O Deus Sem Nome e o Galho de Álamo

16 Faço um novo amigo antigo


Notas iniciais
Ooown, esse capitulo é fofo, e tem um final tenso, nada mais (também é mais curtinho)...
Boa leitura!

Tanner ficava murmurando coisas do tipo: “O que?”, “você viu aquilo?” e “Mas eu... eu não entendo!”, enquanto Will e eu praticamente o arrastávamos até o reservado do restaurante. Sentei-me no banco de couro vermelho de um dos lados da mesa e eles no outro. Quando a garçonete ruiva que fazia bolas com uma goma de mascar rosa sem parar, o que me irritava muito, foi pegar nosso pedido, eu já aproveitei para deixar os três hambúrgueres com batatas fritas e os milk shakes de morango pagos.


Ela voltou cinco minutos depois com a bandeja e eu pude lançar o feitiço abaffiato assim que ela se virou. Ninguém poderia nos ouvir agora.

Deixei a varinha sobre a mesa e olhei para Tanner, como se preguntasse: “O que você quer saber?”.

–O que foi aquilo que você fez lá fora?- ele sussurrava, apesar de não ser necessário, e parecia um pouco estressado- Eu até entendo que você seja Orféia, mas isso?- ele enfiou as mãos no rosto. Troquei olhares com Will.

Eu havia prometido para Quíron que só usaria Magia e Orfelismo em casos de extrema emergência, e tinha esperanças de que não acontecesse tão cedo, mas eu consegui usar os dois, um seguido do outro. Como eu conseguia fazer essas proezas?

Nós já havíamos perdido o ônibus (Eu acho que Tique, a deusa da sorte, não gosta muito de mim). Respirei muito fundo, e as explicações começaram a sair de mim como água numa cascata.

Comecei com o básico. A escola, as casas, as aulas. Depois passei para o Ministério da Magia, o acordo com os deuses, e como meus pais se achavam bons de mais para seguirem as regras, e era por isso que eu tinha nascido. Expliquei sobre como Will havia ficado em Hogwarts e me protegido por dois anos antes de levar para o Acampamento, mesmo não sendo um bruxo, e como eu o admirava por isso. Quando me dei por conta, já estava explicando porque eu não poderia aparatar antes dos dezessete anos. Eu nunca havia me dado conta disso, mas eu sentia saudades de tudo aquilo. Da comida que aparece magicamente nos pratos da escola, e como os fantasmas flutuam por aí. Do salão arrumado para o último jantar, quando anunciavam o vencedor da Taça das Casas, e de como as corujas invadiam o lugar durante o café-da-manhã. Das carruagens sem cavalos e até mesmo das canções bobas do Chapéu Seletor. Eu costumava odiar tudo aquilo, aquela escola que me fazia sentir presa, as aulas que eu não conseguia entender e, principalmente, as pessoas que riam de mim quando eu não conseguia ler o que estava escrito no quadro.

Mas agora eu havia sido apresentada para esse novo mundo, de deuses, monstros e missões, e que era ótimo –apesar dos empecilhos, como por exemplo, galhos roubados- mas que não fazia com que eu me sentisse em casa. Hogwarts fazia isso. Acho que os dois mundos tinham seus altos e baixos, e talvez eu tivesse sorte por poder viver nos dois. Talvez.

Tanner já parecia mais calmo em relação à tudo, mas seu cenho ainda estava franzido, como se seu cérebro tentasse absorver as informações. Ele fez um gesto com a cabeça, indicando a varinha em cima da mesa.

–E o que é isso?- perguntou.

–Minha varinha. É impossível conjurar feitiços sem ela.

Ele estendeu a mão, pedindo permissão para vê-la, e eu a entreguei a ele.

–Parece um pedaço de madeira talhada para mim. Tem que por algum feitiço nisso para funcionar?

Sorri.

–Não. Varinhas são feitas com núcleos especiais. A minha é feita de cerejeira, vinte centímetros, fibra cardíaca de dragão, inflexível. Existem outros núcleos, e outros tipos de varinha também, mas Olivanders é o fabricante mais famoso.

Ele examinava a madeira com atenção, passando de uma mão para a outra e olhando bem de perto.

–Como se escolhe uma varinha? Tipo, como se sabe que é a melhor para você?

Will e eu nos entreolhamos sorrindo.

–A varinha escolhe o bruxo- respondi, e ele pareceu confuso, mas Will não o deu espaço para mais perguntas.

–Você pode explicar isso melhor mais tarde- falou- Mas eu realmente preciso saber o que aconteceu com aqueles monstros. Foi tudo muito estranho.

Tanner concordou com a cabeça.

–Eles não deviam fazer aquilo. Nunca ouvi falar de nada igual.

Um pensamento estranho passou por minha cabeça. Parecia algo distante, mas a pergunta me ocorreu:

–Monstros têm DNA?- perguntei.

Will franziu as sobrancelhas.

–Nossa, eu nunca pensei nisso. Talvez, é provável. Porque pergunta?

–Não sei. Foi só algo que me ocorreu. E se... E se alguém tentasse fazer experimentos com isso?

–Não entendo onde está querendo chegar- murmurou Tanner por entre as mordidas no sanduiche. E depois eu é que sou a lenta!

–E se alguém tentasse criar novas espécies de monstros misturando seu DNA?- tentei explicar melhor- Então será que eles poderiam se fundir?

–De onde surgiu essa teoria? É muito insana, mas eu acho que funcionaria.

Balancei a cabeça, tentando lembrar de onde poderia ter surgido a ideia quando a voz ecoou em minha mente: “Avise o laboratório que eu quero um. O mais horrendo que conseguirem.”

–Dárion- murmurei, mais para mim mesma do que para os outros- Ele tem um tipo de laboratório de experiências, ou algo assim. Sonhei com isso.

Contei a eles meus dois últimos sonhos resumidamente, excluindo a parte em que meu pai chorava pela partida do Deus Sem Nome. Não queria nem pensar na possibilidade de eles terem sido amigos.

–Então Ártemis tinha um caso com Dárion?- perguntou Will.

–Está falando sério?- indaguei, reprimindo um riso- Com tanta coisa importante pra se preocupar e você se prende a isso?

–Tem razão! Foco.

–Humm, tudo bem...- enfiei a mão na mochila e tirei de lá meu livro sobre mitologia, abrindo na seção “Monstros Mitológicos”.

–A morena, Tammi- começou Tanner- era uma Empousa. Me lembro dessas das aulas do Acampamento. Parece que deram origem ao mito dos vampiros, ou algo assim. A outra, Audrey... Acho que são chamadas Dracaenae. Mulheres-cobra. Compunham uma grande parte do exercito de Cronos, na Batalha de Manhattan.

–A de Percy Jackson?- perguntei.

–Essa. O cara é uma lenda!

Afirmei com a cabeça, e continuei folhando as páginas até achar uma descrição que batesse com a de Halley, a menina fantasma.

–Queres- anunciei, e comecei a ler o que estava escrito- Um bando de espíritos que representam a fome e as doenças, as quais se alastram nos campos de guerra, e que se alimentam de mortes violentas. Eles residem no Mundo Inferior e raramente saem de lá, a menos que haja uma grande guerra em que precisem comparecer. Geralmente voltam com muitas almas, e podem parecer inocentes, como um male disfarçado.

–Mas, se é mesmo essa- disse Tanner- Porque não ficamos doentes?

Dei um sorrisinho de vitória.

–Parece que as experiências do nosso amigo Dárion não dão assim tão certo, não é?

______________

–Com licença? Onde fica a estação de trem mais próxima?- estávamos no restaurante novamente, pedindo informação para o gerente, um sujeito barbudo e grandalhão que não combinava nadinha com o macacão branco e rosa do uniforme.

–Fica uns dois quilômetros para lá- e então apontou para a parede direita da lanchonete- Acho que só começam a vender os bilhetes depois do meio-dia.

Havíamos passado a noite em frente ao restaurante, usando as mochilas como travesseiros e nos revezando em turnos de vigia. Esse foi o fim do nosso primeiro dia de missão. Quando abriram, bem cedo aquela manhã entramos para tomar café.

–Tudo bem, obrigada- falei e passamos pela porta da frente.

–Rose- disse Tanner-, se só começam a vender mais tarde porque estamos indo? Temos que achar um lugar para ficar enquanto isso!

Olhei meu relógio. Eram cinco e meia, e o sol começava a nascer, enquanto caminhávamos pelo acostamento da estrada.

–A informação pode estar errada. Não podemos ficar perambulando por aí. Precisamos de transporte. O mais rápido possível, de preferência. Daqui até Washington não leva mais de quatro horas de trem. Precisamos tentar.

Andamos por mais um tempo antes que eu dirigisse a palavra a ele novamente.

–Você não acha que estou ficando louca, então?

–O que?- perguntou confuso.

–Bom, é que... qualquer pessoa que ficasse sabendo que a outra é uma bruxa teria um surto psicótico, eu acho.

Ele levantou uma das sobrancelhas.

–Rose, eu sou um semideus. Sou o filho de um deus do Olimpo, que combate monstros. Nada é estranho, ou louco de mais para que eu acredite. E também não acho que faria uma brincadeira dessas. Quero dizer, você é chata e irritante, mas...

Dei um soquinho em seu ombro.

–Eu não sou irritante! Não é culpa minha se você é um bom alvo para xingamentos.

Will fez um gesto estranho em silêncio, como se riscasse um fósforo no próprio braço e acendesse uma vela. Isso me fez dar um soco nele também.

–Nem brinque com isso, William! Não tem graça!

Nós dois rimos, mas Tanner parecia realmente envergonhado.

–Eu estava brincando, cara- disse Will ao ver sua expressão.

–Eu sei!- respondeu sorrindo- Está tudo bem.

Chegamos à pequena e precária estação quando a bilheteria estava sendo aberta e, graças aos Deuses, a atendente foi gentil e nos deixou comprar as passagens antecipadamente. Pelo jeito, a informação do gerente da lanchonete estava errada, conseguimos lugar no próximo trem para Washington, que saia dali a duas horas. Nos sentamos no banco de madeira sob um toldo, ponto de espera da plataforma em que nosso trem chegaria.

Ficamos em silêncio por mais ou menos uma meia hora, até Tanner voltar a falar.

–Aquela profecia não sai da minha cabeça.

Olhei para ele, que estava sentado ao meu lado, seu perfil recortado pelo sol nascente.

–A Grande Profecia ou a profecia da missão?

–A da missão. Principalmente o quarto verso. “Com um a menos ou a mais ao lar retornarão”. Não consigo entender.

–É realmente estranho- disse Will- É que nem o ultimo. “E nos braços da mãe não mais respirará”. É esquisito, por que minha mãe morreu quando eu era pequeno- eu não sabia disso, então fiquei muito mal quando ele contou. Ele era meu melhor amigo, e eu não sabia quase nada sobre ele-, a mãe do Tanner mora em São Francisco e a sua está em Londres para as decisões de férias. Não faz nenhum sentido!

–E alguma profecia faz?- perguntei- Elas não fazem sentido por uma razão. Quando as pessoas conhecem seu destino, tentam muda-lo, e isso nunca dá certo. Nunca deu, e nunca dará, então acho melhor não ficarmos tentando descobrir.

Eu estava muito cansada, e isso me deixava estressada. Eu sabia que estava sendo chata, e irritante, mas não podia evitar. Eu precisava de um descanso, ou minha cabeça explodiria!

Não sei se eles continuaram conversando ou não, pois me desliguei completamente. Algumas pessoas começaram a chegar e se acomodar em outros bancos, para esperar o trem

Quando vi aquela estação tão pequena e simples, pensei que iríamos viajar num trem como o de Hogwarts, com maquinista, motor a carvão ou coisa do tipo, mas o trem que parou em nossa frente era um daqueles bem modernos, prateado e lustroso. Embarcamos e ocupamos rapidamente um dos últimos vagões, que tinha uma porta de correr com janelas de vidro, dois bancos compridos encostados nas paredes e porta-bagagens sob os assentos.

Will tinha um serio problema com transportes públicos. Não podia entrar em um que caia no sono. Nas viagens de férias só conseguia mantê-lo acordado com as “toneladas” de doces que comprávamos. Ele jogou a mochila em baixo de um dos bancos e deitou-se, ocupando-o inteiro. Logo estava roncando.

–Vamos sentar dividir esse- disse Tanner, como se tivéssemos escolha. Me escorei em uma das paredes, deixando meus pés sobre o banco, e ele fez o mesmo do outro lado, de um modo que ficamos frente-a-frente. Não sei bem por quanto tempo ficamos em silêncio antes de ele perguntar:

–Por quê?

–Por que o quê?

–Porque você não gosta de mim?

Revirei os olhos.

–Eu não sei. É só que...- tudo parecia mesmo ridículo para mim agora, e eu não sabia responder sua pergunta.

–Se for porque eu sou filho do deus da guerra e tal, eu entendo. Eu também preferiria não ser filho dele se pudesse.

–Mesmo?- perguntei, surpresa.

–É. Quer dizer, porque todos acham que temos que estar sempre zangados e com uma carranca no rosto? É simplesmente ridículo de mais para mim.

–Também não é grande coisa ser filho de Apolo. Na verdade, é exatamente o oposto do que você disse. Porque as pessoas sempre esperam que saiamos correndo como criancinhas medrosas?

Ele soltou um muxoxo, achando tudo um grande absurdo.

–E isso é o que tem menos sentido. Apolo deveria ser o rei do Olimpo.

Um trovão sacudiu a cabine, mesmo que o dia estivesse claro lá fora. Reprimi uma gargalhada.

–Acho que alguém não gostou muito do seu comentário- falei.

–É, acho que não. Mas estou falando sério. É o que eu acho.

Mais um trovão, mas nós ignoramos.

–Porque acha isso?

–Bom, é o sol, certo? Sem sol ninguém vive, mas vivem sem raios e trovões.

Afirmei, tentando entender. Acho que ele havia se esquecido da chuva, mas resolvi não argumentar.

–Suponho que sim.

Mais trovões, e falamos mutuamente:

–Melhor que ser filho de Zeus.

Agora várias nuvens de tempestade se formavam, e nós começamos a rir.

–E, me desculpe- murmurei baixinho- Por tudo.

Isso o pegou de surpresa, e definitivamente, me pegou também. Eu havia acabado de pedir desculpas? Ele sorriu. Um sorriso calmo e tranquilo, que fez com que eu me sentisse bem. Depois daquela conversa, eu fiquei me perguntando o porquê de eu ter sido tão cruel com ele. Tanner era uma pessoa legal, e simpática, e eu havia sido uma pessoa extremamente irritante. Seu rosto sereno e feliz fora a última coisa que vi antes de cair no sono.



Ei tremia de frio, e estava com os sapatos completamente enterrados na neve. Há uma distancia de alguns metros estava o pequeno Dárion, em frente a uma fogueira improvisada, tentando se manter aquecido com apenas a fina túnica que vestia. Eu sabia que se ele fosse mortal, já teria morrido de hipotermia, mas como não era, estava fadado a sofrer no frio extremo.



Ele estava chorando. Muito. E eu, por incrível que pareça, fiquei com pena, pois era uma criança extremamente encantadora. Mas a pena foi embora quando sua voz, tão fria quando a neve em que eu pisava, sussurrou em meu ouvido.

–Alasca. Hoje em dia é uma terra fora do alcance dos Deuses, mas antes não era assim. Não. Muita coisa aconteceu. Eu percebi que aquilo não era nenhum tipo de teste, eles não me mandariam de volta, e eu ficaria sozinho para sempre.

–Algumas coisas endurecem as pessoas. Ser expulso de um lugar que você chamou de Lar por seus próprios pais é uma delas. Matar... Matar divide a alma, tenho certeza de que você sabe disso. Mas eu sou um deus, minha alma não se divide. Apenas vai corrompendo toda a essência do lugar, cada vez mais, até que nenhum Deus possa por seus pés lá. Chegou um momento em que eu tive que deixar o Alasca. A essência era muito fraca até para mim, e desde então nenhum Deus entra lá. Eu tive que começar a vigia-los de perto. Muito de perto.

–Aproveite os últimos momentos com seus amigos, Rose Leonards. Vocês estão a caminho do meu território, e não têm a menor chance. Desistam, e talvez sobrevivam.



Me acordei com algo cobrindo meus ombros. Tinha cheiro de amaciante de roupas, livros novos e canela. Eu ainda senti muito frio por conta do sonho, que havia sido o mais confuso até agora.



Will ainda dormia, balindo, e Tanner observava algo muito atentamente pela porta de correr do vagão. Tirei seu casaco de meus ombros e entreguei para ele.

–Ah, sim. Você estava tremendo muito, então eu achei que...

–É, eu estava no Alasca. Obrigada.

Estiquei o pescoço para tentar ver através da janela também.

–O que tem aí de tão interessante?- perguntei, colocando o moletom felpudo e quentinho.

–Você vai querer ver isso!

Levantei-me e fui para seu lado. Só agora havia percebido o barulho dos passos, e que o trem estava parado. Olhei para a outra janela, a que dava para a rua. Estávamos no meio do nada. No corredor, todas as pessoas iam em direção a porta, sem suas bagagens ou nada do tipo, mas não pareciam hipnotizados, entorpecidos, nem nada do gênero. Estavam indo claramente contra sua vontade, mas não conseguiam resistir. Franzi o cenho.

Parecia que estavam sob efeito da maldição imperius.

–Will?- chamei- Will?

Ele apenas baliu em resposta.

–Tan, será que da pra acordar ele para mim?

O sorriso queTanner abriu é indescritível em palavras, assim como o brilho em seus olhos.

–O que foi? Porque está sorrindo assim?

–Você me chamou de Tan! De Tan, e não de Adams, ou de bocó!

Eu ri.

–Posso voltar para bocó, se preferir. Acorde ele- ele fez o que mandei, mas ainda com um sorriso no rosto. Eu estava feliz de termos nos acertado, mas não tinha tempo para pensar nisso agora. Depois que o último passageiro deixou o trem, o motorista, com seu uniforme azul, também saiu, deixando-nos sozinhos, e tudo ficou frio, como se toda a felicidade estivesse sendo sugada do mundo.

Notas finais
Gostaram? Deixem reviews (recomendações também não fariam mal). O próximo tem coisas... inusitadas, digamos assim.
/Lu