Kagome abriu os olhos e, um pouco assustada, sentou-se rapidamente. Sentiu uma tontura e colocou a mão na cabeça. Uma mão calorosa afagou-lhe os cabelos. Virou-se e ele estava lá, olhando para ela com grande preocupação.

– Você está bem, Kagome?

– Inu-Yasha... A garganta ainda dói um pouco, mas estou bem... Nós estamos bem.

Ela pegou a mão dele que segurava uma mecha de seu cabelo e a colocou sobre sua barriga. Só então a preocupação no rosto dele deu lugar a um sorriso. Um barulho lá fora chamou a atenção dele, que subitamente se levantou e puxou sua espada. Pela porta, alertando a todos, entraram Hakkaku e Ginta, este último mais parecia um fantasma.

– Por favor, ajudem ao meu amigo.

Miroku adiantou-se e ajudou Hakkaku a colocar Ginta em um canto, enquanto Inu-Yasha guardava sua espada. Setsuna e Kaede os olhavam desconfiadas.

– O que aconteceu com o seu amigo? – Perguntou Sango.

– Ele não parece muito bem... – Shippou esfregava um pouco os olhos, por causa do sono.

– Hei! Onde está o seu líder? – Inu-Yasha foi até a porta investigar as proximidades, mas tudo parecia calmo.

– Não sabemos... – Respondeu Hakkaku.

– Kouga é o responsável pelo estado de teu amigo, não é mesmo?

Setsuna surpreendeu quase todos com aquela pergunta, exceto Inu-Yasha. Ele já esperava por algo assim, já que Kouga havia ferido Kagome tão friamente. Hakkaku ficou sem palavras e abaixou a cabeça, afirmando. Setsuna respirou fundo e notou que Rin havia acordado. A menina estava assustada e sufocava o pobre Jyaken de tanto que o abraçava pelo pescoço.

– Assim não dá, Rin... Eu preciso respirar...

– Rin... – Chamou Setsuna.

Ela estendeu a mão para a menina que prontamente a aceitou e pulou em seu colo. Assustada, ela escondia seu rostinho nas vestes de Setsuna. Kagome teve uma idéia.

– Vovó Kaede, dê a ele um pouco daquela poção que eu e Setsuna tomamos. Vai restabelecer as forças dele.

– Bem, Kagome, eu nunca testei em um youkai...

Hakkaku ajoelhou-se aos pés da velha sacerdotisa.

– Por favor, senhora... Eu faço qualquer coisa, mas ajude o meu amigo Ginta...

Sem alternativa, Kaede foi pegar a poção, que estava em um canto de uma prateleira, juntamente com outras misturas e ervas. Ela entregou o pote ao youkai.

– Faça-o tomar tudo.

– Muito obrigado, senhora! Muito obrigado!

Ele foi até seu amigo e o fez beber aquele líquido. Inu-Yasha observava tudo, de guarda em frente à porta, e muito aborrecido por sinal. Kagome já conhecia aquela cara fechada e os braços cruzados na altura do peito.

– Inu-Yasha...

– Está ficando cheio demais aqui. Vou levar você para outra cabana para que possa descansar.

Miroku fez um comentário maldoso, algo como ‘duvido que ela vá descansar’, aos sussurros para Sango. Mas, infelizmente para o monge, a audição do hanyou era muito boa. Miroku levou uma pancada na cabeça da bainha da Tessaiga e ficou meio que ciscando no chão. Era uma cena curiosa.

– Acho que bateu muito forte na cabeça dele, Inu-Yasha...

O comentário de Sango deixou Inu-Yasha confuso.

– Você acha? – Abaixou-se e ficou observando o monge. – Hei, Miroku! Eu não bati tão forte assim...

Shippou olhou de um lado para o outro da cabana como se procurasse algo.

– Onde está Sesshoumaru?

Kagome olhou desconfiada para Inu-Yasha.

– O que foi? Por que você está me olhando desse jeito?

– Você sabe de alguma coisa?

– E por acaso eu virei adivinho, é?

Nesse momento, Sesshoumaru entrou no cômodo e observou os dois youkais. Também notou como Rin estava assustada com eles. Ao vê-lo, ela correu e se escondeu atrás dele, segurando em sua perna. Ele fuzilou os dois youkais com o olhar.

– Foram eles, Rin?

– O quê? Nós? Como assim? – Hakkaku não sabia o que estava acontecendo, mas Sesshoumaru parecia ser o tipo de adversário que certamente os mataria.

– Não foram eles, senhor Sesshoumaru, mas... – Rin mal conseguia falar de tanto medo.

– Eu sei... Fique com Setsuna.

Ela obedeceu e Sesshoumaru agarrou Hakkaku pelo pescoço.

– Eu não fiz nada! Eu juro!

– Essa garotinha foi atacada por um grupo de lobos. Você sabe algo a respeito?

– Não! Eu nunca vi essa menina antes!

– Se eu descobrir que você está mentindo, reze por uma morte rápida. – Sesshoumaru soltou o pobre youkai no chão e caminhou para um canto do recinto, onde se sentou. Logo, Ginta começou a despertar.

– Hakkaku?... Está tudo girando...

– Ginta! Você está bem!

Hakkaku pulou no pescoço do amigo, abraçando-o de felicidade.

– Não por muito tempo, se você continuar a me apertar assim!

– Desculpe... – Soltou o amigo.

Kagome até deu um sorriso. “Eles são tão engraçadinhos... E está tão frio lá fora...”. Olhou para Inu-Yasha com aquele jeitinho pidão que ele logo entendeu.

– De jeito nenhum, Kagome! Você ficou maluca? Eles não podem ficar!

– Mas, Inu-Yasha, eles estão sozinhos... Olha para eles, dá até pena...

Realmente os dois tinham uma péssima aparência. Estavam magros e maltratados. Parecia até que não comiam há dias. Inu-Yasha respirou fundo e acabou cedendo. Ela sempre fazia isso com ele. Ela sorriu para os dois carinhosamente.

– Vocês estão com fome?

– Eu estou!

– Ginta! – Deu um cascudo no amigo. – Que falta de educação!

– Mas eu estou com muita fome, Hakkaku! – Alisava a cabeça por causa do cascudo.

Kaede deu a cada um uma tigela com comida. Havia de sobra, afinal ela recebera tantas visitas ultimamente que estava fazendo comida a mais. Só a Kagome comia por dois. Ambos comeram rapidamente e Ginta chegou a entalar-se, mas tudo foi resolvido quando Hakkaku deu-lhe um tapa nas costas.

– Obrigado pela comida! – Hakkaku agradeceu e estendeu a tigela para entregar a Kaede.

– Tem mais?

– Ginta!

– Eu ainda estou com fome, Hakkaku...

– Há quanto tempo vocês dois não têm uma refeição descente? – Perguntou Kaede.

Hakkaku abaixou a cabeça e olhou meio triste para a tigela. O seu companheiro tratou de contar a história.

– Quase três dias... Sabe, a gente não se dá muito bem na caça, na pescaria...

– A gente não se dá bem em nada, Ginta...

– E como vocês sobrevivem? – Perguntou Miroku.

– Kouga sempre cuidava da gente. Mas depois que ele foi atacado por aquela coisa, ele não se importa mais. – Respondeu Hakkaku.

Agora sim a conversa chamou a atenção de Inu-Yasha e Sesshoumaru. Inu-Yasha descruzou os braços e se aproximou de Ginta.

– Que coisa foi essa? – Perguntou o hanyou.

– Era uma meleca enorme e...

– Não era uma meleca, Ginta! Melecas são verdes!

– Ah, é, Hakkaku... Você tem razão... Era uma gororoba enorme, vermelha como sangue. E fedia igual aquele cara que estávamos procurando...

– Naraku... – O nome do youkai saiu meio esmagado entre os dentes de Inu-Yasha.

– Isso mesmo. Era o mesmo cheiro. – Continuou Ginta. – Só que não deu para perceber antes, porque o danado ficou a favor do vento e se manteve distante até ser tarde demais. De repente, aquela coisa pulou em cima do Kouga. Parecia que estava entrando no corpo dele! Ele deu uma surra na gente e se mandou! O vimos de novo algumas horas atrás. Foi quando ele me atacou e quase sugou toda minha energia!

– E por isso achas que ele não se importa com o que acontece a ti? Se assim o fosse, ele teria sugado até a última gota de vida de teu corpo...

Hakkaku pensou um pouco sobre o que Setsuna havia dito, mas ainda estava desconfiado.

– Talvez tenha razão, mas ele estava muito diferente... Parecia possuído...

Inu-Yasha olhou para Sesshoumaru e saiu da cabana. Sesshoumaru se levantou e também saiu. Kaede pegou as duas tigelas e serviu os dois youkais novamente. Eles realmente estavam com fome e ela até achou graça da situação. Reparou que Kagome cochichava algo para Setsuna e ficou curiosa.

– O que há com vocês duas?

– Acho que vamos ter que fazer mais dessa poção, vovó Kaede.

– Se Naraku está realmente de volta, temos que estar preparados. – Completou Setsuna.

– Não se preocupem, eu resolvi plantar todas as ervas que são necessárias para esta e outras poções, lá na minha pequena horta.

– A senhora é demais, vovó Kaede! – Disse Kagome, abraçando Kaede.

– Deixe disso, Kagome. Eu vou buscar as ervas.

A velha senhora se soltou do abraço sorridente, apesar do cansaço em seu semblante.

– Mas a senhora parece tão cansada... Eu vou.

– Mas Kagome, você acabou de ser atacada... – Interrompeu Sango. – Eu e Miroku podemos ir para você.

Sango se levantou, seguida por Miroku. Na verdade, o cansaço parecia geral, exceto por Kagome, que se sentia bem disposta, pois esteve dormindo até bem pouco tempo atrás.

– Eu estou bem, Sango. Vocês todos se preocuparam tanto comigo e acho que sequer dormiram... Está tudo bem agora. Inu-Yasha está lá fora, vou pedir que ele me acompanhe.

Ela se levantou e saiu da cabana. Setsuna colocou Rin de lado e se levantou.

– Rin, eu vou ficar de olho em Kagome. Sejas boazinha.

– Mas quem vai me proteger?

– Ora, o Jyaken...

A menina observou o youkai réptil no canto, dormindo de novo.

– Acho que o senhor Jyaken está muito cansado...

– Pode deixar, Rin! Eu protejo você! – Exclamou Shippou.

A raposinha bateu continência e falou com tanta firmeza que arrancou um sorriso da menina. Setsuna também sorriu e olhou para Kaede.

– Tomarei conta de Kagome, sacerdotisa Kaede... Aconselho um descanso, antes que as coisas fiquem mais complicadas.

Setsuna retirou-se da cabana e se encontrou com Kagome lá fora. O sol já se mostrava tímido no horizonte. Algumas nuvens atrapalhavam sua luminosidade. Mas não havia nenhum sinal de Inu-Yasha e Sesshoumaru.

– Kagome?

– Aqueles dois sumiram... Onde será que foram?

– Não faço a menor idéia...

– Bem, vamos pegar aquelas ervas de uma vez.

– Certo.

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Kouga abriu lentamente seus olhos, mas não eram os olhos azuis de sempre. Baixou o olhar e percebeu que o ferimento em sua barriga já estava totalmente cicatrizado. Levantou-se e saiu andando pela floresta.

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Novamente lá estavam os dois irmãos, sentados cada um de um lado da Árvore Sagrada. Braços cruzados em silêncio. Isso parecia não incomodar Sesshoumaru e, se incomodasse, ele não demonstraria. Mas Inu-Yasha não tinha o mesmo gênio.

– Este lugar virou ponto de encontro por acaso, Sesshoumaru?

– Você faz muito barulho, Inu-Yasha. Assim não dá para pensar.

– Não há muito sobre o que pensar. Assim que ele aparecer acabamos com ele! Não tem outro jeito.

– E é só isso?

– O que quer dizer?

– Quem garante a você que aquela é a única criatura que Naraku deixou solta por aí? E quem garante que assim que aquele lobo for morto, ela não sairá dele e tomará para si o primeiro corpo que vir pela frente?

– Ora, mano... Como eu vou saber?

Sesshoumaru respirou fundo e se levantou.

– O que foi? – Perguntou Inu-Yasha.

– Já disse para não me chamar desse jeito... Talvez aquelas três juntas consigam fazer algo para neutralizar aquela coisa.

– Que três?

– Setsuna, Kagome e a velha. As três não são sacerdotisas?

– Talvez tenha razão.

Levantou-se e os dois seguiram de volta à cabana.

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A horta ficava um pouco mais afastada da cabana de Kaede, na periferia do vilarejo, em um terreno de solo bem preparado, para ajudar o desenvolvimento das plantas. Lá estavam as duas jovens, Kagome e Setsuna, segurando pequenos cestos onde colocavam as ervas colhidas. Mas não havia nenhuma outra pessoa por perto.

– Onde estão as pessoas deste lugar, Kagome?

– Talvez ainda estejam dormindo. Mas os camponeses não costumam passar por aqui porque sabem que a vovó Kaede ficaria uma fera com quem estragasse suas ervas.

– Eu também ficaria. – Riu um pouco.

Kagome parou um pouco, sentando-se no chão e ficou olhando para Setsuna, que percebeu seu olhar.

– O que foi, Kagome?

– Ai... Desculpe, mas é que eu estou muito curiosa... Você e o Sesshoumaru...?

Setsuna sentou-se de frente para a amiga, meio confusa.

– O quê?

– Você sabe, Setsuna... Aquilo...

Setsuna pensou um momento, se deu conta do que Kagome queria saber e corou.

– Ah... aquilo... Bem, nós...

Ela suspirou, sorriu para a amiga e aproximou-se dela, dizendo-lhe algumas palavras ao pé do ouvido, como um pequeno segredo. Kagome arregalou os olhos e alegrou-se.

– Eu não acredito! Que bom, estou tão feliz por vocês dois! – Abraçaram-se. – Hei! Então quer dizer que nós somos cunhadas!

– Cunhadas? Eu não acho que meu senhor seja do tipo que proponha casamento...

– Inu-Yasha também não, mas... – Lembrou-se de algo. – Espera um pouco, o Inu-Yasha vai ser tio e eu também!

– O quê? Eu? Isso não é possível, Kagome. Eu não posso engravidar.

Kagome ficou meio confusa e teve receio de perguntar o motivo e magoar Setsuna... Percebendo a reação dela, Setsuna tratou de explicar sua última frase.

– Eu não posso engravidar porque uso uma poção que me foi ensinada pela sacerdotisa Akiko quando eu fiz quinze anos. Disse que era para que eu pudesse escolher meu momento certo.

– Mas, você não quer? Sabe, no começo eu fiquei meio chocada e, nossa, só Deus sabe o que vai acontecer quando a minha família souber, mas... Eu estou tão feliz...

– Eu também ficaria muito feliz, mas não é o momento certo... – Voltou a colher algumas ervas. – E também não sei se ele quer... Por incrível que pareça, não consigo sentir isso da parte dele.

– Talvez ele apenas jamais tenha pensado sobre isso...

– Pode ser, mas, de qualquer forma, eu ficaria muito vulnerável, não poderia usar meus poderes. E não posso me arriscar tanto enquanto não tiver certeza de que Naraku nunca mais me assombrará.

– É, não estou conseguindo usar meu poder de cura, mas pelo menos minhas flechas ainda funcionam...

– Tuas flechas são criadas pelo poder espiritual que emana naturalmente de ti, não precisas evocar qualquer energia mais forte... O mesmo acontece com minha barreira, mas eu não poderia usar minha esfera se engravidasse... Toda nossa energia fica voltada para a criança.

– Bem, você poderia usar flechas, como eu e a vovó Kaede.

– Eu não tenho esse tipo de aptidão. A sacerdotisa Akiko tentou me ensinar, mas foi em vão.

– Ah, eu também não conseguia acertar nem uma montanha no começo, mas com o tempo fui aprendendo... Eu posso ajudar você a praticar!

– Kagome... És a reencarnação de uma grande arqueira, é natural que tenhas aprendido rápido, mas eu sou um desastre.

– Essa não é a Setsuna que eu conheço. – Cruzou os braços e fez um ar maroto. – O que Sesshoumaru ia dizer se visse você desistir assim tão fácil?

Setsuna parou um instante e encarou Kagome.

– Tens razão. Vamos fazer uma troca. Ajudas-me com o arco e flecha e, depois que o teu bebê nascer, ajudo-te a dominar tua esfera da alma, assim como eu faço.

– E eu tenho isso?

– Claro. E... – Ambas interromperam sua conversa ao perceberem uma presença. – Fragmentos da...

– Jóia de Quatro Almas!

Mal tiveram tempo de levantar-se; um redemoinho passou por elas e se pôs em seu caminho. Kouga surgiu dele, como olhos cheios de insanidade e desejo de sangue.

– Obrigado por facilitarem meu trabalho...

Ele avançou contra as duas, mas bateu contra uma barreira de energia, criada por Setsuna. Ela se mantinha na frente de Kagome. “Kagome não está com suas flechas. Cabe a mim proteger a nós duas...” Kouga alisou o rosto, pois o machucou quando se chocou contra a barreira.

– Sua bruxa! Vai ficar se escondendo o tempo todo?

– Kouga, me escute! – Respondeu Kagome. – Você não quer fazer isso! É essa coisa que está controlando você!

– Cale essa boca!

Ele fez nova investida contra o escudo, sem sucesso. Uma, duas, três vezes e, apesar de cada nova investida ser feita com mais força, não conseguiu passar. De repente, ele parou e as ficou encarando. Atrás dele surgiram insetos venenosos e ele sorriu. Aqueles insetos eram diferentes, tinham listras vermelhas no lugar de listras amarelas.

– Insetos venenosos! – Kagome percebeu uma certa preocupação no rosto de Setsuna. – Eles não podem passar, podem?

– Eu não sei, Kagome...

– Sabe, Setsuna, – Continuou Kouga. – o erro de Naraku foi querer poder demais... Ele tentou matá-la, mas ao perceber o seu poder, passou a querer possuí-lo para si. Eu não vou cometer o mesmo erro...

Ele apontou para a barreira e os insetos avançaram contra ela. Cada local tocado por um inseto, abria uma pequena fenda, que se fechava depois. Porém, eram muitos os insetos e após tantas investidas, a barreira começava a não se regenerar com tanta facilidade. Setsuna percebeu que a barreira não duraria muito tempo e decidiu arriscar um golpe.

– Para trás, Kagome!

De uma única vez, Setsuna jogou sua barreira contra os insetos, como se os envolvesse em uma rede. Várias faíscas foram emitidas e todos os insetos desapareceram, assim como a barreira.

– Vou ter o prazer de quebrar o seu pescoço com as minhas próprias mãos... – Disse Kouga, estalando as garras.

Setsuna tentou erguer outra barreira, mas não conseguiu.

– Mas o que está acontecendo?

– Você não sabe, sacerdotisa? O veneno desses insetos age em barreiras mágicas. Uma vez que eles atinjam a barreira de alguém, a pessoa responsável por ela fica impossibilitada de reativá-la. Não vai poder usar a sua por um bom tempo!

– Então não me deixas escolha.

Ela levou a mão ao peito para criar sua esfera da alma, mas estranhamente nada acontecia. “Será que o veneno desses insetos também age na minha esfera?”.

– O que está esperando? Mostre-me sua esfera da alma! O corpo deste youkai é muito rápido... E agora já o domino completamente! Não há como derrotar a mim, Hakaidoku!

“Esse maldito!” Setsuna cerrou o punho na altura do peito.

– Sabes que não posso usá-la. A envenenaste também!

– O quê? – Kagome olhou a amiga com surpresa enquanto Kouga ria da situação, confiante de ter a vitória.

– Do que está falando mulher? Estes insetos não são tão poderosos assim... Mas já que não pode usá-la...

Setsuna abaixou sua mão, com o punho ainda cerrado, incrédula. “Não pode ser... Se não foram os insetos, então...”. Virou-se para Kagome.

– Kagome, afasta-te agora!

– Mas... – Percebeu o que Setsuna iria fazer. – Não vou deixar você lutar sozinha! – Viu Kouga avançar contra elas. – Cuidado!

Setsuna virou-se e desviou do golpe. Kouga ficou confuso com a rapidez dela e tentou acertá-la novamente, saltando sobre ela, mas ela aparou o golpe de sua perna com o braço.

– Como isso é possível? – Kouga interrompeu seu ataque e recuou um pouco.

– Acaso achas que só porque não posso usar meus poderes estou tão indefesa, lobo?

– Isso só vai tornar as coisas mais divertidas... Vamos ver quanto tempo você vai durar...

Ele avançou com o punho contra ela, que desviou e ele socou apenas o solo, abrindo um imenso buraco. Ambos continuaram a lutar. Ele tentava acertá-la com todo tipo de golpe, mas, mesmo sendo uma humana, ela desviava facilmente de cada ataque. Isso já estava deixando Kouga irritado. Mais irritado ainda ficou quando ela, desviando dele, conseguiu acertá-lo em cheio no peito com um soco.

– O que foi, youkai? Será que não podes sequer contra uma humana?

Kagome, que a tudo assistia, percebeu que apesar de Setsuna estar aparentemente levando vantagem, ela não agüentaria muito tempo aquele ritmo. “Ela está apenas blefando... Tenho que chamar Inu-Yasha e Sesshoumaru!”. Ela correu na direção de volta para a cabana de Kaede, mas, ao perceber o intuito de Kagome, Kouga estalou os dedos e mais um grupo de insetos apareceu, na frente dela, impedindo sua passagem. Setsuna, então, voltou sua atenção para a amiga.

– Kagome!

Aproveitando-se da distração de Setsuna, Kouga agarrou-lhe o pescoço e a suspendeu no ar com seu braço direito.

– Peguei você!

– Setsuna! – Kagome gritou e correu na direção dos dois.

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Sesshoumaru e Inu-Yasha entraram na cabana e o hanyou ficou indignado por não encontrar a parceira.

– Hei, velhota! Achei que estivesse tomando conta da Kagome!

– Ela disse que estaria com você, Inu-Yasha, então não vi mal algum em ela sair. – Retrucou a velha senhora.

Sesshoumaru olhou ao redor e deu pela falta de Setsuna.

– Setsuna está com ela?

– Sim, as duas saíram juntas...

– Duas desajuizadas... – Inu-Yasha cruzou os braços e de muito mau humor.

– Não se preocupe, Inu-Yasha. – Disse Sesshoumaru. – Aquele lobo não é páreo para ela.

– Mas a Kagome nem levou o arco e flechas dela. Como ela vai lutar?

– Eu não estava falando da sua humana...

– Sesshoumaru, você quer parar de chamá-la de ‘minha humana’?!

– Humfh... – Foi em direção a porta. – Vamos logo atrás delas, assim você se acalma...

– Eu ainda vou acabar me estourando com ele... – Saiu resmungando.

-x-x-x-x-x-

– Pare, Kouga!

Kagome foi até ele e segurou-lhe o braço esquerdo, aquele que ele preparava para dar o golpe final em Setsuna.

– Espere a sua vez!

Kouga livrou seu braço, agarrou o dela e a jogou longe, fazendo com que ela batesse contra uma árvore. Ela sentiu uma falta de ar e caiu sentada, encostada à árvore. Setsuna fechou seus olhos, não conseguia falar. “Eu tenho que fazer alguma coisa...”. Reunindo as últimas forças que tinha, agarrou com as duas mãos o braço de Kouga que segurava seu pescoço. Conseguiu gerar uma barreira fraca, mas seria o suficiente para derreter o braço dele.

– Maldita mulher! Vou matá-la antes que derreta meu braço!

Com o braço esquerdo, ele segurou uma das mãos dela, afastando-a de sua carne. Cada vez mais ele apertava a garganta dela com suas garras, fazendo com que sangue começasse a descer, manchando o quimono azul. Finalmente, ele escutou o estalo final, um pescoço quebrado. Sentiu que as mãos dela não mais emitiam energia e ela havia parado de se mexer e respirar. Kagome levantou o olhar e o viu jogar aquele corpo no chão. Seus olhos encheram-se de lágrimas.

– Não!

Ela cambaleou até Kouga e começou a bater em seu peito, aos soluços. Ele agarrou-lhe as mãos e algumas das lágrimas dela caíram sobre as mãos dele. Ele ficou fitando aqueles suplicantes olhos castanhos e começou a lembrar-se dela. Mas o monstro dentro dele não queria perder o controle. Ele a soltou e acertou-lhe um soco no estômago, jogando-a para o alto. Ela caiu com força sobre o solo, quase inconsciente por causa da dor. Fez um esforço, para sentar-se e tossiu um pouco de sangue. E, ao olhar para cima, novamente estava ele diante dela, pronto para dar o golpe final.

– Kouga... Tente se lembrar... Este não é você...

Mais lágrimas caíram de seus olhos e ele ficou ali, parado, olhando para ela. Os centros daqueles olhos vermelhos começaram a se tornarem azuis. Ele permaneceu diante dela, segurando a si próprio para não atacá-la.

– Kagome... Saia daqui...

– Kouga! Você se lembrou... Você pode lutar contra essa coisa! Eu acredito em você!

Inu-Yasha e Sesshoumaru chegaram até a horta e viram a devastação causada por Kouga, mas nada chamou mais a atenção de Sesshoumaru do que o corpo sem vida de Setsuna. Inu-Yasha sacou sua espada, mas seu irmão pareceu não notar.

– Se afaste da Kagome, seu lobo fedido! – Gritou o hanyou.

Kouga encarou Inu-Yasha e sangue vazava de seus olhos.

– Acabe logo com isso, Inu-Yasha, enquanto eu ainda sou eu mesmo...

O hanyou se segurou um pouco. Na verdade, Kouga não tinha controle sobre o que estava fazendo. “Tem que haver outro jeito...”. Então sentiu uma brisa passar por ele e percebeu que Sesshoumaru não estava mais do seu lado.

– Sesshoumaru!

Sesshoumaru passou rapidamente por Kouga e terminou o que Setsuna havia começado, arrancando-lhe parte do braço direito. O lobo virou-se para encarar Sesshoumaru, que já estava com suas garras envenenadas e ensangüentadas prontas para atacá-lo novamente.

– Vou cortá-lo em pedaços tão pequenos que nem mesmo um inseto conseguirá encontrá-los! – Disse Sesshoumaru.

Inicialmente, Kouga estava amparando o que sobrara de seu braço, cuja hemorragia era grande. Mas, depois, deixou isso de lado para observar o responsável por aquele ferimento. Chegou até a dar um sorriso, o que surpreendeu Sesshoumaru. Inu-Yasha adiantou-se e correu até Kagome. A segurou nos braços e tratou de afastá-la dali. Sabia que aquela luta seria turbulenta. Colocou-a encostada a uma árvore.

– Kagome, como você está?

A preocupação no olhar dele era infinita. Ela olhou para o lado e viu Setsuna. Novamente, lágrimas lhe vieram aos olhos.

– Estou melhor do que ela, Inu-Yasha... Foi Setsuna quem lutou contra ele, não eu... Sesshoumaru jamais vai perdoá-lo... Logo agora que ele estava se lembrando...

– O quê?...

O hanyou virou-se para observar os dois youkais. Mas nenhum deles havia ainda feito qualquer movimento. Kouga mantinha-se imóvel, de olhos fechados, como que esperando pelo golpe final.

– Vamos lá, acabe logo com isso! Eu matei a sua mulher, você não vai fazer nada?

“Tem alguma coisa errada... Ele está pedindo para morrer...”, pensou Sesshoumaru. Lembrou-se da conversa que teve com Inu-Yasha. De que talvez, se o lobo morresse, a criatura dentro dele, procurasse um outro corpo. Notou Inu-Yasha se aproximar, com sua espada em mãos. Kouga estava entre ambos. Mais insetos venenosos surgiram da mata e pararam ao redor do lobo, como se o estivessem protegendo. Apesar do punho cerrado, da enorme vontade de matar, Sesshoumaru abaixou sua mão.

– Não vou cair na sua armadilha, seu miserável... Se eu apenas retalhar esse lobo em pedaços, você sairá e pegará o corpo de um de nós dois, não é isso?

O lobo deu um sorriso e abriu seus olhos. Ainda não tinha perdido completamente o controle de si mesmo e havia sangue em seus olhos.

– Você não entende... A única forma de me livrar dessa coisa é morrendo... E eu prefiro morrer a servir de escravo... – Virou-se e encarou Inu-Yasha. – É a única forma de evitar que eu continue matando...

Sesshoumaru olhou para Inu-Yasha e aborreceu-se com a hesitação do hanyou.

– O que está esperando, Inu-Yasha? Realize a vontade dele... Corte a Ferida do Vento e faça pó do corpo dele!

“Maldição! Não era desse jeito que eu queria acertar as contas com você, Kouga!”. Não havia muita escolha. Inu-Yasha teria que acabar com aquela história de uma vez por todas. Ergueu sua espada sobre a cabeça e as nuvens de energia sinistra começaram a formar-se. Mas uma voz interrompeu seu ataque.

– Inu-Yasha! Espere! – Kagome levantou-se com dificuldade e permaneceu apoiada na árvore. – Meu arco e flechas... Traga-os para mim. Posso purificá-lo com minhas flechas...

Kouga olhou meio surpreso para ela. “Kagome, mesmo depois de tê-la machucado tanto, de ter tentado matá-la, você ainda quer tentar me salvar? Como eu pude ser tão fraco assim?...”. Corroeu-se por dentro, pois não queria mais aquele estranho dentro de si. E também não queria mais aquela voz que continuava ecoando dentro de sua cabeça: “Mate-a! Mate-a! Mate-a!”.

– NÃO!!!

Seu corpo emanava um estranho brilho avermelhado, de baixo para cima. Tanto Inu-Yasha como Sesshoumaru recuaram um pouco. Qualquer coisa poderia acontecer.

– Ande logo, Inu-Yasha! – Exclamou Sesshoumaru.

– Eu...

Sua frase foi interrompida pela visão que teve. Do ferimento no braço de Kouga, uma forma feita de sangue coagulado escapava. Saiu completamente do corpo do lobo, que, de fraqueza, acabou desmaiando. Inu-Yasha lembrou-se do que Ginta disse: “Uma gororoba enorme, vermelha como sangue...”. Só podia ser aquela criatura. Percebeu que ela avançava na direção de Sesshoumaru. Ergueu sua espada.

– Sesshoumaru! A Tenseiga!

Então cortou a Ferida do Vento com toda destreza e habilidade que possuía. O golpe gerou cinco faixas luminosas que percorreram o solo e atravessaram Hakaidoku, fazendo-o em pedaços que foram se desintegrando. Mas Sesshoumaru ainda estava no caminho daquela força, porém, Inu-Yasha o lembrara de sua espada, Tenseiga, que já o salvara antes do golpe da Tessaiga. Ele sacou sua espada e a empunhou diante de si, como se fosse cortar a energia da Ferida do Vento. A Tenseiga gerou uma espécie de barreira que o protegeu da maior parte do golpe, porém pedaços foram arrancados de sua pele e de suas vestes. Ele quase fora arremessado contra a floresta atrás de si. Foi então que percebeu uma pequena partícula de Hakaidoku passar por seu rosto e desaparecer na imensidão daquela vegetação. O clarão começou a diminuir, assim como a força que o empurrava. Quando tudo se acalmou, pôde ver Inu-Yasha, ainda com a Tessaiga nas mãos, olhando para ele.

– Sesshoumaru, você está bem?

– Pensei que fosse me chamar de mano outra vez... – Ironizou o mais velho, guardando sua espada.

O hanyou sorriu e também guardou sua espada. Depois, correu até Kagome. Sesshoumaru passou por eles, calmamente, em direção ao corpo de Setsuna. Parou diante dela, de costas para Inu-Yasha e Kagome. “O que eu digo a ele nesse momento?”, pensou Kagome.

– Sesshoumaru, ela...

– Como você está?

A pergunta dele surpreendeu Kagome, inclusive pela calma que havia em sua voz.

– Estou bem. Ela foi muito forte. Lutou em pé de igualdade contra Kouga...

– E de que adiantou isso?... – Abaixou-se e afastou aquelas mechas de cabelos vermelhos, para fitar o rosto dela. Notou o sangue no pescoço, no quimono e o que se espalhara pelo solo. As marcas no pescoço eram brutais. – “Como pôde deixar isso acontecer, Setsuna?”. A pegou no colo. – Avisarei seus amigos do que aconteceu, logo estarão aqui...

– Sesshoumaru... – Inu-Yasha queria também dizer algo a seu irmão, mas não sabia ao certo o que ou como falar.

– O seu golpe é muito bom, Inu-Yasha... Pena não ter sido bom o suficiente.

– Ora, como assim? Eu destruí aquela coisa!

– Todos os pedaços? – Começou a se afastar. – Fique de olhos abertos.

O hanyou ficou observando seu irmão se afastar, mas logo voltou sua atenção para Kagome, que parecia sentir dores.

– Você tem certeza de que está bem, Kagome? E esse sangue na sua roupa?

– Não se preocupe, eu só estou um pouco tonta e enjoada... Acho que já dei muito trabalho para o seu irmão...

– Não se preocupe com Setsuna. Ele pode trazê-la de volta com a Tenseiga.

Foi então que ele notou o profundo e triste olhar que ela lançou sobre ele.

– Mesmo que você pudesse me trazer de volta da morte quando quisesse, gostaria de carregar o meu corpo sem vida em seus braços, Inu-Yasha?

Ele sentiu um desespero tomar conta de seu coração e lágrimas lhe vieram aos olhos. Puxou-a contra si e a abraçou fortemente.

– Nunca mais diga isso novamente, Kagome...

Ela retribuiu o abraço e ficou fitando o céu. Só então percebeu pequenos flocos de neve caírem suaves sobre ambos.

-x- Continua no próximo cap -x-