O Diário
32 Capitulo 32
Notas iniciais
32.
Voltei minha atenção para seu corpo caído, tentando ver qualquer movimento, mesmo a mais leve respiração, mas não percebi nenhuma...
Então chorei por um segundo, enquanto encarava o pedaço de garrafa que eu ainda segurava firme em minhas mãos e constatava que o sangue fresco se acumulava aos poucos, enquanto envolvida pela chuva quente e vermelha.
O cheiro forte fazia meu estomago revirar, mas não temi me aproximar do morto. Eu queria ver seu rosto sem vida, cuspir em sua honra e nome.
Agarrei seu ombro, prendendo meus dedos no tecido do seu terno caro agora manchado pelo próprio sangue e puxei para virar seu corpo.
Encarei seus olhos azuis sem vida, seus cabelos loiros encharcados e a expressão de dor congelada pela morte...
Não... Não... Não poderia ser... Não era para terminar assim...
Naruto estava ali... Não era antes, mas agora... Tinha tomado o lugar daquele homem... Morto por minhas mãos cobertas de ódio e medo...
— Eu ainda estou aqui... – O ouvi falando as minhas costas, um sussurro gelado contra minha nuca. – Esperando por meu amor...
Logo senti suas mãos em volta do meu pescoço, estrangulando e cravando suas unhas em mim. Dono do meu corpo, ele me tocava e eu simplesmente não conseguia lutar ou fugir, não podia me mover... Por que quem estava morta... Era eu...
— Você ainda é minha... Mesmo depois de morta... É minha...
***
Um grito abafado pelo medo foi a única coisa que ouviu e Naruto chegou ao quarto alarmado, abrindo a porta as pressas e sondando o local com olhos atentos para descobrir o que havia acontecido. Ainda pediu licença antes de entrar, usando o celular para iluminar o caminho, e ir ate a janela aberta para checar a vizinhança, mas tudo estava muito escuro e silencioso como era de se esperar.
Hinata estava sentada na cama, abraçada as próprias pernas, ainda com a coberta lhe cobrindo as pontas dos pés, parecia assustada e com frio e o rapaz percebeu que a fraca correte de ar que balançava as cortinas tirava o calor do ambiente, o deixando mais obscuro. Fechou a janela antes de se encaminhar de volta a cama.
Se sentou ao lado da garota que, a principio, fugiu de seu olhar interrogativo demonstrando nervosismo, talvez ate mesmo vergonha, e Naruto finalmente se deu conta do que ela poderia estar passando esse tempo todo, imaginando que tipos de maus pensamento que poderiam estar se apoderando de seu sono e tirando sua tranquilidade.
Ele decidiu permanecer calado enquanto ela se acalmava, esperando que a própria lhe contasse o que ocorrera e, caso ela não falasse, ele não perguntaria. Não queria exigir uma explicação, ou que Hinata se sentisse obrigada a lhe contar qualquer coisa, tinha total certeza de que estar ao seu lado, a apoiando e transmitindo confiança, seria o suficiente para calar seus medos, mesmo que ela não quisesse dividi-los.
Pouco mais de um minuto passou antes que a morena pudesse, devidamente, se pronunciar:
— Sinto muito... – Ela pediu. – Por ter acordado você...
— Não tem que se desculpar, Hinata... – Naruto tomou coragem para tocar-lhe nas mãos, satisfeito por seu gesto não ser recusado.
— Acho que... – Ela riu sem graça alguma. – Estou enlouquecendo, não estou?!
— Não, não está. – Ele sorriu, gentilmente desfazendo o rígido laço que seus braços se tornaram em volta de suas pernas e, assim, a conduziu em sua direção. – Você só precisa de alguém para cuidar de você, te ouvir... e... é por isso que eu estou aqui, certo?!
— Eu me sinto tão... boba...
Hinata se aconchegou a ele, abraçando seu tórax e, assim como na noite anterior, descansando a cabeça na altura em que era possível ouvir seu coração. Naruto a sentia igualmente tensa, mas apreciava o gesto que ele sabia que era tão difícil para ela demonstrar.
— Você não é...
O loiro agora encostou as costas na parede tornando aquele abraço confortável a ambos e por um segundo pensou que a garota poderia ter voltado a dormir, mas foi surpreendido com sua fala seguinte. Uma resposta a pergunta que ele não encontrou espaço para fazer:
— Foi um pesadelo...
— Eu sei. Quer falar sobre isso?
— Não. – Ela estremeceu e sua voz vacilou por um momento. – Ainda não...
— Está bem. Eu vou ficar aqui do seu lado ate você voltar a dormir, está bem?!
Um medo quase infantil de poder voltar a ver os monstros de seus pesadelos não a permitiu de pedir para Naruto sair. Hinata se sentia segura e não podia se imaginar sozinha naquele quarto depois do que viu em sono.
Por fim, acabaram abraçados lá, no escuro do quarto, por um tempo que ninguém ousou contar. Por um longo tempo, a garota sentia a leve caricia em seu cabelo, um toque singelo em seu rosto e o leve movimento da respiração do rapaz.
— Hinata, posso te perguntar uma coisa?
— O que?
— Você tem sonhos?!
— Sonhos?
— É.
— Nenhum... Apenas pesadelos.
— Boba... – Naruto riu baixo. – Não é disso que estou falando.
— Eu sei... É que não consigo pensar quer outra coisa além de recuperar minha memoria e eu não queria parecer tão obvia...
— Entendo... É um bom sonho, sabe. Retomar sua vida, terminar aquilo que deixou pendente... Espero que me deixe te ajudar dessa vez...
— Eu ficaria magoada se não me oferecesse sua ajuda...
Naruto aconchegou-se mais, deixando-os verdadeiramente deitados lado a lado na cama. Hinata agora podia ver seu rosto e notou como seus olhos lutavam permanecer de abertos, o loiro estava exausto, mas manteria o prometido de ficar lá ate que dormisse.
— Você não vai perguntar qual é o meu sonho? – Ele perguntou, divertido.
— Eu me lembro... Quer retomar a empresa do seu pai, certo?!
— Também, lá pra frente, no futuro. Mas não só isso...
— E o que mais iria querer?
— Você...
— Mas eu já estou aqui, não é?!
— Não, não do jeito que eu quero ainda...
— Sexo?
— É o que acha?! – Ele ajeitou uma mecha dos seus cabelos, fazendo-a sorrir preguiçosamente.
— Não...
— Um dia, há muito tempo atrás, nós dois estávamos estudando juntos e você sorriu para mim... E seu sorriso era tão leve, tão sincero, perfeito... E o que eu via em seu olhar era felicidade, pura e simples... Foi quando percebi que estava apaixonado por você... – Naruto falava simplesmente – Mas depois daquele dia, nunca mais te vi sorrindo daquele jeito... Estava sempre quieta e distante, mal humorada...
— Você sabe o porque agora...
— Sabemos, não é?! Mesmo assim, depois de tanto tempo, tantos desencontros e tudo mais que aconteceu, aquele sorriso, o meu sorriso, eu ainda estou esperando.
— É o seu sonho?
— Meu sonho é ver você feliz, como era antes de tudo...
— Não acho que será como era antes, mas você já me faz feliz...
— Não o suficiente ainda... E eu sei que não vai acontecer ate você realizar o seu sonho: recuperar sua memoria e sua vida... Sei que ate esse impasse acabar, você ainda vai estar presa aos seus traumas, mas é por isso que eu quero te ajudar... Quero descobrir junto com você, como te fazer sorrir daquela maneira única...
Hinata sorriu agora, o melhor que pode, entendendo que ainda não seria da forma que Naruto queria. A espontaneidade de um sorriso banhado pela felicidade a abandonara a muito tempo e não sabia como repor, mas estava disposta a tentar rebuscar aquele sentimento inocente e despreocupado que lhe fora roubada e, com a presença do loiro em sua vida, tinha certeza de que um dia conseguiria.
Os dois ficaram calados, observando um ao outro e, por um momento, a felicidade pareceu real, mas não contínua, não o suficiente, como Naruto lhe dissera, algo ainda faltava...
— Posso te contar um segredo?!
— Mais um segredo?! – Naruto riu baixinho.
— Só mais esse... Posso?
Hinata já estava relutando sobre isso a algum tempo, mas, especificamente, naquele momento, com ambos abraçados e juntos naquela cama, ela sentiu-se confortável a revelar um pensamento antigo, que voltava a se tornara vivo em sua mente recentemente.
— Eu ia te contar tudo, naquela noite... Eu estava pensando em revelar meus planos e te chamar para fugir comigo, abandonar tudo para fazer aquilo que eu não lembro o que era... – Ela suspirou, incomodada pela amnesia. – Loucura, não é?! Pensar que você fosse capaz de...
— Eu iria... – Naruto disse simples. – Se você me pedisse isso naquela época, eu largaria tudo por você.
— As vezes eu fico pensando o que teria acontecido se eu não tivesse descoberto sobre você... Como seria se eu não tivesse ouvido sua conversa com meu pai e nós não tivéssemos brigado naquela noite...
— Teríamos fugido juntos... Só isso... – Naruto riu, fazendo-a rir também.
— Mas se acontecesse daquele jeito, você sabe, não daria certo...
— Não, eu sei que não...
— Estávamos os dois divididos entre o que queríamos e o que tínhamos que fazer... Eram muitos segredos, muitas mentiras... Nenhum relacionamento sobrevive assim...
— Mas agora não há mais segredos, nem mentiras, nenhuma barreira que impeça nosso futuro juntos... – Naruto sussurrou. – Só falta mesmo você aceitar ser minha namorada.
Os dois riram baixo e Naruto moveu seu cabelo para o lado e se aproximou tocando sua testa com um beijo rápido. Hinata, por sua vez, acomodou a cabeça na curva do pescoço do loiro, intensificando seu abraço.
— Obrigada, por estar ao meu lado, Naruto-kun.
— Obrigado por me deixar ficar...
Os olhos dele caíram pesados e a morena o observou lentamente iniciar um invejável sono tranquilo e a segurança que seu abraço transmitia permitiu que ela fechasse os dela desejando a mesma serenidade.
***
A cama estava confortável quando acordou. A coberta que o cobria era quente e sua respiração suave deu lugar a um leve bocejo ao despertar de um belo sonho.
Naruto só abriu os olhos quando sentiu o corpo junto ao teu, encontrando Hinata ao seu lado, já acordada e o observando com aqueles olhos lindos.
— Bom dia. – Ela lhe disse.
— Bom dia... – Ele coçou os olhos, confuso, precisou pensar alguns segundos antes de lembrar-se como foi parar no quarto.
Naruto olhou em volta e viu pouca claridade pela janela. Já era de manhã, mas ainda muito cedo para os raios de sol iluminarem a rua. Observou o edredom que os cobria e a garota ao seu lado e se deu conta do que tinha acontecido de madrugada.
Dormiram juntos ali, na mesma cama, abraçados e dividindo o mesmo cobertor...
— Eu peguei no sono... – Constatou.
— É, só um pouco...
— E você? Está bem? – O loiro a encarou, receoso por um instante. – Com tudo que aconteceu entre a gente... Sei que estar comigo assim, aqui, não deve te trazer boas lembranças.
Hinata desviou o olhar para o pequeno curativo que Naruto fizera em seu braço e pensou no dia incrível que tiveram anteriormente, tão repleto de paz... As boas e más recordações que tiveram naquele quarto, naquela casa, a tanto tempo atrás.... As feridas que as palavras lhe causaram e ainda doíam em seu coração... O perdão que lhe deu quando pensou que morreria no acidente...
Apesar de tudo, a morena não parecia, nem de longe, a garota assustada que era de madrugada. Estava leve e bem, exatamente como na manhã anterior após desabafar suas verdades.
— Sim, eu estive pensando sobre isso. Sobre tudo isso... – Ela disse, olhando-o.
— Pensando? Você não dormiu?
— Não...
— Ah, desculpa, Hinata. Eu deveria ter ficado te fazendo companhia... – Estava desapontado consigo mesmo, prometera ficar ate que ela pegasse no sono, mas quem acabou dormindo foi ele próprio.
— Tudo bem. Foi bom para mim, eu precisava desse tempo.
— Por que?
Hinata sorriu enquanto se ajeitava na cama, se despreguiçando timidamente. Essa combinação de gestos tornava a expressão de seu rosto como uma pintura perfeita da qual Naruto nunca se cansaria de olhar. Qualquer receio dele caiu por terra ao deslumbra-la tão linda e relaxada.
— Eu precisava entender... – A morena o respondeu. – Entender o que estava acontecendo comigo... O que estava acontecendo entre a gente... Ter certeza de que posso lidar com tudo isso...
— Tudo o que? Eu não estou entendendo, Hinata.
— Estou falando do nosso namoro.
— Namoro...?
— Você quer? Quer ser meu namorado?
Naruto sorriu extasiado ao ouvi-la e seus braços frouxos a cercaram de forma protetora, se aproximando e aconchegando-se sem medo de rejeição mantendo aquele abraço tão necessário.
— Mas ainda tenho medo de falhar com você...
— É impossível falhar... Saber que fui perdoado, que estamos juntos já me faz incrivelmente feliz.
— Não faz ideia de como me sinto bem ouvindo isso.
— Pode deixar que eu sei lutar pela felicidade...
Naruto ergueu uma sobrancelha ainda com seu sorriso nos lábios, buscando, no olhar da garota, qualquer sinal de insegurança ou recusa, mas ela estava bem e ele avançou.
— E a partir de agora lutamos juntos.
Como a muito tempo não fazia, cobriu-a com suas mãos tocando abaixo de suas costelas causando uma audível gargalhada. Em um primeiro momento, Hinata tentou se conter, mas acabou se entregando as cocegas que lhe faziam se sentir tão bem.
Ambos riram descontraídos e ele finalmente parou , percebendo que a morena precisava respirar, mas logo acabaram por se dar conta de como o corpo de Naruto estava agora debruçado por cima do de Hinata, ambos ofegantes e com seus rostos perigosamente próximos.
— Minhas costelas... Doem quando me faz rir assim.
— Eu... – Ele se preocupou por um segundo, observando-a tocar na lateral do próprio corpo, no local onde ficava sua costela a muito quebrada pelo atropelamento. – Eu não sabia...
— Nem eu... – Ela sorriu. – Mas acho que não teria como saber. Não me lembro de rir tanto desde que acordei no hospital. – Tocou o rosto de Naruto agora, em uma leve caricia. – Não me lembro de me sentir tão segura desde então...
Naruto não pode se impedir de beija-la agora, sedento e desesperado por esse contato. Mergulhando em seus lábios como a muito não fazia, como se restringia para não fazer por se preocupar com a reação da morena, mas dessa vez nenhum pensamento logico conseguiu conter seus sentimentos. Hinata não o recusou, não reclamou, nem pareceu insegura enquanto gradativamente s se deixava levar pelo momento e as sensações que lhe eram entregues. Um beijo desfrutado por ambos.
Naquele momento, tudo que o rapaz menos queria era separa-se dela, não conseguia se imaginar longe ou mesmo pensar em deixar seus lábios. Queria mais daquele beijo, ir além daqueles toques, queria tê-la para si em seus braços uma vez mais.
Entretanto, quando escorregou seu beijo para o pescoço da morena se deu conta de como ela era sensível aquele contato, sentiu-a estremecer e logo recuar, tocando seus ombros de forma leve, mas que demonstrava um sutil pedido de espaço.
Naruto entendeu que não deveria prosseguir e, com algum receio, desfez o abraço e se separou dela, voltando ao seu lugar na cama, deitando-se ao lado de Hinata.
Os dois se sentiam um pouco envergonhados e qualquer assunto que poderia haver entre eles desapareceu no ar. Hinata se acomodou melhor na cama, deitada virada para a parede e de costas para Naruto.
— Você ficou zangada por eu ter...?
— Não... – Ela se antecipou em responder e perguntou timidamente. – E você? Ficou por eu não ter...?
— Não, claro que não.
— Desculpa, eu ainda não...
— Eu sei, Hinata. Não precisa se explicar. – Naruto a viu suspirar e pensou se suas palavras poderiam deixa-la mais tranquila. – Ainda estamos bem?
— Claro, eu gostei do beijo...
— Eu também. – Sorriu. – Acordar ao seu lado esses últimos dias é uma das melhores coisas...
Ela murmurou algo baixo, quase como se estivesse falando consigo mesma, e o loiro teve a impressão de que ela perguntaria alguma coisa e acabou desistindo. Pensou severamente se deveria ou não perguntar, mas quando se deu conta as palavras apenas saíram de seus lábios:
— Que é?
— Hum, nada... eu só estava pensando...
Deixaram o silencio tomar conta do quarto por mais um segundo. O loiro sentiu que ela acabaria falando então esperou ate a garota decidir se pronunciar. Demorou e ele pode notar uma rápida batalha interna da garota, aparentemente tentando criar coragem para prosseguir.
— Naruto-kun...
— O que?
— Como foi... – Ela hesitou, precisando respirar fundo antes de continuar. – Como foi a sua primeira vez?
Ele a olhou surpreso por um instante. Sabia que, como namorados, teriam que falar sobre o assunto em algum momento, mas não imaginou que seria tão cedo ou ainda que fosse ela a iniciar essa conversa. Se virou de barriga para cima enquanto fitava o teto.
— Por que você quer saber sobre isso?
— Não tenho certeza... É apenas algo que eu queria saber...
— É que falar desse tipo de coisa é meio embaraçoso, não é?
— É, acho que é...
Agora foi a vez de Hinata esperar pela resposta de Naruto que parecia pensar no que dizer. Escolhia as palavras com cuidado, imaginando como falar sobre algo que, com certeza, a deixaria incomodada de alguma forma.
— Eu estava inseguro, no começo... – Ele disse um pouco sem jeito. – Eu pensei que seria um momento único e decisivo da minha vida e isso me deixava nervoso. Sempre fui um pouco idiota, sabe, e estava com medo de me atrapalhar...
Percebeu o silencio da morena e soube que estava ouvindo atentamente a cada palavra. Ela não quis falar nada, o que o fez repensar em como seguir em diante, não queria magoa-la, nem permitir qualquer mal entendido. Hinata merecia a verdade completa.
— Mas depois eu percebi que não seria um momento só meu, tinha uma garota incrível comigo que também devia estar cheia de expectativas e dúvidas. Então... Eu decidi deixar as coisas acontecerem, me levei pelo instinto, sei lá... Eu não saberia descrever em palavras, mas foi legal... E especial... Principalmente por ser com alguém realmente importante para mim... – Respirou fundo. – Mas, por um bom tempo, duvidei se seria especial para você também...
Hinata ficou parada com o olhar estático para o nada, apenas deixando seus neurônios trabalhando para interpretar aquilo que Naruto acabara de dizer.
Com o coração começando a bater acelerado contra o peito, por um instante, ela imaginou se teria entendido errado, porque o que ela ouviu parecia irreal.
— Como assim? – Hinata estava confusa quando se virou na cama para encara-lo e analisa-lo em sua resposta.
Naruto riu um pouco do tom de surpresa que ela usou antes se deitar de lado na cama, ficando, assim como a garota, de frente um para o outro. Por fim ele ainda pareceu pensar antes de assumir uma postura mais seria e responde-la, simples e sereno:
— Hinata... Eu nunca estive com ninguém antes de você...
Ela o olhava enquanto se dava conta lentamente de que, sim, tinha entendido certo e um sentimento estranho era o que ditava o ritmo do seu coração, algo que ela não sabia se era bom ou ruim, agindo como um tipo diferente de “nervosismo” que envolvia o conhecimento do que ela representava para Naruto.
Alguns pensamentos deliberadamente confusos a atingiram, trazendo consigo montes de perguntas um tanto perturbadoras.
— Eu fui a primeira?
— É...
— Não... Não faz sentido, Naruto-kun. Você é popular, eu vi na escola como as garotas são com você. É impossível nenhuma nunca ter se declarado... Impossível você não ter...
— Hinata, eu era só mais um cara estranho numa escola de riquinhos e todo mundo me achava um idiota... Pelo menos ate eu fazer aquela peça de teatro, foi por causa daquilo que as garotas começaram a ficar loucas... Mas ai era tarde, eu já tinha me apaixonado por você...
— Mas no começo eu não quis ser sua namorada... – Fugiu o olhar do loiro, se sentando na cama e ficando de costas.
— Mas eu sou persistente e sempre tive esperança de que...
Naruto falava com um sorriso meio bobo enquanto se sentava ao lado de Hinata e só com essa proximidade pode perceber as lagrimas fugindo dos olhos dela.
— Você tá chorando?
— Não... – Ela passou a mão no rosto e só assim se deu conta do iniciou do choro. – Estou?!
— Tá sim... Porquê? Eu disse algo errado? – A garota não falou nada, apenas acenou negativa, enquanto fungava baixo, o que deixava Naruto mais apreensivo. – Então o que é?
— Nada...
— Hinata, não faz isso... Se foi culpa minha... Não guarda as coisas só para você, por favor...
— Eu... eu só fiquei pensando... Talvez devesse ser você o meu primeiro também, mas não foi e... – Ela fez uma pausa. – Eu sei que é besteira pensar assim...
— Não, Hinata, olha pra mim. Não é besteira...
Ele se endireitou , sentando-se de frente para ela, encarando-a enquanto escolhia as palavras que deveria usar.
— É de sentimentos que estamos falando, não é?! Momentos... Sensações... Amor... É o que conta, certo?! – Ele a olhou de forma carinhosa. – Se é isso, então, a primeira vez que você fez amor foi naquela noite, a nossa noite, comigo. Nossa primeira vez. A minha e a sua também...
Naruto sentiu-a ceder a um abraçou e deixou que Hinata se aconchegasse contra seu peito. A acariciou suas costas por cima da roupa, subindo o toque ate a nuca onde ele sabia que havia uma cicatriz e sentiu-a estremecer por um momento com o contato e então fortificar o aperto de seus braços, ele fez o mesmo e ainda aproximou-se de seu ouvido para sussurrar:
— Você entende o que eu quero dizer?
— Acho que sim...
— Nunca mais quero te ver triste, nem vou permiti que nada te machuque. Eu morreria antes de deixar algo de ruim te acontecer de novo. Estamos finalmente inteiros nisso e podemos sobreviver a qualquer coisa juntos...
— Inteiros... – Hinata tocou o rosto do loiro com ambas as mãos e aproximou-se para beija-lo, mas desistiu antes dos lábios se tocarem, encarou-o pensativa por um momento e então fechou os olhos. – Não, ainda não...
Ela se virou de costas para ele enquanto falava e o loiro não entendeu ate vê-la mover os braços para afrouxar e retirar a blusa que usava e escondia seu corpo. Apesar da surpresa inicial, Naruto entendeu o que o pequeno gesto da garota significava, pois era como se suas próprias mentes estivessem sincronizadas.
Então, em um movimento único e lento, cheio desse reconhecimento de desejo e consentimento, o loiro simplesmente ajeitou seu cabelo cumprido para o lado para poder observar plenamente suas cicatrizes ocultas.
Seus olhos caminharam analiticamente por cima a pele pálida da garota, além das leves marcas que apenas um olhar atento aproximado conseguiria distinguir de tão homogêneo que era, havia em destaque o corte antigo e de maior tamanho que se iniciava do centro e descia para o lado direito de suas costas, terminando um pouco mais abaixo da altura do quadril;
O rapaz não podia nem sequer imaginar como Hinata conseguira ocultar algo assim dos outros ate se curar, mas também não duvidava mais de sua capacidade de “se esconder”, afinal conseguiu enganar ate mesmo ele que fora “contratado” para vigia-la.
Suspirou, sentindo-se incompetente por nunca estar por perto para protege-la, por descobrir sobre seus males tarde de mais para entender e trata-la como deveria, por não saber ao certo como faze-la se sentir melhor...
As pontas de seus dedos passeavam vagarosamente pelas costas de Hinata, um toque preciso e carinhoso que, a partir daquele momento, o fez ter total certeza de que ela era completamente sua assim como ele se sentia inteiramente dela. Agora os limites foram quebrados, de tal maneira que seus sentimentos se tornaram um só, assim como eles próprios e suas almas se sentiam ser.
Fechou um abraço enquanto tocava sua face contra a pele marcada, deslizou seus lábios descompassadamente por sua cicatriz, com um beijo lento e demorado, subindo mais além, fazendo caminho por toda a extensão de sua pele ate que pode descansar seu queixo na curva entre o ombro e o pescoço dela.
— Eu cai... – Ela disse de repente. – Eu não me lembro direito, mas eu sei que ele estava bebendo algo, talvez whisky, não sei... Então eu disse alguma coisa que o deixou com raiva e acabei sendo empurrada... – Hinata abriu os olhos agora, fitando o vazio a sua frente para completar. – Quando bati contra a mesa, um copo caiu e... Eu cai por cima. Estava tão gelado que pensei que era só um bloco de gelo, não percebi que tinha me cortado ate ver o sangue...
O rapaz esperou que ela terminasse para se aproximar e beijar seu pescoço, onde também havia uma pequena cicatriz que poderia, ou não, ter sido adquirida da mesma forma.
— Queria ser capaz de te curar.
— A marca na pele não vai sair, mas a minha alma... – Hinata voltou a fechar os olhos. – Você já está...
— Estou mesmo?!
— Sempre tive tanto medo, Naruto-kun. Já evitei tantos momentos por me sentir insegura, suja, indigna, mas com você tudo muda. É diferente de um jeito que não sei explicar...
— “Diferente” bom?! – Naruto perguntou com um sorriso, dando-lhe outro selinho no rosto.
— Tudo fica mais fácil quando está por perto... Cada segundo juntos, cada palavra que diz, cada toque que sinto... Você faz eu me sentir mulher... E é bom, sim... É muito bom sentir que quem eu amo também me ama...
— Ouvir isso me deixa feliz, sabe... É mesmo incrível saber que os sentimentos são correspondidos...
Naruto acariciou por trás de sua orelha com a ponta do nariz, sentindo-a se arrepiar levemente, e então apertou o abraço a qual estavam presos de tal maneira que tinha certeza que Hinata sentiria o coração dele batendo contra suas costas. Sentindo-se verdadeiramente segura ali com ele, sussurrou, tão baixo, que parecia dizer mais para ela do que para o loiro:
— Eu não quero ir embora nunca...
— Também não quero que vá... – Ele a respondeu com o toque de seu sorriso nítido em sua voz.
A morena se virou, escondendo os seios de maneira tímida com a blusa que estava em suas mãos. Encarou os olhos azuis e o sorriso perfeito que lhe era direcionado, e sentiu seu coração bater tão rápido quanto o do loiro. Percebeu como se aproximou lentamente dela, tocando sua testa, roçando seus narizes e, por fim, buscando seus lábios de forma singela. Permitindo-se sentir aquecida por aquele abraço caloroso e apaixonado que sabia ser apenas seu.
Naquele momento, um único instante, menos que um segundo... Hinata se sentiu segura para entregar-se de corpo e alma a seu amado.
Então eles ouviram o toque de um celular e o som contínuo e incômodo os fizeram se separar. Naruto olhou para a cômoda ao lado da cama e viu dos dois aparelhos, o dele e de Hinata, deixados ali. Com certa irritação percebeu que o barulhento era seu.
— Não vai atender? – Ela perguntou.
— Não se eu tiver que sair dos seus braços... Deixa tocar...
— Eu não vou fugir. Deve ser importante para te ligarem tão cedo.
O loiro suspirou e sem nenhum entusiasmo, desfez o abraço com sua namorada e voltou-se para o aparelho gritante. Xingava-o mentalmente pois o celular ultrapassado e desconfigurado sempre entrava em modo silencioso sozinho, mas logo hoje, logo agora, resolveu funcionar perfeitamente.
Pegou-o da cômoda sem pressa de atender e olhou para o identificador de chamada. O nome ali tirou o sorriso de seu rosto.
— Hinata... – Voltou-se para a garota, com receio em sua voz. – É o seu pai.
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