O Diário de Sir William
16 Capítulo XV
Notas iniciais
William poderia ter imaginado aquele beijo milhares de vezes e nenhuma delas se igualaria a perfeição daquele momento.
Devo estar no paraíso, ele pensou, talvez eu tenha caído do meu cavalo e quebrado o pescoço, talvez...
Margaret ofegou tirando Will de seus devaneios e o provando que ela era real e estava bem ali em seus braços. Lentamente, ela pôs as mãos nos ombros dele e William sentiu os dedos em sua nuca, deslizando para seus cabelos para impedi-lo de se afastar. Como se houvesse a menor possibilidade dele se afastar. Nada se comparava a aquele momento, nada. E Will queria prolongá-lo pelo máximo de tempo possível. Não se importava mais com a opinião de seu pai, tudo o que queria era ela e esperava que ela também o quisesse.
Ele deslizou suavemente sua mão pela linha do maxilar dela e sorriu, se afastando um momento apenas para observá-la. Seus olhos passando desde os olhos tomados de desejo até suas bochechas coradas e sua boca entreaberta de uma maneira adorável.
—Você é tão linda.-Ele falou acariciando a bochecha dela e ela riu, inclinando-se contra o toque carinhoso de seus dedos.
—Estou ensopada.-retrucou ela e Will se inclinou,pegando uma mecha dos cabelos molhados dela entre seus dedos e a fitando sonhador.
—É a garota ensopada mais linda que eu já vi.
—E foram muitas?-perguntou ela fingindo estar brava e Will balançou a cabeça com o sorriso ainda intacto no rosto.
—Nenhuma delas chegaria a seus pés.-Ele respondeu e ela sorriu, entrelaçando seus dedos nos dele.
—Eu devia adivinhar que o nosso primeiro beijo seria em um momento como esse.
—O que a senhorita quer dizer com "em um momento como esse"?-Will perguntou erguendo uma sobrancelha.
—Só que podia ter sido em uma situação menos...molhada?-Ela limpou delicadamente uma gota de chuva que ainda estava na bochecha de Will, como se para comprovar seu argumento.
—Eu acho que essa situação é perfeita.-Ele começou de modo provocante-Agora me vi desafiado a prova-la do mesmo.
William a puxou para perto e voltou a tomar seus lábios com os dele, suas mãos envolvendo a cintura dela, o cobertor entre eles. Ele não conseguiu evitar o ruído que saiu dele quando os lábios dela se abriram sob os dele, permitindo sua passagem. As mãos dele foram para as costas dela, seguindo o contorno da coluna dela, perfeitamente arqueada sob o toque dele. Havia muito, muito que ele queria tocar, explorar, mostrar e parecia que seu desejo se tornava mais avassalador a cada instante.
—Bem,acho que ainda não estou convencida o suficiente.-Margaret sussurrou com um brilho de divertimento no olhar quando eles se separaram em busca de ar.-Terá de se esforçar mais.
—Seu desejo é uma ordem.
William percorreu com os dedos o contorno vulnerável da clavícula de Margaret, sentindo sua pele tão macia contra seus dedos.Aquele cobertor era um problema, que teria que ser resolvido logo. Ele ergueu os olhos para a menina, que o fitava com os lábios entreabertos e as bochechas coradas. Tempo, havia muito tempo, nenhum dos dois precisava se apressar. Will ergueu a mão de novo e afagou o rosto dela, incapaz de se conter,ela estava tão linda,tão perfeitamente arqueada em seus braços e tão quente. Espera, quente?
—Margaret?-Will se afastou preocupado e a garota gemeu em protesto.
—Você não terminou de me convencer.-Ela reclamou.
—Você está quente.-Will falou colocando as costas de sua mão na testa dela.
—As pessoas não costumam ficar quentes em momentos assim?-Ela perguntou, com uma expressão confusa tão adorável que Will teve vontade de beijá-la novamente.
Concentre-se.
—Não tão quentes.-Will respondeu, fitando-a com preocupação, há apenas alguns momentos atrás ela estava tremendo de frio,como podia estar tão quente agora?-Você está com frio?
—Um pouco.-Ela admitiu com a voz trêmula-Não percebi antes quando você estava...err...nós estávamos...Ah, você sabe. Mas agora está bastante frio.-William deu um sorriso diante da enrolação dela, que logo se transformou em um sorriso apreensivo quando ele a viu tremer e puxar mais o cobertor para o corpo.
—Venha, acho que seria melhor se você se deitasse na cama, vou tentar acender mais a lareira.
—Estou bem.-Ela retrucou, mas não protestou quando William colocou a mão na cintura dela e a conduziu gentilmente até a cama.
—Talvez eu consiga achar outro cobertor.-Ele comentou, tentando soar esperançoso. A verdade era que ter achado um cobertor já havia sido uma sorte tremenda, considerando que aquela casa já estava desabitada fazia um bom tempo.
—Talvez.-Ela concordou deitando na cama e se aconchegando-Você acha que-Ela se interrompeu tendo uma crise de tosses, William foi na direção dela com a testa franzida de preocupação.-Não, não. Eu estou bem. Só estava perguntando se você acha que os cavalos estão bem, está ventando tanto lá fora.
Will seguiu o olhar dela e franziu o cenho, pensando no mesmo. Os cavalos deviam estar ficando encharcados lá fora, a pequena parte coberta em frente à porta da casa não seria suficiente para protegê-los.
—Vou lá fora ver se consigo encontrar um abrigo melhor para eles, e posso aproveitar para procurar mais lenha.-Will falou e Margaret assentiu, empolgada.
—Ótimo, vou com você, deixa eu s...-Ela começou já se levantando, mas Will a interrompeu:
—Nem pensar, lá fora esta congelando.
—Mas você vai.-Ela protestou.
—Eu não estou ficando doente.-Ele rebateu e ela o fitou irritada.
—Eu também n-Ela se interrompeu dando um espirro.
Will ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso superior.
—O que dizia?
—Odeio você.-Ela murmurou se jogando de volta na cama, Will se segurou para não dar risada.
—Tudo bem.-Ele falou alegremente e caminhou até a porta.
Ela podia o odiar agora, mas pelo menos não morreria de pneumonia mais tarde.
* * *
William voltou uns bons quinze minutos mais tarde, ensopado e tremendo. Tivera que improvisar um estábulo com o que um dia tinha sido um pequeno galinheiro. Era pequeno, mas protegia melhor os cavalos da chuva. Por sorte tinha achado algumas tábuas soltas por ali e conseguiu carregá-las de volta para casa.
—Estou de volta.-Ele anunciou, adentrando o lugar e apoiando as tábuas no chão, exaurido.
Margaret estava encolhida enrolada no cobertor perto da lareira, ela ergueu os olhos quando ele entrou e abriu um sorriso radiante, que sumiu logo depois quando ela teve outra crise de tosses-
—Você não parece bem.-Will se aproximou aflito e colocou as costas de suas mãos na testa dela,a garota estava fervendo de febre.
—Obrigada, se você não tivesse falado eu não teria percebido.-disse ela, seca, e Will sorriu, afagando a bochecha dela.
—Ainda me odeia pelo que eu posso ver.
—Pode se transformar em amor se você conseguir deixar esse lugar mais quente. Está tão frio.-Ela falou, olhando esperançosa para as tábuas perto da porta.
William conseguiu aumentar o fogo da lareira e quase ao mesmo tempo os dois suspiraram aliviados. Ele se sentou ao lado da garota e ficou observando ela. Estava preocupado, ela precisava de um médico, não estava nada bem, se ele ao menos tivesse como levá-la de volta para a casa principal...Mas a chuva lá fora não dava sinal de cessar, e uma viagem corrida sob a chuva até lá talvez deixasse Margaret ainda mais doente.
—Você está tão quieto.-Margaret sussurrou, com a cabeça enterrada entre os joelhos, os cabelos loiros, agora já quase secos, bagunçados ao seu redor.
—Estou pensando em você.-Will respondeu a fitando com um sorriso.
—Costuma fazer isso com muita frequência?-Ela perguntou em um tom entretido e William assentiu.
—O tempo todo.
Ela riu, engatinhando até ele e se aconchegando em seus braços.
—Ah, isso é tão bom-Ela falou quando ele começou a afagar seu cabelo-É estranho que nos conheçamos há tão pouco tempo mas eu me sinta tão bem perto de você?
—Não, me sinto exatamente da mesma forma-Will sorriu-É como no recital.
—Então você sentiu aquilo também?-Ela perguntou surpresa e Will assentiu.
—Se a Sra.Hinxstone não tivesse nos interrompido eu teria te beijado.
—Teria sido um escândalo.-Margaret falou, rindo.
—Não acha que a sociedade londrina precisa de uns bons escândalos de vez em quando?-Ele perguntou e ela riu.
—Absolutamente, só acho que seria melhor para saúde da minha mãe que eles não me envolvessem.
Will pegou as mãos dela entre as dele na tentativa de esquentá-las,o toque fazendo todo seu corpo se arrepiar. Ainda estava maravilhado com tudo aquilo, nunca na vida havia se sentido assim antes.
—Acho que estou apaixonado.-Ele sussurrou, sem conseguir se conter, e a viu arregalar os olhos.
—Isso não é possível, nos conhecemos há menos de um mês.-Ela afirmou, embora ela mesma não parecesse muito certa de sua afirmação.
—Um mês foi o suficiente.-Will sorriu e se inclinou para beijar a parte interna do pulso de Margaret, ele a sentiu estremecer e seu sorriso se alargou. Ao que parecia ele não era o único que se sentia daquele jeito.
—Você não sabe quase nada sobre mim, nem eu sobre você.-Ela falou, ainda incerta.
—Então podemos descobrir agora, já que estamos presos aqui até a chuva parar.
Margaret seguiu o olhar dele até a janela, a tempestade lá fora fazia com que ela tremesse e ameaçasse abrir.
—Não sei-Ela abriu um sorriso cintilante-Eu não costumo ser a mais confiável das pessoas quando estou com febre.
—Mais uma coisa que descobri sobre você-Will disse travessamente-Fala besteira quando está com febre, gosta de andar a cavalo, odeia insetos e sonha em viajar pelo mundo.
—Você se lembra disso.-Ela sussurrou.
—Claro que lembro, você me disse isso naquele jantar na minha casa.
—E que lindo jantar.-Ela murmurou sarcasticamente e Will pegou um cacho do cabelo dela entre seus dedos.
—Sinto muito por meu comportamento deplorável nele, te garanto que eu não tinha, nem tenho, o menor interesse na Srta.Galesmith.
Ela ergueu uma sobrancelha.
—É uma informação difícil de acreditar, Cecília é extremamente bonita.
—A Srta.Galesmith que me perdoe, mas não acho que ela chegue nem perto de você.-Will declarou sorridente, se inclinando e roubando um beijo da menina, que o fitou com um sorriso bobo.-Amo o seu cabelo, seus olhos-Ele deu dois beijos suaves nas pálpebras de Margaret,que riu e se inclinou para mais perto quando ele pousou a mão na bochecha dela-Amo quando você cora quando está envergonhada, amo absolutamente tudo em você.
—Acredito em você-Ela sorriu-Também amo muitas coisas em você.
—Por exemplo?-Ele perguntou em um tom provocativo.
—Adoro quando você ri, suas covinhas aparecem e eu as acho tão lindas, e seu cabelo...-A menina traçou o caminho, da bochecha do garoto até seu cabelo e enroscou os dedos em alguns cachos escuros e sedosos-Ah-Ela suspirou-Você é bonito demais pro seu próprio bem.
—Olha quem está falando-Ele riu e se inclinou para beijá-la de novo,por um momento se esquecendo do foco da conversa-Mas onde estávamos?Me conte sobre você, eu quero saber tudo.
E Margaret contou. Contou sobre como ela adorava a família dela, parando para falar sobre cada membro em especial. Ela adorava o quanto seus pais amavam um ao outro, o como eles pareciam se apoiar um no outro e a maneira apaixonada que eles se olhavam, além do carinho e afeto que eles dedicavam aos filhos. Margaret adorava a personalidade sonhadora e ingênua de Charlotte, assim como a inteligente e astuta de Harriet. Edward era protetor e brincalhão e Maggie amava passar o tempo com ele. E Ethan era simplesmente a coisinha mais fofinha que ela já tivera o prazer de conhecer, com exatamente essas palavras. Ela contou também sobre o quanto gostava de tocar piano, embora ficasse muito constrangida se alguém estivesse olhando. E o como ela gostava de sentir os cabelos soltos em suas costas, embora usa-los assim na frente de outras pessoas fosse considerado totalmente inapropriado.
E Will também contou sobre a vida dele. Sobre o quanto ele amava e sentia falta da mãe, que sempre fora tão carinhosa e preocupada com ele. Sobre como ainda não perdoara-e achava que talvez nunca conseguiria-o seu pai, por não ter levado a saúde de sua mãe a sério. Contou também sobre suas desconfianças a respeito dele com Lady Somerset, os dois tinham algum passado juntos, e Will desconfiava de que ainda gostassem um do outro. Ele gostava da Lady Somerset, mas a ideia de ver seu pai feliz com outra pessoa, enquanto sua mãe não tinha tido essa oportunidade o irritava. O garoto contou até sobre seu diário de desenhos, e o quão dolorosa era a falta dele, nunca na vida tinha se separado mais do que um pouco daquele caderninho, e agora se via tateando o bolso e encontrando-o vazio, tinha tantas coisas que gostaria de desenhar, e outros desenhos que queria relembrar, mas agora não podia, e isso o desesperava. A ideia de se esquecer do rosto da mãe ou perder para sempre o desenho de Margaret naquela primeira vez que a vira o deixava angustiado.
—Posso sempre usar aquele vestido novamente.-Ela sussurrou em resposta e Will sorriu. Ele a queria tanto, a amava tanto, não estava mais ligando para o pai ou o que quer fosse, só queria ela, bem ali, ao lado dele.
—Você precisa saber que estará se comprometendo com um conde falido.-Will alertou, divertido e a menina ergueu uma sobrancelha.
—Então é o meu dote?-Ela perguntou risonha-Seu pai me escolheu por causa dele?
—Em grande parte, mas acho que ele gostou de você também, não que a opinião dele valha muita coisa.-Will falou acariciando a bochecha dela e ela sorriu, se aconchegando.
—Eu não me importo, só quero ficar perto de você.
Eles continuaram conversando sobre as coisas que mais gostavam por um longo tempo. Ele adorava azul, e ela gostava de verde. Margaret detestava tomates e Will odiava ervilhas. Ela amava o sorriso dele e ele adorava a maneira como ela ria.
Conversaram e compartilharam sonhos até tarde. Will se inclinava e acariciava as costas dela toda vez que a garota tinha uma crise de tosses, e em algum momento no meio da noite ele achou um pano e o colocou, molhado com um pouco de água, na testa dela, na esperança da febre abaixar.
Em algum momento enquanto ele cuidava dela, a garota acabou dormindo, com o rosto encostado no peito dele. Will beijou a testa dela e sorriu sonhador, queria que o resto da vida dele fosse exatamente assim, ele cuidando dela e ela aconchegada em seus braços.
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