O Deus No Abismo

1 História Completa


À Lady Francis;

De Anne Heigen, 120/01/1895

Cheguei à casa do cliente por volta das dezenove horas dois dias antes da data inscrita nessa carta. Tratava-se de uma construção antiga cuja arquitetura forçosamente remetia às mansões clássicas, porém de um refino instigante no tocante à engenharia e posicionamento. Sem me prolongar demais nessa parte, vale destacar que a mansão fora construída no início do século, em meio a um abismo conhecido como o Abismo do Homem Morto, nome dado graças às práticas de povos antigos da região de atirarem corpos no lugar, algo mantido até pouco após o fim da Era das Trevas, embora ainda haja histórias do local sendo usado como ponto de descarte de cadáveres por matadores. E quando digo que a mansão foi construída em meio ao abismo, peço que não entenda que ela está apoiada em alguma base de rocha ou elevação que se ergue sobre a falha e sim que a mansão literalmente está flutuando sobre o abismo. Ainda que diga “flutuando”, trata-se na verdade de um muito inteligente engenho no qual a casa é sustentada por pilastras horizontais que funcionam como lastro para ela e ficam escondidos sob o chão, de modo que todo o prédio parece realmente estar solto em pleno ar. Uma visão muito interessante, se me permite dizer.

Era um fim de tarde e, assim que cheguei ao local, bati à porta e logo fui atendida por um sujeito soturno, careca e aparentemente muito velho, que, pelo modo que se vestia, soube logo ser o mordomo do cliente. Apresentei-me e mostrei minha identificação e o homem me deu passagem.

Por dentro, devo dizer que a mansão era o que poderia ser descrito como excêntrica. As paredes forradas com papel de um tom vermelho perturbador estavam repletas de quadros surrealistas onde se via, majoritariamente, cenas de antigos rituais de bruxas (o que achei pessoalmente desagradável, se me permite dizer) e algumas criaturas cujas formas fariam muitos duvidarem da sanidade daqueles por trás delas. Algumas das criaturas retratadas, aliás, lembravam muito algumas presentes nos tratados sobre Intrusos que a senhorita escreveu. Um fato curioso ao qual fiz questão de me atentar. Anotei que teria de voltar e analisar um pouco melhor os quadros quando tivesse uma chance. A sala era relativamente grande, porém a maior parte do espaço estava ocupado por móveis de um gótico extremamente kitsch deixando pouco espaço para alguém se mover. Duas grandes escadas levavam para as duas asas opostas da mansão, conectadas apenas pela sala. Uma escolha estrutural particularmente interessante.

Na verdade, havia muitas coisas me interessando naquela mansão.

O mordomo me levou através dos corredores claustrofobicamente estreitos da mansão até uma antessala onde pediu que eu esperasse. Quando ele saiu, procurei por alguma pista naquele cômodo. O lugar era decorado com o mesmo mal gosto de todo o resto da mansão, mas o que mais me interessou não foi isso e sim um quadro na parede onde estava a planta da casa. Fiz uma cópia simplificada da estrutura no meu caderno de anotações para poder usar de referência durante minhas investigações. Gostaria de poder anexá-lo junto a esse relatório, porém, infelizmente, perdi-o durante a viagem de volta. O trabalho de cópia demorou mais tempo do que imaginei a princípio e, quando o mordomo voltou, ainda estava terminando os últimos traços. Vi que ele me olhava com desdém, provavelmente estranhando o que eu estava fazendo, embora pudesse ser outra coisa que apenas agora veio à minha mente. Assim que terminei a minha planta, fui junto ao mordomo para o escritório do cliente.

A primeira impressão que tive era de que o escritório parecia destacado do resto da mansão. Enquanto todos os outros cômodos eram cobertos pelo desconcertante papel de parede vermelho, aquele era totalmente preto, com uma ampla janela na parede oposta à porta. Dos lados, diversas estantes de livros estavam organizadas de um modo esquisitamente elegante; se é que algo pode ser esquisitamente elegante. A escrivaninha ficava de costas para a janela e, consequentemente, de frente para a porta, posicionada de modo que quem estivesse sentado diante dela poderia ver todo o cômodo sem dificuldades. E não só o papel de parede era diferente, como os móveis também o eram. Ao invés do desagradável gótico kitsch da mobiliária do restante da casa, eles eram de um belo gótico real, e, aparentemente, eram relíquias verdadeiras. Assim como o homem que estava parado diante da janela, de costas para mim, observando em silêncio o pôr-do-sol.

Era um sujeito de meia-idade, cabelos marrons cacheados e jeito de duque, metido em um casaco visivelmente caro, feito do que parecia ser a pele de algum animal incomum.

O mordomo avisou que eu estava ali e saiu. Após alguns segundos, o cliente começou uma conversa.

E aqui peço sua permissão para transcrever a conversa. Sei que não é procedimento padrão, mas acho que pode ser interessante para que se compreenda tudo que aconteceu durante a investigação.

— Você acredita em vida após a morte? — o cliente me perguntou sem se virar.

— Para ser honesta, não acredito, não.

— Compreendo. Não é algo que sua magia possa explicar, logo, não existe.

— Nem tanto por isso. Há muitos magos que acreditam nisso, é só que eu pessoalmente não acredito.

— E não tem medo de morrer?

— Tenho sim. Todo mundo tem. Mas como eu sei que vou morrer se não fizer nada, eu luto mais ainda para ficar viva e tento aproveitar cada dia ao máximo.

— É por isso que você escolheu esse trabalho?

— Também. Sempre tive curiosidade por essas coisas. Mas, por que essas perguntas, Sr. Sarajev?

O cliente se virou para mim. Ele estava com olheiras grandes e rosto pálido, como se estivesse sem dormir há muito tempo ou estivesse doente. Os olhos estavam avermelhados e a barba por fazer. Tentei procurar mais pistas no rosto dele, mas não consegui. Poderia ter achado alguma coisa se procurasse por mais algum tempo, porém preferi que ele não percebesse o que eu estava fazendo. Espero que entenda, Srta. Francis.

Ele também ficou parado, me observando por algum tempo, e, se me permite dizer, pareceu surpreso com o que viu.

E agora, continuo com a transcrição da conversa.

— Você é bem jovem, Srta…

— Anne Heigen.

— Heigen? A senhorita é bastante jovem para alguém do seu ramo. A senhorita realmente é uma Maga?

— O senhor se surpreenderia, mas a Diretora abriu a Agência aos dezesseis anos, sem jamais ter frequentado uma Universidade. Meu caso é bastante similar. Posso não ser diplomada, mas tenho certo conhecimento de Magia, sim.

— Que seja. Se você foi a enviada da Agência, acredito que saiba lidar com esse tipo de situação.

— Que tipo de situação exatamente, Sr. Sarajev?

­— Esperava que isso já tivesse sido esclarecido por seus superiores.

— Foi sim, mas é procedimento padrão ouvir pessoalmente a versão do cliente antes de prosseguir a investigação.

— Compreendo. Muito bem. Vivo nessa casa desde que me casei com minha falecida esposa, cerca de vinte anos atrás. A casa pertencia a um artista famoso na primeira metade do século, mas que acabou perdendo tudo devido a, digamos, hábitos contestáveis. Assim que compramos a casa, nos mudamos para cá e contratamos o Sr. Jarvas como nosso mordomo. Infelizmente, dois anos atrás minha esposa foi diagnosticada com câncer linfático e veio a falecer no ano passado. Ela está enterrada aqui perto. Alguns meses depois dela falecer, algumas coisas estranhas começaram a acontecer. Ruídos estranhos vindos do abismo, luzes e então vozes. Pedi para as autoridades investigarem o que estava acontecendo, mas elas não encontraram nada. Fiz uma requisição oficial ao Instituto para que mandassem alguém aqui, porém ela foi recusada. Sem outra escolha, entrei em contato com sua agência e o resto a senhorita deve conhecer melhor do que eu.

Como dever ter notado, o relato dele foi o mesmo que recebemos, portanto parti para a fase seguinte.

Novamente, irei transcrever a conversa.

— Sr. Sarajev, segundo seu relato os fenômenos só começaram a ocorrer após a morte da sua esposa, confere?

— Bom, ao menos foi a partir daí que eu comecei a notá-los.

— Perdão?

— Veja, algumas pessoas que passavam pela estrada ou que vinham nos visitar costumavam dizer que viam coisas estranhas ou que ouviam vozes, mas nunca dei crédito a esse tipo de coisa.

— Entendo. E, há algum tipo de padrão para essas aparições? Horário ou algo assim.

— Nenhum que eu tenha notado. Isso simplesmente acontece. Mais alguma coisa?

— Não, não por agora, obrigada.

— Muito bem. Jarvas vai te levar a seu quarto.

E aqui paro a transcrição dessa conversa. Preferi parar por aí e não arriscar deixar o cliente saber demais. Nessa altura, já tinha algumas teorias para explicar o fenômeno. Um Intruso ou um Espectro eram as mais possíveis, porém admito que havia inconsistências que ameaçavam a estabilidade de ambas as teses.

De todo modo, fui levada pelo mordomo para os aposentos onde iria passar a noite. Tratava-se de um quarto comum, de mobília gótica, forrado com tapetes vermelhos. A cama era grande, de madeira cor-de-mogno, forrada com lençóis de seda negra. Sem dúvidas, um quarto digno de um hotel de luxo. Jarvas perguntou-me sobre uma das minhas malas, creio que a senhorita saiba de qual falo, e disse apenas que eram meus instrumentos de trabalho.

Fui deixada sozinha ali. Troquei de roupas e passei algum tempo fazendo anotações. Algumas horas mais tarde, eu desci para o jantar. Aproveitei a ocasião para tentar deduzir alguma coisa sobre o cliente e o mordomo. Ambos pareciam se tratar de maneira muito formal, apesar de, em algumas instâncias, Jarvas ter se referido a Sarajev como “você”. Não consegui muito mais informação deles além disso e então voltei ao quarto.

Fiquei acordada, à espera de que alguma coisa acontecesse. Por volta das onze e trinta e cinco da noite, um horário um tanto aleatório se me permite dizer, ouvi barulhos vindo de fora da casa. Fui até a janela, porém não vi nada lá. Recolhi meu caderno de anotações e saí.

Enquanto descia as escadas, vi vultos caminhando em direção à porta. Me escondi e esperei-os passar. Para minha surpresa, eram o cliente e seu mordomo, vestidos com as roupas com que haviam ido dormir. Jarvas ia à frente, carregando uma lanterna, enquanto Sarajev, mais afastado, carregava nos braços algo que não sabia bem dizer o que era, mas que ao menos me parecia um tipo de livro. Deixei que eles fossem na frente e então os segui tentando me manter escondida nas sombras.

Os dois caminharam ao redor do abismo até chegarem a uma depressão atrás da qual eles desapareceram. Me aproximei com cuidado e vi uma escada que descia em espiral por algumas dezenas de metros até desaparecer. Decidi continuar seguindo-os. A escadaria era íngreme e lisa, como se estivesse molhada por água ou alguma substância similar, os degraus variavam de tamanho e muitos estavam quebrados ou rachados, exigindo muito cuidado para que eu não despencasse de uma altura que eu mal podia imaginar qual era. As paredes eram estranhamente ásperas e duras, tanto que acabei me cortando ao ter de me apoiar numa delas uma vez em que quase caí. De quando em quando, a escadaria parava e havia uma plataforma mais longa que seguia por cinco ou seis passos antes de voltar a se tornar em degraus. Devo ter descido por vários minutos, embora possa ter sido menos tempo. Era uma noite nublada que me impedia de usar as estrelas como guia.

Enfim o cliente e o mordomo pararam. A escada não seguia mais, porém não havia chão algum. A plataforma nesse ponto era um tanto maior que as anteriores, com bastante espaço para quatro pessoas poderem ficar de pé uma ao lado da outra sem se tocarem, embora, pela aparência, isso não parecesse algo muito seguro. Jarvas virou-se para Sarajev, disse algo que não consegui ouvir o que e então recuou. O cliente então retirou o volume que carregava consigo e que pude confirmar como realmente sendo um livro e começou a recitar alguma coisa. A voz que saía, porém, não parecia a do homem com qual eu conversara. De fato, aquela pessoa que estava ali parecia estar num tipo de transe hipnótico ou estado de possessão. Fosse qual fosse o caso, ele continuou a recitar as palavras e então aconteceu.

Do fundo do abismo veio uma luz branca forte e um som estranho, como um misto de tambor e violino, mas extremamente distorcido, que soava em batidas ritmadas, como uma música ou palavras. A luz oscilava no mesmo ritmo dos sons e era forte o bastante para iluminar boa parte do abismo. Após algum tempo, o ritmo das oscilações se tornou mais rápido até que cessou completamente e o abismo voltou ao seu estado normal. Jarvas acendeu sua lanterna novamente e colocou um casaco sobre Sarajev. Subi de volta à casa, anotei tudo que vi, e fui dormir. Acreditava não ter sido notada, mas, por segurança, mantive minha faca embaixo do travesseiro.

Na manhã seguinte, tomei café junto a Sarajev. Tentei conseguir mais informações sobre o que havia visto naquela noite comentando sobre sons estranhos, mas o cliente disse que não havia ouvido nada e não achei que ele estivesse mentindo. Apesar de não ter conseguido nenhuma informação direta, pude confirmar que de fato Sarajev estava sob algum tipo de transe naquele momento. Eu sabia o que tinha de fazer então, só era questão de aguardar o momento certo.

Passei o resto da manhã procurando pela casa por algo que pudesse me ajudar a descobrir o que era aquela coisa no abismo. No sótão havia vários móveis empilhados, álbuns de fotos de Sarajev e sua esposa e jornais, alguns dos quais datavam do início do século. E foram nesses que consegui as pistas que me levaram a desvendar todo o caso.

Creio que seja necessário ser mais específica nessa parte.

Um dos jornais mais antigos, datado de 1822, trazia uma reportagem de meia página sobre a queda de um estranho objeto no abismo sobre o qual a casa havia sido construída. Aparentemente alguns grupos vieram investigar o ocorrido, dentre os quais alguns Magos do Instituto. Jornais de algumas semanas depois falavam de mortes misteriosas relacionadas à investigação do objeto que caíra no abismo e do consequente abandono de todas as pesquisas no local. Outro jornal, datado de 1834, trazia notas sobre o início das construções da mansão no abismo, obra encomendada por G. G. Ivitez, o tal artista que o cliente havia mencionado. Por mais alguns anos não há nada de relevante, exceto por uma foto da inauguração da casa na qual estão presentes o artista e Jarvas, surpreendentemente idêntico à sua atual aparência. Por volta de 1841 começam a surgir relatos de desaparecimentos de jovens nas redondezas, às quais são investigadas pela polícia, porém sem resultado. Os desparecimentos seguem até 1847 e então há outro lapso de informação útil. Enfim, por volta de 1855 começam a surgir notas sobre avistamentos de luzes estranhas vindas do abismo e notícias maiores sobre atos de crescente irresponsabilidade de Ivitez, culminando em 1860 na internação do artista no Sanatório Municipal de Tirrel, onde ele faleceu poucos anos depois.

Continuei a buscar, utilizando o mapa para marcar os cômodos pelos quais ainda não havia passado. Após cerca de duas horas fazendo isso, percebi que havia um cômodo que constava na planta, mas que não encontrei de modo algum. Tratava-se de um tipo de câmara escura ou escritório, conectado a um dos quartos. Fui até o quarto em que se conectava à tal câmara e procurei alguma passagem.

Após alguns minutos vi que não conseguiria nada por mim mesma e fui buscar minha mala. Antes que chegar ao meu quarto, vi Jarvas saindo de meus aposentos com um olhar desconfiado e colocando no casaco algo que não pude ver o que era. Esperei ele se afastar e então peguei minha mala. Voltei ao quarto e deixei que um de meus Familiares rastreasse o lugar em busca alguma passagem escondida. Não demorou para que ele encontrasse.

Tratava-se de uma porta escondida atrás de um armário, o qual tive certa dificuldade em mover, que dava na câmara que eu buscava. E o que eu encontrei ali comprovou minhas suspeitas.

Sendo a senhorita uma das maiores especialistas conhecidas em Intrusos, creio que entenderá melhor as fotografias que tirei do que o que descreverei aqui, porém acredito que isso seja necessário. A câmara era, como suspeitei, muito similar a uma câmara escura. Apenas uma lâmpada iluminava o local, e o fazia muito mal, de modo que não conseguia enxergar a maior parte do cômodo. Sobre algumas mesas estavam textos e tratados sobre Intrusos, prolongamento da vida e ilusões, além de espelhos e máquinas de fumaça. Jogado num canto estava um prato sobre o qual andavam formigas. Tirei algumas fotografias e saí dali o mais rápido que pude.

Com essas informações, espero tornar claras as atitudes que tomei a seguir.

Nessa mesma noite, segui Sarajev e Jarvas novamente até o abismo e uma vez mais a estranha luz surgiu. Dessa vez me aproximei mais do cliente e de seu mordomo e pude compreender, ainda que vagamente, o significado dos sons. Pareceu-me, à primeira vista, uma conversa ou mesmo uma negociação, embora agora pense que poderia se tratar de outra coisa. Infelizmente não consegui nada além disso, entretanto não me restavam dúvidas de que havia uma entidade consciente no abismo e baseado no que havia descoberto nos jornais, já imaginava saber do que se tratava. Sabia também que deveria agir logo, pois se estivesse certa em minhas suspeitas, a vida do cliente corria perigo.

Decidi que seria melhor solucionar tudo naquela noite, portanto, após o jantar. peguei minha mala e desci até o abismo.

No local onde Sarajev e Jarvas tipicamente ficavam, deparei-me com um tipo de estrutura similar a um altar, porém sem nenhum adorno e aparentemente esculpido na pedra, sobre o qual estava uma pequena esfera transparente que emitia um pálido brilho branco. O material de que a esfera era feita não parecia ser nada que eu conhecesse, pois sua transparência e geometria eram, como posso dizer, estranhas. Apesar de sua forma esférica, o objeto comportava-se como se tivesse ângulos e, conforme me movia ao redor dele, sua forma se alterava de modo tal que parecia haver outras esferas dentro daquela, todas tentando sair. Estava prestes a pegar a esfera e colocá-la no invólucro de segurança quando algo me interrompeu.

Ouvi o som de passos e vi uma luz fraca como de lanterna se aproximando rapidamente. Confesso que não esperava que fosse descoberta em tão pouco tempo e que mais alguns minutos teriam facilitado muito as coisas para mim, porém antes que pudesse pensar em me esconder, Jarvas surgiu. Ele me viu parada perto da esfera e sua mão correu para dentro do casaco.

E agora creio que seja necessário novamente transcrever meu diálogo com ele.

— Vejo que a senhorita descobriu o meu tesouro.

— Não sei se alguém pode chamar um Intruso de tesouro.

— E como mais eu poderia chamar algo que me permitiu viver por tanto tempo mesmo quando fui declarado como paciente terminal?

— Mas a que custo você sobreviveu? Quantas pessoas você matou?

— Poupe-me do moralismo, senhorita. Ambos sabemos que não sou o único que matou pessoas para sobreviver. A única diferença é que eu não me escondo atrás de falsos ideais.

— Tem razão. Mas é exatamente por isso que terei de pedir que se entregue.

Jarvas tirou a mão do casaco, revelando a arma de fogo que carregava.

— Não vai acontecer.

Retirei o gravador que trazia comigo e o coloquei no chão entre Jarvas e eu. Ele manteve a arma apontada para mim, porém não fez menção de que iria atirar. Ele acreditava ter a situação sob completo controle e isso era minha maior vantagem.

— O que está fazendo? — ele perguntou-me.

— Procedimento padrão.

— Não precisa se preocupar com seus protocolos. Você não sairá daqui.

— Talvez não. Mas, me diga, como você atraía as pessoas para cá?

— Me dê um motivo para não atirar em você agora mesmo.

— Eu fiz uma pergunta, Sr. Jarvas. Não é educado ignorar uma dama.

— Que seja. Não era difícil. Apenas um pouco de hipnose, uma das habilidades concedidas a mim pelo deus.

— Deus?

— Sim. De que outro modo poderia chamar essa entidade? Um deus alienígena que me concedeu a vida eterna e o poder de governar sobre as mentes.

— Entendo. E sobre a esposa do Sr. Sarajev?

— Ela me viu trazendo pessoas para cá e ameaçou contar ao marido.

— E por que simplesmente não a hipnotizou?

— Eu tentei, mas a mulher era forte demais. Não tive outra opção que não pedir ao meu deus que a matasse.

— Compreendo. Então confessa o assassinato da esposa do Sr. Sarajev e dos dez desaparecidos no período de 1841 a 1895?

— Chega. Não tenho mais tempo a perder. Em breve Sarajev não terá mais vitalidade para alimentar ao meu deus. Eu usaria você como sacrifício, mas não creio que a hipnose funcionaria.

— De fato, não funcionaria. Mas temo que o senhor também não poderá continuar com seus sacrifícios, senhor Jarvas.

— Que quer dizer?

— Não acredita mesmo que vim aqui despreparada, acredita?

— Não. Mas se você mover um centímetro, atiro.

— E se eu não me mover, você atira ainda assim. Então a pergunta fica, qual de nós consegue matar o outro antes?

— Está blefando.

— Estou? Então creio que não se importaria se eu me aproximasse.

— Não se mova!

Jarvas estava claramente nervoso. Ele não esperava que eu resistisse e minha calma o estava assustando. Era o momento perfeito. Deixei minha mala cair e um de meus Familiares sair. Jarvas ainda tentou se defender atirando em mim, mas o medo e o nervosismo o fizeram errar e antes que ele tivesse outra chance, sua garganta já havia sido dilacerada pelas presas do meu Familiar. Recolhi o gravador, guardei meu bichinho e subi para ligar para a polícia e avisar ao cliente que o caso havia sido solucionado.

No dia seguinte o jornal noticiou a morte de Jarvas em uma matéria de primeira página, dando grande destaque aos crimes cometidos e classificando-os como “rituais macabros de um culto secreto”. Não contei a ninguém sobre o Intruso ou a esfera e apenas disse que Jarvas havia agido por desespero diante da possibilidade de morrer e que sua hipnose era uma magia muito simples e que poderia ter sido facilmente desmascarada caso um especialista tivesse sido chamado antes. A gravação que disponibilizei, uma versão editada de minha conversa com Jarvas, corroborou minha versão do caso. Felizmente não fizeram muitas questões sobre como Jarvas se manteve vivo por tanto tempo e pude sair de lá com a esfera em mãos.

E com isso termino meu relatório. Estou enviando também as fotografias que fiz e a esfera para serem analisadas. Terei de passar em um lugar antes de voltar à Agência, mas devo estar aí em no máximo três dias.

Meus cumprimentos,

Anne Heigen.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!