O Diário de Sir William
13 Capítulo XII
Notas iniciais
William tateou a parte debaixo da escrivaninha e deu um suspiro frustrado.
Como era possível?Tinha de estar ali! Ele já havia vasculhado o escritório e o quarto de seu pai na Casa Davies,por fim concluira que o Conde deveria levar consigo o diário,e o escritório na casa de campo se tornou seu próximo alvo. Mas era inacreditável,o diário não estava ali em lugar nenhum!
Will se jogou na cadeira de seu pai e olhou desanimado para alguns documentos em cima da mesa. Um nome atraiu sua atenção e ele se inclinou chocado.
Odélia Threston.
Ele encarou boquiaberto o documento em suas mãos,nunca soubera o sobrenome de sua mãe antes de casada,seus avós maternos nunca vieram visitá-lo também. Agora estava ali,no maldito contrato.
—O que diabos você está fazendo aqui?-Seu pai perguntou chocado,atrás dele Lady Somerset lançou um olhar curioso sobre seu ombro.
—Mas que porcaria é essa?-Will perguntou furioso,se levantando da cadeira em que estava.
—Ah não,por favor não se preocupem com o vocabulário na minha frente,eu não me importo.-Emmeline falou,com um tom de divertimento na voz.
—Você obrigou minha mãe a se casar com você?-William perguntou sacudindo o documento na frente do pai,que lançou um olhar enojado na direção do garoto.
—Eu jamais faria isso.
—É por isso que insiste tanto em um casamento arranjado para mim?Quer que eu tenha a mesma linda história de amor que você e a minha mãe tiveram?-William zombou,ignorando a resposta do pai.
—William,seja racional.
—Racional?O que é isso em minhas mãos?Ou agora minha visão também não é confiável?!-Will falou insolente,e seu pai suspirou,parecendo subitamente cansado.
—Will querido,seu pai está falando a verdade.-Emmeline falou atraindo a atenção do garoto para ela-Foi um casamento arranjado pelos pais dos dois,ele não teve como escolher,assim como sua mãe.
William franziu a testa e voltou o olhar para o pai,que havia se apoiado no batente da porta,os dedos pressionando a testa.
—Isso é verdade?-O garoto perguntou.
—Não queria ter de falar com você sobre isso tão cedo.-O Conde confessou frustrado.
—É por isso que odiava tanto a minha mãe?-Will perguntou com repulsa,bem isso explicava grande parte da convivência dos dois,mas mesmo assim era hediondo que seu pai descontasse em sua mãe.
—Eu não odiava a sua mãe.-O Conde gritou parecendo esgotado-Céus,é tão difícil entender?Nenhum de nós dois queríamos aquele casamento!Mas Odélia jamais desobedeceria aos pais dela e eu...-Ele bufou-Enganei-me em pensar que teria a escolha de me casar com quem eu realmente queria.
Lady Somerset engoliu em seco e voltou o olhar para o chão,parecendo repentinamente abatida. William olhou de seu pai para ela confuso e por fim emitiu um ruído irritado.
—Minha mãe não tinha culpa disso,você não deveria tê-la tratado como do jeito que tratou.-Ele vociferou lutando contra as lágrimas que ameaçaram sair,pensar na mãe naquela situação,em que nem ao menos pode escolher o marido que teria,obrigada a encarar o Conde enquanto vivesse...deixou o garoto em fragalhos,a situação ficava cada vez mais injusta aos seus olhos.
—Eu sei disso-Seu pai sussurrou levantando o olhar do chão para fitá-lo,seus olhos estavam cheios de dor e mágoa-Se você soubesse o quanto me arrependo...
William bateu com seu punho na mesa o interrompendo. Não podia,não suportava ouvir seu pai falar aquilo,como se não fosse culpa dele,como se ele não tivesse feito algo imperdoável.
—Onde está o meu diário?-Ele esbravejou indisposto a dar ao pai mais chances para se lamentar,como se ele tivesse o direito disso!
—Seu diário?-O Conde repetiu confuso e Will trincou os dentes irritado.
—Sim,eu não consigo achá-lo,tem de estar com você.
—Comigo?-Seu pai perguntou o fitando pasmo-Por que eu pegaria o diário que eu te dei?
—Você não me deu,foi a minha...-William começou chocado,mas parou quando percebeu que nunca de fato soube que sua mãe que o havia dado,deduziu isso após encontrar o diário sobre a cabeceira de sua cama embrulhado como um presente,só ela demonstrava se importar com ele,então por que seu pai o havia presenteado?Não fazia sentido,ele não poderia se importar,nunca havia se preocupado em demonstrar o menor interesse...Então,por que?
—Chega-Will sussurrou e cambaleou para fora do escritório,afastando Lady Somerset quando ela tentou ajudá-lo-Não quero ouvir mais nada que saia da sua boca,você é um mentiroso,um mentiroso e um assassino. Chega.
Ele viu satisfeito seu pai se encolher diante das suas palavras e se distanciou sentindo um alívio preenche-lo quando não estava mais a vista do Conde.
Caminhou sem rumo pelos corredores da casa e quando achou que já estava longe o suficiente se escorou em uma parede,enterrando o rosto entre os joelhos. Aquela conversa com certeza o assombraria pelos próximos dias,Will estava tão confuso,não sabia o que pensar,sempre achou que o pai era um monstro,um monstro sem motivo algum para fazer o que fez com sua mãe. Bem,agora ele era um monstro com motivo,isso devia contar alguma coisa,mas só deixava Will chocado e ainda mais irritado.
William foi interrompido de seus devaneios quando escutou um grito. Um grito feminino e desesperado,que veio de algum dos quartos próximos ao garoto. Ele se levantou rapidamente e correu na direção do barulho,esbarrando em alguns objetos de decoração pelo caminho,teve que segurar um vaso de porcelana chinesa-que havia pertencido a sua avó paterna-antes que ele se espatifasse no chão,e uma estátua de um guerreiro medieval quase caiu levando o garoto junto. Ele chegou a fonte do barulho e parou por um momento para tomar fôlego,não fazia ideia do que esperar.
William abriu a porta e adentrou o recinto,dando de cara com uma cena muito inesperada. Margaret Walsh estava nada menos do que escondida debaixo de uma escrivaninha,com as mãos sobre o rosto e todo o corpo tremendo. Will correu até ela preocupado,será que alguém teria a machucado?
—Margaret,você está bem?O que houve?Alguém te machucou?-Ele perguntou se agachando para ficar na altura da garota,que tirou as mãos do rosto revelando olhos cheios de lágrimas e negou com a cabeça.
—Te-e-em u-uma...-Ela não concluiu a frase,olhando aterrorizada para os lados.
—Tem uma o que?-William incentivou e a menina engoliu em seco fitando o garoto com os olhos arregalados.
—A-A-Aranha,tem uma aranha na parede.
Will se levantou e olhou para os lados a procura da fonte dos medos da garota,encontrou o bendito animal bem perto da porta,alguns travesseiros e até sapatos estavam pertos dele pelo chão do quarto,parecia que Margaret teve um trabalhão tentando acerta-lo. William olhou para um dos sapatos no chão,que brilhava como se tivesse sido polido por horas e gemeu,não teria jeito,teria de ser o seu próprio sapato. Will tirou desajeitadamente o calçado e avançou com ele na direção da aranha,de uma estatura bem mais grandinha do que Will imaginava ser possível.
—Que por..-Ele praguejou quando a maldita pulou em cima dele,Maggie debaixo da escrivaninha emitiu um grito de horror. William afastou a aranha com um tapa,fazendo com que ela caísse no chão,e finalmente conseguiu acerta-la com o sapato. Ele observou a aranha dar os últimos suspiros de vida antes de se livrar dela,e depois se virou preocupado para Margaret,que observara toda a cena com os olhos arregalados e apavorados.-Tudo bem,já passou.
Ele se encolheu na escrivaninha ao lado dela,a garota o fitou,seu corpo todo tremia. William não sabia que o medo dela chegava a esse nível.
—Como eu posso te ajudar?-Ele perguntou angustiado,não suportava ver aquela expressão no rosto dela.
—Só fique aqui.-Ela sussurrou.
—Certo,certo.-Ele se mexeu desajeitadamente e colocou os braços ao redor do corpo da menina,esperando que o contato físico ajudasse a tranquiliza-la.-Quando eu era pequeno eu tinha medo do escuro.-Ele confessou depois de um tempo em silêncio,Maggie olhou para ele surpresa.
—Sério?
—Por mais tolo que possa parecer-Ele deu um sorriso tímido-Eu não conseguia dormir sem que houvesse pelo menos uma vela acesa. As vezes minha mãe dormia comigo para que eu não ficasse com medo.
—Ela parece ter sido uma boa pessoa.
—Ela era.-Will concordou,afagando os cabelos da menina.
—Conte-me sobre ela.-Maggie pediu.
—Ela era fantástica-Will começou,deixando a sensação de nostalgia o invadir-Esteve na parte mais feliz da minha infância,ela fazia de tudo por mim,desde me contar uma história para dormir até se sujar de lama enquanto brincávamos fora de casa na chuva.-Will sorriu e fitou um cacho loiro de Margaret entre seus dedos-Ela teria gostado de você.
—Sinto muito.-Margaret sussurrou parecendo sincera e Will pestanejou tentando afastar as lágrimas.
—É tolo que a morte dela ainda doa depois de tanto tempo,mas eu só...Não consegui superar.
—Não é nada tolo.-Maggie falou com certeza-Ela era sua mãe,e-eu não consigo nem imaginar o que faria no seu lugar.
—É só que foi tão de repente,quer dizer,a saúde dela nunca foi boa,mas piorou tão repentinamente,eu não tive nem tempo de me despedir.-William confessou frustrado e sentiu Margaret tocar o seu rosto,limpando uma lágrima.
—Queria poder fazer alguma coisa.-Ela falou baixinho e o garoto abriu um sorriso triste.
—Está tudo bem,aprendi a conviver com isso.-Ele a fitou avaliativo,a garota estava tremendo bem menos e seus olhos não pareciam tomados de pavor-Tem algum motivo para você ter medo assim de insetos e...aracnídeos?-Ele arriscou e a viu dar um sorriso amável.
—Qualquer coisa com menos de dez centímetros que se mexa me apavora.-Esclareceu,repousando a cabeça no ombro do garoto-Quando eu tinha por volta de uns dez anos meu irmão me trancou em um depósito do lado de fora da nossa casa,ele não fez por mal,éramos crianças e vivíamos implicando e pregando peças uns com os outros. Mas lá estava simplesmente cheio de lagartas,baratas e até alguns ratos,eu me desesperei-Ela estremeceu-Não demorou muito para os meus pais ouvirem meus gritos e me soltarem,lembro que eu não conseguia parar de tremer.
—Imagino que seu irmão tenha se desculpado.-Will comentou e Maggie balançou a cabeça com um sorriso.
—Acho que ele se sente culpado até hoje. Os anos seguintes foram os mais calmos entre nós dois.
—E o empregado que cuidava desse depósito foi demitido.-William deduziu.
—Ele me lançou uns olhares raivosos enquanto caminhava até a porta.-Maggie completou em um tom divertido e Will sorriu,tocando a bochecha dela,agora que ela parecia mais calma era simplesmente impossível conseguir se concentrar em outra coisa que não fosse o quanto ela era adorável. William havia imaginado ela de cabelos soltos várias vezes,mas nada chegava perto dos lindos cachos que a adornavam,eram mais longos do que o garoto pensou,chegavam quase até a cintura,Will se inclinou e pegou um cacho entre os dedos,o admirando.
—Acho que minha farsa foi descoberta.-Ela falou encabulada,só então Will percebeu que ela estava usando uma camisola branca que lhe cobria os braços e descia até os joelhos.
—A Srta.Wright e sua irmã haviam dito algo sobre você estar com vertigem hoje no café da manhã.-William deu um sorriso insolente lançando um olhar desconfiado para a única cama que continuava desarrumada.-Ainda se sente tonta,minha querida?
—Nada dessa história de minha querida-Maggie reclamou,embora estivesse com um pequeno sorriso estampado no rosto-E acho que já estou melhor,o senhor não faz ideia de quantas maravilhas algumas horas de sono extra podem fazer.
—Aceitarei esse sábio conselho-William brincou-E acho que já pode me chamar de Will,depois de tudo que passamos acho que já temos intimidade o suficiente,não?
—Sendo assim,pode me chamar de Maggie.-A garota falou alargando o sorriso-Mas não vai se acostumando.
—Jamais.-Will falou,fingindo seriedade-Se importa se saíssemos de debaixo da escrivaninha?Não é a posição que eu descreveria como mais confortável para mim.
—Ah sim,desculpe.-Margaret falou preocupada e se levantou. E para provar o quanto os dois tinham um timing horrível,William se levantou na mesma hora.
—Ai.-O garoto gemeu com a mão na cabeça,Maggie estava na mesma posição com uma expressão de dor.
—Sinto muito.-A garota murmurou.
—Eu também,a culpa não foi sua,tivemos exatamente a mesma ideia.-Will se levantou,dessa vez sem incidentes,e ajudou gentilmente a garota a se levantar.
—Obrigada por ter vindo me ajudar,e por ter ficado comigo.-Maggie agradeceu envergonhada e William deu um sorriso radiante.
—Estou sempre salvando donzelas em perigo.
—Que adorável.-Maggie resmungou e o sorriso do garoto se alargou.
—Se precisar estarei aqui.-Ele falou,o sorriso se tornando brincalhão-Te verei no chá da tarde?
—Acredito que sim.-Ela respondeu,sincera.
—Vou aguardar ansiosamente então.-Ele se inclinou e beijou a mão da menina,que estremeceu com o contato.
William caminhou até a porta e se virou de repente no corredor,fitando Margaret com um sorriso provocativo,sentia seu bom humor renovado completamente,só mesmo Maggie para melhorar seu dia...
—A propósito,gostei da camisola.-Ele falou,piscando para garota e se afastando satisfeito quando a viu ruborizar e fechar a porta com um resmungo.
Aquela era a Margaret que ele conhecia.
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