouquinho” exatamente?
– Ela sabe que estávamos juntos no acidente e que eu cortei o cabelo.
Jiraya o encarou com uma cara estranha, desacreditando, olhava para Naruto como se esperasse que ele dissesse algo para incrementar a historia, mas sabia que não havia mais nada a dizer.
– Esta de brincadeira? Ela só se lembra disso e você fica com esse sorriso de orelha a orelha?!!
– E precisa de mais?!
– Naruto, lembra do que eu disse na primeira vez que peguei vocês dois aqui?
– Que eu tenho muita sorte! – Ele disse com um sorriso zombeteiro.
– Ah, sim... – Jiraya riu encabulado, mas depois voltou a ficar serio, balançando a cabeça para se concentrar. – Isso não! O que eu disse depois!
O sorrido de Naruto desapareceu ao ouvir as ultimas palavras de seu padrinho.
– Se lembra, não é?!
– Sim...
– “Não se envolva com os Hyuugas”, foi o que eu disse. – Jiraya estava serio. – Sabe, essa é a sua chance de se afastar. Você não precisa recomeçar com aquilo.
– Você estava certo daquela vez, mas as coisas podem ser diferentes agora!
– Eu já vi isso... – Bufou com um sorriso irônico nos lábios.
– Viu? O que?
– Você bancando o bobo apaixonado fazendo grandes declarações de amor e a garota de casamento marcado. Como isso pode ser diferente? – Jiraya fingiu pensar um pouco e concluiu. – Claro! Agora ela não lembra de você e nem do que você fez, certo?!
– Eu posso consertar isso, sei que sim.
Naruto ficou pensativo, não subestimava sua capacidade, mas ficava um pouco inseguro por não ter o apoio de Jiraya. Esse velho já esteve certo sobre tanta coisa.
– Naruto, o que você fez não tem perdão, nem conserto. Assim que ela se lembrar de tudo, vai ser como antes, não, vai ser pior! Ela vai pensar que você se aproveitou amnesia dela para se reaproximar!
– As coisas mudaram de verdade agora! – Naruto não se desfez do seu olhar determinado.
– Não sei quem enfiou essa ideia de “consertar” as coisas na sua cabeça, mas você foi um grande idiota para acreditar.
– Sou idiota o bastante para tentar, pelo menos! Não posso desistir da Hinata.
Agora o velho sábio sabia que Naruto não estava brincando, aquilo não era só um capricho. Já há algum tempo, não duvidava mais do quão forte podia ser a determinação do rapaz.
– Você parece o seu pai tentando conquistar a sua mãe, mesmo eu dizendo o quanto os Uzumaki eram encrenqueiros! – Jiraya bufou e sorriu sinceramente de seu afilhado. – Fazer o que... Um homem só se torna um homem aprendendo com os próprios erros!
– Então...
– Vou respeitar o que decidir e posso ate ajudar de vez em quando se for necessário...
– Obrigado, Ero-sannin!
– Mas não venha me dizer que eu não te avisei.
O celular de Naruto tocou, mas ele só teve a iniciativa de atender quando viu o numero do identificador. Jiraya percebeu como o garoto ficou tenso e se pôs a prestar a tensão na chamada discretamente enquanto folhava as folhas sobre a mesa.
– Alo. – Naruto fez uma pausa para ouvir. – Sim, eu fui sim. – Outra pausa. – Não sei te responder, algo aconteceu? – Então ele ouviu e bufou parecendo cansado. – Certo, ate amanhã, então. – Desligou.
– Parece que esse “recomeço” já começou mal. – Jiraya perguntou enquanto fingia que mantinha a atenção ao papel a sua mão.
– É...
– Quem era?
– Hiashi Hyuuga.
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