O Diário dos Números
3 Capitulo 2 - Os Reis dos Jogo
Notas iniciais
Música tema:
Do quarto de Daphne Deloria, a música “Girls Just Wanna Have Fun” explodia alta demais para as 6h da manhã. Porém, não era como se os vizinhos fossem se incomodar; a próxima casa estava a pelo menos quinze minutos de floresta dali. A moça cantava e dançava com uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo, celebrando sua primeira manhã no exílio.
O local, que vinte e quatro horas antes não passava de um dormitório rústico e sem vida, sofrera uma intervenção radical durante a madrugada. Graças à logística impecável de Daphne (que, tratando seu retorno à Vermont como o desbravamento ao oeste, despachara um arsenal de caixas por transportadora uma semana antes), o espaço agora era um verdadeiro ateliê de arte da cultura pop das décadas rebeldes.
As paredes de madeira agora sumiam sob pôsteres de divas pop, de Madonna a Jennie do BLACKPINK. Entre a cortina rosa choque cheia de estrelinhas brilhantes cobrindo janela enorme e o espelho de LED transbordando maquiagem, o caos vibrante do quarto estava finalmente pronto para uma autora se inspirar. Se Wildale só conhecia o marrom, verde e o cinza, Daphne seria o Monet daquela paisagem.
Do guarda-roupa, escolheu seu look com a maestria de uma figurinista da Netflix: jaqueta bomber oversized e a t-shirt da NASA. Amarrou o cabelo acaju cheios em rabos de cavalo duplos e finalizou com um delineador gráfico afiado. Calçou as botas de combate rosa pink, aprovando o contraste no espelho. Estava pronta para conhecer o "elenco de apoio" daquela temporada em Wildale.
Ela desligou a música, guardou seu material na mochila da Converse amarela cravejada de bottons literários que ganhara de autoras colegas, deu uma última piscadela para seu reflexo e desceu as escadas.
O cheiro de bacon queimado e café forte dominava a cozinha.
Preston já estava à mesa, curvado sobre uma tigela de cereal, exibindo sua camisa moletom terrosa horripilantemente básica. Rupert, o pai, estava de pé junto ao fogão, de avental e tudo, virando ovos com uma espátula e uma expressão de quem operava maquinário pesado.
— Bom dia, família! — Daphne anunciou sua entrada, o barulho de suas botas rosa contra o assoalho velho a proclamar sua chegada. Ela beijou a bochecha do pai (que cheirava a creme de barbear e orgulho vermontiniano) e bagunçou o cabelo do irmão ao passar. Preston resmungou, alisando os fios imediatamente e encarando o visual da irmã apenas estupefato.
— Espero que tenham dormido bem — disse Rupert, servindo dois ovos com gemas moles no prato de Daphne, demorando alguns segundos para processar o visual quase que alienígena da filha.
— Defina "bem" — murmurou Preston, sem desviar os olhos dos flocos. Daphne pisou no pé dele com a bota de combate por baixo da mesa. Preston engasgou com o leite.
— Foi ótimo, pai — corrigiu Daphne, sorrindo docemente enquanto passava manteiga na torrada e pegava uma uva na mesa farta. — O silêncio daqui é... revigorante. Quase uma terapia de privação sensorial.
Rupert sorriu, confuso, sem entender direito se aquilo era um elogio ou não. Ele limpou as mãos num pano de prato, parecendo ansioso.
— Que bom. Escutem, eu... eu fiquei acordado até tarde ontem. Consegui remendar o pneu e alinhar a suspensão. O carro está pronto. Posso levar vocês para o colégio hoje. — Ele estufou o peito, orgulhoso do feito mecânico. — Podemos ir ouvindo aquele rádio de notícias que você gostava, Preston.
O garoto parou a colher no ar. O carro do pai significava chegar na escola num veículo que fazia mais barulho que um trator, guiado pelo treinador do time. Para chamar mais atenção, só se Preston fosse vestido de palhaço.
Daphne pareceu um pouco desconcertada.
— Ah, pai... isso é tão doce da sua parte. — Ela fez um biquinho triste. — Mas Chloe, aquela menina de ontem? Ela achou que ficaríamos sem carro e insistiu em nos dar uma carona. Quer me mostrar e explicar os principais pontos da cidade no caminho.
O sorriso de Rupert murchou. Ele olhou para as chaves do carro sobre o balcão, depois para os filhos.
— Ah. Entendo. A amiga nova. Claro. — Ele forçou um sorriso, mas os ombros caíram. — Faz sentido. Vocês querem... socializar.
Preston fechou os olhos, incapaz de encarar o pai, apesar de, no fundo, estar aliviado de não ir com ele. No entanto, uma nova variável surgiu em sua mente paranoica.
— Aquele... O irmão da sua amiga, vai também? — perguntou ele, fingindo displicência.
— Relaxa, Tony — sussurrou Daphne, bebendo um gole de suco de laranja. — Chloe disse que o irmão está na fase "foco total". Vai de bicicleta para melhorar o cardio e já deve estar lá. O pessoal daqui leva o Hockey bem a sério.
Uma buzina tocou lá fora. Não o som rouco da caminhonete do pai, mas o bipe polido de um carro novo. Daphne pegou sua mochila, deu mais um beijo na testa do pai e arrastou Preston para fora antes que a culpa o fizesse mudar de ideia.
O pai ficou ali sozinho. Apesar de gigante, parecia pequeno naquela cozinha enorme e silenciosa. A mesa ainda estava cheia de comida, o café da manhã havia sido deixado pela metade pelos gêmeos.
O visual de Chloe compunha um contraste fascinante: ela dirigia um Porsche Cayenne prata, robusto e intimidador, parecendo uma boneca de porcelana no comando de um tanque de guerra. Pálida e delicada, usava um laço de veludo vermelho prendendo os cabelos negros, enquanto as roupas em tom pastel completavam a ilusão de inocência. Ela lançava sorrisos calmos para sua mais recente melhor amiga ao seu lado.
Daphne transformava o banco do carona em palco, cantando o refrão de "Cruel Summer" da Taylor Swift a plenos pulmões, o rosto banhado pelo vento seco do início do outono. Ela alternava entre batucar no painel de couro caro e responder os comentários de seus leitores no Wattpad. No banco de trás, Preston, obviamente calado, resignava-se ao show particular protegido com seus fones de cancelamento de ruído, encarando a paisagem monótona passante.
Não demorou muito para chegarem ao centro da vila. Chloe assumiu o papel de guia turística com um entusiasmo polido, enquanto Daphne filmava tudo para mostrar aos seus seguidores em tempo real a sua eletrizante aventura bucólica.
— Aquela é a biblioteca municipal — apontou Chloe para um prédio modesto. — O acervo é pequeno, mas é o único lugar com silêncio absoluto e ar-condicionado decente no verão. Um refúgio para quem precisa observar sem ser notado.
— Ali ficam as lojas de conveniência e os pubs, onde o pessoal mais velho se esconde para ditar as regras invisíveis da cidade — continuou ela. — E o mercado do papai bem ali. A localização é estratégica, o único grande na região, e esse é o único trunfo dele. Ele não se conecta de verdade com as pessoas daqui, apenas conta com a falta de opção. Enfim, a praça central... que basicamente serve para a gente esperar o ônibus ou ver a neve acumular.
Daphne sorriu por trás da câmera, sentindo um orgulho que beirava o triunfo. Ter encontrado Chloe por acaso fora um golpe de sorte, mas descobrir que sua primeira leitora em Wildale era alguém tão inteligente e perspicaz era a validação definitiva da qualidade de sua própria obra. Chloe não era apenas uma moradora; ela mapeava os espaços e as castas do lugar com uma frieza técnica que facilitaria a entrada de Daphne naquela engrenagem social. Ela não tinha apenas uma fã; tinha encontrado a aliada perfeita.
Finalmente, a escola surgiu no horizonte. O Wildale Regional High School parecia um enorme galpão industrial de metal pintado de azul cobalto, com tijolos tingidos de azul celeste, cercado por anexos funcionais e um campo de grama vasto. Chegaram com quase quarenta minutos de antecedência, conforme Chloe planejara para evitar qualquer tumulto. O pátio ainda despertava, com a neblina da manhã cobrindo o gramado onde apenas alguns poucos estudantes madrugadores conversavam baixo.
Ao entrar no estacionamento, a desigualdade social ficou gritante: o SUV luxuoso e impecável de Chloe deslizou pelo asfalto quase deserto, tomando a melhor vaga da primeira fileira sem concorrência, restando os fundos para as caminhonetes velhas e cheias de barro que começavam a chegar.
O momento em que desceram do carro teve o peso cinematográfico da cena “Bella Swan saindo do carro de Edward Cullen”. O combo "estudantes novatos" em uma cidade onde saía mais gente do que chegava, somado à companhia da intocável irmã dos Montgomery e ao visual espalhafatoso de Daphne, fez com que as poucas testemunhas presentes virassem os pescoços em sincronia. O silêncio da manhã tornou o momento ainda mais palpável. Preston sentiu uma vontade súbita de se enterrar no asfalto, ponderando se não seria menos circense vir de carona com seu pai. Daphne, por outro lado, ergueu o queixo, gloriosa, absorvendo a atenção exclusiva como se fosse luz solar. Ao lado deles, Chloe apenas ajeitou a alça da bolsa, orgulhosa de ter trazido as novidades mais interessantes do último ano da Escola.
O interior da Wildale Regional High School mantinha uma certa ordem, até ser invadido pela horda de adolescentes entusiasmados ou depressivos pelo inicio do Senior Year: reencontrar amigos, participar das últimas aulas e claro, o Hockey antes da faculdade e toda a dinâmica cultural forte de uma escola em uma cidadezinha isolada. O corredor principal, largo e ladeado por armários de um azul-marinho, começava a ser maculado por centenas de botas que traziam a lama e a grama úmida do mundo exterior para dentro do previamente virgem piso de linóleo.
De repente, o ambiente virou um festival de apresentações. Parados no fluxo, Daphne era apresentada às colegas de Chloe, que pareciam fascinadas pela "garota fashion de Nova Iorque", mas ignoravam sistematicamente o irmão gêmeo mudo ao lado dela.
Daphne absorvia luz como um painel de energia solar, devolvendo sorrisos de "protagonista acessível" enquanto catalogava nomes e rostos para seu mapa mental da hierarquia social. Para ela, aquele corredor não era uma escola; era um ecossistema pronto para ser narrado. Para Preston, contudo, aqueles sorrisos falsos e o interesse quase televisivo da irmã faziam com que ele se sentisse em um documentário do Discovery Channel. E o pior: um episódio dirigido por Daphne.
Foi então que a pressão atmosférica mudou.
As portas duplas da entrada lateral se abriram com um estrondo metálico, trazendo uma rajada de vento seco que fez os pelos da nuca de Preston se eriçarem. O burburinho das conversas cessou abruptamente, substituído pelo som rítmico de passos pesados.
Não era um grupo de garotos; era uma entidade.
O time de hóquei, os Wildale Wolves, caminhava em sua tradicional formação de "V", ocupando o centro do corredor como se o piso barato fosse um tapete vermelho. Vestiam suas jaquetas varsity (o corpo azul-celeste metálico brilhando sob as luzes fluorescentes, as mangas de couro creme rangendo com o movimento) como se fossem armaduras de guerra. Os estudantes comuns se afastaram instintivamente para os armários, abrindo caminho, como se o zamboni fosse os atropelar. Daphne observou, satisfeita: aquela sociedade não estava na era do bronze; a coreografia de poder era complexa. Ninguém ousava cruzar a linha dos Reis do Gelo.
No vértice da formação, onde deveria estar o capitão (que Daphne sabia ser Denis), marchava uma figura que fez o radar estético de Daphne apitar. Ele era alto, com uma constituição física que sugeria força bruta, mas havia algo em sua postura que destoava da arrogância dos outros. Sua cabeça sobressaía à dos outros pela altura. Tinha cabelos loiros num tom palha, deliberadamente bagunçados, e o rosto possuía ângulos severos. Seus olhos, de um azul-acinzentado profundo e exausto, capturaram a atenção dela. Ele parecia entediado com a própria realeza.
— Estranho... — murmurou Chloe, franzindo o nariz perfeito enquanto espiava por cima do ombro de Daphne. — O Denis não está. Geralmente é ele quem puxa a fila. O Jeremy assumiu a ponta.
— Jeremy? — repetiu Daphne, testando o nome. — O loiro com cara de quem preferia estar em um funeral?
— Jeremy Houston. Ele é o braço direito do meu irmão no time — explicou Chloe, analítica. — É o defender. O time adversário costuma ter medo dele só dele olhar, não sabem quando vai vir o bote. Cuidado, ele não ataca só jogadores de Hockey. Ele tem veneno.
O grupo parou em frente à vitrine de troféus, bloqueando a passagem. Como que por intuição, Jeremy virou o rosto lentamente. Seus olhos exaustos travaram nos de Daphne. Ele a analisou de cima a baixo — registrando a jaqueta, as botas rosa, o cabelo desafiadoramente cheio — e seus lábios se curvaram minimamente. Não foi um sorriso. Foi um riso de escárnio, rápido e cortante, antes de ele dar as costas.
Daphne boquiabriu-se: ultrajada e fascinada ao mesmo tempo. Encrespou-se, virando-se para o irmão:
— Ok, vamos pegar nossas chaves, Tony… Preston?
Daphne procurou, mas o lugar ao seu lado estava vazio.
— Óbvio, não sei porque ainda me surpreendo... — comentou ela para Chloe, revirando os olhos. Preston já havia evaporado.

O outro Deloria já havia executado seu plano de fuga com a velocidade de um átomo comprimido. Definitivamente, não esperou nem pra ver a cara dos atletas que entravam pelo corredor. Ele já conhecia um jogador e isso já era suficiente.
Enquanto Daphne e Chloe ainda seguiam para a diretoria, o rapaz já rumava para o único lugar onde a lógica imperava sobre o caos social: a Sala 204.
Ele riu amargamente ao lembrar que, para Daphne, estudar naquele buraco seria “um diferencial”. Colocar Preston em uma sala de Cálculo I no Senior Year era sim um diferencial. Um diferencial em um cálculo de constante zero: oco. No entanto, parado em frente a porta, o rapaz suspirou. Se aquela era a única molécula de dopamina em um mar de estímulos negativos, ele iria se agarrar a ela com unhas e dentes.
Ao entrar, a sala estava na penumbra azulada típica, com as persianas fechadas. O cheiro de ozônio dos computadores e o zumbido das ventoinhas eram reconfortantes. Ele escolheu uma mesa grudada na parede oposta à janela, longe da porta, na fileira central. O ponto cego perfeito.
Mas havia alguém sentado na carteira logo atrás da que ele escolheu, porém Preston mal registrou a presença. Tirou seu caderno de capa dura e colocou os fones de cancelamento de ruído. Sem música. Apenas o silêncio protetor enquanto a aula não começava. Abriu seu livro de Topologia Algébrica, camuflado dentro da apostila do colégio.
Após exatos dois minutos a porta da sala se fechou com um estalo seco. O Sr. Miller caminhou até a mesa do professor com a autoridade de um carcereiro.
— Guardem os eletrônicos. Vamos começar.
Preston suspirou, fechou o livro de Topologia e, a contragosto, retirou os fones para o bolso. Agora ele estava exposto ao ambiente.
O Sr. Miller virou-se para o quadro negro e começou a escrever a definição de limites. O silêncio na sala era respeitoso, quase absoluto.
Quase.
Tuc... tuc... tuc...
O som vibrou, vindo da carteira logo atrás de Preston. Alguém batia a ponta da lapiseira na mesa. Um ritmo irregular e caótico.
Preston tentou ignorar, focar na lousa.
Risca. Risca. Assopra. O som de uma borracha sendo esfregada com violência contra o papel, fazendo a mesa de Preston tremer levemente.
Ele trincou os dentes. A frustração irradiava da pessoa atrás dele como calor.
— Que merda... — A voz sussurrada atrás dele era rouca de cansaço. — Por que não bate...?
Mais batidas de calculadora. Teclas de plástico sendo espancadas com força excessiva.
A paciência de Preston rompeu-se. Com o professor de costas, ele girou o corpo na cadeira, pronto para fulminar o idiota com um olhar que faria qualquer um evaporar.
— Dá para você parar de…
A frase morreu na garganta.
O garoto de capuz levantou a cabeça, assustado com o movimento brusco. O tecido escorregou para trás, revelando cabelos negros, úmidos de suor e desgrenhados.
Era Denis.
Mas não era o "Príncipe" do dia anterior. Ele parecia exausto. Havia olheiras profundas e a pele estava pálida, exceto pelas bochechas coradas.
Preston congelou. O universo tinha um senso de humor sádico. Ele fugira do corredor para não ver os atletas, apenas para sentar a trinta centímetros do Capitão deles.
Denis piscou, os olhos vermelhos demorando um segundo para focar.
— Ah… É… — Alongou a vogal, tentando lembrar. — Preston Alan?
Ele deu um meio sorriso satisfeito por lembrar o nome do meio do filho do técnico e olhou para a calculadora gráfica em sua mão como se fosse um artefato alienígena.
— Desculpa... — Denis sussurrou, passando a mão no rosto para acordar. — Treino de madrugada. Minha cabeça tá um purê. E essa coisa não colabora.
Ele empurrou o caderno levemente. A página era um massacre de grafite. Denis tentava calcular um limite básico, mas tinha errado a fatoração três vezes.
Preston olhou para o papel. O erro brilhava em neon. Era uma atrocidade lógica.
Sem dizer uma palavra, se movendo por puro instinto, Preston estendeu a mão e puxou o caderno de Denis.
— Ei...
Pegou a lapiseira da mão frouxa do garoto. Riscou a bagunça. Ao lado, com caligrafia pequena, escreveu a resolução correta.
— Não divida por zero — murmurou Preston, rápido. — Fatore primeiro.
Ele devolveu o caderno. Denis encarou o papel, a compreensão limpando o nevoeiro do cansaço.
— Caramba... — Ele soltou um riso baixo. — É claro. Fatoração. Valeu.
— Sr. Montgomery? Sr. Deloria?
A voz do Sr. Miller cortou o ar. O professor havia se virado e agora os encarava, braços cruzados. Conversa paralela na primeira aula do ano.
Denis travou, o pânico em seu rosto por um milésimo de segundo, alternando então para um sorriso encantador, e abriu a boca.
Preston agiu antes de pensar. Ele virou para frente, encarando o professor com sua melhor máscara de indiferença técnica.
— O Sr. Montgomery estava questionando a eficácia da regra de L'Hôpital para este caso específico, Sr. Miller — mentiu Preston, suavemente. — Eu estava apenas demonstrando que a fatoração algébrica é mais elegante e segura.
O silêncio esticou-se por três segundos. Miller olhou de Preston para Denis. Denis, por milagre, voltou a fechar a boca e apenas assentiu.
— Hm — resmungou Miller, desarmado. — Mantenham o debate em silêncio. A elegância matemática exige foco.
O professor voltou para o quadro.
Preston notou, no entanto, que literalmente toda a sala olhava para os dois. A reação adrenérgica tardia tomou conta de seu corpo.
Mentir para um professor no primeiro dia de aula para proteger Denis Montgomery? O coração parecia que ia pular pela sua garganta. O rapaz se curvou para o caderno e baixou a cabeça, fechando os olhos para tentar cancelar o ruído dos murmúrios dos alunos sem precisar de fone. Ironicamente, Preston fora o aluno que mais chamou atenção naquela manhã, talvez até mais que a bomba de purpurina conhecida como sua irmã.
O rapaz fechou o olho com mais força, buscando algum poder psíquico de apagar memórias em massa, porém uma mão tocou sua cintura, o que fez Preston olhar discretamente para trás, tomado por um repentino instinto assassino.
— Salvou minha pele, cara — sussurrou Denis, um sorriso perigoso e cansado surgindo nos lábios. — O Miller me odeia. Não esqueço quem me ajuda, Preston.
Preston virou para o quadro negro rapidamente, respirando forte e com o coração a palpitar.
“Não, Denis, você esquece sim”, pensou Preston, com amargura.

A manhã se arrastou por uma insuportável aula de Literatura. Para a sorte de Preston, ele não cruzou com Denis, Daphne ou Chloe, nem com a "elite" atlética ou os aspirantes a influencer. Eles provavelmente almoçavam no turno anterior. Quando o sinal tocou, ele encontrou um refeitório em clima de pós-guerra, com o pandemônio de bandejas e o piso pegajoso já sendo administrados pela equipe de limpeza.
Preston entrincheirou-se em uma mesa vazia e equipou-se com seus fones. Comeu calmamente. Era o fôlego que se toma antes do mergulho.
Se a aula de Matemática deveria ser sua dopamina salvadora (caso não tivesse sido adulterada por Denis), a próxima aula seria um mergulho direto num tanque de adrenalina, caos e pânico. Educação Física. O tempero era ainda mais indigesto: aula mista e estrelada por seu pai como o professor.
Para chegar ao vestiário, Preston teve que atravessar a "Via Appia" da escola: o Corredor dos Troféus. Era um trajeto arquitetado para intimidar. O piso de linóleo comum do corredor acadêmico dava lugar a um granito polido, e as paredes eram revestidas por vitrines de vidro temperado que iam do chão ao teto. Lá dentro, descansavam décadas de glória em metal dourado e prata, fotos em preto e branco de times de 1950 e camisas de hóquei emolduradas como relíquias sagradas.
O ar ali mudava. O cheiro de papel e grafite das salas de aula morria, substituído pelo aroma clínico de desinfetante de limão e o subtexto quase religioso.
Preston entrou no vestiário masculino exatamente quatro minutos após o sinal. Seu cálculo foi preciso. O pandemônio de gritos e toalhas estalando já havia cessado. O lugar estava deserto.
Diferente dos vestiários de filmes de terror, aquele parecia um spa escandinavo. O chão era de cerâmica antiderrapante imaculada, os armários, de um azul cobalto profundo, não tinham um único arranhão ou pichação, os bancos de madeira eram de carvalho envernizado, parecendo ter sido roubados de uma igreja. Preston trocou de roupa em tempo recorde, enfiando o uniforme de ginástica cinza-padrão e amarrando o tênis com três laços alternados de segurança.
Ao empurrar as portas duplas para a Arena, o silêncio estéril do vestiário foi substituído por uma reverberação cavernosa.
O ginásio principal era uma catedral de vigas de aço expostas e madeira polida que brilhava sob holofotes industriais. As arquibancadas retráteis subiam pelas paredes como penhascos metálicos, ostentando as cores da escola (azul claro e escuro). No centro da quadra, o burburinho dos alunos ecoava, amplificado pelo teto alto.
Rupert Deloria estava no meio do círculo central, como um pinheiro envolvido por mata média: alto, solitário e calmo, rodeado por aproximadamente trinta adolescentes.
Preston trotou para a quadra, ciente de que estava atrasado. Seu pai o mirou de longe. Rupert, com seu agasalho de treinador e o apito prateado pendurado no pescoço grosso, virou-se lentamente. Ele abriu a boca para repreender, mas os olhos dos dois se encontraram. Rupert fechou a boca, compreendendo algo e apenas franziu o cenho. Tocou o vidro do relógio de pulso duas vezes com o indicador. Atrasado.
Em seguida, ainda em silêncio, Rupert espalmou a mão direita: cinco dedos. Depois, girou o indicador no ar num movimento circular e mostrou as duas mãos abertas mostrando dez dedos.
Preston assentiu, um movimento curto de cabeça.
Ele foi para o canto da quadra e cumpriu os cinco minutos de alongamento com rigor militar. Depois, infiltrou-se na pista de corrida que circulava a quadra de basquete, ciente que estava perdendo 5 minutos do aquecimento.
A cena parecia coreografada: na frente, como Huskies Siberianos puxando o trenó, estavam os atletas. Preston localizou Denis imediatamente. Ele corria sem nem suar, vestindo uma camisa branca de compressão tecnológica de mangas longas que parecia desenhada para humilhar os mortais, delineando cada músculo do torso robusto e das costas largas. Ao lado dele, Jeremy corria com uma expressão séria, focada, quase que entediado. Eles eram os alfas da matilha.
Preston inseriu-se no meio da fileira. Atrás dele, o "pelotão dos sedentários" ofegava e arrastava os pés. Preston manteve um ritmo constante, sincronizando a respiração com as passadas. Inspira, um, dois. Expira, um, dois.
No final da fila, a realeza feminina protestava. Daphne e Chloe praticamente caminhavam, conversando e ignorando a existência da atividade física. Toda vez que passavam perto de Rupert, ele soprava o apito com força, um som agudo que mandava Daphne dar um "trotinho" falso por três segundos antes de voltar a andar e papear com Chloe.
Lá na frente, Denis e Jeremy olharam para trás. O estômago de Preston revirou, mas manteve o olhar fixo no tênis do colega à sua frente (tinha um rasgo).
Quando o aquecimento terminou, Rupert soou o apito longo. O eco reverberou no teto alto.
"Reúnam-se", disse Rupert. Sua voz não era alta, mas tinha uma gravidade melancólica e competente.
Os alunos formaram um semicírculo. Rupert explicou a atividade com a economia de palavras de quem prefere táticas a discursos.
"Vamos jogar 'Proteja o Rei'. É um exercício de posicionamento inteligente, não apenas de força bruta. O objetivo é eliminar o time adversário com a bola, mas se o Rei for atingido, o jogo acaba instantaneamente. O Rei não pode atacar, apenas esquivar."
Ninguém se voluntariou para ser capitão. Rupert suspirou, desesperançoso.
"Montgomery. Houston" informou o óbvio. "Tirem a sorte".
Jeremy ganhou e escolheu o lado da quadra e o primeiro lance. Denis ficou com a primeira escolha de jogador.
"Os seus Reis", disse Rupert.
A quadra ficou em silêncio. A lógica padrão seria escolher o aluno mais ágil e pequeno, alguém difícil de acertar. Ou talvez o mais inútil, para protegê-lo no fundo.
Denis passou os olhos pela fila de alunos. Seus olhos pararam em Preston, faiscando por um segundo.
"Preston", disse Denis, com a voz firme.
Preston congelou. Sentiu o rosto esquentar. Ele procurou sentido na escolha, mas não o encontrou, o que o deixou nervoso.
Do outro lado, Jeremy sorriu. Um sorriso de canto de boca. Sem tirar os olhos do Técnico, mas ciente que Daphne o olhava, ele ergueu as sobrancelhas e deu de ombros:
“A Deloria”.
Chloe e Daphne se entreolharam, revirando os olhos, sincronizadas.
Os times se separaram, liderados pelos opostos. De um lado, Denis, vibrando energia cinética; do outro, Jeremy, estático e letal. Preston e Daphne foram posicionados como peças de xadrez relutantes no centro de seus respectivos campos (o fundo da quadra, a zona de segurança). Os gêmeos se entreolharam através da "terra de ninguém" do ginásio, compartilhando aquela telecomunicação silenciosa exclusiva de quem dividiu o útero: Isso é uma execução pública disfarçada de esporte.
O gigante loiro, Jeremy, pegou a bola laranja. Ele não apenas a segurou; ele testou a tensão da borracha com os dedos longos, comprimindo o material até as veias do antebraço saltarem. Para Preston a física daquele gesto era clara: o coeficiente de restituição da esfera era alto demais; não haveria absorção de impacto, apenas a transferência bruta de energia capaz de gerar um hematoma de grau três.. O olhar de Jeremy varreu a quadra, ignorou Denis e travou em Preston. O "Rei" do time Montgomery era o alvo.
A bola voou. Não foi um arremesso; foi um disparo balístico. O som do ar sendo cortado foi audível antes mesmo do thwack seco que ecoou como um trovão pelo ginásio. Preston travou, o cálculo de evasão chegando tarde demais ao sistema motor. Mas o impacto na carne nunca chegou.
Uma barreira sólida de músculos e tecido sintético azul invadiu seu campo de visão. Denis se jogou na trajetória. O impacto soou como um estalo violento de couro contra carne, mas Denis não cedeu um milímetro. Ele travou as botas no chão e absorveu a energia cinética do arremesso no peito, usando a própria massa muscular para anular a força bruta de Jeremy. O ar saiu de seus pulmões num grunhido curto e as veias do pescoço saltaram com o esforço de conter o projétil, mas ele se manteve firme como uma rocha.
— Minha! — bradou Denis, ignorando a pele dos antebraços que já começava a avermelhar furiosamente.
Com a adrenalina servindo de combustível, Denis avançou até a linha divisória e disparou. O time adversário dispersou-se desordenadamente, como ovelhas fugindo de um lobo faminto. O arremesso de Denis não tinha a maldade sociopata de Jeremy, mas possuía precisão técnica. Atingiu o ombro de um garoto lento do time adversário, eliminando-o. Chloe soltou um gritinho, segurando a mão de uma Daphne estacada, enquanto a guerra recomeçava.
O jogo virou um cerco. Preston sentia-se ridículo, claustrofóbico e acuado como um cordeirinho. Daphne aguardava o momento para alguém lhe pedir para jogar suas tranças sob a janela da torre. Denis orbitava ao redor dele como um satélite hiperativo, um cão de guarda leal demais. A cada defesa, o capitão chegava mais perto. A essa altura, Denis irradiava calor como um radiador estourado, pingando suor salgado que caia no rosto de Preston cada vez que ele fazia um movimento brusco para protegê-lo.
"Insustentável", analisou Preston, limpando uma gota de suor alheio da bochecha com nojo.
A matemática do jogo estava clara, mas perigosa. O time de Jeremy tinha menos peças no tabuleiro, pois Denis eliminava um adversário a cada posse de bola, embora, curiosamente, o capitão evitasse disparar contra a "entidade bicéfala" formada por Daphne e Chloe no fundo da quadra. Apesar disso, quando os outros jogadores tentavam atacar Daphne, encontravam a muralha de um metro e oitenta que era o loiro. Após a terceira bolada interceptada contra um Jeremy entediado, Daphne sussurrou para ele, que segurava a bola:
— Sabe, Houston... — ela provocou, divertida. — No filme, a Whitney era a estrela, não o guarda-costas.
O sorriso dele virou uma feição lívida, mentirosamente calma. Outro tiro de canhão, outra agarrada de Denis, as mãos vermelhas formigando, já quase sem sentir mais nada.
Mesmo em vantagem numérica, o time de Preston recuava. Dada a violência de Jeremy e seu tamanho intimidador, os adversários pareciam galinhas presas num poleiro esperando a vez de serem devoradas pela raposa. Foi nesse caos que Preston isolou a variável decisiva: o Fator Jeremy. A obsessão do loiro não era tática; era emocional.
Ele queria humilhar o novato, e a raiva o deixava linear. Preston notou o padrão: quando Jeremy estava sem a bola, ele ia para o fim da quadra ser a impenetrável muralha à frente de Daphne e Chloe. Mas, no instante em que ele corria para a linha a fim de realizar um novo ataque ou rebote devastador, a sede de sangue o fazia esquecer a própria "Rainha". Ele deixava a retaguarda exposta por exatos três segundos.
A equação se resolveu na cabeça de Preston com um estalo silencioso. Jeremy pegou a bola. Seus músculos retesaram para correr até a linha. Era agora.
— Fica atrás de mim quando ele vier — sussurrou Preston para as costas ensopadas de Denis. Denis virou a cabeça, confuso, os olhos arregalados.
— O quê? Você é o Rei, se você cair...
— Apenas faça isso — cortou Preston, ríspido.
Denis engoliu em seco, hesitou por um milésimo de segundo, mas assentiu.
Jeremy avançou até a linha, os olhos brilhando ao ver Preston dar um passo à frente, saindo da sombra protetora de Denis. Um alvo limpo. Fácil. Irresistível. O loiro nem processou o risco. Ele armou o braço e disparou concentrado para acertar o rosto de Preston.
Mas Preston já tinha calculado o tempo de voo. Ele não precisou ser rápido; precisou ser exato. Ele flexionou os joelhos e girou o tronco para a esquerda num movimento econômico e matematicamente elegante.
A bola passou zunindo pelo espaço onde sua cabeça estava e foi direto para o peito de Denis, que estava logo atrás, pronto para recebê-la. Denis agarrou a bola. Jeremy estava desequilibrado pelo arremesso excessivamente forte.
O lado direito do campo adversário estava aberto.
Daphne estava lá, estacada, ao lado de uma Chloe aterrorizada. Ambas crentes que a batalha era entre os machos alfa. Preston apontou. Denis não precisou de mais nada.
O capitão correu até o limite da linha e arremessou. Não um tiro de canhão, mas um passe rápido e rasteiro. A bola explodiu contra a bota rosa de combate de Daphne.
O silêncio reinou por um segundo, seguido pelo apito estridente de Rupert.
— O Rei do time do Houston foi atingido! Fim de jogo! Vitória do time Montgomery!
Daphne olhou para o próprio pé, e depois levantou o olhar para Denis e o irmão. Apesar da derrota, ela sorria encantada. Surpreendentemente, Denis e Preston faziam uma ótima equipe. De longe, Rupert observava Preston com os olhos quase marejados, segurando-se para não bater palmas.
Denis, ofegante e sorridente, virou-se para Preston, com as mãos nos joelhos.
— Você é louco — riu ele, o rosto vermelho de esforço. — Mas é um gênio!
Preston permitiu-se um micro sorriso de triunfo lógico. Xeque-mate.
Quando o apito final soou, a adrenalina começou a baixar, dando lugar à exaustão e à realidade burocrática do esporte. Os alunos sentaram-se no piso emborrachado, formando um semicírculo irregular para ouvir o sermão pós-jogo de Rupert.
O Técnico Deloria não era um homem de discursos longos, mas hoje ele parecia energizado. Falava sobre "coesão", "leitura de espaço" e "sacrifício". Enquanto o pai discursava, Preston notou Denis, cercado pelos outros Wolves. O capitão, percebendo o olhar, não desviou. Pelo contrário: ergueu o polegar num "joinha" discreto, um código silencioso de aprovação no meio da multidão.
Jeremy, por sua vez, mantinha-se numa órbita própria. Próximo fisicamente do time, mas separado por uma barreira invisível de mau humor, desviava das piadinhas e dos empurrões dos colegas, sem paciência para ouvir provocações sobre sua derrota humilhante para o "Nova Iorque".
Assim que Rupert dispensou a turma, a dinâmica social se fragmentou. Daphne e Chloe, como sempre imersas em si mesmas, foram até o técnico. Conversaram um pouco e depois se afastaram, parando um pouco em Denis, que estava com o seu time, para conversar e rumando em seguida para o vestiário feminino. Enquanto passavam pelos outros garotos, Chloe inclinou-se rapidamente na direção de Preston, que ainda estava sentado, afrouxando o tênis amarrado demais.
— Não vai ainda — disse ela com um sorriso cúmplice. — Meu irmão quer falar com você. E depois eu levo vocês. Seu pai ainda vai treinar os garotos. Tá tudo acertado. — Ela sorriu docemente e seguiu Daphne.
Preston franziu o cenho, confuso, mas obedeceu. O local começou a esvaziar; a maioria dos alunos comuns corria para os vestiários, desesperados para ir embora. Os jogadores do time, no entanto, caminhavam lentamente em direção a Rupert para a instrução do treino oficial.
Foi nesse intervalo de caos que Denis se moveu.
Enquanto seus companheiros de time seguiam para o banco do técnico, Denis desviou a rota. Ele se aproximou de Preston sorrateiramente, aproveitando o ponto cego do grupo. Ele parecia destruído; o peito subia e descia com força, e o suor encharcava a camisa térmica. Mas, ao chegar perto, o cansaço desapareceu sob aquele sorriso de um milhão de dólares, desenhado especificamente para desarmar até as defesas do Pentágono.
— Preston — chamou ele, a voz baixa, quase um segredo. — O time vai organizar uma festa secreta aqui na quadra hoje à noite. Todo ano fazemos isso para as boas-vindas.
Preston piscou, processando a informação. Uma festa secreta? Dos atletas? Na escola?
— Aparece por lá. Vou mandar uma mensagem pro seu Insta. Daphne me deu seu instagram secreto — completou ele, dando um sorriso sapeca que fez o estômago de Preston dar um nó.
Preston abriu a boca para xingar Daphne por ter dado seu contato sem permissão ou para questionar os detalhes dessa ideia criminosa, mas Denis já estava recuando. O capitão piscou uma última vez e trotou para se juntar ao time, gritando um "Tô indo, Coach!" para Rupert.
Preston ficou ali por um segundo, sozinho no meio da quadra vazia. Sentiu algo esquisito expandir-se em seu peito. Não era a taquicardia do exercício. Era algo morno, perigoso e inédito: satisfação. Pela primeira vez em 48 horas naquele purgatório verde chamado Wildale, ele se sentia parte de algo. Talvez a irmã estivesse certa. Talvez não fosse tão ruim ser filho do técnico. E talvez Denis pudesse ser, de novo, aquele amigo de infância.
Ele pegou sua mochila e rumou para o vestiário, caminhando à frente do time. O local estava estranhamente silencioso quando ele entrou. A "plebe" já tinha se trocado e fugido em tempo recorde. Preston aproveitou a solidão para se despir, revelando o corpo magrelo de pele morena-avermelhada — uma herança genética da mãe que contrastava com a palidez geral de Vermont.
Mas então, o som veio. Passos pesados no corredor. Vozes graves.
O time estava chegando.
Imediatamente, a "bateria social" de Preston, que parecia carregada segundos antes, despencou para zero. A ideia de ter que interagir com todos eles ao mesmo tempo, pelado ou seminu, trocando "elogios de macho" sobre o jogo, fez sua ansiedade disparar. A realidade estava avançando em uma velocidade que ele não conseguia computar.
Num movimento de puro reflexo de fuga, Preston pegou suas coisas e entrou no último box de chuveiro, no fundo do vestiário. Trancou a porta e esperou, calculando cinco minutos. A porta principal se abriu com um estrondo.
A realeza entrou. O barulho ocupou todo o espaço: bolsas sendo jogadas nos bancos, risadas, o som de chuveiros sendo ligados.
— ...jogada de mestre! — alguém gritou.
— O Coach quase teve um orgasmo intelectual! — outro completou entre risos.
Preston, no box, revirou os olhos, sorrindo para si mesmo.
Mas então, uma voz cortou a algazarra. Seca, arrastada e inconfundível.
— Quando é que você se muda para Nova Iorque, Denis? — provocou o loiro. — Eu quero ser o padrinho, hein…
O vestiário silenciou levemente. Era Jeremy.
— Por que você é assim, hein, Jeremy? — A voz de Denis soou, tranquila, vindo da área dos armários. — Aceita uma derrota sem fazer drama, que saco.
— Eu aceito várias derrotas, mas não perco minha dignidade — retrucou Jeremy, perdendo o tom ácido para revelar uma irritação genuína. — Os Montgomery não podem ver um Flatlander que já querem virar chaveirinho caipira? Sua irmã tá quase abanando o rabo.
O resto do time estava calado. Preston encostou o ouvido na porta do box, o coração acelerado.
— Não tem nada a ver, que preguiça desse papo… — Denis respondeu pesadamente. — Vamos focar no treino e depois curtir a festa…
— …Ou então… — a voz de Jeremy voltou, agora mais baixa, destilando o veneno com precisão cirúrgica. — Eu vi você convidando a Daphne pessoalmente antes do outro lá. Saquei o teu jogo, Denis. Você tá amaciando o esquisito só pra ter acesso à irmã gata dele.
Dentro do box, o sorriso de Preston desapareceu. O ar pareceu ficar rarefeito.
— A tal da Daphne é realmente uma Princesa, vou te dar essa — concordou o loiro, rindo. — Mas ter que beijar o irmão Quasimodo? Coragem, capitão.
Silêncio. Um segundo. Dois. Algumas risadinhas baixas no fundo. Então, a voz de Denis soou junto a uma risada rouca e baixa.
— É... — concordou ele. — Realmente ela é muito gata…
A risada alta e coletiva dos Wolves ecoou pelo azulejo frio. Preston, trancado no escuro do box, sentiu como se a bola do queimado finalmente o tivesse acertado em cheio no estômago. Tudo que acontecera na sala de aula e no jogo não passava de um Pedágio.
Fale com o autor