O Diário De Uma Espectadora
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Então era você..." Aquelas palavras ecoaram em sua cabeça, parecia que tudo começara a fazer sentido. Toda a espera, toda a ferida, toda lágrima, todo sorriso de mármore, todos os momentos de reflexão dispersados em pequenos fragmentos de luz que brilhavam no céu da noite de dezembro. Tudo seria recompensado. A pequena garota parou por um instante. Não mais digitou nada. A pequena sentença que seu correspondente escreveu a fez pensar. Mesmo com seu coração concentrado no momento, sua mente viajou três anos no passado.
Você acredita em pedidos? Desejos? Tem fé que se fechar os olhos bem forte e pedir com todo o seu coração, algo acontecerá? Não? Mas ela acreditava.
Apenas uma boba de catorze anos. Era assim que se descrevia. Pequenas coisas a fascinavam, talvez por não ter algo mais interessante para observar, mas de tudo se fazia um espetáculo. Observava formigas marchando em linhas bêbadas e curvas, disputava corridas entre pingos de chuva no vidro da janela, tentava num só sopro despetalar dentes-de-leão fazendo pedidos, entortava o pescoço todo fim de tarde esperando a primeira estrela do céu brilhar... Era até engraçado, pois se irritava quando não conseguia vê-la aparecer, era uma disputa eterna, dia após dia, era só piscar por um segundo que a esperta estrela aparecia em grupos, escondida, só para poder ver lá de longe a cara de desapontamento e irritação de uma bobona com o pescoço dolorido.
Dia 31 de dezembro de 2009, véspera de ano novo. Todos na casa se divertiam, embebedavam-se, riam, mas lá estava ela procurando um lugar seguro. Ergueu sua cabeça ao céu estrelado, borbulhando de brilho, fogos de artifício estouravam, estrelas artificiais se faziam mais reluzentes que as de verdade, mas ainda sim ela lembrou-se de procurar a primeira estrela, que por algum tiro de sorte, em meio à guerra de cores e sons, destacava-se, como se por um dia desse uma trégua e dissesse: "Aqui estou. Faça seu pedido."
Não pensando duas vezes, com um sorriso na boca e com os olhos focados na estrela para não perde-la, a menina subiu em cima de um velho escorregador de madeira, torcendo muito para que ele não desmontasse naquela hora, entrelaçou as mãos frias junto ao peito, deu uma última encarada para o céu, fechou os olhos e cerrou o cenho. Sua boca balbuciou algumas palavras em oração, inaudíveis para qualquer um, mas um grito de desespero para sua alma.
Seu pedido: um amigo. Apenas UM. Não precisava que fosse o melhor, ou o mais rico, ou o mais bonito, muito menos o mais inteligente. O que ela queria ia muito além de qualidades ou defeitos superficiais. Ela queria apenas um coração que soubesse entender. Sempre foi muito sozinha, nunca teve um amigo de verdade, sua realidade mais próxima de um companheiro era uma boneca de pano molenga, já surrada com o tempo, pois a tinha desde que era bebê. Seus olhos encheram-se de lágrimas, ainda não conformada, tornou a repetir seu desejo, e assim se fez até a meia noite, pedindo e orando cada vez mais forte, cada vez mais convicta de que sua estrela a ouviria. Seu desejo foi selado com louvor, gritos de alegria, fogos de artifício cada vez mais barulhentos, risos e gargalhadas ouvidas de longe, pessoas dizendo umas às outras "feliz ano novo", como se a partir daquele momento tudo seria diferente, renovado, para ela e para eles. A mesma alegria. Motivações diferentes.
Bem longe dali, mas ainda sob o céu da mesma noite, olhando pra mesma estrela, uma outra pessoa aproveitava o topo do mundo como refúgio. Sobre o telhado de sua casa ele pôs as mãos em seus bolsos, fechou os olhos e fez um pedido...
"Então era você por quem eu desejei..." poderia ela acreditar em tais palavras? Não seria muita... Coincidência? Essa palavra existe? Questionava-se em sua mente. Para quem acredita em destino e em desejos do coração, coincidência não está no dicionário. Nada acontece por acaso, pra tudo tem uma razão. Mas como confiar em alguém que conhece a poucos dias...?
Não foi muito ortodoxo a forma como se conheceram. Um dia como qualquer outro, tentando se distrair pela internet, viver, nem que seja por algumas horas, momentos de tranquilidade. Em um jogo online de multi jogadores se esbarraram por acaso, riram, brincaram, conversaram como se fossem outra pessoa naquela realidade pixelizada. Sem nem mesmo perceber, as conversas estendiam-se noite adentro e pouco a pouco se tornaram mais que colegas de jogo.
Tudo parecia ser muito superficial e mecânico na maneira como se comportavam, mas ainda sim tornaram-se distrações um para o outro, e como é inevitável que quando duas pessoas de sexos opostos conversam, indiretas e cantadas sempre apareciam, mas ainda sim não surtiam efeito, a única coisa que ela queria era se distrair. 'Brincar de gostar' não era uma opção.
Ela tinha uma péssima mania: testar pessoas como ratos de laboratório. Adorava ver como se comportavam, se divertia da forma como agiam previsíveis. Sorria discretamente quando fazia as pessoas caírem em sua armadilha de palavras, a maioria esquivava-se, criava aversão ao questionamento, taxavam-na de louca e sadista, mas o adjetivo correto a ser usado era... Medrosa.
"O homem é o lobo do homem" já dizia Thomas Hobbes. Cara sábio! Mal lhe imagina que sua pequena citação descreveria tão bem como somos: Animais.
Animais racionais você deve ter pensado. Errado. Nem mesmo a seleção natural de Darwin se torna desculpa para os atos "humanos".
Pessoas são cruéis por livre e espontânea pressão, é a lei da sobrevivência. Ela estava apenas fazendo sua parte. Ninguém quer ver seu verdadeiro 'eu', pois ele é frágil, seria morto em questão de segundos no mundo aqui fora, então deixe-o guardado dentro da casca que criou e o mundo ajudou e enrijecer.
Ele disse que os olhos são as janelas da alma, não mentem por mais que a boca se mecha. Ela duvidou. Disse-lhe então que ao se conhecerem soube que ela era muito mais do que os olhos podem ver. Ela questionou, ele desafiou-se a responder.
O silêncio reinava à sua volta. O primeiro som que ouvira naquela madrugada foi de uma respiração ansiosa vinda de fones conectados ao computador. A câmera foi ligada, dois olhares desconhecidos se encontraram, se analisaram. Começava ali um novo desafio, um novo jogo, um novo teste.
Momentos antes do encontro, a menina descabelada já havia calculado todos seus atos, suas reações, seus questionamentos, suas respostas. Enfim, estava preparada para testar uma nova cobaia. Fitou firmemente a tela do computador em busca de uma imagem, mas inesperadamente ao aparecer de dois olhos também firmes, seu lado humano tomou conta de sua consciência. Sua confiança foi quebrada como um palitinho de dente, não mais parecia forte, estava vermelha, envergonhada, agindo como boba, perdida. Tal coisa jamais acontecera antes, então por quê agora? Talvez porque nunca havia encontrado tal firmeza e reciprocidade em outra pessoa, ele também queria testar, queria ler, queria entender. Seria esta uma nova espécie? "Não... só é curioso..." ela pensou arrogante, sempre se esquecia que ela também faz parte da ordem natural do planeta, nunca passava-se em sua cabecinha que não era o único ser pensante da terra.
Desarmada, recorreu ao ponto mais frágil de uma cobaia: a percepção. E então começou a aceitar sua condição de boba e foi cada vez mais enfeitando essa imagem, não muito bonita, diga-se de passagem. Agia como uma criança bagunceira e imatura, sua aparência não era apresentável, com o cabelo engrenhado, rosto inchado e marcado, vestindo um pijama velho, esperava que a reação de seu experimento fosse a aversão, como já estudara antes. Digitava academicamente, fazia suas perguntas e aguardava suas respostas já pré-determinadas, mas elas não vinham. Para ela, pessoas normais se encantam cegamente com as "qualidades" dos outros, então bastava mostrar seus defeitos que a imagem de "perfeição ideal" seria na mesma hora derrubada por terra. O excepcional é raro, apenas aqueles que se apaixonam pelos defeitos amam verdadeiramente. Então qual era seu objetivo? Tentar fazer com que ele se apaixonasse por seus defeitos? Não, aquilo foi apenas uma aposta de azar e prepotência. Ninguém havia sequer chegado à esse ponto, ela já estava cansada de esperar algo diferente nesse teste, mas fazê-lo se tornou rotina, ela só queria que ele fosse embora como todos os outros. Mas foi partir dali que uma lição seria aprendida e mais uma palavra seria riscada de seu dicionário. A palavra "normal" passou a não existir em seu mundo.
Fale com o autor