O Despertar dos Sentidos LIVRO 1

12 11 - O Segundo Encontro E O Primeiro Beijo


Simone pensa em Cesar com tristeza em seus olhos. Eduardo senta-se e pega as mãos da amiga:

— Sei que é difícil, mas você precisa ter forças para superar esse sentimento.

— Se não consegui superar até hoje, acha mesmo que algum dia irei superar? – ela encara o amigo contraindo os lábios.

— Bom. De uma coisa eu sei! Para curar um grande amor, só mesmo com outro grande amor! Aceite o convite do Júlio para jantar.

— Não sei. Acho melhor não dar falsas esperanças. – a ruiva balança a cabeça negativamente.

— Por favor, minha rainha! É só um jantar e nada mais! Será bom para você, afinal vai poder se distrair um pouco. – Eduardo mostra-lhe um grande sorriso.

— Tudo bem. – se dá por vencida — Já que você insiste tanto, vou ligar para ele.

Simone pega o telefone, liga para a presidência e Júlio, que já se encontra só, atende no segundo toque:

— Alô.

— Oi, Júlio, é a Simone.

— Oi! – responde abrindo um grande sorriso ao ouvir a voz da ruiva — Em que posso ajudá-la?

— O convite para jantar ainda está de pé? – olha para Eduardo que sorri e faz sinal de positivo.

— É claro! É só dizer que sim e nós iremos. – se levanta da poltrona de Camila.

— Então, você pode passar pelo meu hotel por volta das oito da noite.

— Como hoje é sexta-feira, que tal se, além de jantarmos, irmos dançar em alguma boate. Aposto que você não conhece a vida noturna de São Paulo que é maravilhosa. – o moreno vibra, silenciosamente, com a mão livre, seu sorriso vai de orelha a orelha.

— Realmente, você acertou. Não conheço. – responde timidamente.

— E então? Vamos?

— Ok. Aceito seu convite e o aguardo no hotel, às oito.

— Estarei lá às oito em ponto! – ele vibra novamente.

Os dois desligam o telefone, Eduardo fica ansioso em saber o conteúdo da conversa.

— O que falaram?

— Que horas são agora? – pergunta Simone.

— São quatro e quarenta e cinco. – Eduardo responde olhando para o relógio no pulso.

— Vamos para o meu hotel agora, Dudu.

— Por quê?

— Ele me convidou para irmos para uma balada depois do jantar. Quero que me ajude a escolher uma roupa. – Simone pega sua bolsa ao se levantar.

— Com todo o prazer do mundo irei ajudar minha chefinha! – diz batendo palmas e sorrindo — Vai ficar mais linda do que já é!

Os dois saem da sala, encaminham-se diretamente para a garagem.

Ao saírem do prédio da Miranda, seguem direto para o hotel, porém sem perceberem que dois carros os seguem não muito distantes.

(***)

Sobre a capa, Simone coloca todos os vestidos, alguns casacos, três bolsas, duas carteiras e outros acessórios para Eduardo ajudá-la a escolher. São tantos modelos, cores e tamanhos que ele fica perdido:

— Simone, assim não aguento! É tanto vestido e um mais lindo que o outro! Não sei qual escolher!

— Vai ter que escolher porque foi você que me colocou nessa. Lembre-se que eu não queria sair! Enquanto isso, vou tomar banho. Preciso lavar o cabelo e escová-lo, pois, se deixar secar ao natural, vai virar uma juba de leão.

— Ok. Se quiser te ajudo a secar seu cabelo.

— E vai me ajudar mesmo. – ela mostra a língua, depois sorri para ele.

— Mas antes tenho uma pergunta. – Eduardo olha para os vestidos e coça a cabeça.

— E qual é?

— Por que, praticamente todos seus vestidos têm gola em "V"? Você não tem nenhum mais fechado?

— Não tenho porque odeio roupa apertando meu pescoço. Me sinto mal!

— Entendi! Agora vai tomar banho logo. – ele empurra a amiga até o banheiro fazendo-a rir.

Simone entra no recinto, fechando a porta em seguida. Eduardo começa a olhar vestido por vestido para encontrar aquele que será o perfeito.

Vinte cinco minutos depois a ruiva sai do banheiro enrolada em uma toalha branca, além de outra enrolada na cabeça, com Eduardo a esperando impacientemente:

— Finalmente! O que estava fazendo? Se depilando? – ele fala piscando o olho para ela com um sorriso malicioso.

— Deixa de ser bobo! E então, qual você escolheu?

— Este!

Eduardo lhe mostra um vestido Triton preto, detalhe de abertura nas costas e parte inferior em tecido fluído. Modelagem evasê com decote arredondado, confeccionado em viscose e elastano.

— Este vestido não vou usar! – ela balança a cabeça em negativa.

— Por quê?

— Você viu como mudou o tempo? Está frio!

— Quem disse que você vai usá-lo sozinho? Você vai usar com esse casaco vinho que tem essas lindas lapelas decorativas nos ombros. A modelagem dele é bem acinturada, você não vai sentir frio por causa das mangas longas e esse fechamento por botões, o que na verdade, pode deixá-lo fechado ou aberto, fica lindo das duas formas.

— Tem certeza? – Simone pega o vestido e olha para o casaco.

— É claro! Vai ficar divina se usar esta bota preta de salto agulha, que é lindíssima com esses recortes metálicos e essa ponteira também metálica. E seu look vai ficar completo com essa clutch preta de alça e fivela metálicas, que vai combinar com esse brinco prateado com detalhe de strass na superfície e franja de correntes.

— Nossa! Você planejou o look inteiro! Gostei de tudo que você escolheu.

— Ah... sim! Já ia me esquecendo! Você vai colocar essa meia-calça fio oitenta na cor preta que vai ajudar a segurar o frio também.

— Ok. Já que insiste. – sorri — Mas antes de me vestir, seca meu cabelo porque sinto muito calor com o secador.

— Sim senhora, madame! – faz uma reverência exagerada fazendo-a gargalhar.

Simone senta-se na cama, de costas para Eduardo, porém antes que pudesse soltar o cabelo da toalha, ele se assusta com algo que vê:

— O que é isso? Uma tattoo?

— Sim! São minhas asas! – responde com um sorriso travesso nos lábios.

— Quando você fez? Porque se me lembro bem, da última vez que te vi, não tinha ela.

— Foi em dezembro do ano passado. Doeu pra caramba fazer ela toda! – Simone faz uma careta.

— Disso eu sei. Até aonde ela vai? – Eduardo analisa as costas da amiga com curiosidade.

— Até um pouco acima do quadril! Você quer ver?

— É claro!

Simone solta a toalha, a faz deslizar lentamente até a altura citada.

— Nossa! É linda! E pega quase as costas inteira! Aí... se eu tivesse coragem! Você sabe que só fiz uma borboleta pequenina?

— Sei! Mas, além de coragem, tem que ter tempo! Demorou bastante para ficar pronta.

— Ok. Agora, vamos aos cabelos. Vai se preparando porque vou esticar bem essas madeixas vermelhas!

— Certo. – resmunga pensando na dor que ele lhe causará.

Uma hora e meia depois, Simone sai do banheiro totalmente vestida, penteada e maquiada.

— Maravilhosa! – Eduardo começa a bater palmas quando a vê — Espetacular! Merece tirar uma foto!

— Deixe de exageros, Dudu. – sorri timidamente.

— Ahhhhhh! Deixe-me tirar algumas fotos sua? – ele faz biquinho.

— Ok. – diz revirando os olhos.

Eduardo tira uma câmera digital de sua bolsa, tira várias fotos de Simone sozinha fazendo "caras e bocas" e também deles dois juntos.

— Vou postar essas fotos no meu Orkut amanhã. – ele murmura admirando o resultado das fotos.

O telefone toca, Simone o atende no segundo toque:

— Alô.

— Senhora Simone. O senhor Júlio está aqui.

— Diz que já vou descer. Muito obrigada. – desliga o aparelho voltando sua atenção para o amigo – Dudu, ele já chegou.

— Nossa! Mas, ainda é sete e meia!

— Pois é. O que você acha? Desço já? – Simone o encara atentamente.

— Deixe-o sofrer um pouquinho. Você só vai descer às oito que foi a hora que marcou!

O tempo passa devagar, a ruiva começa a ficar ansiosa andando de um lado para o outro do quarto. Ela senta na beirada da cama, um minuto depois se levanta, recomeçando a andar pelo aposento. Observa o horizonte noturno pela janela, Eduardo tenta acalmá-la, mas sem sucesso algum.

— Que horas são? – ela pergunta pela terceira vez.

— Faltam quinze minutos para as oito!

— Vou descer, agora! Não quero fazê-lo esperar mais, afinal já estou pronta mesmo.

Eduardo suspira, revirando os olhos:

— Ok, vamos descer. Que mulher mais ansiosa, até parece que ele vai fugir!

Os dois saem do quarto, em seguida surgem na recepção onde Júlio a aguarda sentado em um dos sofás. Ele se levanta ao ver Simone e Eduardo se aproximando, se surpreende por vê-los juntos, porém não dá muita importância, pois seus olhos se distraem pela beleza de Simone.

— Oi, Júlio. – a ruiva cumprimenta-o dando-lhe um beijo em sua bochecha.

— Oi, Simone. Está maravilhosa, como sempre. – responde com um sorriso deslumbrante que a faz prender a respiração por alguns segundos.

— Oi, Júlio! – Eduardo o cumprimenta empolgado, faz um movimento de também dar um beijo no rosto de Júlio.

— Não vêm que não têm! – Júlio se afasta para evitar o beijo, então pega na mão dele — Olá, Eduardo.

— Hum... foi só uma brincadeirinha para distrair, seu bobo. – Eduardo ri, Simone começa a rir com o amigo, por fim o playboy também ri da situação.

— Ok. Já fiz minha brincadeira do dia, agora vocês dois vão e divirtam-se. – Eduardo murmura ao abraçar Simone.

— Você quer vir conosco? – Júlio pergunta, apesar de recear que aceitasse.

— Muito obrigada, mas, não! Também tenho um encontro hoje com um ser espetacular. Por isso... fui! – responde ainda abraçado à amiga.

Eduardo beija o rosto de Simone, sai rapidamente do hotel seguido pelos dois.

Júlio abre a porta do carro para a executiva, em seguida também entra e logo eles partem em direção a Mooca sem perceber que estão sendo seguidos.

(***)

A noite começa pelo restaurante italiano da família de Carmella. Um restaurante aconchegante todo decorado com toalhas, objetos que lembram a Itália e as cores de sua bandeira. Frequentado por pessoas comuns e também por pessoas importantes da cidade de São Paulo.

O restaurante é cuidado pelo senhor Lorenzo Andreatta, cinco anos mais jovem que Carmella, alto, um pouco obeso, barriga um pouco protuberante, olhos num tom de azul profundo, cabelo bastante grisalho, barba perfeitamente cuidada. Como sua irmã, não nega sua origem de sangue quente. Ele cuida do estabelecimento junto com seus três filhos; Geovana, Luigi e Enrico Marconi Andreatta, além de sua esposa Paola Marconi Andreatta que é a grande mestra da culinária italiana, assim como a única filha de Carmella, Donatella Andreatta Galeone, que auxilia Paola na cozinha.

Júlio cumprimenta o irmão de Carmella, o apresenta para Simone. Lorenzo os leva a uma mesa para dois e faz questão dele próprio atendê-los, dispensando o filho Luigi. O italiano traz a carta de vinhos e o cardápio para o moreno escolher. Simone aprova todos os pratos que Júlio pede, assim como o vinho que acompanha a refeição.

A conversa entre Júlio e Simone começa com ele perguntando sobre a vida dela no Rio de Janeiro e de sua filha. O moreno se encanta com o olhar da ruiva ao falar da saudade que já sente da Cidade Maravilhosa, mas principalmente da saudade de sua filha. Simone conta todos os detalhes da personalidade de Ângela deixando-o morrendo de curiosidade de conhecê-la pessoalmente.

Depois do jantar, Júlio a leva em uma boate para dançarem. Entre danças, risadas e drinks, conversam sobre cinema e filmes famosos que eles gostam, assim como de filmes que não gostam. Dessa forma, as horas passam rapidamente.

— A noite está muito agradável, mas já está tarde, é melhor nós irmos. – Simone murmura no ouvido de Júlio por causa do som alto.

— Ahhhhh! Por quê? Nós não vamos trabalhar amanhã. – ele pega a mão dela e faz biquinho.

Simone acha graça da expressão dele. O DJ coloca uma seleção de músicas românticas da década de 90, ela se empolga ao ouvir tais músicas, então o moreno a convida para voltar a dançar, assim os dois retornam para a pista de dança. Júlio a abraça, começa a dançar, a ruiva fica um pouco hesitante no começo, mas logo aceita, porém permanece um pouco distante. Depois de um rodopio que ele a faz dar, a puxa mais para si, ela ri e acaba por não se importar com a proximidade de seus corpos.

Durante a dança, Simone encosta sua cabeça no peito dele, fecha os olhos deixando a música entrar em sua alma para ficar gravada em sua memória esse momento especial. Então, abre os olhos e vê uma figura muito familiar em um dos cantos escuros da boate, ela levanta a cabeça, comprime os olhos tentando visualizar melhor, "Acho que estou vendo coisas, mas parece ser o Rick.", pensa. Tem dúvidas se realmente viu o executivo, pois as luzes piscantes, iluminam o local em alguns breves momentos. A ruiva interrompe a dança e se afasta de Júlio:

— O que foi, Simone?

— Nada. – ela olha para Júlio, hesitante — Preciso ir ao banheiro. – segue em direção ao toalete, enquanto o moreno volta para a mesa.

Caminha para o banheiro com a cabeça baixa, "Mas se for o Ricardo, o que poderia estar fazendo ali. Será que ele está me seguindo? Não! Deve ser só a minha imaginação.", reflete.

De repente, bem próximo do banheiro, um vulto para em sua frente impedindo-a de seguir. Simone levanta a cabeça e se assusta. Parado na sua frente, Cesar a encara com um olhar gélido. Ele se aproxima, murmura ironicamente em seu ouvido:

— Está se divertindo?

— Não te interessa! Deixe-me em paz, por favor! – grita irada empurrando-o.

Simone entra no banheiro, para em frente ao espelho sem prestar atenção nas outras mulheres e suas conversas. Paralisada de medo, pensa "O que está acontecendo? Estou sendo vítima de perseguição? Porque tenho certeza que vi o Rick! Agora encontro com o Cesar! Não entendo!".

Ela balança a cabeça para afastar seus pensamentos, molha as mãos, passa no pescoço e depois no rosto de uma forma que não borra a maquiagem. Respira profundamente, seca as mãos, o rosto e o pescoço com papel toalha ainda encarando seu reflexo. Sai do banheiro, segue em direção à mesa onde ela e Júlio estão acomodados. A ruiva senta-se e fala em voz alta superando um pouco o ruído, o suficiente para que ele a ouça:

— Vamos embora?

— O que foi? Não está gostando? – franze a testa.

Simone sorri:

— É claro que estou gostando, mas estou cansada. – agora é ela quem faz biquinho e ele acha graça.

— Tudo bem. Vou pedir a conta e vamos.

Júlio chama o garçom, depois de pagar a conta os dois seguem para a saída, porém antes que pudessem sair totalmente do local, Simone se vira rapidamente em direção ao banheiro, então vê o Cesar que os observa amuado.

Ao chegar à rua, Simone olha para todos os lados, consegue perceber que, não muito distante de onde está parado o carro de Júlio, está o automóvel de Rick. Lá dentro, ela consegue distinguir na penumbra o rosto do executivo, que a observa atentamente com tristeza em seu semblante.

Júlio abre a porta do carro para Simone, em seguida também entra e dá partida. Quando já estão em movimento, a ruiva olha discretamente para trás, percebe que nenhum veículo os acompanha, "Graças a Deus, nenhum deles está nos seguindo.", constata.

(***)

Na casa de Cesar só há silêncio e escuridão, principalmente porque já passa das três da manhã quando ele chega. Antes que pudesse acender as luzes, um dos abajures que fica ao lado de um sofá é aceso por Camila que está sentada, usando camisola sexy branca. Ele se surpreende, paralisa no lugar, eis que sua esposa pergunta com a voz macia e enganosamente calma:

— Oi. Tudo bem?

— Sim.

— Isso são horas de se chegar? Onde estava e com quem?

— Acredito que, com quem estava, você já deve saber muito bem. Sua espiã me viu sair com o JP. – responde rispidamente ao seguir para o bar, pega uma garrafa e coloca uma dose de whisky em um copo. Enquanto bebe o primeiro gole, começa a subir as escadas.

Camila o segue e continua com a voz um pouco alterada pelo nervosismo:

— Ela não é minha espiã. Diana apenas me avisa quando você sai sem mim.

— E por que desse aviso? – rebate friamente.

— É apenas para que eu possa ficar avisada. Às vezes, você sai da empresa sem nem ao menos falar comigo, como fez hoje. Fico preocupada, não sei se está bem. Moramos em uma cidade muito perigosa – Camila tenta disfarçar seu nervosismo.

— A questão aqui não são os perigos da rua. – murmura tristemente entrando no quarto, senta-se na cama, coloca o copo no criado mudo ao lado da cama para tirar os sapatos e as meias — A questão aqui é que você não confia em mim. Acha que sempre que saio sem você é para te trair.

Ele se levanta, tira o paletó, a gravata, a camisa, a calça jogando cada peça sobre uma cadeira em um dos cantos do quarto, então pega seu copo e entra no banheiro.

— Eu sei que sou ciumenta, mas é porque te amo. E é verdade que me preocupo com você. – murmura seguindo o marido até o banheiro.

— Por favor, Camila! Deixe-me em paz! – ele rosna fuzilando-a com o olhar gélido. — Quero tomar banho com tranquilidade! Sem seus questionamentos! Vai dormir!

— O que está acontecendo? – murmura dando um passo para trás por causa do olhar dele, então levanta as sobrancelhas — Você está me tratando de um jeito tão estranho. O que eu fiz para merecer esse tratamento?

— Já chega, Camila! – exclama botando fim na discussão.

Ingere o último gole de sua bebida, coloca o copo sobre a pia, tira a cueca, entra no box e abre a torneira do chuveiro que logo começa a despejar água sobre sua cabeça. Camila se choca com atitude dele, resolve fazer o que Cesar pede, fecha a porta e se deita.

Durante o banho, Cesar começa a lembrar-se da única noite que esteve a sós com a Simone. Das sensações, dos sentimentos experimentados naquela noite. Lembra-se, também, do seu desespero quando descobriu que ela havia fugido de casa. Por fim, se lembra de sua surpresa quando a ruiva entrou na sala de reuniões em seu primeiro dia de trabalho, então sussurra em voz baixa.

— Por quê? Por que, Simone? Por que você voltou?

Lembra-se do beijo que deram naquela tarde, passa os dedos nos lábios ao fechar os olhos, como se pudesse sentir mais uma vez o toque dos lábios de sua amada. Reflete sobre o comportamento de Simone junto com o Júlio na boate, além do momento que a deteve perto do banheiro.

Começa a chorar baixinho por causa da tristeza que parte seu coração, por fim dá um soco na parede. Sabe que tem de esquecê-la, mas também sabe que é quase impossível de esquecer tal sentimento, então sussurra em voz baixa e entrecortada:

— Com ele você não vai ficar, Simone. Se não for comigo não vai ficar com ninguém.

Depois de banhar-se totalmente, fecha o registro do chuveiro, abre a porta do box, pega a toalha que está pendurada ao lado e começa a se enxugar, "Nem com o Júlio, nem com o Rick. Se não posso ficar com você, então com ninguém você ficará.".

Cesar se enrola na toalha, segue para a cama e se deita. Camila não faz mais nenhum questionamento e finge que já está adormecida.

(***)

Júlio estaciona o carro em frente à entrada do hotel, percebendo o nervosismo de Simone, pergunta:

— O que foi? Você ficou estranha enquanto dançávamos as músicas românticas. E durante o percurso até aqui não falou uma única palavra? Por acaso me excedi?

— Não. De forma alguma. – responde olhando para seus dedos entrelaçados sobre seu colo — Só não estava me sentindo bem.

— Mas... agora, está melhor?

Ela confirma com a cabeça sem tirar os olhos das mãos.

— Que bom. Apesar do seu mal-estar, gostou do jantar e da boate? – murmura ainda preocupado.

Simone fixa seus olhos nos dele, sussurra com um sorriso tímido.

— Foi ótimo. Adorei o jantar. Como falei antes, adoro comida Italiana. E... me diverti bastante na boate também.

— Espero que haja mais noites como esta. – Júlio pega uma das mãos de Simone.

— Sim. Com certeza, haverá. – ela abre mais o sorriso.

Júlio aproxima-se dela, beija seu rosto lentamente, ela retribui o gesto. Eles se afastam, somente o necessário para olhar um nos olhos do outro, eis que o moreno a beija. Um beijo doce e gentil, Simone retribui timidamente, ele a abraça fortemente, mas a ruiva não retribui o abraço.

O playboy se afasta, analisa os olhos da executiva por um instante com os lábios contraídos e olhar intrigado:

— Você parece desconfortável ao meu lado. – ele coloca as mãos de volta no volante, voltando seu olhar para a rua.

— Não é isso. – sussurra voltando a olhar para suas mãos em seu colo, corando — É só que...

Sua voz some por um instante, o moreno volta seu olhar para a ruiva, eis que percebe algo que até então não havia imaginado:

— Acho que já entendi. – sorri, pega o queixo dela forçando-a a fitá-lo nos olhos — Estou indo rápido demais. Talvez... você seja mais tímida do que aparenta.

Simone tira a mão dele de seu queixo, olhando-o fixamente com os lábios comprimidos tentando suprimir o riso, mas falha terrivelmente libertando uma gargalhada doce, então dá um beijo no rosto de Júlio que fica perplexo com a atitude dela.

— Por que você riu?

— Porque você é incrível. Adivinhou um dos meus pensamentos. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e muito rápido. – olhando para um casal que passa na rua, em seguida encara a entrada do hotel — Acho que preciso de um tempo para digerir todas as informações dos últimos dias.

O moreno sorri docemente, enquanto pega uma das mãos dela fazendo-a voltar sua atenção para ele.

— Já a considero uma pessoa muito especial que apareceu em minha vida. Por isso, não quero que fique triste ou magoada por qualquer motivo que seja.

— Tudo bem. – Simone abre um grande sorriso para Júlio — Agradeço a noite maravilhosa que me proporcionou, mas acho que já é hora de entrar.

— Eu é que agradeço. – lhe beija as mãos sem tirar seus olhos dos dela.

Júlio sai do carro, dá a volta para abrir a porta para Simone. A acompanha até a entrada do hotel, se despedem beijando no rosto um do outro. Ela aguarda ele voltar para o carro e partir, sempre olhando para os lados pensado se alguém os vigiam. Porém, não há nada de anormal, "Acho que, agora, aqueles dois desistiram.". Entra no hotel, seguindo direto para seu quarto. Quando vê a cama, se joga e começa a rir pensando no beijo do Júlio:

— Que homem maravilhoso. Aposto que já fez muitas mulheres sofrerem de paixão. – de repente fica séria — Não quero sofrer mais, por isso acho melhor não sair mais com ele. Vou mergulhar de cabeça no trabalho, só assim para esquecer esse tipo de tentação. E, principalmente esquecer aqueles dois.

Se levanta, tira as sandálias, depois as lentes de contato, volta a deitar-se pensando no beijo de Júlio, "Ele é tão lindinho com seu jeito galante e sedutor. Mas, acho que sou apenas mais uma de sua lista, isso não vai dar em nada." e com este pensamento adormece ainda vestida e maquiada.

(***)

A casa de Ricardo é um sobrado de cento e setenta e oito metros quadrados, aproximadamente, bem decorada, com três quartos, dois banheiros, moveis modernos e espaço na garagem para dois carros. Bem amplo, localizado na melhor parte do bairro Vila Jaguara, zona oeste de São Paulo, bem próxima da Lapa e da cidade vizinha, Osasco.

Um bairro de classe média baixa que tem um ar de cidade pequena, pois a maioria dos moradores se conhecem de longa data, principalmente porque a maioria das famílias vivem ali há algumas gerações. Eles sempre se encontram na missa ou na feira livre aos domingos e a família de Diana não é exceção.

Quando Diana e Rick se casaram, ela pediu para que não saíssem desse bairro mesmo que eles pudessem. Sentia que se saísse desse lugar poderia perder o contato com os pais e seus parentes, isso seria ruim para seu filho. E assim, ele decidiu atender ao seu pedido.

Rick entra na casa, observa que está tudo escuro e em silêncio. Tateia a parede a procura do interruptor de luz na sala e a acende. Tira o paletó, afrouxa a gravata e abre o primeiro botão da camisa seguindo até o bar, pega uma dose de whisky e se senta no sofá.

Por um momento ele observa a casa silenciosa, então seus pensamentos se perdem no passado, na noite em que conheceu Simone, de como se divertiu com ela naquela noite. O primeiro beijo que foi o mais estranho e especial ao mesmo tempo, o melhor que havia dado em alguém até aquele momento. Depois, se lembra das escapadas dela da escola para ficar com ele.

— Foi o primeiro e único namoro cheio de aventura, adrenalina e emoção que tive na minha vida. – murmura em voz baixa e sorri — Nossa primeira e única noite juntos, sozinhos, entre quatro paredes, foi ainda mais especial, minha doce Simone. – passa os dedos nos lábios e fecha os olhos — Nunca vou esquecer-me daquela noite maravilhosa. E tenho certeza que você voltará a ser minha. Não importa como, mas você voltará a ser minha. O imbecil do Cesar pode te seguir, como eu... – abre os olhos ao lembra-se da boate — Por falar nisso, ainda bem que ele não me viu. O Júlio pode te convidar para os melhores lugares, mas você e eu sabemos que nenhum deles é capaz de te fazer feliz como eu, meu amor. – volta a fechar os olhos, enquanto encosta a cabeça no sofá — Te amo... minha doce Simone. E pode apostar que jamais será de nenhum deles. Se não ficar comigo, então com eles você também não ficará. Pode ter certeza disso.

Rick abre os olhos, ingere de uma vez o whisky, deixa o copo sobre a mesa de centro. Se levanta, segue para o quarto, se surpreende por não ver Diana deitada na cama, então vai até o quarto do filho e a encontra adormecida na poltrona ao lado do berço do pequeno Benjamim. Ela acorda com o barulho da porta, além da luz do corredor e murmura em voz baixa para não acordar o pequenino:

— Oi, meu amor. Onde esteve? Estava preocupada.

— Fui encontrar com uns amigos que não via algum tempo. A conversa estava muito boa e por isso perdi a noção de tempo.

— Você podia pelo menos ter avisado. – se levanta, se aproxima para beijá-lo, porém se detém por um instante — Andou bebendo de novo. O que está acontecendo?

— Não é nada. E para de me controlar! – diz irritado, se afasta, vai para o banheiro com ela o seguindo — Vou tomar banho e não quero que me perturbe, por isso vai deitar.

— Tudo bem. Mas depois você vem deitar comigo ou vai dormir de novo no quarto de hóspedes?

— Vou dormir lá, sim. E não me enche.

— Você não me ama mais? Já faz algum tempo que não me procura. O que você quer? Quer o divórcio?

— Já disse, pare de me encher mulher! – Rick ameaça dar um tapa em Diana que se afasta com medo.

— Você quer me bater? – pergunta com os olhos cheios de terror.

— Não! Só... deixe-me em paz! Por favor!

Ele entra no banheiro, tranca a porta deixando Diana chorando do lado de fora.