O Destino De Dois Gatos
5 Força
Notas iniciais
Pata de Coruja encarava a presa que deveria ter comido á vários movimentos de sol atrás, a cutucando com a pata, se sentia sozinha. Poderia muito bem conversar com um de seus irmãos, sim, talvez devesse chegar em Pata de Fogo e dizer: “Oh! Olá irmão segundos mais velho superprotetor, sabe o que é? É que eu acho que estou sentindo alguma coisa por um guerreiro de outro clã.” Ele piraria, seria um desastre completo, catastrófico. Ou talvez com Pata de Carvalho, para ele a olhar e dizer que era melhor esquecer isso, o seja, diria o que ela já sabia.
Precisava arranjar um amigo próximo de alguma forma, normalmente falaria com Rosa Negra e até pensou em fazer isso. Ah ela pensou, mas, lembrou logo em seguida que a mãe não estava mais ali. Poderia falar com Tempestade Raivosa, mas não confiava na gata e, seu pai estava totalmente fora de cogitação. Estrela Fria não deveria ouvir isso. Jamais. Suspirou e ergueu o corpo pesadamente, esticando o corpo e bocejando, piscou os olhos e engoliu, forçadamente, o camundongo que escolhera para se alimentar, procurando Bigode de Tigre com os olhos cor de oliva, até a encontrar saindo da toca dos anciãos, o corpo grande e cheio de cicatrizes da felina era admirável, qualquer um sabia apenas de encará-la o quão forte ela era. Pata de Coruja queria ser como ela. Forte, sábia, corajosa. Era sua inspiração. Correu até ela, encostando o focinho em seu ombro como comprimento.
— Olá Bigode de Tigre! —Ela miou com suavidade, recebendo um sorriso e uma pata grande sendo esfregada contra sua cabeça, bagunçando seu pelo.
— Filhote! Animada? Que ótimo, vamos. Vou te ensinar como derrubar qualquer inimigo com um golpe novo. —A felina retirou a pata da cabeça da aprendiz, se afastando em passos rápidos, seguindo para uma área do acampamento, Pata de Coruja correu atrás da mentora, com a cauda erguida, observou Pata de Fogo voltar com Pata de Maça e seus respectivos mentores, ele não parecia animado, talvez porque não fosse com o focinho do gato? Perguntaria á ele depois.
Seguiu Bigode de Tigre até a área de treinamento, chamada de Bolsão de Areia, não tinha bem uma razão pelo nome, mas era um local de terreno arenoso com pequenas poças fundas de água, o que ajudava ao final do treino, para ingerir água. Parou bem ao centro, a cauda contra o chão, a areia arranhando as almofadinhas de suas patas, mas as aquecendo pelo sol fino que entrava naquela área, a mentora sorriu suave e grudou as orelhas contra a cabeça, estreitando os olhos azulados.
— Lembra-se do que aprendeu nas aulas de caça, certo? —Perguntou e se sentiu satisfeita com a resposta correta. — Ótimo, quero que finja que sou um inimigo, roubando a presa que alimentará seu clã e sua família, eu não terei pena de você e você não deve ter de mim, não se pode tirar da boca de todos para alimentar um. Me ataque com tudo que tem.
Pata de Coruja abaixou as orelhas, engolindo em seco, certo, ela tinha ignorado certas coisas sobre inimigos, primeiramente, não tinha afastado Olhos de Vidro em momento algum de seu território ou ameaçado a vida dele. Sim, talvez devesse fazer isso da próxima vez. Assumiu a posição de ataque, observando a mentora, não pensou muito, mas se atirou contra ela, sendo facilmente expelida com uma patada de força mediana, tendo agora a face contra a areia.
— Primeira regra: Não olhe para onde irá atacar, vai dar mais chance ao adversário de seguir seus passos e evitar o ataque. Segunda regra: Seja rápida, mas não estupida, bole uma estratégia. Terceira: Eu preciso que você colabore comigo, esteja atenta e pare de pensar demais. —Então a soltou e se afastou três caudas. — De novo.
Coruja levantou e sacudiu o corpo, o focinho doendo e o nariz sangrando pelo atrito forte demais, levantou os ombros e respirou fundo, se concentrando totalmente desta vez, ou quase, olhou-a nos olhos, a atacando nas patas desta vez não suficiente para a derrubar, mas para a distrair, arranhou seu peito, forçando o corpo para tentar a derrubar, ofegando, Bigode de Tigre forçou as patas traseiras, evitando a queda e forçando a outra a cair, parou sobre ela, sentindo chutes firmes na barriga, o que significava que ela havia aprendido algo, com esta distração, foi jogada de cima de sua aprendiz e encurralada por ela logo após, mordias rápidas foram dadas, por ambas, até Tigre estar livre finalmente, sorrindo e com as orelhas erguidas.
— Muito bom, viu, basta esquecer o resto e lembrar que está numa batalha. —Ela miou, movendo a cabeça. — Tem o resto do dia livre. Fique bem. Vamos.
— Acha que eu vou ir bem no último exame Bigode de Tigre? —Pata de Coruja perguntou, enquanto usava a boca para beber água e falar ao mesmo tempo.
— Se quiser ser. Sim, será. —A mais velha ronronou e carinhosamente encostou o corpo na aprendiz, lambendo sua bochecha. — Agora vamos, antes que você decida treinar voo também, Corujinha.
X
Naquela mesma tarde, Pata de Fogo seguia seu mentor de volta ao acampamento, teve um treino duplo com colegas de clã e de toca respectivamente, sendo um felino quase totalmente introspetivo, fazer isso com alguém além de seus irmãos era estranho, mas Pata de Carvalho riu dele quando contou isso e o mandou ir tentar viver, fazer amizades e ser um pouco menos apático, segundo as palavras dele, então sem animo algum ele caçou ao lado de Pata de Maça e que surpresa ou descobrir que o felino conseguia puxar assunto até com si mesmo. Ele não calava a boca.
O felino cor de chama bocejou, com as orelhas coladas á cabeça e os olhos presos na pedra do líder, observando Pata de Carvalho conversar com o pai, ele ainda era o único que se mantinha distante, a palavra perdão sequer chegava á sua mente, suspirou, desviando os olhos para o ser sorridente á algumas caudas, falava com algum outro felino, irritante era a melhor forma de descrever o gato de patas mais baixas do que seria normalmente aceitável ou comum, pelagem muito brilhosa e de coloração bege, a voz ainda era bem audível e quase o feria as orelhas. O clã estava decaindo, animação!
Não desviou os olhos dourados, não tinha nada melhor para olhar mesmo, não que encarar Pata de Maça fosse bom, mas entre encarar ele e Estrela Fria, preferia encarar o tagarela. Moveu as orelhas, analisando as expressões dos gatos, observando a semelhança, provavelmente eram irmãos. Talvez primos. Ou muito parecidos, mas aparentemente o outro felino tinha uma mesma impressão do gato baixinho, porque revirava os olhos á cada palavrinha que ele soltava, até dizer algo e o dar uma batidinha no ombro com a pata, então sair o deixar falando sozinho, o aprendiz pareceu desnorteado, o sorriso sumindo, bufou, parecia agora irritado, Pata de Fogo suspirou, estava reparando demais em alguém que não importava, desviou os olhos, arranhando a pedra com distração, até ouvir passos e então encarar a bola de pelo baixinha que estava jogava no chão bem a frente da pedra, como se usufruísse da sombra do local para ficar menos quente, bufou. Folgado.
— Ei bola de pelos, eu não sou seu guarda sol. —Miou, quase rude, mas talvez existisse um leve toque de diversão no fundo da alma.
— Então não seja. Bola de pelos é você, cérebro de camundongo. —Ele retornou, em tom similar, deitando de barriga para cima com um sorrisinho. — Você poderia ter simplesmente saído se estivesse realmente incomodando, Pata de Fogo.
O felino riu baixo, negando com a cabeça, piscando os olhos, erguendo a pata para atingir a cabeça fofa e larga do gato, que instantaneamente tentou levar as próprias ao local, falhando pelo tamanho delas.
— Talvez você não seja tão insuportável, Pata de Maça. —Ronronou, esfregando a pata no local onde atingiu primeiramente.
— Talvez você não seja tão coração de raposa, Pata de Fogo. —Sorriu levinho, movendo as orelhas, mas recebeu outro tapa.
X
Pata de Carvalho conversava com o pai, calmamente e suavemente, ou nem tanto, não gostaria de ser guerreiro. Não conseguia acompanhar o treinamento, não se achava bom para isso, então gostaria de ser útil de outra forma, curandeiro parecia um bom cargo, tinham apenas Sonho da Penumbra, ela sozinha, talvez não desse certo, mas precisava tentar, queria tentar.
— Chame Sonho da Penumbra, veremos se ela aceitará isso.
Continua
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