O Destino de Dália
3 Capítulo 3
Sexta-feira, dia dos testes para admissão dos novos alunos do Projeto Missão Arte. O hall de entrada do prédio estava lotado de jovens de várias tribos e estilos, conversando, rindo, fazendo barulho e tudo aquilo deixou Dália deslumbrada. Ela reparava na decoração moderna e despojada do lugar como se estivesse entrando num novo mundo, completamente desconhecido. Levou a documentação para uma sala e foi direcionada para uma outra sala, onde ficaria esperando ser chamada para o teste numa terceira sala. Aquele lugar para ela parecia um labirinto, e o medo de esquecer algum documento ou informação importante fazia ela suar frio. Todas as salas por onde ela passou estavam cheias de jovens sentados em cadeiras e pelo chão, todos em seus grupinhos fechados, e ela lá, isolada. Dália até pediu pra algumas de suas amigas a acompanharem no teste, só pra fazer companhia, mas todas arranjaram uma desculpa para não irem. No fundo, nenhuma achava que ela teria muito futuro nessa coisa de atuação, e Dália estava ciente disso. O que ela mais queria naquele momento era ser aprovada nesse teste, conhecer gente nova, dar uma reviravolta em sua vida. Porém, quem Dália encontrou por lá foi um conhecido muito antigo: Tygor, seu vizinho irritante.
Tygor e Dália moravam na mesma rua desde quase uma década. Tinham uma longa história juntos. Na infância, Tygor é que era o tímido, quando seus pais se mudaram para aquele bairro, e o menino loirinho e franzino apenas observava os vizinhos brincando na rua por uma brecha na janela. Um dia Dália viu ele ali, e não pensou duas vezes antes de chamar o menino novo para as brincadeiras. Pra quê que ela fez isso? Tão logo o garoto se enturmou, já não deixava ninguém em paz: fazia todo tipo de travessura, cutucava todo mundo e não dava sossego pra ninguém. Apesar disso, aquele passado guardava as mais doces memórias, tanto de Dália quanto de Tygor. Eram muito amigos, mesmo mantendo uma implicância mútua e contínua que se prolongou até os inícios da adolescência. Até que, num belo dia, Tygor terminou o namoro com uma das amigas de Dália, afastou-se da turma e assumiu ser homossexual. Desde então, Tygor e Dália andavam com turmas diferentes, se viam muito raramente, se falavam só por educação. Não houve nada, nenhum conflito, nenhuma mágoa, eles foram naturalmente se afastando à medida que os interesses de cada um ia mudando.
Tygor tinha visto Dália já na entrada, mas não foi falar com ela imediatamente, para não perder o lugar na fila, mas também por um estranho desconforto tão comum quando alguém que era muito íntimo se torna quase um desconhecido. Dália achava que Tygor já nem lembrava mais daquelas histórias, daquelas brincadeiras, daqueles momentos. Ledo engano. Tygor tinha carinho, consideração, gratidão por ela. Como ele poderia agradecer pelo que ela fez? Antes de conhecê-la, ele sofria bullying por onde passava, por causa de seu jeito afeminado, por isso tinha medo de se relacionar, mas, com Dália era diferente, ela sempre o tratou como igual e, pelo exemplo dela, as outras crianças da rua tendiam a fazer o mesmo. Tygor queria se reaproximar dela, só não sabia como.
Dália não queria ter que ir falar com Tygor aquele dia, pois estava muito ansiosa pro teste e principalmente, por não ter idéia de um assunto pra puxar conversa. Sentou-se num cantinho da sala de espera, achando que podia se esconder dos olhos vivos e ágeis de Tygor. Por um instante, esqueceu-se de que ele era a pessoa mais atenta, observadora e esperta que ela já conheceu na vida. Dália observou bem o lugar, pois tinha esperanças de reencontrar Malthus, mas nem sinal do sujeito. Será que ela se lembraria de seu rosto? Eles só se viram uma vez, e fazia bastante tempo. Enquanto pensava nisso, uma pessoa chegou por trás de Dália e apertou sua cintura, o que fez a moça dar um pulo e deixar escapar um grito que chamou a atenção de todo mundo da sala.
— Que ótimo começo, hein, já cheguei pagando mico aqui – pensou a pobre Dália se encolhendo de vergonha.
Ao olhar para trás, Dália deu de cara com Tygor que colocavo o braço por cima dos ombros de Dália, agindo cinicamente como se nada tivesse acontecido.
— Olá, Dalía, quanto tempo, como você está? Veio para o teste? – Falou Tygor, pronunciando o nome de Dália como se ele tivesse um acento na letra Í, coisa que ela detestava.
— Claramente eu vim fazer o teste, o que mais eu poderia estar fazendo aqui? E, aliás, meu nome é DÁ-lia, com acento na vogal A, e eu gosto muito do meu nome assim. – Disse Dália tentando ser grossa, como se isso fosse possível.
— Olha só que coicidência, eu também vim fazer o teste, Da-LÍA. – Respondeu Tygor com todo seu sarcasmo, enfatizando ainda mais o acento na vogal I.
Pacientemente, Dália revirou os olhos, respirou fundo e continuou a conversar naturalmente com ele. Aquela implicância com o nome é coisa do tempo que eles eram crianças, pois Dália sempre teve muito orgulho do seu nome, por ser inspirado em um personagem de Nelson Rodrigues, por ter sido uma escolha de seu pai falecido, etc, e justamente por isso Tygor pronunciava errado, pra ela se irritar e correr atrás dele como a Mônica corre atrás do Cebolinha. Era uma piada interna e antiga que ainda irritava Dália. Mas era uma irritação boa. Sinal de que ainda restava algo daquela relação tão próxima de quando eram mais novos. No fundo a amizade estava ali, adormecida e pronta para despertar.
Tygor foi chamado e entrou na sala do teste. Dália, que durante a conversa tinha até esquecido de todo nervosismo, voltou a se sentir ansiosa. Se ao menos o homem da praia estivesse ali... Se ao menos ela pudesse olhar nos olhos dele e sentir de novo aquela segurança e esperança que sentiu no dia da praia. Malthus estava longe. Tinha ido para um congresso de dramaturgia em outro estado, e já nem lembrava que os testes do Missão Arte seriam na sexta-feira, sua sorte é que naquele momento ele já estava voltando para casa. Ligou pra Ana Carina, sua esposa, e perguntou se ela iria buscá-lo no aeroporto, ela respondeu que não, pois estava na banca julgadora dos testes e só sairia de lá a noite. Malthus se despediu e desligou com um peso na consciência: ele queria estar lá, queria ver se a garota da praia tinha ido, sentia que talvez ela precisaria de um apoio moral. Então, decidiu ir direto da viagem para ver os testes. Será que chegaria antes de Dália se apresentar? Será que alguém estranharia essa atitude dele, de mesmo cansado da viagem estar lá sem nenhum motivo aparente? Malthus não pensou em nada, só foi. Enquanto Dália, na fila de espera, sentia uma angústia tamanha que pensava seriamente em desistir desse teste. A sala ia esvaziando, o dia escurecendo, e nada de Dália ser chamada. Quando ouviu seu nome, Dália sentiu como se seus pés estivessem presos ao chão, ali em frente a porta. Quando ia dar as costas e ir pra casa, eis que surge Tygor e empurra Dália pra dentro da sala antes que ela conseguisse se esquivar.
– Pensou que ia pra onde, mocinha? – Disse Tygor dando uma piscadela de “boa sorte” para Dália.
O vizinho irritante de Dália, naquele momento, foi pra ela um anjo de guarda. Mas, dentro daquela sala, era só Dália e a banca julgadora. Era a hora H. A partir dali seria tudo ou nada.
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