Notas iniciais
Quanto ao livro que eu disse que ia escrever, ficou na gaveta, e acho que eu vou ser enterrada com ele lá. Mas tanto faz, cada um com seu legado. Algumas pessoas escrevem best-sellers, obras-primas, e são admiradas por décadas, séculos, milênios até. Ah, e ficam ricas. O meu legado é uma receita de peixe empanado e umas 20 paginas de um livro sem final. Viva a mim.

Uma vez, quando eu estava na quinta serie, toda a classe foi dividida em grupos de cinco crianças, para fazer um trabalho sobre o país que tirasse num sorteio idiota. Meu grupo tirou a França, o que me deixou contente na hora, mas meu grupo era, basicamente, um grupo \"macho\". Nesse grupinho, estavam eu e quatro garotos, meu protesto para ficar no grupo das minhas amigas foi ignorado, então tive que me virar com esses moleques ingratos.

Quem nunca teve que dizer sim quando queria soltar um não enorme e mal educado?

Enfim, eu acabei fazendo a droga do trabalho todo sozinha, e depois disso, decidi que nunca mais diria sim quando queria mesmo dizer não. Claro, isso até eu conseguir meu primeiro emprego.

Meu primeiro emprego foi conseguido sem esforço e mantido com menos ainda. O pai de um amigo (coincidente, esse amigo era um dos quatro da quinta serie) tinha uma livraria, e uma das moças que trabalhavam lá tinha se mudado com a família pro interior , então a vaga dela ficou vazia, e foi quando esse meu amigo se lembrou que eu estava querendo arrumar um trabalho de meio período, afinal só tínhamos 15 para 16 anos. Na entrevista, o pai dele me perguntou se eu gostava de livros e de literatura. Eu disse que sim, mas era mentira, odiava com todas as minhas forças. Acho que ele simpatizou comigo, afinal, disse que eu tinha o perfil perfeito.

E assim essa cidadã que vos fala conseguiu um emprego part-time. A livraria era limpinha, tinha um cheirinho bom de livro e com o tempo, fui começando a gostar da companhia dos livros. Lia escondido, no deposito atras da loja, depois devolvia o livro pra estante antes que percebessem. E foi quando eu decidi que ia escrever um livro. Quando disse isso pra uma das minhas colegas de trabalho, ela riu da minha cara e disse pro chefe. Coincidentemente, era dia de pagamento.

Eles dois começaram a rir e dizer que eu era incapaz disso, e que sabiam que eu era má leitora e portanto seria má escritora, mas que me deu o emprego pois o filho dele havia pedido, e que eu jamais seria qualificada pra emprego nenhum por culpa de não gostar de literatura. Controlei o calor que veio na hora e disse friamente que estava me lixando pra opinião deles e que queria meu salário e pronto.

Dia seguinte, minha mãe disse que eu não poderia ser tão orgulhosa, e deveria aprender a ser humilde e voltar lá e pedir meu emprego de volta, já que eu tinha me demitido depois daquilo. Gritei que não, esperneei, me tranquei no quarto, no banheiro, na cozinha, o caminho todo até a livraria, que era pertinho de casa. Disse que nunca entraria lá, que era degradante, horrível, que mataria meu orgulho próprio. Mas eu fui. E ainda fiquei lá mais um ano. Quanto ao livro que eu disse que ia escrever, ficou na gaveta, e acho que eu vou ser enterrada com ele lá. Mas tanto faz, cada um com seu legado. Algumas pessoas escrevem best-sellers, obras-primas, e são admiradas por décadas, séculos, milênios até. Ah, e ficam ricas. O meu legado é uma receita de peixe empanado e umas 20 paginas de um livro sem final. Viva a mim.

Mas vamos falar dos meus legados outro dia, voltando ao presente, noutro dia, estava lembrando disso no trabalho, pois meu chefe disse que eu ainda precisava melhorar -e muito- minha escrita, que ele chamou de Pré-Primario. Depois eu descobri que o peixe dele tinha morrido, e ele estava descontando na minha escrita e em mim. Eu concordei com ele e disse que eu estava fazendo um curso a respeito. Mas não estava, contudo, depois, mais tarde nesse dia, ele pediu -me ordenou- que fosse fazer pesquisa de campo num... Ah, dane-se, eu já classifiquei isso para 16 anos. Pesquisa de campo num ponto de prostitutas. Eu disse que não era uma boa idéia e tentei desconversar, mas ele decidiu me vencer e me ofender ao mesmo tempo, dizendo que eu me encaixaria no ambiente.

Olhei pra baixo e percebi que minha saia estava meio curta mesmo, mas não o suficiente para justifica. O calor subiu, subiu e eu tive vontade de dizer que a filha dele sim se encaixaria nesse ambiente, e que levasse a mãe dele. Mas respirei fundo e disse que achava que não. Ele não compreendeu, então eu disse que achava que não era uma boa ideia. Então me virei de volta pro meu computador e dei-lhe as costas. Não sei o que ele pensou disso, mas nunca mais me perguntou se eu queria rodar a bolsinha.

Hoje, percebo que criei a melhor resposta-não instantânea do mundo. Ah, acho que até posso colocar isso na minha lista de legados. Agora são 20 paginas, uma receita e uma resposta.

Assim que Fernanda acabou de escrever isso, o telefone tocou. Era um atendente de telemarketing. querendo saber se ela queria comprar um pacote de revistas. Ela disse que achava que não era uma boa ideia e desligou.

Notas finais
Haha telemarketing, haha.

[N/A: eu adoro falar com atendentes de telemarketing]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!