O Diário
29 Capitulo 29
Notas iniciais
29.
Desespero não é um sentimento descritivo, quem já sentiu sabe como é e quem nunca sentiu não tem capacidade de entender... Tipos diferentes da mesma coisa e tipos semelhantes que exigem reações diferentes... Tudo se resume a como você se vê em tal situação.
Eu já havia passado por isso antes. Levar uma surra, ouvir uma garrafa de bebida cara se quebrando e então este homem vindo para cima de mim, querendo me castigar por aquilo que ele chamava de desobediência.
Na ultima vez... O desespero me congelou... Lutei a principio, o quanto pude ate ficar sem forças, mas no final simplesmente aconteceu. Ele disse que seria nosso segredo e eu fiquei paralisada de medo, a ameaça me deixou perdida e o repudio selou meus labios...
Agora... O desespero me fizesse forte... Eu lutei mais, o empurrei mais, lhe dei trabalho e apanhei mais, determinada a não me deixar dominar como antes.
Em meio a essa “carona” da qual não pude me livrar, ele começou se desculpando por tudo que tinha feito e falava algo sobre vivermos bem juntos, eu não entendia metade de suas declarações, mas cada recusa minha o deixou mais furioso, ate que ele parou de tentar me “seduzir” com palavras bonitas e apenas começou a me xingar e me jogou para o banco de trás de seu carro.
Fiz de tudo que não permitir que se aproximasse e quando, enfim, com seu tamanho e força avantajada, conseguiram se sobrepor a mim, eu o ataquei. Cortei seu braço com o vidro de uma das garrafas que ele próprio quebrou enquanto tentava me pegar... Ele pulou para trás com um grito de dor e eu o empurrei para o mais longe que pude. Sua cabeça bateu na lâmpada do teto, única fonte de iluminação, e tudo escureceu...
Então ele caiu sobre mim novamente.
Empurrei seu corpo pesado e consegui espaço para alcançar a tranca da porta, abri de mal jeito caindo desesperada para fora.
Nos curtos segundos que levei para me levantar pensei que ele poderia me pegar novamente, mas não... Me virei de volta ao carro pronta para lutar contra sua fúria se fosse preciso, mas notei que ele não se mexera, ainda estava caído de costas do mesmo jeito que eu o derrubara...
Eu deveria ter corrido para longe, não, eu realmente QUERIA correr para o mais distante possível aquele homem, mas uma espécie confusa de curiosidade me dominou de tal forma que fiquei ali parada na chuva o observando atônica...
O chamei, com minha voz gaga e rouca, mais de duas vezes antes de me aproximar, mas não houve resposta, nem um xingamento ou granido de dor. Então voltei minha atenção para seu corpo tentando ver qualquer movimento, mesmo a mais leve respiração, mas não percebi nenhuma...
Estava morto... Eu... O tinha matado...?!
Não, não... Não poderia ser... Não era para terminar assim... Essa não era a minha vingança... Não era isso que eu queria, mas... Mesmo assim...
Chorei por um segundo, enquanto encarava o pedaço de garrafa que eu ainda segurava firme em minhas mãos e constatava que, aos poucos, o próprio sangue que a envolvia era diluída e limpa pela chuva. E então sorri, sentindo-me estranhamente satisfeita pelo que acabara de acontecer...
Estava morto... Eu... O tinha matado...
***
Estacionou fora de sua vaga habitual, estreitando os olhos ao perceber um outro carro no lugar que deveria ser seu. Bufou cansando ao reconhecer a placa, sabia que seria um dia de cão no escritório e, por um segundo, perdeu a vontade de trabalhar.
Folhou os papeis das pastas que se encontravam jogadas no banco do carona, verificando o conteúdo e ganhando tempo para tentar se animar de novo. Depois de pouco mais de dois minutos, apenas se contentou em coloca-las embaixo do braço e saiu do veiculo caminhando para a entrada de sua poderosa empresa.
Por onde passava acabava por ser cumprimentado por cada funcionário que encontrava, de maneira que depois do 4° “bem vindo de volta, senhor” já começava a se sentir constrangido com a situação. Acabou se lembrando das circunstancias adversas que o obrigaram a trabalhar a longa distancia nos últimos dias e pensou se seria normal essa “felicidade” que demonstravam por vê-lo retornar depois de tanto tempo.
Suspirou novamente ao chegar no elevador e clicou no botão sem qualquer vontade de ficar parado ali ate que chegasse. E foi nesses momentos de espera que ele se distraiu observando o movimento do salão e a encontrou ao longe, conversando com a recepcionista.
Espantado pela visão daquela garota que já considerava morta, ajeitou seus óculos, apertou as pastas em suas mãos e foi ate ela, ignorando o esperado elevador que acabara de abrir as portas.
— Hinata?! – Ele a chamou quando já estava perto vendo a garota se virar ao ouvi-lo. – O que faz perdida por aqui na empresa Uchiha?! Está sozinha? Hiashi veio com você?
Se calou ao perceber a maneira confusa com que a Hyuuga o encarava, então se deu conta de como quase perdeu sua compostura, fazendo tantas perguntas de uma vez. A verdade é que se sentia estranhamente animado por vê-la, ou melhor, por vê-la bem, acima de tudo.
— Ah, desculpe. Você, provavelmente, não sabe quem eu sou.
Hinata olhou aquele homem a sua frente de cima abaixo, observando o olhar cansado em seu rosto enquanto um sorriso fechado se destacava junto com sua boa postura corporal. Era um estranho para ela, mas assim que se viu analisada sentiu um arrepio na espinha, ficando tensa pela presença dele e a intimidade com que lhe dirigiu a palavra.
A garota constatou um medo igual ao que sentia quando estava próxima de Sasuke.
— Itachi-san...? – Ela o respondeu, porem com um tom de pergunta não proposital.
— Se lembra de mim?!
— Não de verdade, mas você se parece muito com o Sasuke, então, imaginei...
— Sim, claro... Genética Uchiha... – Itachi passou as mãos entre os cabelos longos. – Se você comparasse fotos de quando éramos crianças, nos confundiria facilmente. Nós, homens da família, realmente nos parecemos muito.
— É, eu acho... – A garota se mostrou incomodada com o comentário.
— Então, o que te trás aqui?
— Eu vim procurar o Sasuke... Quer dizer, eu lembro que ele trabalhava aqui, mas... Não sei...
— O meu irmão, hum...
— Ele está?!
— É bom que esteja... Eu tenho uma reunião com Madara hoje, ele provavelmente veio junto. Sabe, Sasuke trabalha com nosso tio agora.
— Politica... Acho que já ouvi sobre isso.
— Exatamente. Venha, vou te levar ate ele.
Ela hesitou em segui-lo por um momento, mas não via outra opção melhor para alcançar seu objetivo, uma vez que não tinha a mínima ideia de como adentrar na empresa para procurar. Além disso, nesses poucos minutos que ficou na recepção, pode notar como era um lugar movimentado: arquitetos e engenheiros andando por todo lado, entrando e saindo nessa corrida diária que era o meio da construção civil, então, não duvidava que seria quase impossível se guiar por ali sozinha sem ser notada.
Andou acompanhando os calcanhares de Itachi, encarando as costas largas daquele homem aparentemente tão culto e simpático que andava a sua frente, pensando sobre a tal “genética Uchiha” que ele falara. Não negava que todos os Uchihas que encontrou eram demasiadamente similares entre si, mas ela se questionava a algo além do físico. Seria mesmo possível transferir o medo, raiva ou qualquer outro sentimento de uma pessoa a outra, apenas por serem “parecidas”?
— Você não vem?
Desvencilhou do pensamento quando ouviu um som de campainha, seguido do de portas se abrindo e Itachi falando logo depois. Ergueu o olhar encontrando-o a esperando dentro do elevador, dando espaço e segurando a porta para que não se fechasse, mediante sua presente hesitação. Parecia amistoso e devidamente paciente.
Medo a resumia agora e fazia crescer esse receio de “confiar”, mas, de alguma forma, não queria se deixar dominar por isso, sabia que as respostas de que precisava não viriam sozinhas e se deixasse ser controlada por seus, já perturbados, sentimentos, nunca as conseguiria.
Claro, não lembrar do rosto de seu verdadeiro inimigo, aquele que deveria temer, ajudava em sua paranoia. Era inevitável suspeitar de cada sorriso a sua volta, imaginar que poderia ser qualquer um com quem convivia, mas era algo que tinha de enfrentar para buscar a verdade.
Questionando os riscos e impacto de suas decisões, acompanhou o Uchiha para dentro, ficando o mais distante que era possível, as portas se fecharam e logo sentiu-o subindo para o ultimo andar. Ninguém nunca lhe falou algo sobre ser claustrofóbica, então a leve palpitação que sentia deveria ser puro e simples nervosismo.
— Sabe, eu queria me desculpar. – Itachi disse de repente. – Eu estava viajando a negócios e não pude te visitar no hospital. Claro, também não estava presente para controlar as atitudes do meu irmão naquele incidente no colégio.
— Tudo bem, acho que tudo já se acertou, de alguma forma...
— Vejo isso, já que está aqui. – Ele agora forçou um sorriso. – Só por curiosidade, o que você quer falar com Sasuke?
— Ah, desculpe, mas é assunto pessoal. – Hinata respondeu estranhando a pergunta, fora usado um tom invasivo que não a agradou.
— Claro, só perguntei porque, ate onde me contaram você tinha “medo” dele, o queria longe, e agora está aqui... Como disse, fiquei curioso.
— É por causa de coisas que me lembrei... Coisas sobre o nosso... noivado...
— Sim, entendo. Então vocês dois...
As portas do elevador se abrindo interromperam a pergunta de Itachi, deixando-a aliviada por poder sair daquele cubículo e fugir do sutil interrogatório que quase se iniciou. As intenções de Itachi pareciam ir além da curiosidade que ele alegava, era como se a sondasse para descobrir mais sobre algo especifico.
Andou alguns passos para o novo ambiente e a primeira pessoa que viu foi Madara Uchiha, tomava uma xicara do que parecia café, enquanto sentado no sofá em uma área de estar existente no amplo corredor que dividia as salas daquele andar. Se a organização fosse parecida com a impressa Hyuuga, seriam: A sala do presidente da empresa; do vice-presidente; coordenador de setores; gerente de finanças; e uma sala de reuniões; talvez uma ou outra função a mais que se esquecera.
Sasuke apareceu agora, saindo de uma das salas, carregando um amontoado de folhas soltas em uma mão enquanto a outra estava ocupada pelo celular que mantinha toda a sua atenção. Ele usava terno e gravata da mesma cor e costura que Madara, que já era similar com o que Itachi usava.
Com essa visão ampla dos três juntos no mesmo ambiente, Hinata pode constatar que, como Uchiha, eles eram realmente parecidos na aparência, mas, em questão de atitudes, apenas podia imaginar e descobrira que não era boa nisso.
— Sasuke! Você tem visita. – Itachi o chamou, falando um pouco alto de mais. Madara também acabou virando o rosto.
Os dois olhares se encontraram, Sasuke e Hinata tentando ler as intenções um do outro.
Ele acabou ficando paralisado de surpresa, pensando por um segundo antes de simplesmente jogar as folhas que tinha para o lado e se encaminhar a ela com um olhar semicerrado furioso. Pode ouvir ainda uma exclamação de Madara pelos papeis lhe caírem encima e quase derrubar seu café, mas o jovem o ignorou completamente.
— O que diabos está fazendo aqui?! – Esbravejou para a garota.
— Ei, seja gentil! – Itachi o repreendeu agora. – Hinata veio conversar amigavelmente, espero o mínimo de cavalheirismo vindo de você, entendeu?!
— É... Claro... – Sasuke cruzou os braços desviando o olhar por um segundo.
— No vocabulário dele, isso foi um pedido de desculpas. — Itachi sorriu.
— Tenho algo importante para discutir. Acho que você também tem, certo?! – Ela disse e olhou disfarçadamente em volta, percebendo a atenção de Madara e Itachi a suas palavras. – Podemos ir a algum lugar mais... tranquilo?!
— Dependendo do que for, podem usar uma das salas. – Madara sugeriu, ele nem havia se dado o trabalho de levantar, apesar de se manter fixo a conversa.
— Não. – Sasuke falou absoluto, depois bufou, parecendo recuperar a calma. – Tem um restaurante do outro lado da rua. Vamos almoçar lá, está bem?!
Ele nem se quer esperou resposta, segurou-a pelo braço sem força aparente, apenas o bastante para poder puxa-la para dentro do elevador, as portas se fecharam com o olhar criterioso de Itachi e Madara os observando.
— Os outros já estão aqui?! Quero começar essa reunião logo e... – Itachi falava.
— O que está pensando em fazer com aquela menina?! – Madara o perguntou sem rodeio.
— Fazer?
— Para traze-la aqui assim...
— Ela veio por conta própria, eu só mostrei o caminho.
— Itachi, não me interessa o que você faz ou deixa de fazer. Desde que não fique no meu caminho, não me importa. Mas eu preciso que Hiashi apoie minha campanha e, se você continuar com...
— Por que eu ficaria no seu caminho, tio?! Eu sou o “irmão bonzinho”, lembra? – Itachi sorriu e se encaminhou para sala de reuniões, parando antes de abrir a porta. – A proposito, se estacionar na minha vaga de novo, vou mandar rebocar o seu carro.
***
Enquanto sentia o elevador descendo eles se entreolharam por mais uma vez, Sasuke parecia impaciente enquanto seus braços ficavam cruzados enfrente ao corpo e Hinata mantinha a maior distancia possível, mãos e pernas juntas e lado a lado em uma postura tímida enquanto segurava sua bolsa a frente dos joelhos. Hora ou outra, ela esfregava o braço onde o Uchiha havia puxado e essa ato repetido não passou despercebido pelo rapaz.
— Eu machuquei você?
— Não, eu só me lembrei de umas coisas...
— Hum, foi mau pelo meu jeito de falar de antes, mas não tenho paciência com mulher burra! Vir aqui foi um erro besta que você nunca cometeria Hinata e eu não gosto de surpresas...
— Percebi...
— Como você veio parar aqui?
— Taxi, só precisei pedir que me trouxesse a sede da maior construtora da cidade... Mas a corrida foi bem cara, acho que acabei sendo enrolada.
— O cara deve ter feito o caminho mais longo para lucrar com a bobona que não sabia o endereço... – Sasuke deu um sorriso contido. – Taxi... então não quis vir com o motorista da sua família?
— Não podia, aproveitei que meu pai foi a cidade vizinha tratar de uma concorrência com os Otsutsuki e...
— Hinata! – Sasuke fez um gesto para que se calasse. – Eu não dou a mínima pro seu pai, o Otsutsuki ou o que for...
O Uchiha trocou de lugar, se aproximando para ficar lado a lado com Hinata, sentiu como ela ficara tensa e gradativamente tentou manter distancia, uma reação que ele achou divertida.
— Está com medo que eu faça algo?! – Sasuke perguntou irônico e depois olhou para cima em um canto especifico do teto do elevador. – Eu não vou, ninguém iria...
— Uma câmera de segurança...
— Segurança é a palavra... Não acho que, na cidade, exista lugar mais “seguro” do que este prédio. Lá fora, por outro lado, é bem mais desprotegido...
— Isso soa como uma ameaça.
— É um aviso... Saiba onde podemos conversar, a não ser que queira que intrometidos acabem ouvindo.
Hinata entendeu e assim que as portas se abriram de volta a recepção, ela o seguiu para o tal restaurante que havia do outro lado da rua. Pegaram uma mesa qualquer próxima da porta e logo um garçom veio atende-los. O rapaz pediu um café, mas a garota não quis nada.
— Tudo bem, fale... – Sasuke mandou.
— Antes de qualquer coisa... Eu... – Hinata hesitou por um momento, procurando as palavras certas. – Quero ver os seus braços.
— Que? – Ele pareceu confuso agora.
— Tenho que ter certeza de algo... Preciso ver seus braços, por favor.
O Uchiha fez uma careta pensativa antes de afastar um pouco a cadeira para ter espaço para tirar o paletó de maneira discreta. Colocando-o por cima do encosto e arregaçando as mangas camisa que havia por baixo ate a altura do cotovelo, esticou os braços para a Hyuuga poder vê-los.
— Satisfeita?
Hinata o olhou bem de todos os ângulos possíveis. Não havia nada suspeito, nenhuma marca antiga feita por estilhaços de vidro, nenhum corte horrível capaz de criar uma grande hemorragia.
— Preciso ver os braços inteiros. – Ela disse.
— Ah, pelo amor de Deus...
Sasuke se levantou apressado agora e a garota pensou se o teria irritado o suficiente para ir embora e desistir da conversa, porem notou que ele afrouxava a gravata, depois desabotoou a camisa para, enfim, retira-la com toda facilidade. Ele ainda usava uma blusa regata sem mangas por baixo, então não ficou “sem camisa” no restaurante, o que deveria ser proibido, entretanto, seu ato repentino atraiu atenções de quem estava por perto, clientes, garçons e provavelmente o gerente.
Estava com os braços completamente nus e novamente a garota não viu nada de anormal, a pele de Sasuke era lisa e livre de qualquer marca.
— Olha, se eu soubesse que era isso que queria, eu teria te levado a um lugar bem mais “discreto”.
— Não é você... – Hinata disse baixo, mais para si mesma.
— Não sou eu o que? – Perguntou confuso de novo e voltou a se sentar, lenta e discretamente recolocando seu terno.
— Nada...
— Quer saber, se você estiver fazendo isso para me fazer acreditar nessa maluquice de “amnesia”, tenho que confessar que está funcionando. Você está mais louca do que nunca. Podemos conversar agora ou você quer ver “algo mais”?
Sasuke tinha um senso de humor satírico, sagaz e bem destrutivo, na verdade, era assim que se divertia, causando problemas e magoas em outras pessoas, tudo que fazia parecia ser pensando para irritar. Hinata era seu alvo agora e, obviamente, ele sabia bem quais eram os limites dela, por isso era bem fácil provoca-la e testar sua paciência.
Entretanto, agora a garota tinha certeza... Apesar do medo irracional que seu olhar lhe causava, ele não era seu agressor, nunca poderia ser...
— Você disse uma vez que nosso noivado é uma faixada, nós éramos apenas sócios... Como isso funcionava?
— Direto ao ponto, como sempre... “Como funcionava”?! – Sasuke pareceu pensar. – Se eu responder, vai acreditar em mim?!
— Depende do que disser... Será a verdade, certo?
— A verdade do meu ponto de vista, sim. Mas não acho que será suficiente para você...
— Será quando eu recuperar a memoria e souber o meu ponto de vista também.
— Se quer saber mesmo assim... – Sasuke a encarou com um olhar enigmático, decidindo por onde começar. – Você é rica, Hinata.
A garota o encarou duvidando do tom que ele usara, falava como se aquilo fosse uma grande revelação e ela procurou algum significado oculto nas palavras, mas não encontrou nada alem do que realmente deveriam ser. E ela simplesmente não entendeu...
— Ah, é... Eu sei... – Ela disse simples. – Sou herdeira de uma empresa, meu pai tem uma mansão, então...
— Não, não... Não, Hinata. – Sasuke a interrompeu. – Esquece o seu pai, esquece empresa. Você, sozinha, independente de qualquer um, é dona de uma enorme fortuna.
— Eu não entendo...
— Cortesia da sua mãe que morreu e te deixou tudo que ela tinha... E talvez algumas outras coisas que não eram dela também.
— Coisas de que tipo?
— Ações da empresa da minha família, uma boa porcentagem delas.
— Calma, você tá indo muito rápido nessa explicação. O que a minha mãe estaria fazendo com ações Uchiha? E por que ela deixaria de herança para mim?
— As ações eram do meu tio e foram passadas para o nome da sua mãe pouco antes dela morrer. As opções para isso são: ou ela comprou legalmente, embora eu não tenha achado nenhum comprovante disso; Ou ela o enganou para que assinasse os termos de alguma forma e conseguiu rouba-las sem que percebesse; Ou meu tio as deu de presente, mesmo sendo uma porcentagem alta;
— Seu tio... Madara?
— Não, meu tio Obito. Ele morreu também.
... Obito...
Esse nome veio a cabeça de Hinata de repente, o achando extremamente familiar. Sim, este era o nome gravado em um pingente que ela viu pendurado em um cordão já a algum tempo e, junto dele, havia outra gravura do nome Rin, que agora também reconhecia de alguma forma... E o dono deste tal cordão, aquele que estava com ele pendurado no pescoço e que a garota só viu por acidente enquanto ele dava pontos em sua perna machucada em uma manhã turbulenta, após fugir da Akatsuki com Naruto... Esta pessoa se chamava...
— Kakashi... – Hinata murmurou.
— Quem? – Sasuke perguntou chamando a atenção da garota que se perdeu em pensamentos. – Este é aquele socorrista idiota, não é?! Quando soube que você havia acordado do coma, tentei ir ao hospital te ver, mas esse cara me impediu e ainda colocou os seguranças para me vigiarem... Acho que ele é do grupo de pessoas que acreditam que sou a “personificação do demônio”.
— Ele estava me protegendo.
— De mim? Por favor, ele nem me conhecem... Eu entendo o Naruto, o Neji e, ate mesmo, a ciumenta da Sakura me querer longe de você, mas esse Kakashi... Não faço ideia do que ele queria te proteger.
Hinata viu que Sasuke não fazia ideia... Não sabia sobre seu passado, sobre seu agressor e que este era o motivo principal de Kakashi o querer afastado. Toda sua provocação de antes era por mera diversão e ele simplesmente percebeu seu “incomodo” para com proximidades e resolveu brincar com isso. O Uchiha que se achava o dono da verdade, não sabia da sua principal fraqueza, afinal, se soubesse já teria pensando em uma forma de usar desse segredo em beneficio próprio.
— O que aconteceu entre a minha mãe e seu tio Obito?
— Voltando ao assunto... Eu já disse que não sei. Se ela o enganou ou não, não importa. A questão é que ela deixou essa herança para você e enlaçou isso em termos bem restritivos.
— Termos restritivos...
— Pelo que eu soube, estava explicito no testamente que ninguém poderia tocar nesse dinheiro, além de você mesma quando completasse a maior idade. Meu palpite é que ela não queria que seu pai, ou qualquer outro, colocasse as mãos no que era dela e usou você para se blindar.
— E é ai que você entra...
— Não, é ai que você entra... Você veio me procurar porque queria se emancipar e assim assumir o controle do seu dinheiro mais cedo para ajudar o seu “irmãozinho drogado” e, como pagamento pela minha ajuda, você passaria suas ações da empresa Uchiha para meu nome. Eu tinha meus próprios objetivos na época e achei sua proposta interessante.
— Que objetivo?
— Assunto meu, não te interessa.
— Se eu estava ajudando, interessa sim.
— Meu pai se aposentou a algum tempo e deixou meu irmão cuidar dos negócios da família. Itachi é o filhinho perfeito que ele venera enquanto eu sou a “ovelha negra”, mas eu descobri que meu irmão se envolveu em uma serie de fraudes fiscais desde que assumiu.
— É uma questão de ética? Você queria limpar o nome da empresa e...
— Foda-se a ética... Meu pai vive repetindo que “colocaria a mão no fogo pelo Itachi”, eu só queria ver ele se queimando um pouco.
— Inveja entre irmãos...
— Era o que você costumava falar... Na minha cabeça, depois que eu desmascarasse meu irmão, nosso pai voltaria a assumir a presidência da empresa e quando eu estivesse apto, seria eu a cuidar das coisas.
— Itachi ainda está lá, então acho que alguma coisa deu errado.
— Você deu errado! – Sasuke respondeu. – Descobriu sobre meus planos e se ofereceu para me ajudar a investigar e levantar provas, mas as pessoas começaram a falar, comentar... Por que, de uma hora para a outra, começamos a ficar sempre juntos? Por que nos encontrávamos escondido? Por que conversávamos em sussurros em um canto distante?! Pessoas são intrometidas, desconfiadas e sempre interpretam errado...
— Então, para não dar tanto na vista assim, a gente inventou o noivado?
— Nossas famílias tem ligações comercias a décadas e esse anuncio foi bem comemorado. Lembro que Madara disse que o casamento “uniria as famílias”, mas ele é só um oportunista, tudo que queria era o apoio politico do seu pai e o meu pai, ah, já pensava em como isso teria impacto positivo na bolsa de valores.
— Parece que nossa “união” era algo que todo mundo queria, mas ninguém falava em voz alta.
— Imagino que se vivêssemos na idade media, eles já teriam feito um casamento arranjado. Ainda bem que estamos em tempos modernos.
— O que houve depois disso?
— Eu não era ingênuo, Hinata. Sabia que você não estava me ajudando por simpatia, estava me usando para conseguir algo dentro da minha empresa e ate hoje não sei direito o que é.
— É o que acha?!
— Tenho certeza disso, mas tudo bem... Porque tenho que confessar que eu também estava pensando em te enganar e me aproveitar da situação. – Sasuke deu um sorriso torto que, combinado com seus olhos cerrados, deixava uma expressão maquiavélica em seu rosto. – Meu plano era simples: eu seduziria você, faria virar uma boba apaixonada e te manipularia para ter vantagem e roubar o seu dinheiro.
— Eu te ajudando e você de conluio pelas minhas costas...
— Claro, não funcionou... Eu nunca tive problemas para conquistar uma garota, me bastava o olhar certo e eu poderia ter qualquer uma, mas você sempre foi imune ao meu charme e se esquivava de qualquer investida, ria das minhas indiretas como se fossem piadas de mau gosto. Na verdade, você era tão difícil que eu ate duvidei do que você realmente gostava, entende?!
— Pessoas interpretam errado...
— Interpretam, sim... Mas ai você ficou encantada com o Naruto e eu percebi que o problema era comigo... Você não iria se apaixonar por mim a menos que eu tivesse um sorriso idiota ou falasse de maneira estranha e eu não tenho saco pra fingir coisas assim... Então mudei de estratégia, não achei tão ruim ter que trabalharmos juntos e pensei que poderia descobrir o que você estava tramando com o tempo.
— Tempo que não tivemos...
— Não, eu baixei a guarda e você me traiu, roubou o que queria e destruiu as provas que eu precisava... Agora fica ai se fazendo de vitima, bancando a maluca e jogando as pessoas contra mim. Me diz, não tenho motivo para estar com raiva?!
— Eu estava apenas cuidando dos meus assuntos, Sasuke... Era perigoso também, importante também... Muito mais do que vingança de irmãos ciumentos.
— Como eu disse antes: Eu só sei o meu lado da história. Minhas verdades. Se quer que eu acredite que você fez o certo me traindo, terá que me contar o seu lado.
— Eu não me lembro o suficiente ainda...
— Então parece que está na hora de correr atrás, não é mesmo?!
— É o que estou fazendo. Vir aqui prova isso, não?!
— É o que estive pensando. Por que decidiu me procurar, afinal?
— Sakura... – Hinata respondeu simples, percebendo ganhar a atenção de Sasuke instantaneamente. – Ela mentiu para mim.
— Mentiu...
— Um dia Sakura veio conversar e me contou sobre brigar comigo naquela época do nosso noivado e me disse que você a manipulou para que roubasse um pen-drive que eu roubei de você...
— Ciúmes... – Sasuke riu contidamente. – Ela está tentando nos afastar por medo de reatarmos no noivado.
— Só que eu me lembrei: Eu só roubei esse pen-drive depois que terminamos e só terminei depois de ter flagrado ela mexendo na minha mochila... Isso significa que ela estava tentando roubar algo mais... Ela mentiu, para proteger você.
— Ela costuma fazer isso... Não lembro de ter pedido nada daquela vez. – Sasuke deu os ombros. – Mas ela tem essa mania de se meter nas minhas coisas. Confesso que as vezes isso ate me ajuda um pouco, mas na grande maioria, é bem irritante...
— O que ela queria de mim?! Ou melhor, o que ela achava que você queria de mim...
— Provavelmente um caderno que você tinha. Não era seu, era um diário que seu tio escreveu com algumas informações interessantes, parece que Hizashi e Itachi eram amiguinhos nessa coisa de fraude. Você me mostrou uma vez porque talvez ajudasse, mas não me deixou ficar com ele e ver por inteiro. Eu comentei com a Sakura sobre isso, mas não sabia dela ter tentado pegar.
Enquanto se fazia pensativo, Sasuke deu um tipo diferente de sorriso, não era espalhafatoso ou alegre, nem carregava maus sentimentos, mas retinha uma expressão cabulosa provocada por seus pensamentos. Hinata não foi capaz de interpretar sua expressão ate ouvi-lo concluir sua frase:
— Talvez eu devesse ir falar com ela e, quem sabe, agradecer.
— Vai continuar brincando com ela?
— Do mesmo jeito que Naruto brincou com você?!
— Você não sabe... – Irritada com o tom de deboche que o Uchiha usara, Hinata quase esbravejou, mas foi prontamente interrompida:
— Isso mesmo, eu não sei! Do mesmo jeito que você também não sabe... – Ele falou baixo, se mostrando irritado também. – Não julgue meu relacionamento com a Sakura, isso é assunto nosso e é bem mais profundo e complicado do que você pode imaginar.
— Você gosta dela... – Hinata constatou surpresa.
— Não é da sua conta... – Ele se levantou agora. – Sabe, acho que essa conversa já passou do limite do útil.
— É, acho que sim...
— Se precisar me procurar de novo, ligue, não apareça assim de repente. É idiota.
— Ok, vou tentar.
— Faça como que eu disse e descubra o resto por si mesma. A Hinata de antes nunca confiaria nas verdades de outra pessoa e eu também quero entender o que realmente aconteceu.
— É, eu sei...
***
Jiraya estava pronto para sair. Bem arrumado com seu cabelo penteado, uma boa roupa e a lábia que nunca lhe faltava, terminava de por a loção pós-barba para ter certeza de que ficaria ainda mais irresistível do que já era. Gostava de sair com os amigos que tinha na editora que publicava seus livros, eram engraçados, gostavam de beber e sempre conheciam lugares muito bem frequentados. Além disso, seu editor também iria e, com um pouquinho de sorte, conseguiriam conversar sobre seu novo livro que já foi vetado duas vezes pelo conteúdo ser considerado “explicito demais” para um romance. O velho escritor estava confiante de que, bêbado, seu chefe seria mais compreensivo a sua obra e pior de argumentos para barra-la.
Terminou de se arrumar e saiu do banheiro do escritório que agora quase podia ser considerado seu quarto. Quando Naruto veio morar com ele, se tornava cada vez mais incomodo chegar tarde da noite com alguma companhia e se deparar com o rapaz dormindo na sala, então dispôs ao afilhado o único quarto da casa e se ocupou do escritório que era onde se sentia mais a vontade para escrever. Fizeram ainda alguns planos para converter a entrada de um dos banheiros para sala, tornando, assim, comum a todos que os visitasse, mas, por falta de verba e paciência, essa ideia nunca saiu do papel, tornando a troca de quarto a única mudança efetiva para se adaptar ao novo morador.
Quando aceitou recebê-lo imaginou que esses quatro anos passariam rápido. Ele viria, estudaria, arrumaria um emprego e eventualmente iria embora, cresceria e viraria um adulto que poderia cuidar de si mesmo. Mas o tempo realmente demorou a passar e Naruto não crescera tanto quanto ele queria, claro, em tamanho, sim, estava enorme, mas de cabeça... Não, as vezes Jiraya não conseguia perceber qualquer mudança do rapaz do interior ingênuo, ganancioso e cheio de sonhos que era antigamente.
Jiraya chegou a cozinha vendo Naruto sentado ao balcão com seu caderno, escrevendo, apagando e rabiscando, olhando para a calculadora ao lado, relendo uma fatura no outro e voltando a escrever. Estava tão concentrado que nem o notou observando.
O rapaz estivera bem triste nos últimos dias... Estando suspenso da escola, sem emprego e brigado com a namorada, ele teria motivos de sobra para estar desanimado da vida e Jiraya temeu que ele voltasse a ficar “deprimido” como ficou nos primeiros meses de internação de Hinata no hospital... Mas era estranho vê-lo assim ocupado cuidando das suas próprias coisas como fazia agora, como fez durante toda a semana...
A tristeza era nítida em seus olhos, assim como o desanimo em suas ações, mas ainda assim, ele tentava seguir em frente, como um homem de verdade deve fazer... Eram raras as ocasiões que o faziam parecer um verdadeiro adulto e Jiraya gostava quando se portava assim, imaginando que, por hora, não precisaria se preocupar.
— Não esforce tanto o cérebro, Naruto. – Jiraya se pronunciou. – Sinto cheiro dos seus neurônios queimando lá do escritório.
— Você ainda está por aqui? Pensei que ai encontrar seu editor ou algo assim.
— “Algo assim”, mas é só mais tarde. Como vai as suas contas?
— Nada bem, eu falei com o tio da padaria e ele disse que tá precisando de um caixa, mas o salario é muito menor do que o que eu recebia como estagiário na empresa Hyuuga... – Naruto coçou a cabeça desanimado. – Se eu não encontrar nada melhor, vou ter que parar com os meus cursos...
— Achou que seria fácil encontrar outro trabalho?!
— Nem um pouco, mas eu também decidi sair do meu colégio e ir para uma escola publica mais perto daqui, assim eu economizo um pouco mais.
— Ah, Naruto, só falta um trimestre para a formatura e as mensalidades já estavam pagas.
— Pagas pelo Hiashi... Não, evitar coisas assim será melhor para todo mundo...
— Você não precisava jogar tudo para o ar só porque aquela menina está zangada.
— Não é só por causa da Hinata. – Naruto se entristeceu novamente e Jiraya se pôs pensativo enquanto o ouvia prosseguir. – Eu me demiti porque quero crescer por mim mesmo e conquistar meu próprio espaço, quero inspirar confiança nas pessoas porque eu sou “eu”, e não um “amigo de alguém importante”...
— Amigo? Hiashi só te usou para vigiar a filha, Naruto. Não fique contando que ele vá sentir sua falta ou guardar sua vaga para mais tarde.
— Nem é o que eu quero também! Sabe... Quando eu fui avisar da minha discussão com Hinata, Hiashi disse que confiava no meu julgamento e que se ela e eu ficássemos juntos no futuro, ele gostaria que fosse eu a assumir a empresa Hyuuga em seu lugar.
Jiraya se surpreendeu apenas em imaginar se algo assim realmente poderia acontecer a Naruto: Herdar uma empresa multinacional apenas porque o dono confia na sua forma de agir, e aposta no seu potencial. Seria sorte demais, incrível demais e, provavelmente, suspeito demais.
Naruto prosseguiu com suas palavras, antes que o escritor pudesse continuar com sua imaginação fértil.
— Eu fiquei feliz a principio, mas depois percebi o quanto isso desmerecia meus esforços, Hiashi atacou bem no meu ego e eu fraquejei. Então vi que estava apenas agindo como o moleque de sempre, como o Kakashi-sensei disse que eu era... Por isso pedi demissão, não vou mais voltar a trabalhar para os Hyuuga.
— Ora essa... – Jiraya riu, dando os ombros. – Então parece que você está se tornando um mestre em desperdiçar boas oportunidades. De vigia, para genro, de genro para estagiário e de estagiário, para caixa de padaria...
— É, pode parecer que eu estou apenas andando para trás... – Naruto riu um pouco sem graça. – Mas ficar preso na aba do Hiashi só me faz sentir dependente de tudo e, no fim, eu só conseguia me ver mais distante do que realmente queria.
— Está falando da Hinata?
— Dela... Da empresa do meu pai... Todos os meus outros sonhos... É claro que eu quero realiza-los, mas a verdade é que não existe caminho rápido para isso, existe apenas jeito certo e o errado... E, se não for para ter orgulho da minha trajetória, não vai valer a pena conquistar nada...
— Ei, eu conheço essas palavras! Não fui eu que te disse isso uma vez?! – Jiraya gargalhou.
— Bom, sinal que eu estou finalmente aprendendo, não é? – Ele sorriu em resposta.
Sim, Jiraya não precisaria se preocupar mais com seu afilhado, conseguia ver perfeitamente agora que o jovem e atrapalhado rapaz parecia um homem feito, capaz de superar qualquer dificuldade e não duvidava de que ele alcançaria cada um de seus sonhos assim como a mulher que desejara ao seu lado.
— Ora, Naruto...
Ele pretendia elogia-lo, dizer o quanto estava orgulhoso, mas acabou por ser interrompido pelo celular do rapaz que tocou de forma escandalosa. Naruto ainda sorria quando tirou o aparelho do bolso e olhou a tela, mas sua expressão se transformou em um misto de surpresa, ansiedade quando identificou o numero. Jiraya ate mesmo pode jurar ver as mãos dele tremendo enquanto clicava no botão e levava o fone ate o ouvido para, assim, se pronunciar. Porem, quando finalmente atendeu, estava sorrindo:
— Alô... Hinata?!
***
Já era bem tarde da noite quando Kou parou o carro na rua em frente ao grande e poderoso prédio que pertencia os Hyuuga e perguntou a garota se ela queria que ele estacionasse. Hinata deu uma boa olhada em volta, só encontrando escuridão, sabia que não estava mais em horário comercial e que provavelmente não haveria ninguém lá além do vigia noturno.
— Você pode voltar para casa, Kou. Vou ficar aqui e volto de taxi depois. – Ela respondeu abrindo a porta para sair.
— Tem certeza?
— Sim, eu tenho coisas pessoais a tratar. Obrigada por me trazer aqui fora do seu horário também.
— Ora, é só o meu trabalho, Hinata-sama.
— E eu agradeceria se você não contasse ao meu pai que vim aqui.
O motorista não respondeu em voz alta, apenas acenou para a garota que fechou a porta em seguida. Ele gastou alguns segundos a observando se encaminhar para a empresa e então pegou seu celular o procurando um numero na lista de contados.
— Nunca contaria ao seu pai, Hinata-sama... – Murmurou ao encontrar o nome de Sasuke.
Porem, antes de iniciar a chamada ouviu leve batidas contra o vidro porta ao seu lado, pensou que poderia ser um guarda de transito já que estava parado em local proibido, mas, quando o baixou, notou abismado ser a Hyuuga. Lutou contra a curiosidade de olhar para onde ela estava antes e imaginar se ela teria algum “poder” de teletransporte, porque seria quase impossível se aproximar tanto sem que ele percebesse.
— Esqueceu alguma coisa, senhorita?
— É, esqueci de avisar... – Hinata sorriu. – Sasuke já sabe que eu vinha para cá. Você deveria poupar essa ligação.
— E-eu não... Ele... Ele te contou sobre isso?
— Não, eu que me lembrei porque nunca fiz questão de motorista antes...
— E... agora?!
— Você não vai perder o seu emprego. Vá para casa, conversamos depois.
Ele acenou de forma mais nervosa que antes e saiu com o carro, andando um pouco mais rápido do que seria normal, Hinata observou ate que desaparecesse de vista e então se encaminhou para esperar em um local mais iluminado.
Logo viu um carro antigo bem conservado estacionar na esquina e ela soube que era ele...
Jiraya parou o carro para Naruto abrir a porta, reparando como a rua, antes movimentada, parecia deserta a essa hora. Bufou tomando coragem para sair e então se despediu do padrinho, agradecendo pela carona e pelo dinheiro que lhe dera para voltar de ônibus, embora já fosse bem tarde e, dependendo do que acontecesse, pudesse perder o horário para aquele que o levava para casa.
Assim que o carro se foi, o rapaz rondou o local com os olhos encontrando facilmente a garota parada sob a luz de um poste não muito longe. Prosseguiu em sua direção a passos lentos enquanto suas mãos ficavam afundadas nos bolsos de seu casaco, sentindo um tipo estranho de ansiedade que o fazia remexer entre os dedos algo metálico que trazia secretamente contigo.
A cada metro que se aproximava, Naruto notava suas mãos ficarem mais suadas, sua garganta mais seca e o coração martelando contra o peito com toda força, por tamanho nervosismo que o olhar que Hinata lhe direcionava causava. Não sabia exatamente o que ela queria conversar, na empresa Hyuuga e tão tarde da noite, mas tinha certeza de que não seria um encontro qualquer.
O loiro parou perante a garota a uma distancia respeitosa, esperando que esboçasse algum tipo de reação, porem ela não demonstrou sentimentos além da seriedade e calma estampada em seu rosto... E assim ficaram, silenciosamente, presos a uma troca de olhares neutra, por alguns segundos mais.
— Oi...
Foi Naruto a quebrar o silencio, mas ele sentiu que se não o fizesse, a própria Hinata faria, de alguma forma, as palavras pareciam estar presas nos lábios dela, apenas esperando uma deixa para serem pronunciadas.
Quase que ao mesmo tempo, junto com esse curto cumprimento, o contato visual também foi desfeito: ela olhando para baixo e ele observando a falta de movimentação na rua, antes de conseguirem erguer novamente o olhar um para o outro.
— Olha, eu... – Hinata finalmente falou. – Eu não quero que entenda errado, ok?! Eu não te chamei aqui para conversar... sobre nós dois... Não foi por isso que eu quis que viesse.
— Não... Eu sei... – Naruto tentou sorrir amigavelmente. – Sei que não seria assim...
— Fazer isso não foi fácil para mim e eu agradeceria se você evitasse maus entendidos.
— Tudo bem, Hinata, eu entendo e não vou te causar problemas. – Naruto concordou.
Hinata se desencostou do poste e, não dizer ou fazer muito mais, começou a caminhar em direção a empresa, o que deixou Naruto confuso e hesitante por um segundo, sem saber o que aconteceria a seguir. Por fim, apenas a acompanhou em sua caminhada, andando lado a lado, disposto a aproveitar cada pequena chance de estar com a garota que tanto sentia falta, ajuda-la como fosse possível e, como Jiraya lhe aconselhou antes, tentar recuperar sua confiança.
— Mas por que me chamou? – Ele perguntou curioso.
— Por que você me vigiava... Deve saber de cada passo meu aqui na empresa, certo?
Naruto fechou a cara assim que a ouviu, se sentindo mal pela forma com que Hinata falou, o velho e conhecido tom de frieza Hyuuga que odiava vê-la usar, principalmente consigo.
Sentiu raiva e decepção por um segundo, não só por perceber o que ela pensava dele, mas, por pior que fosse, por saber que ela teria uma certa dose de razão.
— Eu não sei, talvez... – Ele respondeu simples, fugindo do olhar dela antes de prosseguir. – Eu realmente trabalhava também, sabe...
— Eu sei disso...
Doía em seu coração tentar se manter “normal” perto dela quando o que realmente queria era se jogar em seus braços, exigir seu perdão e fazer mil promessas de amor...
Sorriu de breve com o pensamento, percebendo o quão idiota pareceria se fizesse isso, sabia que Hinata não aceitaria nenhuma demonstração deste tipo, pois a confiança dela nunca seria conquistada por meras palavras, apenas por verdadeiras ações de lealdade.
— Olha, o que o seu pai me disse quando me contratou foi que você era uma menina ingênua, única herdeira da família e, assim, alvo de pessoas aproveitadoras. Tudo que ele queria era alguém que ficasse por perto e evitasse que se envolvesse em problemas.
— Parece que eu dificultei muito as coisas para você nessa parte... Digo, sobre aquela história com o Neji...
— Ora, eu só acobertei vocês.
— Mas estava pronto para falar com meu pai a qualquer momento, não estava?!
— Se fosse preciso... Mas, no fim, você me pediu um voto de confiança, eu confiei e você resolveu tudo sozinha, como sempre.
Eles chegaram a lateral do prédio, onde havia uma entrada para funcionários da área de serviços básicos, como o pessoal da limpeza e manutenção, o que deixou Naruto ainda mais confuso. Acreditava que entrariam pela porta da frente, sem nada a esconder, como a “filha do dono” que a garota era, nunca imaginou que ela seria capaz de invadir a empresa do próprio pai, mas curiosamente Hinata retirou um molho de chaves da bolsa.
— De onde saiu isso?! – Ele perguntou abismado.
— Eu tinha copias no meu quarto, encontrei outro dia enquanto estava arrumando.
— E quanto as câmeras de segurança?
— Mizuki ainda é o vigia noturno?
— É, acho que é esse o nome, sim... Mas eu não vou muito com a cara dele...
— Não se preocupe. Do jeito que ele é, se formos cuidadosos, nem vai notar nossa presença.
Eles continuaram andando com cautela, pegando o elevador e se encaminhando para onde, aos poucos, o loiro percebeu ser a sala de arquivos, a mesma em que tiveram sua ultima conversa, briga e despedida. O sistema de alarme protegia esta sala, assim como algumas outras mais importantes e determinados corredores, mas Hinata parecia se lembrar do código, então entrar não foi um problema. O loiro não imaginou que voltariam ali, muito menos tão cedo assim e em circunstancias tão diferentes.
Apesar da fraca luminosidade que vinha das janelas, o local repleto de prateleiras cheias de documentos burocráticos estava muito escuro, porem Hinata decidira não acender a luz para evitar qualquer problema caso o segurança notasse a claridade pelas câmeras. Secretamente, decidira não subestimar ninguém mais daqui para frente, seu plano não aceitava falhas.
Naruto sorriu inconscientemente notar em meio ao escuro que, teimosamente, a Hyuuga tentava ler ou deduzir os títulos de algumas das pastas, ouvi-la murmurando as silabas que juntava para encontrar alguma coisa que fizesse sentido o fazia se lembrar da Hinata de antigamente: teimosa e orgulhosa, mas muito decidida e dedicada as coisas que se propunha fazer, nunca desistindo apesar das dificuldades.
Aproveitou o curto momento de distração da garota para sair da sala, ele sabia que uma lanterna tinha sido usada em uma apresentação de projeto a alguns dias e talvez ainda estivesse guardada na mesa do profissional responsável. Levou alguns minutos, mas conseguiu acha-la e voltar sem que a morena, concentrada em sua leitura teimosa, perceber a saida.
— Melhor assim, não é?! – Disse, iluminando a Hyuuga e encontrando-a estreitando os olhos desconfiada da origem da luz.
— Um pouco, obrigada...
— O que você está procurando?
— Não tenho certeza, coisas sobre a minha mãe, talvez algum indício da movimentação financeira dela aqui na empresa.
— E como eu posso ajudar?
— Se você souber de algo, ou algum lugar que eu pudesse estar procurando por isso antes... Eu não sei... Qualquer coisa assim...
— Ah, entendi. Você está tentando recriar seus passos, certo?
— Sem repetir os mesmos erros, espero... – Ela falou baixo, mais para si do que para o rapaz ao lado, depois o encarou séria. – Eu sei de coisas, mas não faz muito sentido agora...
— Certo, vou tentar me lembrar de algo...
Avançaram em silencio, mantendo na leitura dos títulos, uma prateleira após a outra, em uma marcha lenta de analise e descarte.
Era estranho para Naruto estar tão próximo fisicamente de Hinata e, ao mesmo tempo, se sentir distante, sem nenhum tipo de liberdade ou confiança para lhe abordar assuntos tão essenciais que deveriam discutir.
Ele leu sobre isso em um dos livros que Kurenai indicou, uma passagem que dizia sobre uma pessoa deprimida, mesmo não querendo estar sempre sozinha, acabava se afastando de quem se gosta por medo de manter uma relacionamento mais pessoal. Não sabia se era o caso de Hinata, mas sentia que ela não estava com tanta raiva quanto antes, talvez ainda decepcionada, mas não tão furiosa. Então, se não podia perdoa-lo pelo que fez, talvez não fosse pelo “ódio” que um dia disse sentir, mas por medo de se ligar novamente a ele e voltar a se decepcionar.
— Eu gostaria de te fazer uma pergunta... – Ela começou a falar de repente, enquanto escolhia uma das pastas e a abria, Naruto notou certo desconforto contido em seu tom. – Sobre mim... Sobre aquilo que eu estava fazendo na empresa...
— Se eu souber responder...
— O que meu pai te pediu, sabe, a esse respeito?
— Nada. – Naruto bufou, a volta a esse assunto o deixava desanimado e carente deste tal “perdão” que ainda esperava receber. – Apenas que cuidasse de você...
— Está mentindo... – Hinata disse simples enquanto checava cada um dos papeis sob a luz da lanterna. Um sorriso apagado e sem graça era notório em seu rosto. – Eu me lembro, Naruto-kun. Ele te pediu arquivos ou, sei lá, algo desse tipo.
— Não foi assim que aconteceu... – Naruto respondeu. – Ele estava com medo de você ser “manipulada” por alguém, porque, como eu disse antes, ele te achava uma garota ingênua e me pediu para te vigiar e contar caso eu visse algo suspeito.
— E então...
— Então você começou a sair com o Sasuke, eu me enchi de ciúmes e decidi fazer a caveira dele para o seu pai. Hiashi não ligou muito no começo, porque “as famílias Uchiha e Hyuuga construíram uma amizade décadas”. – Naruto, mesmo se mantendo sério, falou desenhando as aspas no ar com ambas as mãos, deixando claro o tom de ironia. – Mas eu estava invocado por você estar namorando e continuei vigiando, queria encontrar algo que fizesse seu pai ser contra o relacionamento de vocês e acabei descobrindo que estavam armando alguma coisa e... E eu contei... Foi ai que Hiashi ficou paranoico e as coisas meio que saíram do controle...
— E o que você sabe sobre tudo isso?!
— De verdade, eu só sei mesmo o que você me contou no dia que nós fizemos am...
Naruto se calou antes de concluir, percebendo Hinata desviar o olhar de forma incomoda, assim como ele próprio se sentiu de repente, nenhum dos dois estava psicologicamente preparado para falar sobre a noite que passaram juntos.
— Naquele dia, antes do seu acidente... – Ele se retificou, escolhendo as palavras. – Você me contou que se aliou ao Sasuke para conseguir se emancipar, juntar o dinheiro para pagar a divida do Neji com a Akatsuki e ir embora sem problemas com seu pai ou com a justiça, sei lá... É tudo que eu sei...
— Só isso?
— Hinata, você nunca me deu qualquer chance de descobrir mais. Ao contrario do que seu pai achava, você não tinha nada de ingênua. Sempre foi esperta e muito desconfiada para deixar as pessoas se aproximarem...
— Acho que eu tinha razões para ser assim...
Houve outro momento de silencio enquanto Naruto pensava sobre o que ela disse:
Talvez aquilo fosse apenas uma indireta para ele, por ter conquistado sua confiança apenas para traí-la, mas o rapaz também não descartou a hipótese de que, de uma forma mais profunda, ela também poderia estar se referindo aos abusos que sofreu. Tendo em vista que Hinata não sabia do que ele havia descoberto no hospital, ela não imaginaria que poderia desvendar suas palavras ou o sentido mórbido que elas tinham.
Entretanto, Naruto não pode deixar se sentir mal por conseguir interpreta-la tão facilmente agora, lhe pareceu errado saber de tais coisas sem Hinata ao menos suspeitar, ele se sentia como se tivesse mentindo e traindo novamente sua confiança e boa vontade.
— Mas, sabe, tem um lugar... – Ele falava baixo e desanimado. – Um lugar aqui na empresa que você ia direto quando queria ficar sozinha, para fugir do seu pai, principalmente... Você gostava de ir para lá porque sabia que era o ultimo lugar que ele iria querer ir.
— Um lugar... – Ela se esforçou por um segundo, tentando se lembrar, mas acabou desistindo e perguntando. – Onde?
— A sala que era da sua mãe...
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