O Diário de Amanda

1 O Diário de Amanda


As batidas da música alta faziam meu corpo tremer. A névoa, as luzes pulsantes, o cheiro de álcool e drogas me rodeava. Aquele lugar não era confortável, mas era divertido estar em um ambiente tão alucinante com meus amigos. Falávamos coisas que não devíamos, mas ninguém prestava atenção. Fazíamos movimentos estranhos, mas ninguém notava. Todos estavam no limite da sanidade, as preocupações sumiam, e só nos restava o desejo de dançar mais. Distante do palco estavam os bancos para os menos energéticos, de onde Pedro me observava dançar enquanto bebia drinks exóticos e conversava com nossos amigos da faculdade, todos fora de sua lógica habitual, todos tontos e confusos, mesmo aqueles que não estavam sob efeitos químicos não conseguiam agir normalmente, parecia que a atmosfera local nos desconectava da razão, nos arrastava para um estado de transe que nos iludia dizendo ser liberdade, felicidade, mas era apenas isso, ilusão.

Eu já não me sustentava mais de pé, dançava por horas inesgotáveis sem pausas, ignorava as necessidades do meu corpo, me deixando levar pelo poder da música eletrizante. Mas precisava parar para descansar, mesmo que uma parte de mim gritasse surdamente para continuar, havia uma outra, muda, mas que me puxava fortemente para o chão. Resolvi sentar ao lado de meus amigos, tentar recuperar a energia, em vão. Meus pés pediam por descanso, minha cabeça pedia por tranquilidade, meu sangue implorava por água, e logo deixei meu estado de hipnose e embarquei nos meus sentidos que só então recebiam atenção.

— Amanda? Você tá bem? — A voz de Pedro parecia girar ao meu redor. Não sabia onde olhar encontrá-lo, e na confusão acabei procurando-o em cima, o que me fez olhar para a lâmpada e ter uma fortíssima dor de cabeça. Era como mil agulhas entrando em minha cabeça.

— Eu… Só tô um pouco tonta.

— Um pouco? — Ouvi uma risada grave, não era de Pedro, mas me soava familiar.

— Quem disse isso?

— Alô? Sou eu, Lucas! — Lucas era um de nossos amigos da faculdade. A voz dele parecia irreconhecível para mim àquela altura. — Tu bebeu demais, Manda! Como tu aguentou ficar na pista tanto tempo?

— Ah cara, sei lá! Eu preciso de água!

— Lucas, vai pegar água pra ela! — Não era normal ver Pedro pedindo para alguém fazer algo, ele normalmente era bem altruísta, mas parecia não querer sair do meu lado, parecia estar confortável ali, me abraçando enquanto eu deitava no peito dele e sonhava em dormir.

— Não mesmo! Não vou levantar daqui.

— Ela tá passando mal cara! Deixa de ser inútil!

— Caralho… Argh, tá. — Lucas levantou e andou em direção ao bar. Ele parecia irritado, mas estava bêbado demais para discutir.

— Manda! — Pedro tentava me manter acordada, mas era difícil deixar os olhos abertos, e qualquer movimento me deixava nauseada. Eu sentia que iria morrer a qualquer momento, parecia que meu corpo se organizava para virar uma massa pastosa. — Você quer ir para casa?

— Não! Eu quero… — Minha garganta ardia, seca, as palavras presas em mim, era difícil falar com o líquido tentando sair do meu estômago para a minha boca, mas eu o jogava de volta para dentro antes que ele tivesse uma chance de sair. Eu precisava ir embora, mas não sabia disso. — Eu quero voltar pra pista!

— Você não vai!

— Eu vou sim! — Tentei levantar, mas logo senti toda minha energia sendo drenada. Sentia as luzes sumindo, os sons apagando, meu corpo se tornando dormente. Pedrou me agarrou e me colocou deitada no colo dele. — Tá bom! Eu não vou.

Fiquei deitada por alguns minutos, até Lucas voltar com a garrafa d’água e um copo com um líquido azul. Eu queria aquele líquido, certamente era alguma mistura alcoólica, e no meu estado, qualquer coisa parecia atraente. Ele afastou o copo da minha mão e entregou a garrafa para Pedro, que tentava botar a água na minha boca enquanto eu me debatia tentando levantar. A cada gole que eu era forçada a beber, sentia mais e mais sede. Bebia a água, segurava o enjôo, apertava o braço de Pedro tentando achar algum ponto firme no espaço. Mesmo parada, eu me sentia em movimento, e aquilo estava me deixando agoniada de forma perversa.

— Eu preciso ir ao banheiro!

— Ta bom… Lucas, vai chamar a Manu!

— Que? Eu acabei de chegar! — Lucas parecia bem, mesmo estando tão alterado quanto eu, ele não parecia passar mal, não importava o quanto bebesse.

— Não dá pra deixar ela ir sozinha! Pede pra Manu levar ela!

— Porra! Tá bom. — Lucas saiu andando em direção à pista, sumindo na multidão. Sombras disformes de pessoas balançavam no cenário, compondo uma visão tão movimentada que me deixava tonta só de olhar. Não demorou muito para que ele voltasse com Manuela, louca, rindo de tudo, se controlando para não perder totalmente o controle. Ela me pegou pela mão e me levou até o banheiro, passando pelos grupos de pessoas que dançavam freneticamente, rapazes que pareciam tentar dar em cima de nós, garçons que tentavam nos servir bebidas, casais que se beijavam como se aquela noite fosse a última, e nem todos se restringindo a ficar apenas nos lábios, mesmo diante da multidão, ninguém parecia se importar.

No banheiro era um pouco diferente. Pessoas passavam mal, garotas choravam em um canto, uma retocava a maquiagem no espelho e exagerava em tons fortes. Manuela me guiou para a privada e fechou a porta atrás, vigiando para que ninguém tentasse entrar.

— Você tá muito mal, Manda.

— Obrigada pela sinceridade.

— Nunca vi você beber tanto, acho que por hoje chega, não? — Manuela sempre me incentivou a perder o controle em algum momento. Ela dizia que eu me prendia demais nas minhas responsabilidades, e que devia me libertar completamente em uma festa, que seria bom para mim. Não estava sendo bom.

— Até você vai me mandar parar agora?

— Você já passou do seu limite faz tempo! Você não é assim, por que exagerou tanto hoje?

— Eu… — Eu parei de falar por alguns segundos enquanto uma onda ácida percorria minha traqueia e avançava pela boca. Era horrível, eu não sentia nada além de vontade de estar dormindo em casa. — Eu achei que ia facilitar as coisas.

— Coisas? Tá falando do Pedro?

— Quem te contou dele?

— Você me contou! Ele não vai querer ficar contigo desse jeito!

— Eu sei! — Eu sentia meu estômago vazio, mas livre daquela vontade de se jogar para fora de meu corpo. Minha boca ardia, minha cabeça doía, eu sentia frio e calor, e não sabia mais como ficar de pé.

— Está melhor?

— Sim…

— Tem certeza?

— Acha que eu errei?

— Errou? — Manuela riu enquanto me puxava em direção a pia. Marcas de batom e manchas de mãos sujavam os espelhos, papéis entupiam as pias, e havia água por todo o canto. — Nossa, você não faz ideia de como isso vai doer amanhã!

— Para com isso! — Eu enchia a boca com água, sentia o sabor horrível daquela noite. Manu tirou uma escova de dentes de dentro de uma bolsa, a minha bolsa, estava com ela por alguma razão, mas eu não pensava naquilo, apenas pegava a escova e colocava na boca, desorientada, errando os dentes, errando tudo. — Eu não vou ficar de ressaca!

— Antes fosse só a ressaca. — Manuela soava bem mais calma, falando em um tom de voz tranquilo, que me deixava um pouco mais relaxada. Ela tirava a escova da minha mão, passando em meus dentes por mim. — Você parece uma criança às vezes, mas só vou te ajudar por que você já fez o mesmo comigo.

— Me desc…

— Shiu, fica difícil se você ficar falando o tempo todo! — Ela lavava meu rosto enquanto tentava me sustentar de pé. O banheiro estava muito mais silencioso, parecia mais vazio, mas talvez eu só tivesse perdido a capacidade de notar o ambiente. — Pronto…

— Me desculpe por isso. — eu começava a chorar, mas segurava minhas lágrimas. Encostei na parede tentando recuperar algum fôlego, passava a mão pelo vestido molhado tentando descobrir se meu corpo ainda estava lá, dormente.

— Você realmente gosta dele, não é?

— Ele me ama, mesmo que não fale.

— Vocês são estranhos. Se gostam tanto um do outro, por que é tão difícil admitir?

— Estamos esperando o momento certo…

— Nem vem! Vocês estão com medo. Eu no seu lugar já teria deixado aquele lerdo de lado.

— Não é medo, ele só não tem…

— Coragem de te pegar de jeito?

— Não é assim! Ele está demorando, eu sei, mas eu posso esperar ele se sentir pronto.

— Que viadagem! Sério, se você quer tanto ele, por que não dá um ultimato logo?

— Ultimato?

— É, sabe, encurralar ele, fazer ele não ter opção se não te dar uns amassos e coisas assim.

— Mas assim ele saberia que eu gosto dele!

— Você realmente não tá bem. Vamos, vou te levar pra casa.

Eu fiquei um pouco relutante em sair do banheiro, estava confortável ficar parada ali, encostada na parede, fora de todo aquele movimento da festa. Naquele momento, reparei que eu queria ir embora. Não estava mais me divertindo, apenas queria sumir. Voltamos para o banco onde Lucas convenceu Manuela a ficar mais tempo com ele na festa, e Pedro decidiu me levar para casa. E saímos do local, a sós. Estava frio, Pedro me cobria com seu casaco, mas não era suficiente, eu puxava o braço dele para me cobrir, me escondia colada no ombro dele, pensando no conselho de Manu. “Um ultimato, certo?”, tentava pensar, mas minha mente era um quebra-cabeça em branco, com peças que pareciam se encaixar sem formar nenhuma imagem. Eu não conseguia formular nada além de “me beija” na minha mente, mas também não conseguia simplesmente dizer isso.

— Por que você não me beija logo? — Ou talvez eu conseguisse. As palavras saíam da minha boca sem que eu pudesse segurá-las. Não era proposital, eu apenas não sabia separar ideias de ações. Me perguntava se eu realmente havia dito aquilo, olhava para Pedro que parecia um pouco assustado com aquilo, não tanto quanto eu, mas com certeza com tão pouca reação quanto.

— Não posso fazer isso. — Pedro parecia mais tímido, tentando disfarçar rindo. Minha percepção podia estar completamente destruída, mas eu sabia que ele estava desorientado, e eu não tinha mais controle nenhum sobre minhas palavras.

— Por que não?! Eu quero!

— Você não está bem. Não é certo ouvir você nesse estado.

— Deixa de ser fraco! Eu sei que você quer! Anda logo! — Pedro parou de andar, me olhou como se estivesse tentando processar aquilo. Eu me debatia por dentro tentando calar a boca, mas olhava para ele tentando dar a confiança que ele precisava.

— Você não… — Interrompi as desculpas dele o puxando pelo pescoço para perto de mim. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas sabia o que estava fazendo. Eu queria aquilo, não teria coragem de fazer em uma situação normal, mas eu queria. Encostei na boca dele, e senti uma leve onda de desespero correndo pelo meu corpo. Corria pelo o dele também, eu podia ver, mas ele logo a deixava de lado e se soltava na minha vontade, na nossa vontade. Era bom ter finalmente o rosto dele tão perto de mim, sentia a respiração dele, sentia a pulsação dele, sentia a mão dele se libertando mais do que eu esperava, passando pelas minhas costas, descendo para as coxas e subindo novamente. Era inesperado, mas era bom, e eu não tinha outra vontade se não continuar. Eu não tinha mais sentidos para o mundo ao meu redor, meu mundo agora se resumia a ele, minha vida parecia se concentrar naquele momento. Ele parecia ter medo de continuar, parecia achar que aquilo não era certo, mas se deixava levar pelo momento. E então acabou. Pedro se afastou do meu rosto, ainda de olhos fechados, mas com uma expressão completamente diferente. Ele parecia feliz, confuso, mas feliz. Encostei minha cabeça no peito dele, tentando absorver o que havia acabado de acontecer, mas preferia não pensar, sabia que as palavras fugiriam de mim se eu as pensasse. Apenas aceitei que era bom.

Pedro parou um taxi para nós, e deu o endereço da minha casa. O taxista parecia tentar balançar o carro o mínimo possível, devia saber que estávamos mal, taxistas sempre sabem. Deitei no colo de Pedro novamente, pensando em chegar em casa.

— Eu não quero dormir sozinha hoje.

— Você…

— Não fala. Só fica comigo essa noite, ok? — Pedro me olhava como se calculasse tudo o que podia acontecer, mas eu sabia que, por dentro, tudo o que ele conseguia pensar era “o que eu faço?”. — Não pensa, por favor. Só diz…

— Sim.

Chegamos em meu apartamento, meu lar, o único lugar no qual eu podia me libertar de todas as regras. Eu não conseguia mais pensar em dormir, não conseguia mais pensar em festa, não conseguia pensar em nada além de Pedro. Eu não estava bem, eu sabia disso, mas eu não me importava com mais nada, e não queria que ele se importasse. Puxava ele para minha cama rindo tão alto que até meu gato sabia o que iria acontecer, e saiu correndo do meu quarto, como se preferisse não ver aquilo.

— Morgo não costuma ver muitas visitas aqui.

— Morgo? Seu gato preto?

— Não liga para ele — Eu fechava a porta para impedir que o felino voltasse, e andava em direção a pedro, tirando o vestido que já estava seco, mas ainda impregnado com o cheiro entorpecente da festa. — Não ligue para nada além de mim.

GoD — O Diário de Amanda

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!