O Destino do Amor
19 Capítulo 19 - Um pouco de Jon - Parte III
Notas iniciais

Annie percebeu que havia muitas coisas a serem descobertas, ou desvendadas, a respeito de seu marido. Entretanto, algo que ela já sabia sobre ele, e sabia desde o primeiro encontro. Jon costumava ir direto ao ponto. Sem rodeios. Fazia isso quando se referia a outros, fazia isso quando se referia a si mesmo. Nesse instante ela descobriu que precisaria estar de alma aberta para receber o que ele tivesse para lhe contar.
— Nós, Hayden e eu, saiamos para jogar, praticamente todas as noites. – ele continuou contando.
Os olhos castanhos claros se apertaram levemente, mostrando que ela não compreendia como aquilo poderia acontecer.
— Vocês saiam? Como assim? Desde quando escolas permitem que seus alunos saiam a qualquer hora?
Ela não o estava julgando apenas perguntado de forma curiosa. Ele considerou alterar o modo de falar:
— Se eu usar a palavra fugir você não estranhará o fato de sairmos a noite?
Annie se acomodou novamente sobre o ombro dele para continuar a ouvir o que seu marido tinha para contar.
— Acho que com essa palavra tudo fica mais claro, e mais adequado a você.
O som de um riso baixo ecoou no ouvido de Annie. Ele compreendia que ela compreendia muito bem a personalidade dele.
A mão Jon pendia despretensiosa sobre seu vestido, Annie a segurou entre as suas, desenhando o formato dos dedos com a ponta dos seus. Ele voltou a falar:
— A cidade ficava próxima da escola, era uma caminhada de uma hora mais ou menos. Havia um lugar em que íamos sempre. Uma taverna.
— Uma taverna? – ela se surpreendeu. – Esse tipo de lugar não era perigoso?
— Quando se quer aventura, nada parece perigoso o suficiente.
Ela conseguia imaginá-lo fugindo pela janela do dormitório, se esgueirando por uma parede, escapando por entre árvores e arbustos.
— Além do mais, naquela época, Hayden e eu já éramos conhecidos como brigões. – Annie moveu a cabeça afirmativamente, sim, ela sabia disso, George lhe contara – Poucos se atreviam a nos desafiar. O pessoal da vila já nos conhecia. O problema era que sempre aparecia gente nova. Disposta e perder dinheiro e até a vida nas mesas de jogos. Desses tive medo algumas vezes. Mas, os ferimentos nunca foram tão graves a ponto de nos impedir de voltar.
Ela lembrou.
— Foi dessa forma que você conseguiu essa queimadura nas costas?
Automaticamente ele se remexeu no sofá, como se não estivesse preparado para falar sobre aquilo. Ou estivesse desconfortável com a pergunta.
— Não precisa falar sobre isso se não quiser. – ele já contara tanto. Não precisava saber sobre aquilo naquele momento. Ela poderia esperar.
Mas Jon começou inseguro:
— Eu... costumava mentir. Geralmente dizia às “mulheres” com quem estive, que era um ferimento de briga... – isso lhe garantia certo status diante delas — mas não é verdade... foi minha mãe quem me queimou.
Tentando se conter, para não demonstrar a reação que as palavras dele provocavam nela, Annie não parou o que estava fazendo, engoliu a informação a seco, pois compreendia a dificuldade que Jon tivera para lhe confessar aquilo. Mesmo assim, não deixava de ponderar que de todas as respostas que poderia ter ouvido, aquela era a mais absurda.
— Por quê? O que você fez de tão grave para ser punido dessa forma?
— Entrei na sala particular dela...
— A minha? – isso explicaria muita coisa.
— Não! Na outra casa, na casa de papai. E peguei o diário dela.
— Quantos anos você tinha?
— Nove.
— Como ela...?
Não foi preciso concluir a pergunta, Jon a compreendeu muito bem.
— Com o atiçador da lareira.
— Hilda cuidou de você... – só poderia ser Hilda, e isso também explicaria o cuidado e atenção dispensados por ela até aquele momento.
— Sim, e o médico da família. Eles disseram que eu caí... – ele riu novamente – no fogão. Ninguém duvidou, vivia caindo de janelas, parapeitos, cadeiras e afins.
— Sua fama de criança arteira ajudou a livrar a reputação da Duquesa. – de repente ela estava irritada com alguém que nunca vira e que jamais veria. O que a fez lembrar de algo, algo que lhe parecera inadmissível na época: — Por isso você não foi ao enterro dela?
Annie sabia disso? Ele se perguntou. Deve ter pensando que ele era um homem sem coração. Afinal, quem deixaria de ir ao velório e enterro da mãe?
— Ela nunca foi mãe... na verdade, ela representava menos do que qualquer outra pessoa para mim. Nós não tínhamos qualquer vinculo.
Qualquer vínculo. Nada de amor materno. Nada de amor paterno também? Jon nunca falava sobre sua relação com o pai.
— Então, a desconfiança com a veracidade do amor vem daí?
Ele não soube responder. Fato era que não entendia esse sentimento. Ele considerava Hilda, tinha apreço por ela. Mas nada além disso. Ele considerava alguns poucos amigos, era leal e dedicado a eles, mas nada além disso.
Annie se afastou, o observou detidamente. Sorriu antes de falar:
— Afinal o amor é apenas uma palavra que os poetas usam para nos enganar...
Jon riu também. Sem vontade. Ela lembrava do que ele havia dito. Num movimento lento desenhou o rosto dela com a mão, circulando-o, constatando o que aquela face já lhe representava desejo, amizade, respeito... confiança.
Não apenas isso.
Annie era ou significava mais do que ele esperava. E desde que começara a contar coisas sobre si mesmo para ela, ia se sentindo livre. Nunca foi a intenção esconder fatos de sua vida. Eles eram de domínio público. Entretanto, muitas coisas que corriam a boca pequena pela sociedade, nada tinham de verdade. Mas, ele nunca fez questão de esclarecer. Era conveniente cultivar a má fama. Ajudava a manter longe as pessoas indesejadas. Ajudava a afastar mulheres indesejadas. Ajudava a desviar falsos amigos.
Ela ainda afagava sua mão num gesto tranquilo e calmo. Ele gostava daquilo. Daquele toque sem segundas pretensões. E se deu conta de que acabaria contando tudo. Precisava contar tudo.
Mas...
Talvez a parte mais complicada em falar tudo, seria confrontar as informações que certamente Daisy oferecera à amiga. E com isso, dividir a opinião dela com alguém que sua esposa considerava confiável.
Amigas... como irmãs. Annie decretara.
George Besant, irmão de Daisy, uma das pessoas com quem tivera mais problemas na época da escola. E uma das pessoas que se deliciavam em lhe incrementar a má fama. Sem dúvida George, ao saber que Annie estava comprometida com um desafeto, tratou de preencher qualquer dúvida com valiosas informações a seu respeito.
Informações que ele, Jon, tratara de tornar reais na noite do noivado. Ou antes disso. Quando evitou visitar a noiva e permaneceu mantendo descaradamente um caso com alguém que nunca significou nada para ele.
Annie com certeza lembrava de seu comportamento antes, durante e depois aquela noite. Tanto quanto lembrava de suas palavras.
Então outra pessoa lhe veio à mente, alguém mais importante para Annie. Alguém que ela prezava além da conta. Alguém, que na visão dela, era muito diferente dele: Peter Mitchel. Alguém com quem ele nunca fez questão de manter uma relação mais próxima ou amigável. Peter não era ninguém se comparado consigo. Na verdade, da turma de Jon, era ele quem possuía o título mais alto, era o descendente da família mais importante, mais antiga e mais poderosa. Seu pai jamais permitia que esquecessem disso. E exatamente por causa disso, Jon Hawkins era suportado pelos colegas, pelos professores, pelos dirigentes da escola. Nunca por ele mesmo. Apenas pelo título que um dia herdaria.
Annie deveria saber disso, que Peter e ele não mantinham uma boa relação. Nem mesmo depois de adultos, quando as rixas referentes aos jogos, as corridas, as lutas se transformaram em coisas do passado. Eles nunca se aproximaram. E agora, ele observou o rosto delicado próximo ao seu. Havia algo ainda mais palpável e real entre eles do que pura e simples antipatia.
Annie.
— Eu amo você. – ele disse de repente.
As mãos de Annie estremeceram e ela se afastou ainda mais dele.
Tinha mesmo dito aquilo? Jon se perguntou. As palavras simplesmente escaparam de seus lábios. Mas, eram assustadoramente reais. Desde quando eram reais? Talvez desde o primeiro dia. Ou desde aquela manhã na casa deles, quando mandara Hilda busca-la.
Aquele sentimento só poderia ser isso mesmo.
— Jon... – ela sussurrou sem saber o que dizer.
— Shiiii – ele a ajudou – não diga nada... – e se aproximou para beijá-la.
Seu coração batia descompassado no peito. As palavras ecoavam em sua mente e em seus ouvidos. Aquilo era mesmo verdade? Jon Hawkins dissera que a amava? Seria mesmo verdade? Ou ele estava... jogando com ela? Estava perdida, confusa. Ainda mais perdida porque Jon a beijava de forma diferente, com doçura e carinho, afagando a lateral de seu rosto com as duas mãos. Ela não sabia o que dizer, o que fazer. Era certo que já não se sentia como antes. Havia respeito, amizade, intimidade e até carinho entre eles... mas amor... amor era aquilo que sentia por Peter. Aquele sentimento abnegado que resistia até mesmo a distância e ao calor de outro homem.
Annie não parecia igual. Havia certa resistência naquele beijo. Ele se criticou por não ter guardado para si um sentimento que nem mesmo ele sabia que existia. Que, segundo suas próprias palavras, não acreditava que existia. E que alterava tudo. A vida dele. O contrato. O casamento. Seu futuro.
Se Annie nunca viesse a amá-lo. Como seria a vida deles? Um dia sua mulher se cansaria de puro e simples sexo como sempre acontecia com ele. E voltaria os olhos para o homem que realmente amava. Então, seria o momento em que Jon precisaria permitir que o contrato valesse.
Quando ele finalmente se afastou, Annie o observava entre surpresa e assustada. E ele queria acabar com aquilo. Dar um fim naquele constrangimento todo. Voltar a tranquilidade de antes. Ficou em pé lembrando do que se propôs ainda naquela manhã quando percebeu o clima firme e agradável.
— Pensei em passear a cavalo hoje. Caminhar não será uma boa ideia, ainda há muito barro.
O que aquilo queria dizer? Ele estava desconversando? Evitando o assunto?
— Jon... – ela o chamou firme. – Por que você disse que me ama? – a pergunta poderia parecer idiota, mas ela precisava saber se ouvira direito.
Ele olhou para o teto, deu dois ou três passos pela pequena saleta enquanto Annie esperava ansiosa pela resposta.
— Porque... a verdade é que não sei porque falei! Talvez tenha sido um impulso motivado pela nossa conversa. – o rosto firme e direto encarando-a mostrava que ele estava sendo sincero. – E o melhor a fazer é continuarmos como estamos...
Ela engoliu firme as palavras confusas dele, sentindo o coração saltar no peito. Fingir que nada havia sido dito era isso?
Jon continuou:
— Seguir em frente, descobrir se há chances de...
— Chances de que? – o que ela estava incentivando? Por que estava incentivando seu marido a dizer algo que ela nunca esperava ouvir dele?
— De que outros sentimentos além de desejo existam entre nós.
Ela ficou em pé também.
— Já há sentimentos entre nós Jon... carinho, amizade...respeito.
Amor... ele disse para si mesmo. Aquele bendito sentimento que ele julgava inexistente. E que agora talvez estivesse estampado em seu rosto todas as vezes em que olhava para ela. Hilda comentara algo sobre isso. Sobre a possibilidade de um dia ele acordar apaixonado pela esposa. Por que não dera ouvidos na época?
Estendendo a mão ele a enlaçou pela cintura. Se ela sentia carinho por ele, poderia um dia lhe dedicar mais do que isso. Precisava agir com calma e fazer as coisas certas. Seus lábios se tocaram e Annie desta vez parecia a mesma de sempre. Terna e... apaixonada.
Suas mãos se apertavam contra o peito dele, sentindo o coração batendo forte. O aroma de verão a inebria-la, os cachos macios a roçarem por seu rosto. Será que um dia essas sensações se alterariam para algo a mais? Deixariam de ser simples desejo por ele, para se transformar em amor?
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