Inu-Yasha e Kagome faziam o percurso de volta ao vilarejo. A jovem andava com o olhar para o alto, sem prestar a menor atenção no caminho. Apenas apreciava as gotas de chuva que caíam sobre seu rosto.

– Eu adoro a chuva...

– Tem certeza de que não quer que eu te leve nas costas, Kagome? Seria muito mais rápido... Pode ficar resfriada, não seria bom para o bebê... E quer fazer o favor de olhar por onde anda?

– Não se preocupe, Inu-Yasha... – Sorriu e o encarou. – Você quer menino ou menina?

– Ora, que pergunta! É claro que vai ser menino! – Estava sem graça.

– Mas e se for menina?

– Não vai, não. Eu já disse que vai ser menino...

– “Que teimosia...”. Ta, Inu-Yasha, mas pode ser que seja menina...

– “Por que ela tem que ficar falando dessas coisas?” É menino e ponto final! – Cruzou os braços, aborrecido.

– Ah é? E como você sabe, senhor espertinho? – Parou na frente dele e o encarou.

– Eu... – As palavras lhe escaparam um momento. – “Mas que situação!” Eu... Ah! Tanto faz, Kagome! – Continuou andando.

Kagome correu contente e segurou o braço dele enquanto caminhavam.

– Inu-Yasha, mudando de assunto... Quanto tempo você acha que eles vão ficar?

– Sesshoumaru? Como é que eu vou saber?

Kagome esticou os braços e os colocou atrás da nuca, apreciando o sabor da chuva.

– Não seria bom se o seu irmão ficasse mais tempo?

A colegial parou de repente, sentindo uma presença familiar. Inu-Yasha, que já estava um pouco mais adiante, mal percebeu.

– Que conversa é essa agora?... Kagome? – Virou-se e a encarou. – O que foi?

– Sinto fragmentos da Jóia de Quatro Almas.

A preocupação nos olhos dela lhe dera a certeza. Ele cerrou o punho, estalando suas garras.

– É aquele lobo fedido, não é? – Ela apenas confirmou com a cabeça. Então, ele sentiu um cheiro e uma presença diferentes. – “Maldição! Esse não é o cheiro do Kouga! Tenho que tirar Kagome daqui.”. Suba nas minhas costas, Kagome. Num instante eu tiro você daqui.

– Por acaso está querendo fugir, Inu-Yasha?

A escuridão da noite não ajudava a localizar de onde vinha aquela voz, mas após alguns segundos, pôde ver a silhueta do lobo de pé, encostada a uma árvore, de braços cruzados, meio que oculta pelas sombras. Havia surgido de repente, sem que Inu-Yasha percebesse. E o pior, cheirava como Naraku.

– Hei, Kouga! Você andou se espojando nos restos daquele Naraku? Está fedendo igual a ele!

– Para que quer saber? – Tinha um tom confiante na voz. – Vai morrer logo mesmo... Os dois vão morrer... – Saiu das sombras e seus olhos eram vermelhos como sangue.

Inu-Yasha colocou-se na frente de Kagome. “Esse lobo está muito diferente, não é o mesmo... Kouga jamais tentaria matar Kagome.”. Sacou sua espada e avançou contra o youkai, que deu um pulo sobre o corpo de Inu-Yasha e caiu de frente para Kagome, segurando-a pelo pescoço e cravando suas garras nele. Ela começava a sufocar diante da face sorridente dele. Ele aproveitou a oportunidade e arrancou o enorme fragmento do pescoço dela.

– Vou ficar com isso... – Disse Kouga.

– Kagome!

O hanyou novamente atacou Kouga, que teve que soltar Kagome para poder desviar. Ela caiu ofegante no chão, buscando o ar e amparando o sangue que caía de seu pescoço, manchando sua roupa e as poças de água formadas pela chuva. Inu-Yasha sentiu seu sangue ferver.

– Vou acabar com você, seu lobo maldito!

Novamente investiu contra Kouga, que desviou para o lado, rindo como louco.

– Você é lento demais para mim, Inu-Yasha! – Sentiu uma pontada no estômago e viu o rosto sorridente de Inu-Yasha. – O qu...

Inu-Yasha havia soltado a Tessaiga quando Kouga desviara dele e o atacou com suas garras retalhadoras, atravessando-lhe o estômago. Ele retirou seu braço do corpo do lobo, enquanto este recuava, cobrindo o ferimento com sua mão. Acabou deixando o fragmento cair e Inu-Yasha o pegou de volta.

– Seu... miserável...

Mal conseguia falar por causa do ferimento, que era grave, e Kouga achou melhor fugir enquanto ainda podia. Saiu daquele lugar em disparada. Inu-Yasha guardou sua espada e foi até Kagome, que mantinha a mão sobre a garganta. Foi então que ele notou o sangue de Kouga em sua mão. “Que nojo! Não vou tocar Kagome com isso!”. Olhou em volta e viu uma enorme poça d’água, formada pela chuva. Livrou-se do sangue em suas mãos nela e foi até Kagome.

– Como você está, Kagome?

Ela o encarou com lágrimas nos olhos e tinha muita dificuldade para falar.

– Não... era o Kouga... Inu-Yasha... Não eram... os olhos dele...

– Vou levar você de volta.

Ele a pegou no colo e saiu correndo para o vilarejo e para a cabana de Kaede. Adentrou o local subitamente, deixando a todos preocupados com o estado dela.

– Santo Deus! Inu-Yasha, o que aconteceu? – Perguntou Kaede, observando os ferimentos da jovem.

– Depois eu explico velhota! Kagome precisa de cuidados!

– Certo!

Kagome já estava inconsciente àquela altura e Inu-Yasha a colocou sobre um futon. Kaede pediu que Miroku e Inu-Yasha esperassem lá fora, já que ela e Sango tirariam aquelas roupas molhadas de Kagome. O monge, meio a contra gosto, foi para fora da cabana, empurrado por Inu-Yasha.

– Ah, que me mandassem esperar aqui fora eu até entendo... Mas por que você, Inu-Yasha? Você já a viu despida...

O hanyou olhou para ele com uma cara emburrada e cheia de desconfiança.

– É que eu vou ficar de olho em você, Miroku... Para que não fique espiando a Kagome!

– Inu-Yasha, você tem uma opinião muito equivocada a meu respeito...

– Sei... – Cruzou os braços.

Algum tempo se passou e Inu-Yasha já estava irritado, batendo com o pé no solo. Hesitou um pouco quando escutou Kaede chamando de dentro da casa, mas passado o primeiro momento, entrou correndo, juntamente com Miroku. Kaede e Sango já haviam vestido Kagome, com roupas de sacerdotisa mesmo, e enfaixado seu pescoço. Ela ainda não tinha acordado. Inu-Yasha se sentou ao lado dela e segurou sua mão, enquanto questionava Kaede.

– Ela vai ficar bem? E o bebê?

– Ela caiu ou levou algum golpe abaixo da cintura?

– Não...

– Então vai ficar tudo bem, Inu-Yasha...

Ele consentiu com a cabeça e continuou a segurar a mão de Kagome. Algumas horas se passaram e Inu-Yasha permanecia ali, ao lado dela. Ninguém ainda havia ido dormir por causa da preocupação e curiosidade. Porém, por mais curiosos que estivessem, ninguém queria fazer a pergunta derradeira e ser vítima do mau-humor do hanyou. Por fim, Miroku resolveu arriscar-se.

– Inu-Yasha, você vai ou não nos contar o que aconteceu?

O hanyou olhou meio de lado para o monge, chegava até a ser triste sua expressão. Voltando a fitar sua amada, soltou a mão dela e cerrou o punho.

– Eu vou arrancar a cabeça daquele lobo fedorento...

Seu comentário surpreendeu a todos, que achavam que Kouga jamais faria algo assim com Kagome.

– Inu-Yasha, você está querendo dizer...

– Sim, foi ele mesmo, Miroku... Só que ele cheirava igual ao Naraku.

O monge ficou olhando para a mão onde costumava ficar o buraco do vento. Ele não usava mais nem aquela luva, nem o colar de contas. Ela estava limpa.

– Não pode ser, Naraku está morto... – Retrucou o monge.

– Talvez seja só mais um clone dele... – Disse Sango.

– Não era um clone... Era o Kouga, disso eu não tenho dúvidas...

– Isso é impossível, Inu-Yasha. – Comentou Shippou, chupando um pirulito. – O Kouga sempre foi muito apaixonado pela Kagome, ele sempre fez questão de deixar isso bem claro... Ele jamais faria uma coisa dessas com ela.

– Ah, é? – Tomou o pirulito e o enfiou pela goela abaixo de Shippou, quase sufocando-o. – Pois se eu não estivesse com Kagome, ele teria arrancado a cabeça dela fora!

Ele levantou-se irritado e saiu da cabana. Só assim Shippou conseguiu cuspir o pirulito e respirar novamente.

– Hei! O que foi que eu fiz?

– É melhor deixar o Inu-Yasha quieto, Shippou... – Aconselhou Miroku.

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– Aquele maldito!

Kouga caminhava com dificuldade, deixando um rastro de sangue por onde passava. Caiu sobre os joelhos, com a mão sobre o ferimento da luta contra Inu-Yasha. Escutou uma voz familiar e um sorriso lhe veio à face. Viu seus dois companheiros de viagem irem em sua direção.

– Kouga! Até que enfim achamos você! – Gritou Ginta.

– Nossa! Que ferimento horrível! O que aconteceu?

– Não é nada grave, mas vocês dois podem me ajudar...

Os dois recuaram um pouco, pois sentiram uma presença estranha. Seu líder não era o mesmo, nem mesmo seus olhos.

– Kouga?...

Sem nada mais poder dizer, Ginta foi agarrado pelo pescoço e o corpo de Kouga começou a brilhar. O ferimento na barriga do lobo fechava-se lentamente, ao passo que Ginta ficava cada vez mais pálido. Hakkaku correu e bateu forte contra o braço de Kouga, fazendo-o soltar Ginta.

– Kouga! Pare com isso! O que deu em você? Quer matá-lo?

Kouga ficou apenas olhando para eles dois no chão. Lembrou-se de quem eles eram e sentiu-se confuso. Seus olhos mudaram de cor, tornando-se azuis novamente. “Meus companheiros...”. Olhou para sua mão, que ainda estava manchada com seu próprio sangue. Lembrou-se de Kagome.

– O que foi que eu fiz?...

O cheiro do sangue dela também estava em suas mãos. Lembrou-se também de Hakaidoku que, de alguma forma, o esteve controlando até agora. Sua confusão deu lugar à ira. “Monstro miserável!”. Saiu em disparada pela floresta para não ferir ainda mais seus amigos. Hakkaku levantou-se, segurando o inconsciente Ginta.

– Kouga...

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Fora da cabana, o hanyou notou que não mais chovia. Olhou para o céu nublado. Nuvens passavam rapidamente, um vento frio soprava. “Eu devia ter tomado mais cuidado... Kagome quase...”, martirizou-se um pouco. Afastou tais pensamentos da cabeça e caminhou até a Árvore Sagrada. Apesar daquele ter sido o lugar onde ficara selado por cinqüenta anos... Apesar daquele ter sido o lugar onde dera aquele triste adeus a Kikyou... Apesar de tudo, aquele lugar lhe trazia uma certa paz ao espírito. Precisava acalmar as idéias e entender o que estava acontecendo para evitar mais erros. Não podia se permitir mais erros. Surpreendeu-se com quem lá encontrou, encostado ao tronco daquela imensa árvore, olhando para ele como se o esperasse.

– Você se meteu em encrenca de novo... O cheiro do sangue daquele lobo e da sua humana está nas suas mãos.

Inu-Yasha abaixou a cabeça. Havia raiva em sua voz que saía sufocada.

– Já disse que o nome dela é Kagome... – Seus punhos estavam fechados, prontos para combate. – O que está fazendo aqui, Sesshoumaru? Pensei que estivesse com Setsuna.

– E estava... Mas ela teve um pressentimento ruim e quis voltar logo. Acho que ela estava certa.

– Eu vou cuidar disso! Não se meta! – Deu-lhe às costas.

– Também há o cheiro de Naraku em suas mãos. Se ele estiver envolvido nisso, eu tenho que me meter. Ele está morto ou não?

– Eu não sei...

Ficou fitando o céu novamente. Percebeu a presença de seu irmão, bem ao seu lado, olhando para a mesma direção.

– Me conte o que aconteceu, Inu-Yasha.

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– Eu sabia que algo havia acontecido...

Kaede escutou a voz de Setsuna e viu que a jovem estava na porta da cabana. Ela entrou e foi até Kagome, colocando a mão sobre a testa da jovem desacordada. Respirou aliviada, pois sentiu que ela estava bem, apenas dormia. Encarou Kaede bem a sua frente.

– O que aconteceu a ela, sacerdotisa Kaede?

– Não sabemos ao certo, Inu-Yasha não disse muita coisa. Mas não é um ferimento grave.

– Está certo...

Setsuna olhou ao redor e viu que Rin dormia sossegada ao lado de Jyaken. Depois, voltou seu olhar para a porta. Sabia que os dois irmãos conversavam lá fora.

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O youkai lobo já havia corrido tanto que nem mais sabia onde estava. O ferimento em sua barriga praticamente havia fechado, apenas sentia uma pontada ou outra de vez em quando. Mas sentia uma pontada muito maior dentro de seu peito, pelo o que fizera a Kagome e a Ginta. Parou, apoiando uma das mãos no tronco de uma árvore. A chuva havia passado, mas a floresta ainda estava úmida. Gotas caíam das copas das árvores, conforme o vento as balançava.

– Como eu fui idiota! Devia ter percebido que era uma armadilha... Quase a matei.

Bateu com a cabeça umas três vezes no tronco daquela árvore. Depois, parou, ainda com a testa colada na madeira úmida. Achou estar louco quando ouviu uma voz dentro de sua cabeça.

– Você me pertence...

– Não! Pensei que houvesse ido embora com todo o sangue que perdi!

– Seu youkai ingênuo... Acha mesmo que poderia se livrar de mim assim tão facilmente? A única maneira de fazer isso é morrendo! – Riu.

Kouga cravou suas garras no tronco da árvore e começou a bater violentamente a cabeça contra ela. Tanto, que sentiu uma tonteira e sentou-se, encostado na própria árvore. O sangue descia quente por sua face. E a voz continuava a lhe perturbar.

– Isso é inútil...

– Não quero matá-la!

– Mas eu quero!

O lobo havia perdido muito sangue e as pancadas que dera na árvore não ajudaram muito. Ficou olhando para o chão, algumas poças de chuva ainda eram distintas na relva, meio que cristalizadas pelo frio. Viu o rosto dela.

– Kagome...

Não conseguiu mais resistir e acabou desmaiando.

-x- Continua no próximo cap -x-