O Diário de Araluen

2 Uma oferta irrecusável


O sol aqueceu meu travesseiro, desconectando-me de meus sonhos. Foi um sonho estranho... Eu havia fugido de casa, Eika estava morta, encontrei uma mulher estranha que me levara para uma espécie de quartel general.

Abri meus olhos. Minha respiração estranhamente parou. Era um quarto totalmente limpo, sem nada. Olhei para os lados, apreensiva, me perguntando o que teria acontecido. Era um quarto diferente do meu. Não tinha cor de sangue, nem aroma de desespero. Tampouco visual de sonhos destruídos. Onde estavam as “bonecas” costuradas por meu pai? Onde estava a cama de Eika?

Senti uma dor aguda em meus braços, tinha um medicamento na mesinha de cabeceira de madeira escura, posicionada ao lado de minha cama, sempre demasiadamente limpa. Fiquei um pouco amedrontada com toda aquela limpeza e cuidado. O contrário da tenda. Mas... Onde estaria aquela mulher? Teria sido um sonho?

A porta branca e perfeitamente pintada estremeceu com os furiosos golpes vindos de fora. Assustada, a abri, receando o pior. A mulher entrou, com um sorriso calmo e acariciando minha cabeça.

-Parece que nossa visitante acordou. –ela sentou em minha cama, olhando para mim.

Um homem de cabelos azuis olhava fixamente para mim, analisando minha expressão amedrontada. Estava insegura, o que era tudo aquilo? Será que era um circo inimigo? Raptaram-me? Papai na verdade só queria me deixar segura, eu devia voltar e ficar com ele para sempre?

-Ah, sim... Bom dia... Megurine Luka? –sorri inocentemente.

-Mais respeito com a Senhorita, pirralha. –o homem disse, fitando meus olhos.

Fiquei com medo dele, e cerrei meus punhos. Afastei-me e olhei para os lados, sem saber como reagir. Acabei falando alto demais:

-M-Me desculpe, realmente. C-Como você se chama?

-Não te importa. –ele revirou os olhos e bufou.

-VOCÊS ME TRAZEM AQUI E ISSO NÃO ME IMPORTA? — gritei, logo depois me arrependendo e cobrindo minha boca com as mãos.

Megurine sorriu surpresa e estupefata. Parecia satisfeita, mas o homem me encarou com raiva. Eu conseguia perceber a ira em seu olhar, aquela raiva, aquele prazer na arte de ter raiva. Era-me tão familiar.

-Não há nada de que se envergonhar, garota. Você tem atitude. Gosto de pessoas assim, talvez tenha servido de lição para Kaito. –ela respondeu, fitando os olhos do homem, com censura.

-Ela precisa ter respeito com seus novos superiores. – Kaito olhou para Luka e entrou no quarto, apenas ficando em pé próximo da cama.

Superiores? Eles iriam mandar em mim? Parecia que minha vida era baseada em superiores, em ordens e restrições. Nunca conseguiria tomar um rumo? Talvez eu fosse muito frágil para isso tudo. Resolvi aceitar.

-Como assim? Do que estão falando? –olhei para os dois, um pouco ansiosa.

- Você tem sorte, pirralha, parece que não morrerás hoje. – outro homem disse, na entrada da porta, sorrindo.

Aquele homem parecia mais simpático do que Kaito. Mas eram tão parecidos fisicamente. Um pouco atônita, me virei para ele. Ele tinha cabelos escarlate, junto com seus olhos, que se assemelhavam aos de meu pai naquela noite. Mas para esse homem... Parecia que o sangue era natural.

-Não nos interrompa, Akaito. – Megurine disse, bufando e olhando para o recém-chegado do cômodo.

- O que você quer aqui? – Kaito indagou de braços cruzados e uma expressão impaciente.

- Eu vou treinar a novata, não sabias, irmãozinho? – Akaito sorriu debochadamente e olhou para mim.

Treinamento? As palavras ditas começaram a rodear minha cabeça, como se nada estivesse fazendo sentido. Parecia um pequeno pássaro enjaulado, apenas ouvindo as ordens sem entendê-las e relutando para obedecê-las.

- Alguém poderia fazer o favor de me explicar o que está havendo? – disse, sem hesitar. Queria explicações e rápido, antes que explodisse.

- Bem... Hitomi Hamuya. Se for esse seu nome, enquanto dormias, tomamos a liberdade de investigar seu histórico. Foi um passado difícil, não? Seu pai, sua irmã... — Luka suspirou e fitou meus olhos.

Assustei-me, como poderiam saber tanto sobre minha vida? Recuei de olhos arregalados.

-Oh, não precisas ter medo. –Akaito disse com um sorriso. –Prossiga, Senhorita.

- Foi uma longa temporada de apresentações para o Dark Woods Circus não? – a mulher sorriu um pouco e me encarou. – Você tem potencial. Mas o mesmo precisa ser posto em prática. Faremos um trato. Nós te fornecemos um lar e alimento se você servir a Máfia Megurine. Estaríamos entendidas? – Luka pronunciou aquelas palavras com segurança, como se fosse uma oferta irrecusável.

Para mim, uma pobre garota de 12 anos, sem amparo nem rumo na vida, era a melhor coisa que poderia ter acontecido. Talvez fosse mesmo. Não pensei em recusar, apenas assenti com a cabeça inocentemente. Aquele seria meu novo lar. As pessoas entenderiam meu sofrimento... Certo?

Luka deu um sorriso e saiu do quarto com Kaito. Com os passos fortes batendo no limpo chão, onde seria derramado tanto sangue, eu não sabia que isso seria necessário.

-Bem vinda à Máfia, Hitomi... –vi a figura dela desaparecer pelo corredor.

Akaito, que olhava para os dois andando, virou-se para mim e aproximou-se.

-Prazer, Akaito Shion. Iremos passar um bom tempo juntos...

-Hitomi. Hitomi Hamuya. Espero que esse tempo seja produtivo. –sorri e caminhei em direção a ele.

- Ah, e será. Principalmente porque nosso treinamento começa... AGORA! –ele segurou minha e mão e me puxou para fora do quarto.

Corei um pouco e levei um susto. Que homem animado era aquele... Por que treinar com uma garotinha inútil? Talvez eu não fosse a mascote da Máfia. Acho que terei de me acostumar com novas regras...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.