O Despertar dos Sentimentos
49 Bússolas
Notas iniciais

Quando Hinata recebeu alta do hospital, quatro dias mais tarde, fomos para casa com nosso garoto, o quartinho de Boruto todo pronto esperando por ele, nossos amigos, e nossa família perfeitamente incompleta nos esperando com festa e meus amigos de longa data; pela segunda vez na história, os moradores de Konohagakure viram as nove Bijuus reunidas no jardim da nossa casa, assim como os sábios sapos e os enormes leões.
Todos queriam conhecer e abençoar nosso filho, e eu quase não me aguentava de tanto sorrir; estava tão eufórico como nunca estive. Acho que só estive assim quando Hinata aceitou ser minha namorada; e ainda assim, mesmo sendo a mesma emoção extasiante, era diferente e nova. Em meio aquela bagunça controlada, risadas e piadas, recordações do nosso precioso passado, nossos bebês encantavam e enfeitiçavam completamente alheios aos efeitos devastadores de sua pureza; Temari e Ino que já entravam na fase final de suas gestações, enchiam Sakura e minha Hina de perguntas e pareciam tão ansiosas, que chegava a ser cômico, as únicas que estavam tranquilas, eram Tenten e Karui, que ainda iniciavam o segundo trimestre.
— E pensar que ele seria calminho assim, achei que seria mais barulhento, irmã. — Fazendo careta, Hanabi comenta, como se aquilo fosse um erro.
— Para de implicar com meu garoto, pirralha. — Retruco, e sorrio quando penso em retribuir a gentileza — Você devia se preocupar é com o Konohamaru, ele sim era uma peste quando criança, vivia fazendo o Jutsu sexy pra pegar o pervertido do armário!
— Não lembra ela disso, Naruto-nii, a Nabi me esfola vivo. — Nervoso, Konohamaru me pede baixinho.
— Você fez o teste para ser instrutora, Nabi? — Desviando a atenção dela, Hinata pergunta.
— Sim, os resultados saem na próxima semana. — Com a maior cara de sabichona, Hanabi responde.
— Gente, e pensar que uns anos atrás, éramos nós que estávamos deixando de ser somente alunos e tomávamos um rumo na vida, e agora estamos todos aqui, casados e constituindo família. — Emotiva, Ino ressalta.
— Pois é, até o Shikamaru, vocês lembram que ele queria ser uma nuvem? — Rindo, Sakura comenta.
— Eu imagino que a preguiça é uma característica dos Nara's então, por que tenho sentido tanto sono e só pode ser culpa desse moleque. — Como se fosse para reafirmar o que disse, Temari boceja.
— A preguiça dele é bem conveniente, não é? Aparece nos trabalhos tediosos, e nos divertidos, some. — Inesperadamente, Sai comenta.
— Ino, por tudo que é sagrado, ensina o garoto de vocês a ter filtro na língua, ou ele vai apanhar direto das garotas. — Aconselho, indignado com a boca solta de Sai.
— Sakura, ela tá vazando. — Sasuke, que até então estava quieto, admirando a filha nos seus braços, afirma com uma careta.
— Como assim, vazando? Deixe ver! — Sakura imediatamente passa a examinar a filha e logo a toma nos braços — Ah, Sasuke, ela só fez cocô, é tão normal, por que você não fala?
— Por que ela é uma mocinha? Não ensina a Sarada a se comportar mal! — Inconformado, Sasuke retruca, como se ela já fosse fugir de casa por conta disso.
— Meu senhor, eu tenho dó de você, minha filha. Nunca vai ter um namoradinho. — Provocando mais, Sakura faz troça do Uchiha — Hina, posso trocá-la lá em cima?
— Claro, vamos juntas. Parece que esse rapazinho também precisa, não é meu passarinho? — Hinata pega nosso filho e entra em casa com Sakura.
Minha doce Hinata estava brilhando, tão linda e amável, seus belos olhos transbordando amor, e ainda quando estava cansada, por ainda estarmos nos adaptando e criando uma rotina, seu sorriso não diminuiu nem um pouco; hoje, se eu pudesse voltar no tempo e encontrasse meu eu moleque e desesperançado, diria a ele para nunca desistir e contaria que chegaria um dia em que ele teria a mulher mais linda, mais amorosa e especial do mundo como esposa, que ela lhe daria a família que seu coração tanto anelava e que sua vida seria perfeita.
— Eles até sujam a fralda juntos. Coitado do seu garoto, Naruto; o sogro dele não vai ser tão gente boa quanto o seu. — Sou tirado da minha contemplação da felicidade por uma piada que ocorria muito ultimamente, feita por Kiba dessa vez.
Desde que o pessoal descobriu que os dois nasceram juntos, no mesmo instante, estão fazendo essa brincadeira, eu não dou muita atenção, já que sei que é só pirraça, afinal, eles são só bebês e tudo que querem saber é de leite e sono; Sasuke por outro lado, descobrimos que será um pai muito ciumento e ele fica espumando cada vez que alguém comenta algo do tipo, então, fica muito triste e começa a chorar do nada, dizendo que nunca vai entregar sua garotinha a nenhum moleque catarrento.
— Quando o Sasuke deixar vocês carecas, não reclamem. — Eu aviso, não querendo entrar no meio hoje.
— Mas convenhamos, foi, no mínimo, inusitado, não? Elas estavam nos contando ontem, que cada vez que a Shizune tentava afastar as duas, uma dor horrorosa tomava conta e até os sinais vitais ficam desregulados. — Tenten ressalta.
— Eles são amigos, como todos nós. — Respondo, não vou dar importância a coisas que eu não tenho como saber ainda — Você mesma disse, Tenten, a pequena Mahi mexe quando você está perto da Sarada e da Karui, por causa da Chouchou; eu estou ficando preocupado com o coitado do Iruka-sensei, quando toda essa molecada começar na Academia.
De repente, no meio do jardim, uma enorme nuvem de poeira foi vista e, logo, todos nós vimos o Lee correndo em nossa direção, parecendo mais eufórico e agitado do que nunca, e, quando estava a centímetros de mim, para com os olhos chorosos e arregalados; pensei que fosse por algum problema sério, até que Lee sorriu radiante.
— Eu vou ser pai! — Ele grita alegríssimo — Também vou ser pai!
— Ah, parabéns, Lee! Fico imensamente feliz por vocês, e onde está a Aya-chan? — Procuro com os olhos, mas não há nenhum sinal dela.
— Eu vim correndo para contar, agora tenho que voltar e cuidar dela, até pessoal! — Tal qual havia chegado, Lee volta correndo e logo some de vista.
— Cara, vamos segurar um pouco o próximo censo? Se a gente continuar tendo filhos assim, vamos precisar fazer um a cada ano. — Shikamaru comenta e seu tom faz parecer mais uma premonição do que uma brincadeira.
Muito mais tarde, quando todo o pessoal vai embora e estamos sós, Hinata e eu ainda permanecemos no jardim, dessa vez apenas Kurama permanece conosco, como se velasse por nós; eu me sento na grama já quase desbotada de outono, minha amada Hinata ao meu lado, como todas as vezes, como sempre seria, e nosso bebê bem acordado em meu colo. A semelhança de Boruto comigo é assustadora, ele herdou meus cabelos, meus olhos, e até minhas marcas de nascença, e o que torna nosso filho uma mistura perfeita de nós, é que ele também herdou muitos traços de Hinata; como a forma dos seus olhos, a delicadeza nos contornos do seu rosto, o mesmo nariz arrebitado, e principalmente, a tranquilidade dela.
— Filho, hoje eu vim te apresentar alguém muito importante da nossa família. — Começo, no peito, uma mistura de saudade e amor que nunca me abandona — Katsu, esse é o Boruto, seu irmãozinho mais novo!
— Seu Otousan diz que Boruto se parece muito comigo, mas acredito que somente nós sabemos a verdade, não é, Katsu? — Sorrindo, Hinata parecia saber um segredo que eu não — Você vai ser um ótimo irmão mais velho, não vai, borboletinha? Não dê muito trabalho ao vovô e à vovó e conte por nós a Jiraya-sama que seu Otousan logo será o Nanadaime Hokage!
— Conte também, filho, que sua Okaasan é a maior líder Hyuuga de todos os tempos, a primeira a conseguir reverter tradições muito erradas, conte que o nome da sua linda Okaasan está sendo impresso nos livros de história. — Peço, sorrindo grande, sabendo que Hinata ficaria encabulada, mas não reclamaria nada, não ali no meio do nosso encontro com nosso primogênito.
Como sempre acontecia, quando estávamos ao pé do jasmim, uma agradável brisa sopra, é tranquilizante, acalentadora e, como sempre, eu tenho a impressão de ouvir uma gostosa gargalhada; sentindo as lágrimas querendo escapar dos meus olhos, fito Boruto, que esteve quietinho até há pouco, mas agora balançava as mãozinhas, olhando fixamente o pé de jasmim. Ao meu lado, o sorriso de Hinata era o mais lindo do mundo, um sorriso cheio de serenidade e amor, o mesmo que a vi dedicar a Boruto desde que ele nasceu, mas ela também fita carinhosamente o pé de jasmim. Então, seus belos olhos de lua se voltam para mim, transbordantes de lágrimas e tantos sentimentos que nem consigo começar a decifrar; meu coração para, como costumeiramente, me sinto ser elevado e arrancado de mim, recordo ter sentido isso a primeira vez quando ainda era só um moleque estúpido, e essa sensação desgarradora veio se repetindo incontáveis vezes durante os anos, e tenho a certeza de que acontecerá mais uma infinidade de vezes ainda. Esse tremor nas pernas, o suor descontrolado das mãos, e o frio na barriga enquanto o coração volta a bater desenfreado, é o que sinto a cada vez que me apaixono por Hinata; e como poderia não amá-la? Acho que, mesmo se eu continuasse sendo um idiota estúpido, alguma hora acabaria descobrindo a verdade que esteve diante dos meus olhos. Não importa quantas vidas eu viva, quantos mundos existam, nem quantos anos passem, eu sempre vou amar Hinata, sempre terminarei amando-a.
***
11 anos mais tarde, aniversário de Boruto e Sarada.
— Corre, Boruto, eles estão chegando. — Sarada me puxava pela mão.
Não entendia por que a Okaasan ainda fazia essas festas cheia de criancinhas, e para piorar tudo, minha festa era sempre junto com a de Sarada, depois que fazemos aniversário, todo mundo fica zoando a gente por um bom tempo; e para complicar as coisas, Sarada agora está muito chata e mandona, sempre quer as coisas do jeito dela, sempre dita como tudo tem que ser.
— Sem dar as mãos. — De repente, o tio Sasuke aparece e nos separa.
— Otousan! — Ela começa rapidamente a reclamar — Que coisa irritante!
— Eu não fiz nada. — Me defendo, antes que acabe envolvido.
— Verme, deixa as crianças brincar. — Meu Otousan nos salva — Vão logo, seus amigos já chegaram.
Vejo meu Otousan entregando um ramo de flores para a minha Okaasan, sorrindo todo abobalhado para ela, que deixa tudo que estava fazendo de lado, para dar a ele um abraço, como sempre faziam quando ele chega em casa; toda vez é assim, meu Otousan vai primeiro até onde minha Okaasan está, não importa se a Hima e eu estamos bem diante dele, sempre ela é a primeira, depois ele nos busca. Conforme crescemos, minha irmãzinha e eu aprendemos a esperar nossa vez com paciência; a tia Sakura disse que nosso Otousan não vive sem a nossa Okaasan e, por isso, eles são assim. Todos tem muito respeito por meu Otousan, todos os amigos dele, vejo que eles tem uma enorme amizade e que se dão muito bem, mas todos eles se comportam como se ele fosse a autoridade; sei que ele é, afinal, meu Otousan é ninguém menos que o Nanadaime Hokage, mas entre todos os meus tios e tias, parece haver um algo mais, é diferente do respeito solene que as pessoas da vila sentem por ele.
Outro dia, quando a tia Sakura contou que está esperando um bebê, uma coisa muito estranha aconteceu, o tio Sasuke que é sempre sério e fechado, começou a chorar e pedia desesperado para ela não ir adiante. Me pergunto, ir adiante com o que? Lembro que as coisas ficaram muito tensas e a tia Sakura estava muito triste e minha Okaasan me disse que ela estava magoada e o tio Sasuke estava com muito medo do passado dele; foi quando meu Otousan chegou, e nesse momento, todos se afastaram deles imediatamente, e eu vi como meu Otousan fez o tio Sasuke entrar em razão; o tio Sasuke sempre pareceu a pessoa mais forte que eu conhecia, essa força emanava dele, em compensação, meu Otousan é tão tranquilo e amável, que eu nunca pensei que ele pudesse deixar o tio Sasuke naquele estado. Depois disso, minha Okaasan cuidou deles, que passaram quase uma hora conversando sozinhos ao pé do jasmim, e então, o tio Sasuke saiu procurando a tia Sakura em desespero, ela já tinha ido embora com a tia Ino e a tia Tenten; uns dias depois, vimos eles bem novamente, e o tio Sasuke, sempre frio, abraçou meu Otousan agradecendo.
— Mahi, Chouchou. — Animada, Sarada avista minha prima e a nossa amiga.
Logo, Shikadai, Inojin e Metal Lee estão conosco, e antes que eu perceba, o jardim da minha Okaasan se enche de gente, nossos tios todos, o tio Kakashi, o vovô Iruka, o vovô Hiashi, o tio Konohamaru e a tia Hanabi traziam o pequeno Hiruzen, ele mal engatinhava direito, mas queria seguir a Himawari por todo canto, e quando se juntava com o Hizashi com seus completos quatro anos, a coitada da Hima era atacada impiedosamente por nossos primos; dessa vez, até mesmo o tio Gaara estava presente, e trouxe os primos do Shikadai também, então, havia tantas crianças naquela casa, que poderia ser confundida com uma escola.
— Hima, não corre. — Himawari corria com seu inseparável ursinho, e mal fechei a boca, ela tropeça.
Antes que eu consiga fazer alguma coisa, Inojin segura a Hima pelos ombros, impedindo que ela caia, e apesar de estar agradecido, não gosto nada do sorrisinho cínico dele.
— Deixa que eu cuido dela agora, obrigado, Inojin. — Digo, examinando se ela não chegou a ralar os joelhos.
— Eu fiz pela Hima, como é que essas bochechas parecem tanto um mocchi? — Ele retruca e aperta as bochechas dela.
— Ei, tira essa mão! — Dou um tapa na mão dele.
À nossa volta, os outros riem e Shikadai diz que agora eu sei como o tio Sasuke se sente; mas do que ele tá falando?
— Nii-chan, a Okaasan disse que a mesa tá pronta. — Hima fala, sorrindo grande como nosso Otousan.
— Que é isso que você tem aí? — Pergunto, vendo uns girassóis escondidos pelo urso dela.
— O Otousan me deu, ele comprou para a Okaasan e para mim. — Hima conta felicíssima.
Então recordo uma coisa que meu Otousan me ensinou, ele disse que em lugar de ficarmos ciumentos e brigarmos pelas amizades da Hima, a gente tinha que ensinar a ela como deve ser tratada, e assim a Hima nunca aceitaria menos do que isso; quando ele me disse, eu não entendia, mas agora faz muito sentido, e o Otousan tem trabalhado nisso desde que me lembro, ele mimou tanto a Hima, que as vezes nem eu tenho paciência com ela.
— E como foi o início das aulas? — Meu Otousan perguntava ao vovô Iruka.
Nesse momento, estávamos todos voltando para dentro de casa para almoçar, e Sarada e eu congelamos, eu tentava pensar em alguma coisa para chamar a atenção dos adultos, sinalizava para o pessoal nos ajudar, mas eles não pareciam querer; na verdade, estavam rindo aberta e zombeteiramente.
— Ah, foi bem tranquilo, todos querem seguir os passos dos pais e se tornar esplêndidos ninjas. — Rindo, o vovô Iruka ia contando e eu sei o que vem a seguir — E, tirando o fato de a velha história da Academia se repetir, tudo está indo bem.
— Que velha história? — Tia Sakura pede e, pelo sorriso sem vergonha que dá, tenho certeza de que ela sabe.
— Aquele acidente entre um Uzumaki e um Uchiha, bem, dessa vez foi uma Uchiha. — O vovô conta gargalhando.
Muitas coisas acontecem juntas, os nossos tios caem na gargalhada, minha Okaasan consola meu Otousan que teve uma crise de ânsias de vomito, a tia Sakura segura o tio Sasuke no lugar; mas é enquanto os nossos amigos começam a gargalhar e fazer troça, que o pior acontece.
— Aí, aiaiaiaia, Sarada, solta, solta... — Sarada apertava a minha mão com tanta força que eu já ouvia alguns estalos.
Os adultos param de rir e correm me ajudar, antes que eu fique sem mão, e depois de muito consolo e palavras alentadoras dizendo que foi um acidente, que estava tudo bem, finalmente voltamos ao normal; é claro que eu evitei deixar que Sarada segurasse minha mão outra vez, só por precaução. Minha Okaasan diz que a primeira vez que Sarada quase me quebrou, foi quando a gente tinha dois anos, parece que eu fiz uma pirraça e tomei algum brinquedo dela, e no momento seguinte, estava atirado no chão; desde então, os adultos passaram a ter muito cuidado com a gente, e com o tempo, eu também aprendi a não provocar situações em que posso terminar com fraturas.
— Tudo bem? — Estava deitado na cama, examinando minha mão, quando o Otousan entrou no meu quarto.
Todos os dias da minha vida, ele sempre me colocou para dormir, a Okaasan diz que até mesmo quando era um bebê e passava o dia inteiro agitado, bastava estar no colo do Otousan para eu dormir; ela diz que isso acontece por que ele nos deixa seguros, que a presença do meu Otousan é o que nos dá tranquilidade para poder dormir, por que sabemos inconscientemente que com ele aqui, nada vai acontecer, e se acontecer, ele resolve. Ontem, durante uma aula de história na Academia, um dos nossos senseis contou sobre os feitos dos maiores Shinobis das eras, e eu fiquei muito surpreso quando os nomes dos meus pais foram revelados, mas tinha um outro que chamou minha atenção; os nomes dos nossos tios também estavam naqueles livros, como os aliados da Força Shinobi, que lutou na Quarta Guerra Ninja, e eu fiquei muito mais curioso, quando perguntei ao vovô Iruka e ele me disse para perguntar aos meus pais com a expressão mais triste que já vi em seu rosto. Todo o orgulho que estava sentindo durante a aula, quando ouvi que meu pai foi o herói que salvou o mundo, que ele e minha mãe comandaram exércitos e enfrentaram inimigos poderosos e venceram com tão somente dezesseis anos, se esvaiu um pouco quando vi aquela expressão; era a mesma expressão que meus pais mostravam, quando por vezes eu os via ao pé do jasmim a noite, e havia um dia em especial que os dois ficavam extremamente melancólicos. Era sempre no dia do aniversário do meu pai, o dia em que o mundo comemorava o fim da guerra, e havia um bonito festival acontecendo, e eles sempre ficavam em casa, e apesar de esse ano terem permitido que eu saísse com meus amigos, pareciam mais tristes ainda por eu não estar junto da família; foi por isso que decidi ficar em casa, soube sem que ninguém precisasse dizer, que meus pais precisavam de mim, e agora, vendo o rosto enternecido do meu pai, examinando preocupado a minha mão, eu sei que posso perguntar.
— Otousan, quem é Uzumaki Katsu? — Peço baixinho, por algum motivo, meu coração pulava no peito.
Os olhos dele arregalam e logo aquela expressão toma conta do seu rosto, na penumbra o meu quarto, podia ver como seus olhos ficaram marejados, e eu estava tão concentrado na resposta que obteria, que nem vi minha mãe atrás dele; e como os vi fazendo inúmeras vezes, minha mãe passa seus braços pelos ombros do meu pai, ela mal consegue rodeá-lo, mas faz assim mesmo. Quando eles me olham, com os mesmos rostos amorosos de sempre e um sorriso indecifravelmente triste, eu sinto que vou ouvir algo que vai mudar muitas coisas.
— Uzumaki Katsu é seu irmão mais velho, Boruto. — Meu Otousan responde e sua voz soa tão dolorida que eu sinto vontade de chorar.
— Por que eu nunca o vi? — Com medo da resposta, me obrigo a perguntar.
Muitas coisas começam a fazer sentido, coisas ressentes e coisas passadas, minha Okaasan sempre me chamou de seu passarinho, enquanto a Himawari era sua abelhinha, nomes carinhosos que segundo nosso Otousan, ela nos deu durante a gestação, e as vezes quando contava histórias de quando estava grávida, minha mãe deixava escapar que a Hima e eu fomos muito diferentes e em alguns pontos, iguais a sua borboletinha; e na aula de ontem, o que me intrigou com o nome, foi que não havia uma foto acima do nome no livro, somente uma data, a data do dia do festival e do aniversário do meu pai.
— Seu irmão, infelizmente, morreu na guerra, meu filho. — Com o rosto banhado de lágrimas, minha mãe explica, com as duas mãos na barriga.
— Por que? — Eu não conseguia entender, tudo estava tão sufocante e confuso.
— Com calma, outra hora nós te explicamos tudo. — Pesaroso, meu pai conforta a mim e a minha mãe com um abraço — Por ora, você só precisa saber que Katsu é seu irmão, um grande herói do mundo ninja, e que assim como você e a Hima, sua mãe e eu o amamos muito, mesmo que tenhamos tido tão pouco tempo juntos!
Foi tão estranho e ao mesmo tempo bom, quando nós três permanecemos abraçados por intermináveis minutos, e pela primeira vez desde que deixei de molhar a cama, eu chorei e acompanhei meus pais em suas lágrimas; não entendia como, mas sentia uma enorme tristeza e imaginava como eles dois conseguiam suportar aquilo. Quando estou mais tranquilo, eles me colocam para dormir e vão fazer o mesmo com a Hima, e apesar de estar cansado do dia, não conseguia pregar o olho, com tantas dúvidas povoando minha cabeça; mais tarde, quando já era quase madrugada, ouvi vozes no jardim e quando olhei pela janela, meus pais estavam ao pé do jasmim outra vez, eles conversavam entre eles e também os via falar à planta. Fiquei mais confuso ainda, tratei de dormir, mas foi impossível, eu apenas me revirava de um lado a outro na cama, finalmente cansei e decidi descer e fazer um leite quente, para ver se o sono vinha; foi quando o vi, passando pela porta de correr da sala de visitas que estava aberta, Himawari corria do lado de fora, gargalhando e brincando com um garoto maior, instintivamente eu corri para me interpor entre eles.
— Quem é você? O que está fazendo aqui? — Tentei alcançar Himawari, mas ela se afastou e parecia brava comigo.
— Não corra assim, Boruto, você vai cair. — O garoto chama meu nome e me surpreendo tanto que realmente tropeço.
Antes que eu bata a cara no chão, ele me segura pelos braços e me coloca em pé novamente, era muito mais alto que eu, parecendo ter uns quinze anos, seus cabelos bagunçados eram estranhamente familiares para mim, apesar de serem tão negros como a noite; e eu realmente entrei em choque, quando vi os risquinhos em suas bochechas e seus olhos, impressionantemente azuis. Todo mundo sempre dizia que Hima e eu temos os olhos do nosso pai, mas eu sempre achei que eram mais claros, a única pessoa que eu sabia, tinha olhos idênticos, era o vovô Minato; mas aquele garoto tão igual e tão diferente de mim os tinha também, olhos azuis como um oceano, e quando ele me sorriu até se fecharem, eu soube em meu coração quem era.
— Onii-chan... — Com uma emoção abrumadora, o abracei.
— Ei, calma, está tudo bem, Boruto, tudo está bem. — Me abraçando de volta, Katsu sussurra — Não fique assim, eu preciso que você esteja bem para me ajudar a curar o papai.
— O que foi que aconteceu? — Entre o choro, eu pergunto e sinto a Hima abraçando nossas pernas.
— Era a guerra, Boruto, coisas ruins acontecem, e eu espero que nenhum dos dois tenha que saber o que é isso nunca! — Sua voz era tão reconfortante quanto a do nosso pai — O papai ainda se culpa muito, e a mamãe, apesar de sentir saudade, sabe que estou bem; mas hoje eu vim para ver vocês, cresceram tanto.
— Onii-chan, cadê a vovó e o vovô? E o Jiji? — Hima pergunta, me deixando confuso.
— Eles vêm me buscar mais tarde. — Katsu conta e a fita amorosamente — Hima, eu acho que não vou conseguir vir de novo, mas prometo que vou cuidar de vocês mesmo longe, e um dia, estaremos todos juntos, está bem?
— Você já veio antes? — Me dou conta de que Himawari sabia muitas coisas que eu não sabia.
— Claro, eu vi quando vocês nasceram, o Ero-Sennin, nossos avós e eu vimos quando o papai virou Hokage, vimos o casamento dele e da mamãe. — Sorrindo brilhantemente, ele conta — Sempre estivemos olhando por vocês, mesmo que não nos vissem; menos a Hima, ela é tão sensitiva quanto a mamãe.
— Por que nunca vimos? — Peço um pouco inconformado, eu gostaria de tê-lo visto antes.
— Como a mamãe diz, ainda não era o momento, mas agora vai ficar tudo bem. — Katsu afirma e olha para o horizonte, já ficando alaranjado — Vocês devolveram a alegria da nossa família, confortaram nossos pais e por isso, já não preciso me preocupar.
— Isso é tão injusto! — Ainda não conseguia compreender.
— O mundo é injusto, Boruto, e cabe a homens bons como nosso pai mudar isso, mesmo que custe muito! — Com uma mão bagunçando meus cabelos, meu irmão afirma — Aprenda do nosso pai, seus valores, seu caráter e sua determinação, e da nossa mãe, mantenha a gentileza, a compaixão e a empatia, e tenho certeza de que você se tornará um grande homem!
Estávamos os três abraçados, sentados na grama do jardim, quando outros se juntam ao nosso abraço, dessa vez vejo rostos conhecidos, nossa linda vovó Kushina, o vovô Minato, e aquele homenzarrão que meu pai amava tanto, Jiraya; estávamos tão entretidos em conhecer e aproveitar aqueles quatro, que eram uma parte inestimável da nossa família, que não notamos nossos pais saindo ao jardim atrás de nós, quando íamos nos despedir deles. Quando ouvi um engasgo angustiado, vi nosso pai chorando a cântaros, enquanto nossa mãe sorria docemente. Foi então que eu entendi que ela já sabia; Katsu se afasta de nós e, cheio de carinho e admiração, abraça nosso pai.
— Está tudo bem, Otousan! — Quando Katsu o conforta, escuto seu choro se transformar em um uivo — Eu estou crescendo bem junto do vovô e da vovó, e prometo que não aprendi nada indevido com o Ero-Sennin. Você é tão linda, Okaasan!
— Meu lindo menino, tão valente e forte! — Nossa mãe enche seu rosto de beijos enquanto eles ainda estão abraçados e, mesmo chorando e trêmula, demonstra seu amor.
Somos abraçados novamente, dessa vez, todos juntos, com nossos avós, nossos pais, Jiraya e meus irmãos. Permanecemos ali, naquele abraço que cura, transmite amor e acalenta, até que nosso breve tempo juntos se esvaneça; quando o dia amanhece, os quatro se despedem, prometendo que um dia estaremos todos juntos e, como se fosse um sonho, desaparecem.
— Você sempre soube, não é, meu anjo? — De repente, meu pai pergunta à minha mãe.
— Eu sou a mãe deles, meu amor, tudo que acontece com meus filhos, eu sei! — Abraçando-nos a todos, mesmo com os braços pequenos, minha mãe responde.
— Você está bem, Boruto? — Como sempre, ele se preocupava conosco, mesmo quando seu coração estava despedaçado.
— Estou preocupado, não sei como responder à prova sem tirar zero. — Respondo, decidindo fazer pelo nosso pai, o que ele faz por nós — Mas acho que Shino-sensei vai considerar minha resposta, afinal, Katsu onii-chan é um dos heróis do mundo ninja!
Nossos pais sorriem, ainda que houvesse dor naqueles sorrisos, a alegria e o orgulho também estavam ali, e por mais que fosse difícil de compreender, nossa família solidamente alicerçada no amor, conseguiria ir adiante outra vez; como já amanhecia mesmo, ficamos ali no jardim, ao pé do jasmim, que agora eu sei, é a morada de descanso do meu irmão, ouvindo Himawari tagarelar animada, dizendo que ela tinha os melhores irmãos mais velhos. Enquanto o sol iluminava Konoha, eu soube que eu prezaria muito mais minha família, meus amigos, tudo que tenho e que protegeria essas dádivas de ser necessário; pois, depois de saber quanto sacrifício foi necessário para essa paz, não vou permitir que nada manche o precioso legado dos meus pais, do meu irmão, e espero ter a mesma coragem altruísta deles, que são as bússolas da minha vida.
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