Capítulo 17

Comecei a me arrepender de ter convidado o Inuyasha para a festa da Kagura quase imediatamente. Não é que eu achasse que não seria divertido ou qualquer coisa assim. Olha, apesar de ficar me enchendo por eu ser uma artista sensível, o Inuyasha até que era um cara bacana.

Não, eu tinha me arrependido por causa da reação que as pessoas tiveram quando eu contei.

Reação número um: Kikyo

“Ah, caramba, que beleza! Vocês dois formam o casal mais fofo de todos, porque ele é tão alto e você é tão baixinha, além disso, vocês dois tem cabelo arrepiado demais, e vocês dois gostam daquele tipo idiota de música que parece um bando de barulho junto. Vai ser tão legal! Que roupa você vai pôr? Acho que você deveria colocar a minha minissaia de couro escuro e a minha caxemira verde com decote V, minha meia arrastão preta e a minha bota que vai até o joelho. Não dá para colocar coturno de minissaia, vai parecer que suas batatas da perna são gordas. Não que as suas sejam gordas, mas sempre parecem gordas se você coloca coturno com minissaia. Mas talvez a meia arrastão seja um pouco demais para uma aluna do primeiro ano. Talvez você deva colocar meias-calças finas normais. Mas acho que a gente pode comprar uma meia-calça canelada. Acho que ia ficar bom. Quer se encontrar com o retso da turma de animadoras de torcida para ir fazer compras antes da festa, no sábado?”

Reação número dois: Rin

“Ah, estou vendo que a sementinha do frisson que eu plantei germinou e produziu um botãozinho de flor bem frágil.”

Reação número três: Sango

“Ah, Kagome, que maravilha! Agora o Miroku vai ter alguém para conversar na festa, porque ele também não vai conhecer ninguém lá, igualzinho ao Inuyasha. Talvez os dois possam ficar juntos enquanto nós duas damos aquela checada no pessoal. Porque eu ouvi dizer que, em festas assim, é importante se misturar. Fiquei pensando que, se você e eu nos misturarmos, talvez consigamos ser convidadas para outras festas também, tipo quem sabe até festas do terceiro ano, apesar de eu achar que isso talvez seja pedir demais. Mas sabe como é, se fôssemos convidadas para festas do terceiro ano, seríamos tão populares quanto a Kagura em um piscar de olhos.”

Reação número quatro: Kaede

“Você convidou o garoto? Quantas vezes você já me ouviu dizer a sua irmã, dona Kagome, que se você ficar indo atrás dos garotos você vai se dar mal? É só lembrar do que aconteceu com a minha prima. É melhor que eu não veja você ligando para ele. Espere que ele ligue para você. E também não me venha com esse negócio de mensagens instantâneas pela internet. O melhor é parecer misteriosa e distante. Se a minha prima tivesse sido misteriosa e distante, não estaria na situação que está hoje. E onde é mesmo essa festa? Os pais da garota vão estar lá? Vai ter álcool para beber? Estou avisando, dana Kagome, se eu descobrir que você e a sua irmã estiverem em uma festa em que tem álcool, vocês duas vão ficar limpando privadas até entrarem na faculdade.”

Reação número cinco: Kouga

“O filho do presidente? Ele não é agente antidrogas, é?”

Reação número seis: meus pais (deixei o pior para o fim)

“Ah, Kagome, que maravilha! Ele é um garoto tão legal! Não dava para a gente inventar um namorado melhor para você. Ah, como seria bom se a Kikyo tivesse tanta prudência quanto você para escolher com quem sai... A que horas ele vem buscar você? Ah, e precisamos comprar filme para a máquina de fotografias. Só vamos tirar algumas fotos, só isso. Bom, a gente precisa registrar o evento. Nossa filhinha, saindo com um garoto tão gentil. Tão bem-educado. E você sabe que ele estuda na escola da Rin, isso significa que a inteligência dele está muito acima da média. Do país. Do país inteiro. Ele vai mesmo ser alguém importante no futuro, talvez até siga os passos do pai e se torne político. Que garoto bacana, bacana mesmo. Ah, se a Kikyo pudesse encontrar um garoto bacana assim, em vez daquele Kouga, que rapaz terrível!”

Foi totalmente humilhante. Olha, só eu mesma: na primeira vez que saio com um garoto, é um cara que os meus pais adoram! Além de o Inuyasha não ter nenhuma tatuagem (pelo menos, até onde eu sei) nem andar de Harley (mais uma vez, estou chutando, mas parece bem provável), ele é filho do PRESIDENTE.

Tá bom? Poderia ser mais CDF? Eu sei que a gente não pode fazer nada a respeito dos pais que tem, mas dá um tempo. Em vez de o cara ser filho de mãe solteira que vive de pensão do governo ou de um pai condenado, situações que deixariam meus pais loucos da vida, acabo saindo com um cara cujos pais não só continuam casados como também são, tipo, o casal mais influente do país.

A vida é mesmo injusta.

Fiz de tudo para irritá-los (estou falando dos meus pais), falando que o Inuyasha vinha me buscar no CARRO dele (mas claro que não era bem assim; o John é que vinha dirigindo já que o Inuyasha, com 17 anos, não tinha idade para ter carteira de motorista). Daí observei que iríamos comer SOZINHOS em algum lugar antes da festa (de novo, não era totalmente verdade, já que os caras do Serviço Secreto iam nos acompanhar), já que o Inuyasha tinha sugerido, quando saíamos do ateliê da Ayame Boone, que fôssemos comer alguma coisa antes da festa.

Mas nem a minha mãe nem o meu pai morderam a isca. O negócio é o seguinte: só porque o cara é o primeiro-filho, ou qualquer coisa assim, eles confiam nele completamente! Nem em um milhão de anos eles teriam deixado a Kikyo ir a uma festa com o Kouga (não sem uma briga gigante antes). A única razão por que eles cederam dessa vez e a deixaram ir é porque sabiam que eu também ia estar lá... bom, com o Inuyasha e o Serviço Secreto. Mas, mesmo assim. Eu! A irmã menor dela! Eu sou supostamente a boazinha! Apesar de tudo que eu tenho feito para convencê-los do contrário (tipo só de me vestir de preto durante um ano, ou aquela história toda ad minha produtora clandestina de desenhos de celebridades), eles insistem em achar que eu sou uma pessoa responsável!

E vou dizer uma coisa: esse negócio de eu ter salvado a vida do presidente e de ser nomeada como embaixadora teen da ONU também não ajudou em nada.

Estava pensando seriamente em repetir no inglês, só para me vingar deles.

Mas, do jeito que eles andavam agindo ultimamente, acho que eles só iam ficar tipo: “A Kagome tirou zero em inglês, que coisa mais adorável!”

De qualquer maneira, na noite da festa, a minha mãe e o meu pai cumpriram a ameaça e já estavam esperando na sala, com a máquina de fotografia em punho, quando o Inuyasha tocou a campainha, às sete horas em ponto. A Sango já tinha chegado e partido, depois de a Kikyo transformá-la em uma cópia das garotas que habitavam as páginas das revistas. Ela ia se encontrar com o Miroku no fliperama, e daí os dois iam nos encontrar na casa da Kagura, na hora da festa.

- Por favor – cochichei, aflita, para o Inuyasha quando abri a porta. – Não ligue para eles. Eles não sabem o que estão fazendo.

O Inuyasha, que estava de jeans e com uma malha preta, ficou um pouco assustado, mas depois que entrou em casa e viu meus pais, relaxou.

- Ah – fez ele, como se os pais das garotas com quem ele sai sempre aparecem com câmeras compactas nas mãos... bom, talvez aparecessem mesmo. – Oi, sr. e sra. Higurashi.

E se a minha mãe e o meu pai já não fossem o bastante, indo de um lado para o outro com lentes zoom em punho, o Buyo, todo animado com a perspectiva de conhecer alguém novo, veio correndo como louco da cozinha (com todos os seus quatro quilos) e imediatamente enfiou o focinho na virilha do Inuyasha. Eu tentei puxar o cachorro para longe, pedindo desculpas pelo comportamento dele.

- Tudo bem – disse Inuyasha, dando alguns tapinhas carinhosos na cabeça desgrenhada do Buyo. – Eu gosto de cachorro.

Daí a Kikyo tinha que entrar em cena, flutuando escada abaixo toda vestida para a festa, como se achasse que era alguma atriz de novela famosa ou qualquer coisa assim, e daí mandando:

- Ah, Inuyasha, é você. Achei que era o meu namorado, o Kouga. Claro que vocês dois vão se conhecer na festa. Acho que vocês vão se dar superbem. Ele também é artista.

Depois foi a vez de a Rin aparecer, olhar para o Inuyasha e para mim e mandar:

- Ah, é. Definitivamente, frisson – e logo subiu a escada e foi para o quarto dela, provavelmente para fazer mais uma tentativa de entrar em contato com a nave-mãe.

Se a minha família tivesse tentado me envergonhar, o máximo possível, de propósito, acho que não teria feito pior.

Quando conseguimos escapar para a segurança da varanda, o Inuyasha olhou para mim e perguntou:

- O que é frisson?

- Ah, hahaha – fiquei rindo igual a uma tonta. – Não sei. Deve ser algo que ela aprendeu na escola.

Inuyasha fez uma careta de leve.

- Eu vou à mesma escola que ela, e nunca ouvi falar disso.

Para distraí-lo, caso ele estivesse pensando em chegar em casa e ir olhar a palavra no dicionário, dei um gritinho quando vi o carro dele.apesar de eu não ter aceitado os conselhos da Kikyo a respeito do meu visual (estava usando minhas roupas mesmo, uma saia preta e comprida que ia até onde começavam os meus coturnos com margaridas, combinado com uma malha que, apesar de ter decote V, também era preta), lembrei algumas das observações dela, uma das quais fora: “Aja como se o carro dele fosse o máximo. Os caras têm uma relação esquisita com os carros deles.”

Só que eu não tenho bem certeza se isso vale para todos os caras, porque depois de eu ter um ataque dizendo que adorava o sedã de quatro portas dele, o Inuyasha ficou olhando para mim com um ponto de interrogação no olhar.

- Hum... não é meu – disse. – É do Serviço Secreto.

- Ah – respondi. E daí reparei que o John, da aula de arte, estava parado ao lado do carro. E também que outro carro quase idêntico estava parado logo atrás do primeiro, com mais dois agentes do Serviço Secreto dentro.

Como achei que algum tipo de explicação se fazia necessária, afirmei:

- A minha irmã disse que os caras gostam quando a gente elogia o carro deles.

- É mesmo? – Inuyasha disse, sem parecer muito surpreso. – Bom, ela parece ser alguém que sabe dessas coisas.

Foi nesse momento que um repórter que nenhum de nós tinha notado pulou atrás dos arbustos e nos atacou: “Kagome! Inuyasha! Aqui!”, e tirou umas mil fotos.

Não deu para ver exatamente o que aconteceu em seguida, já que todos aqueles flashes me deixaram cega durante alguns segundos, mas ouvi uma voz firme dizer: “Isso aqui fica comigo”, seguido por um grunhido, um barulho de coisa quebrada e o fim dos flashes.

Quando voltei a enxergar, percebi que a voz firme pertencia a um agente que voltava para o carro estacionado atrás do do Inuyasha. O repórter estava a poucos metros de distancia, na calçada, com ar desolado, segurando a câmera despedaçada. Ele murmurava alguma coisa a respeito de liberdade de imprensa... mas não muito alto, de modo que o agente não podia ouvi-lo.

John abriu a porta de trás do primeiro sedã e disse, todo arrependido:

- Desculpem-me por esse incidente.

Acomodei-me no banco de trás sem dizer nada, porque, afinal, o que é que eu podia fazer?

O Inuyasha entrou pelo outro lado e fechou a porta. O interior do carro do Serviço Secreto era muito limpo. Tinha cheiro de novo. Eu detesto cheiro de carro novo. Pensei em abrir a janela, mas estava bem frio lá fora.

Daí o John se acomodou atrás da direção e checou:

- Tudo certo aí?

Inuyasha respondeu:

- Comigo, tudo certo – daí, olhou para mim. – E você, tudo bem?

- Hum... – respondi. – Tudo.

- Está tudo certo por aqui – confirmou Inuyasha.

E o John respondeu:

- Então, vamos lá.

E começamos a andar. Fiquei com o rosto afastado da janela, porque percebi que os meus pais tinham saído à varanda da frente e estavam parados lá, acenando para nós. Um repórter, cuja câmera não tinha sido despedaçada, tirou uma foto da cena, já que tirar fotos do Inuyasha e de mim era obviamente proibido. Torci para que minha mãe e meu pai ficassem felizes de ver uma fotona colorida deles no jornal de amanhã de manhã.

Dentro do carro, estava o maior silêncio. Um silêncio excessivo. “Só tem três assuntos que você pode conversar com os caras”, a Kikyo tinha me instruído anteriormente, naquele mesmo dia, apesar de eu não a ter consultado mesmo a esse respeito. “E essas coisas são:

Um: ele mesmo.

Dois: você e ele.

Três: você mesma.

Comece falando a respeito dele. Daí, lentamente, introduza o tema relativo a você e ele. Depois, faça com que a conversa se desvie para você. E fique por aí.”

Mas, por algum motivo, eu não conseguia falar nada daquelas coisas que a Kikyo tinha me aconselhado a dizer. Olha, a primeira coisa, de elogiar o carro dele, não tinha dado nada certo. Eu percebi que, ao sair com o filho do presidente, eu estava penetrando em território desconhecido, do tipo que a Kikyo nunca tinha explorado. Eu estava por minha própria conta. Era um pouco assustador, mas achei que conseguiria me virar.

Tipo assim, ele não era exatamente o Kouga.

- Hum... – comecei, quando John virou na rua 34. – Desculpa pelos meus pais.

- Ah – respondeu Inuyasha, rindo. – Sem problemas. Então, para onde a gente vai? O que você está a fim de comer?

Como eu sempre só estou a fim de comer uma coisa (hambúrguer), não tinha muita certeza a respeito de como responder à pergunta dele. Por sorte, o Inuyasha continuou falando:

- Eu fiz reserva em alguns lugares. Tem o Vidalia. Acho que é bem legal. E o Cards. Eu não sabia se você já tinha ido lá. Ou então tem o Kinkead, apesar de eu saber a sua opinião sobre peixe.

Enquanto ia ouvindo isso, meu pânico ia crescendo. Reserva? Ele fez reserva? Eu nunca achava nada que tivesse vontade de comer em cardápios de restaurantes que exigem reserva.

Eu não sei se o Inuyasha foi capaz de perceber o tremor no meu rosot, ou se foi o meu silêncio que entregou tudo. De qualquer modo, ele mandou:

- Ou a gente pode esquecer as reservas e ir comer uma pizza ou qualquer coisa assim. Tem um lugar que eu ouvi dizer que todo mundo vai. A pizzaria Kizu’u, ou outra qualquer?

A Kizu’u era o lugar onde a Kikyo e a turma dela estariam antes da festa. Ao mesmo tempo em que eu sabia que iríamos ver toda aquela gente em algumas horas, de qualquer jeito, acho que não dava para encarar ficar sentada em uma mesa com o Inuyasha na frente de todos eles, sabendo o tempo todo que o restaurante inteiro estava de olho em nós, falando de nós. Eu duvidaria de que seria capaz de engolir qualquer coisa. Além disso, o Kouga estaria lá. Como é que eu iria prestar atenção em qualquer coisa que o Inuyasha dissesse se o Kouga estivesse em qualquer lugar nas redondezas?

- Ou então a gente pode simplesmente comer um hambúrguer em algum lugar... – sugeriu Inuyasha, olhando para mim de novo.

- Para mim, parece bom – respondi, esperando soar bem desencanada.

Ele me deu um daqueles sorrisinhos misteriosos.

- Então vamos comer hambúrguer – resolveu. – John, vamos para o Jake’s. e você pode colocar um som, por favor?

John respondeu:

- Claro – e apertou um botão no painel.

E aí, a voz da Amy Lee encheu o carro.

Evanescence. O Inuyasha era fã do Evanescence.

Eu deveria saber, claro. Tipo, temos o mesmo gosto para música, como eu percebi aquele dia com a camisa na aula de arte.

Mesmo assim, fiquei em estado de choque quando percebi que o Inuyasha tinha mandado colocar a Amy no som do carro. Porque, sabe como é, se eu tivesse um carro, é exatamente isso que estaria no som (no meu também XD). A Amy, tipo assim.

E a coisa mais esquisita de todas era que o meu coração tinha feito aquela coisa de novo. Fala sério. Aquele pulinho, assim que ouvi a voz da Amy. Só que não por causa da Amy, sabe como é. Não, foi porque eu percebi que o Inuyasha gostava da Amy. Será que era disso que a Rin estava falado? Será que frisson era isso?

Mas como é que eu podia sentir frisson por uma pessoa quando meu coração pertencia a outra? Não fazia o menor sentido. Para começar, a única razão por que eu tinha convidado o Inuyasha tinha sido para deixar a Sango feliz. E talvez para deixar o Kouga com ciúme. Olha, eu era completa e irrevogavelmente apaixonada pelo namorado da minha irmã, que um dia perceberia que eu, e não a Kikyo, sou a garota certa para ele.

Então, que história de frisson era essa?

Achei que, se eu ignorassem aquilo iria embora. Então, foi o que eu comecei a fazer. E sabe o quê? Por um tempo, fiquei achando que estava dando certo. Olha, não que a gente não tenho se divertido nem nada assim. O Jake’s, o lugar em que fomos jantar, era total o tipo de lugar de que eu gosto. Ninguém lá deu a mínima para o fato de eu ser a garota que tinha salvado o presidente e que o Inuyasha era filho dele. Na verdade, acho que ninguém chegou a olhar para a gente, a não ser a garçonete e, claro, John e os outros agentes do Serviço Secreto, que se sentaram em uma mesa um pouco afastada da nossa.

E apesar de eu estar preocupada com o que dizer, descobri que não preciso prestar a mínima atenção as regras da Kikyo. O Inuyasha começou a me contar umas histórias engraçadas a respeito das coisas malucas que as pessoas que visitam a Casa Presidencial esquecem por lá (tipo aparelhos ortodônticos e, uma vez, calça de veludo cotelê) e, depois disso, a conversa simplesmente fluiu.

E quando os hambúrgueres chegaram, eram queimadinhos do lado de fora, bem do jeito que eu gosto, e ninguém tinha se atrevido a colocar qualquer verdura ou outra coisa, tipo tomate, cebola e alface, perto da carne. As batatas também eram do tipo crocante, não daquele tipo oleoso e mole que tem um gosto horrível de batata.

Daí o Inuyasha me contou uma história sobre quando ele era pequeno q a mãe e o pai dele pediam para ele colocar a mesa e, para fazer piada, ele colocava o garfão e a colherona da servir salada em um dos lugares.

E ele disse que os pais dele riam toda vez, apesar de ele fazer aquilo praticamente toda a noite.

Inspirada nisso, contei a ele a respeito daquela vez no Marrocos em que tentei jogar os cartões de crédito do meu pai na privada. Que é uma coisa que, para falar a verdade, eu nuca contei a ninguém sem ser a Sango. Não era tão fofa quanto a história do garfão e da colherona, mas era tudo que eu tinha.

E daí o Inuyasha me disse que tinha ficado muito mal de ter que abandonar os amigos e se mudar para Tókio, e que detestava sua escola de nerds, onde todo mundo era supercompetitivo e toda a ênfase era dada à ciência, e não a arte, e que as pessoas que gostavam de desenhar, como ele, eram menosprezadas. E eu entendi exatamente o que ele queria dizer com aquilo, a única diferença é que na minha escola só se fala de esportes.

Daí eu contei a ele que tive de ir à fonoaudióloga e que todo mundo achava que eu estava fazendo aula de reforço. E daí, por algum motivo, também contei a ele sobre os desenhos de celebridades, e como tinha sido por causa deles que eu tirei uma nota baixa em inglês e fui obrigada a ir à aula da Ayame Boone.

Foi a certa altura dessa conversa que o joelho do Inuyasha encostou no meu, por acaso, embaixo da mesa. Ele pediu desculpas e afastou a perna. Daí, uns cinco minutos depois, aconteceu de novo.

Só que, dessa vez, ele deixou a perna lá mesmo. Nem pediu desculpa. Eu não sabia o que fazer. A Kikyo não tinha incluído isso na lista de coisas que poderiam acontecer.

Mas percebi que o frisson começava a voltar. Tipo, de repente, eu tomei consciência do fato de que o Inuyasha era um garoto. Tipo assim, claro que eu sempre soube que ele era um garoto, e também que era bem bonitinho. Mas, de algum modo, quando o joelho dele encostou no meu por debaixo da mesa (e ficou lá, encostado) eu tomei consciência, mesmo, que ele era um cara.

E, de repente, fiquei envergonhada e não conseguia encontrar nada para dizer... o que foi bem esquisito porque, olha, dois minutos antes daquilo, eu não estava tendo problema nenhum naquele aspecto. E também não conseguia mais olhar nos olhos dele. Não sei por quê, mas era tipo como se eles fossem dourados demais, ou qualquer coisa assim. Além disso, de repente eu comecei a senir calor, apesar de a temperatura estar ótima dentro do restaurante.

Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Só sabia que, antes do joelho dele encostar no meu, nada disso estava rolando. Então eu me arrumei na cadeira, achando que se eu desse um basta no, sabe como é, contato, as coisas ficariam melhores.

E meio que ficaram, mas acho que não muito, já que o Inuyasha olhou para mim (sem nenhum sorrisinho secreto no rosto), e mandou:

- Tudo bem com você?

- Claro – respondi com uma voz mais aguda do que o meu normal. – Por quê?

- Sei lá – deu de ombros, aqueles olhos dourados examinando o meu rosto de um jeito que eu achei infinitamente alarmante. – Você está meio... corada.

Foi aí que eu tive a brilhante idéia de olhar para o meu relógio e dizer:

- Ah, caramba, olha só que horas são! Precisamos ir, se quisermos chegar à festa a tempo.

Eu meio que fiquei com a sensação de que o Inuyasha gostaria de pular toda a parte da festa. Mas não eu. Eu queria chegar logo lá. Porque, na festa, eu estaria a salvo do frisson.

Porque o Kouga estaria na festa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.