O Destino do Amor

1 Capítulo 1 - Prólogo - Jon e Annie


Notas iniciais
O menino rico e infeliz. A garota obrigada a um casamento infeliz. Dois corações que veem o amor de modos não muito diferentes.

O garoto magro, atlético, de cabelos escuros e encaracolados corria desesperadamente pela casa, fugindo da tutora. Jon era por natureza agitado e teimoso. Tornando assim a vida dos responsáveis por sua educação uma verdadeira tortura. Todos os funcionários do III Duque de Hawkins tinham conhecimento que o temperamento do menino refletia exatamente o comportamento promíscuo do pai e desinteressado da mãe, e sabiam que cuidar dele não era tarefa fácil.

E por isso, a tutora acreditava que se o vissem a correr daquele jeito, semi nu, pelos corredores repletos de retratos de antepassados do III Duque de Hawkins, ela seria provavelmente repreendida. Fato que praticamente se tornara algo comum desde que o único filho do “feliz” casal nascera, há cinco anos.

Jon, agitava as pernas e os braços enquanto se impulsionava para frente, rindo e debochando da incapacidade da tutora em mantê-lo seguro, quando uma porta foi aberta de supetão, e de lá, a figura imponente e grisalha do Duque saiu. Furioso, o homem pegou o filho pelo braço, erguendo-o do chão sem cuidado e o entregou nos braços da tutora. Esperneando e gritando Jon tentou se livrar da mulher. Mas, o pai num movimento certeiro, espalmou a mão nas nádegas mal cobertas do menino provocando um choro forte e retumbante.

Num ímpeto de proteção a tutora tentou acalentá-lo em seus braços, mas não conseguiu evitar a fúria do patrão. O Duque agora estava mais do que furioso. E ela sabia o que aconteceria. Os dois se trancariam no escritório, e quando saíssem de lá, ela precisaria cuidar dos hematomas e machucados do pequeno.

Era tão difícil aquela situação! Pensava a mulher enquanto tentava esconder os ouvidos dos sons estridentes que ecoavam pelas paredes do escritório.

Jon era irritante sim. Era agitado sim. Era malcriado sim. Mas era também o produto de um casamento infeliz, de uma união sem amor, de pais que se odiavam e ignoravam o fruto de sua relação. E muitas, muitas vezes, a pobre tutora se via chorando ao lado do pequeno, vendo os efeitos dessa bagunça na vida de um menino tão novo.

Entretanto, daquela vez, a história tomou um novo rumo além dos costumeiros machucados. Totalmente descontente com o comportamento do filho, farto das birras e das estripulias que provocava, o Duque decidiu enviá-lo para uma escola interna, antes mesmo que tivesse atingido a idade adequada. Talvez, passando um pouco de trabalho seu único descendente se transformasse num homem. O homem que ele, o III Duque de Hawkins, era.

Assim, poucos dias depois, ainda apresentando nos braços e corpo os resultados da última surra, sem se despedir da mãe, e apenas acompanhado pela tutora, Jon deu adeus ao lugar que conhecia como lar, bem como da figura ereta e sempre sisuda do pai para seguir na direção da escola que o acolheria por aproximadamente quinze anos.

Como não deveria ser, nem de esperar, a renomada e centenária escola interna para jovens de família, não foi exatamente o local adequado para alguém com o temperamento tão volátil quanto o do futuro Duque de Hawkins. Se havia algo de ruim para aprender, ele aprendia. Se havia algo de errado para aprender, ele aprendia. Se havia como lograr os outros, ele lograva. Se havia como se tornar um cafajeste, ele logo descobriu como. Se havia como ser temido, ele logo virou aquele do qual a simples menção do nome arrancava calafrios. Se havia como se tornar um completo canalha, ele descobriu rapidamente como ser o pior deles.

E, quando concluiu os estudos, apesar de todos os percalços, seu retorno para casa foi exigido. A mãe morrera há dois ou três anos, Jon não sabia precisar a data. Sequer movera um dedo na intenção de ir ao sepultamento. Alegou atividades importantíssimas que exigiam sua completa atenção. O que queria dizer que ele estava ocupado com algum novo caso amoroso para perder tempo com o enterro da própria mãe. Uma mãe que jamais o abraçou, beijou, cuidou... o pai não reclamou, afinal, essa atitude demonstrava a praticidade do jovem herdeiro. Sua mente estava focada no que interessava realmente, deixando de lado sentimentalismos bobos.

Esta era a forma que os membros dos Hawkins viam os sentimentos. Sem dar-lhes qualquer importância. A praticidade os movia, a falta de afeto e ligações fraternais em nada perturbava. Por isso, atender ao chamado, retornar ao lar, tratar o pai com cordialidade falsa, e agir como todos esperavam que ele se comportasse, foi a coisa mais simples que o futuro Duque pôs em execução, já que estava habituado a isso. Fizera um intensivo nessa matéria durante o período escolar. Falsidade. Afinal, precisava do dinheiro que o progenitor lhe enviava todos os meses e, enquanto assim fosse, ele seria o que o velho esperava que fosse. Chegaria um dia em que Jon poderia comandar a própria vida, pois tomaria posse de tudo. Do título, das terras, das propriedades, do dinheiro... mas, por enquanto, ele ainda era apenas o único filho do Duque e manter a aparência se fazia necessário.

Entretanto, apesar da boa vontade de Jon em agradar, ainda havia algo mais que o velho Duque esperava de seu primogênito além de pura e simples “obediência”. E esse algo era um casamento. Os Hawkins precisavam de herdeiros do sexo masculino, e essa era agora a principal função do jovem recém saído da universidade. Sabendo que o pai teria alguém em mente para um imediato casamento, Jon logo propôs um acordo. Dois anos para se adaptar a sociedade local, afinal ainda era muito jovem, poderia esperar um pouco. E tão logo esse período passasse, ele decididamente encontraria a futura IV Duquesa de Hawkins entre as moças mais importantes da região.

O velho Duque negou veementemente o acordo proposto pelo único filho, garantindo já ter alguém em mente, alguém que preenchia perfeitamente os requisitos exigidos pelo rapaz. Uma jovem de nome, de linhagem, e que ainda estudava num convento. Annie Carter só sairia quando terminasse os estudos em dois anos e meio. O que queria dizer que Jon estaria livre para viver a vida nesse período desde que firmasse compromisso ainda naquele ano.

Diante de proposta tão vantajosa, Jon pensou que esse era o desfecho perfeito para sua conversa “fraternal” com o pai. Era tudo o que ele queria. Tanto faria quem seria a garota. No momento em que escolhesse sabia que não seria por amor. Seria por necessidade. Oh sim, ele pretendia cumprir todas as obrigações provenientes do título, levar o nome Hawkins adiante, e se tornar o Duque mais importante de todas as eras. Seu nome jamais seria esquecido. Os colegas de escola e de universidade sabiam muito bem que o jovem de cabelos encaracolados era capaz disso. Agora era só comprovar à sociedade.

Após uma breve e formal conversa, para um pai e um filho que não se viam há mais de dezoito anos, o trato foi firmado. O pedido de casamento realizado e aceito com extrema rapidez. Jon foi liberado para “viver” a vida. Os futuros noivos não se viram, não se falaram, mas estavam decididamente comprometidos.

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Annie segurou a carta com firmeza enquanto seus olhos liberavam as primeiras lágrimas em dois anos. E quem a visse acreditaria que eram lágrimas de tristeza ou saudade. Entretanto a garota saiba que eram de raiva. De ódio, de dor e de insatisfação.

Nas poucas linhas o pai informava formalmente que seu noivado estava acertado com o futuro IV Duque de Hawkins, Jon Hawkins, assim que ela concluísse sua educação, o que aconteceria em dois anos e dois meses, portanto a filha deveria estar preparada para casar tão logo saísse do convento.

A generosidade de seu futuro esposo ao permitir que a noiva concluísse os estudos, estava salientada em praticamente cada linha escrita pelo pai. Mas, Annie conhecia a fama de Jon Hawkins. Ele era mau, egoísta, mulherengo, um canalha. Já destruíra, por prazer, a reputação de muitas jovens. Já levara homens ao desespero. Já arruinara famílias. Já provocara suicídios.

E como agora seu pai a prometia justamente para ele? O pior de todos os homens? Aquele que, num mundo normal, onde casamentos arranjados não existissem, jamais mereceria sequer um olhar seu.

Num ímpeto de raiva amassou o papel entre os dedos, como se esse simples ato a ajudasse a se livrar do problema.

— O que aconteceu Annie? – sua melhor amiga perguntou sentando na ponta da cama. – Por que você está chorando?

— Estou noiva! – a garota clara, de cabelos dourados respondeu com a voz travada. Não havia porque esconder, logo todos saberiam. Seu pai se encarregaria de espalhar a notícia do noivado no principal jornal do país.

Daisy Besant, uma jovem magra, de cabelos muito louros, e olhos azuis, sorriu acreditando que aquela era uma boa notícia. Talvez sua amiga estivesse chorando de felicidade, já que as duas falaram exatamente sobre isso há poucos dias. Sobre um pronto casamento tão logo concluíssem os estudos.

— De Jon Hawkins... – Annie esclareceu apertando os lábios. – Futuro Duque de Hawkins.

O sorriso da amiga sumiu. Ela não conseguia acreditar. Mesmo nos confins de uma escola para moças as noticias chegavam, algumas vezes ainda mais claras do que na sociedade. E a fama negativa de Jon, se alastrava como rastilho de pólvora entre as garotas. Ninguém que zelasse por sua reputação se envolveria com o filho do Duque de Hawkins.

— Como seu pai se atreveu? – perguntou se aproximando da amiga enquanto colocava as mãos geladas e trêmulas da outra entre as suas. – Aquele canalha não merece você...

— Meu pai não se importa com minha felicidade... eu sei... tudo o que importa é que estarei casada com um Duque. Ele quer se livrar de mim. Sempre fui um peso desde que mamãe morreu e Fredy nasceu...

— Seu meio irmão... – Daisy sussurrou cabisbaixa.

Annie amava o pequeno, todas as vezes em que se encontravam o menino se agarrava a ela e chorava desesperadamente nas despedidas, pois era apenas da irmã que recebia afeto. Mas, ele era o único herdeiro do sexo masculino, a filha mais velha do Conde Samuel Carter não passava de um peso que o pai carregava e do qual pretendia se livrar o mais rapidamente possível. E a prova disso era que, nem mesmo importava que ela não tivesse feito sua apresentação à sociedade.

— Talvez seu pai não saiba o que Jon...

— Oh sim, ele sabe Daisy. Certamente meu pai sabe de tudo, mas não se importa. Hawkins será Duque, a família dele é muito importante. Eles têm muito dinheiro, terras, casas. Certamente que serei muito rica. Mas a que ponto?... o nível de infelicidade será proporcionalmente igual ao de riqueza.

Daisy se aproximou pensando que a vez dela ainda não chegara. Mas, com certeza, seu pai não se atreveria a cometer tal desatino. Ele a amava. Sabia disso pelo modo como a tratava. E por isso sentia ainda mais pena da amiga. Sem o carinho e apoio da mãe e relegada pelo pai. Agora, ainda teria um cafajeste como marido. Ninguém merecia tal destino.

Notas finais
Primeiro capítulo. Espero por vcs. Por favor, me digam se está bom. Muitos beijos