O Diário de Leonardo Jones
3 Capítulo 3- Capitalismo sentimental
Rio de Janeiro, 20 de Dezembro de 2010.
De novo, oito dias sem escrever.
Já diminuíram os dias, de quinze para oito dias. Não sei se posso considerar isso uma vitória.
Estou a cinco dias limpo de qualquer tipo de droga. A música, o livro e a escrita nesse diário tem me ajudado muito a superar meus problemas. Li, hoje, de novo minha última escrita, realmente, religião é um assunto muito pouco palpável.
Ontem, à noite, escutei meu pai de novo agredindo a minha mãe. Como sempre, tive que escutar tudo calado. A dor que sinto ao ouvir tudo aquilo é terrível. Mais uma noite em claro. Pensando se em algum dia eu vou conseguir atingir a felicidade, será?
Pior do que escutar minha mãe sendo agredida é ver no outro dia as marcas em seu corpo e até no seu rosto. Ela nunca quer falar no assunto. Sempre protegendo o meu pai para não apanhar mais. Realmente, não sei se vou aguentar mais um dia sem as drogas. A droga me mantêm em estado de alucinações, o que já é melhor do que viver .
Não sei, mas acho que esse diário está ficando chato, eu não aguento mais ficar escrevendo desses assuntos, religião, sociedade, drogas, o que importa? Ninguém vai ler, ao menos se importa com o que está escrito aqui.
Não estou escrevendo para alguém, muito menos se importando com o que pensaram do que está escrito no "diário do viado". É assim que todos me vêem.
Estou no meu quarto trancado. Tentando me segurar para não jogar essa "porcaria" fora e ir comprar drogas, o que me manterá mais algumas horas fora da realidade, será que fugir é a melhor opção? Melhor opção para o que? O que vai mudar na minha vida? Com ou sem drogas?
O vicio é enorme, a vontade que sinto de sair correndo para as drogas é indescritível. Meu celular está fora de área, o que adianta, não tenho ninguém para ligar.
Os livros da Clarice estão todos jogados no chão do meu quarto, esses simples romances poderiam ser verdades, mal ou bem, você sabe que o protagonista sempre terá um final consideravelmente feliz. Com o sem a amada.
O jeito com que a Clarice manipula minha mente a imaginar todas aquelas situações é incrível. Uma música que marco o momento que estou sentindo agora é a clássica do John, Imagine. O nome dele me lembra meu sobrenome, o jeito com que ele canta suas músicas me encanta. Essa repugnância que ele sente sobre a sociedade. Puts, de novo, sociedade.
A dor física é maior do que a dor sentimental? Não. A dor física é consideravelmente curável, remédios estão em toda a parte, com apenas um comprimido, toda a dor passa.
A dor sentimental é aquela dor abstrata, de novo, eu escrevendo redundâncias. A dor pela qual não existe remédio ou uma forma que a faça parar de doer. Não existe um tempo considerável para essa dor, ela dura o tempo necessário para que você aprenda a lidar com as pessoas. Especificamente com a pessoa que causou a dor.
Inacreditável como você quer que a pessoa que lhe causou dor fique feliz, porque parece que sua felicidade está ligada a dela, o que é uma mentira. Você vai se sentir excluído, ignorado e totalmente humilhado perante ela e as pessoas em volta se ela for embora para ser feliz com outro alguém.
O humano é um material, um material trocável, sem valor. Depois que você aprende como aquela pessoa lida com as coisas, o seu sentimento, o que ela pensa, o que ela faz, ou seja, o seu modo de vida e assim descobre as verdadeiras "funções" daquela pessoa, você se enjoa dela.
Um celular que você já deixou cair é como um namorado(a) com o qual você já brigou e sabe perfeitamente como ele(a) lida com as coisa na situação, se o celular quebrou, você compra um novo, se ele ficou intacto, você continua usando, mas temendo um defeito secundário devido a queda.
O capitalismo sentimental está em todas as pessoas, duas pessoas viverem em um mesmo lugar para sempre é impossível. Sempre haverá um celular mais bonito e mais "funcional" o que o seu. Você vai inventar defeitos no seu para ter um motivo para pelo qual troca-lo por um melhor. Afinal, o seu possui uns "defeitos".
Quer saber, eu não estou conseguindo resistir, eu vou ter que parar de escrever ou eu vou enlouquecer se continuar pensando nessas coisas, que lógica esse mundo tem? Eu não sei e não vou ser eu quem vou descobrir. Não sei o que escolho agora: Droga, música ou um livro?
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