O Despertar do Tigre
3 Uma Proposta Inesperada
Notas iniciais
—Tem certeza que sabe onde está indo? – perguntei, pois parecia que já tínhamos andado o zoológico inteiro.
Finalmente ele parou na frente de uma pequena escadaria que dava pra uma grande porta de madeira.
—É claro que sei. Chegamos. – ele disse abrindo a porta para a ala veterinária, que era enorme e cheia de aparelhos, gaiolas e pessoas correndo de um lado para o outro cuidando de várias espécies de animais, desde pássaros pequenos até um filhote de urso pardo.
Fui andando no meio de todo aquele movimento, me sentindo um pouco perdida no meio de tanta gente. Max seguia na frente e ninguém parecia nos ver de tão ocupados que estavam com seus afazeres.
Encontramos minha tia atrás de uma cortina que separava a área central das outras, na frente de uma grande jaula afastada de todo o caos e conversando com uma mulher de jaleco branco que devia ser a chefe da equipe de veterinários no zoológico — pelo que minha tia havia contado do trabalho.
—Tia Emma. – chamei me sentindo meio desconfortável por ser uma intrusa em um lugar que eu não deveria estar.
Minha tia se virou, finalmente notando minha presença no recinto, e sorriu. Foi então que percebi que tinha um animal dentro da jaula. Ele estava encolhido no canto — motivo de eu não o ter notado assim que entrei — mas assim que o encarei, não pude evitar soltar um ofego.
Parecendo ter me ouvido, e provavelmente ouviu mesmo, ele se mexeu e me encarou com olhos grandes e dourados.
—Esse é o novo bichinho pequeno e indefeso do zoológico? – perguntei paralisada, sem ousar mover um músculo do corpo e recebendo uma risada de Max.
—Eu nunca disse que ele era pequeno. E muito menos indefeso.
Como que para comprovar as palavras de Max, o grande tigre a minha frente soltou um rugido que arrepiou os pelos de meu braço. Por um momento pareceu que ele ia arrombar a porta da jaula e devorar todos que estavam ali.
Com toda certeza ele era um tigre muito peculiar. Não era nem branco, nem preto, mas uma mescla das duas cores. Eu já me sentiria nervosa com um tigre normal e laranja, agora um multicolorido era novidade, uma novidade um pouco perturbadora. Sua cabeça bateria na minha cintura com facilidade, mesmo com meus 1,68 de altura. Mas o que mais fascinava eram os olhos. Não que eu tivesse visto muitos tigres na vida, mas nenhum dos que passavam no Discovery Chanel tinham pelos importados dos anos 60 (a velha moda preto e branco) e olhos que pareciam ouro derretido.
—Liah, que bom que veio. – falou minha tia com um sorriso caloroso no rosto. Foi nesse momento que percebi que estava com cara de idiota, com a boca ainda aberta olhando para o tigre, que agora me encarava com olhos de quem queria Merliah empanada com fritas.
—Desculpe. – falei no tom mais formal que consegui. –Acho que vou esperar no carro, já vi que você está muito ocupada. – pensei que ficar dentro do Limãozinho seria bem melhor que virar jantar de tigre. Normalmente eu não sentia medo de animais, muitas vezes minha irmã mais nova já quis adotar um cachorro ou um gato, com meu total apoio, mas vovô impedia por que Austin era alérgico a qualquer tipo de pelo.
—Não, tudo bem. Eu já acabei por aqui mesmo. – ela trocou mais algumas palavras com a chefa da equipe e deu uns tapinhas em seu ombro, lançou um olhar carinhoso ao tigre e agradeceu a Max por ter me levado até ali.
Esperei até chegarmos ao carro para surtar.
—Tia como você consegue ficar praticamente o dia inteiro perto de animais que podem te devorar? – perguntei ainda em estado de choque.
Ela apenas deu risada.
—Aposto que foi o velho vovô Kale que colocou várias histórias sobre animais que fogem das jaulas e matam os tratadores na sua cabeça, estou certa? – ela perguntou me lançando um olhar cúmplice.
—Mais ou menos. – dei a resposta mais vaga que consegui pensar. Preferia não dizer a minha tia que o vovô tinha tentado de tudo para que eu não viajasse. Ele acreditava que se eu não estivesse sob sua constante vigilância estaria metida em encrenca , acho que é algum tipo de idéia de avôs. Mas ele tinha que aceitar que eu já tinha 18 anos.
Depois disso, o silencio reinou no carro.
O caminho do zoológico para a casa da minha tia era bem curto, o que era uma grande vantagem para ela, que sempre tinha que estar atenta a qualquer emergência que acontecesse por lá.
A casa em si era simples e elegante, com dois andares. O gramado era verde e bem aparado, com pequenas flores brotando dos canteiros espalhados pelo jardim. Tia Emma estacionou o Limãozinho na garagem e me ajudou a tirar a mala grande do porta malas.
Por dentro, a casa era aconchegante. O piso era de madeira escura e polida, o que me lembrou de quando eu era pequena e ficava deslizando pelo chão com minhas meias da Hello Kity em casa.
—Vou preparar alguma coisa pra comermos. – disse Tia Emma indo na direção do fogão e pegando um frigideira que pareceu quase uma arma na mão dela. – Pode ir se trocando enquanto isso. Terceira porta a direita.
Subi com minha mala para o quarto de hóspedes, que estava todo limpo e arrumado. Tia Emma já havia preparado tudo, a cama de casal já estava forrada com um lençol branco e os travesseiros estavam lindamente ajeitados e com as fronhas limpas e perfumadas. Larguei minha mala em um canto do quarto, abri a bolsa de mão e peguei minha escova de dente que estava dentro de uma caixinha bem em cima de todas as outras coisas.
Escovei os dentes no pequeno banheiro acoplado junto do quarto de hóspedes enquanto ouvia minha tia travando o que parecia ser uma luta com o fogão lá embaixo. Decidi colocar um pijama azul claro com a estampa de uma onda e a legenda:
NEM DE EXATAS E NEM DE HUMANAS. EU SOU DA MARESIA.
Waverly tinha me dado esse pijama quando ganhei o torneio de Mavericks, ainda no começo do ano. Foi uma grande dificuldade convencer meu avô a me deixar participar, afinal, as ondas eram enormes, as cristas chegavam até 8 metros e alguns surfistas já tinham morrido no torneio. Mas todo o esforço, incluindo o treino intensivo estilo “Kale” tinham valido a pena.
Não fiquei em primeiro lugar, mas sim em terceiro; embora isso não tivesse tido importância. A comemoração foi em grande estilo, o Sr. Alexander, grande amigo do meu avô e dono da pizzaria que vendia as melhores pizzas da região, fez uma mega festa onde todos os amigos e conhecidos participaram, arcando com todos os custos. Vovô ficou bravo, dizendo que deviam pelo menos rachar a conta, mas Alexander apenas riu e disse: “Ora Kale, pare de ser tão cabeça-dura, faço questão que a festa seja aqui. Parece que foi ontem que Merliah ganhou seu primeiro campeonato mirim de surf, Waverly nem tinha nascido ainda, lembra?”. Meu avô apenas deu um sorriso triste e assentiu. Alexader continuou: “Você, Emma, Rick, Susan e Merliah. Sempre escolhiam a mesma mesa e comiam duas pizzas grandes. Bons tempos”. Vovô apenas assentiu.
Sorri com a lembrança e só nesse momento lembrei que não tinha ligado o celular ao sair do avião. Fiz uma careta, já pensando no sermão que ia ouvir e liguei o aparelho.
Havia apenas três chamadas perdidas: uma do Vovô (já esperada), uma da Jane (provavelmente para perguntar quando eu voltaria) e outra de Waverly. Encarei a foto de contato (que eu tinha tirado) e vi uma garotinha de cabelos castanhos claros e olhos cinzas me olhando de volta. Decidi ligar para ela antes de ir para a cozinha.
Ela atendeu no segundo toque:
“Já está se preparando psicologicamente para enfrentar a fúria do Vovô Kale?” – perguntou a voz já conhecida pelo telefone.
“Oi pra você também, Wave”. – falei tentando colocar um tom ofendido na voz.
“Austin quer saber se Tia Emma já conseguiu enlouquecer você com suas conversas sobre bichos e comida saudável”.
“Ainda não, mas isso só foi porque passamos no zoológico primeiro”. – falei e ouvi a risada exagerada do outro lado da linha. “Como estão às coisas por aí?”.
“Uma droga. Luke e Jane estão em uma melação que dá até vontade de vomitar. Foram falar hoje com aquele DJ que você falou; fala sério, se você fosse a noiva não teria que fazer tanta coisa”. – Wave falou com um quê de irritação na voz, provavelmente ela que estava sendo a vitima ajudante do casamento agora.
“Eu sei, mas se tudo for depender deles você sabe que vai ser um desastre. Alguém tem que dar uma mãozinha ou esse casamento não vai sair nunca”. Falei e ouvi novamente a risada escandalosa.
“Ok. Você tem razão”.
“Vou desligar. Tia Emma está me esperando para comer, só espero que não seja nada verde e gosmento”.
“Tchau, Liah”.
“Tchau, maninha”.
A ligação foi encerrada.
Desci as escadas e encontrei Tia Emma andando de um lado para o outro da cozinha com o celular na orelha, parecendo aflita. Ela trocou algumas palavras apressadas com quem estava do outro lado da linha e desligou, agora mais irritada do que aflita.
—Tudo bem, tia? – perguntei me aproximando da mesa da cozinha, onde um prato de ovos mexidos me aguardava.
Ela soltou um grande suspiro e deixou-se cair na cadeira mais próxima.
—Na verdade, não. Uma das garotas novas do zoológico quebrou a perna e está de licença, e agora eu não tenho ninguém para cuidar do tigre. – ela despejou toda a informação de uma vez.
—Não pode deixá-lo com outros tratadores?
—Infelizmente estamos com pouco pessoal, e não podemos deixar um funcionário apenas para cuidar do tigre. – ela soltou um suspiro e colocou a cabeça entre as mãos, como se esperasse uma solução cair do céu. Depois deu um sorriso enorme e olhou nos meus olhos.
—O que acha de fazer meio que um estágio no zoológico até eu achar uma pessoa para ficar no seu lugar?
Tia Emma sempre tinha sido irresponsável, era o tipo de adulta que parecia não ter tido infância e queria aproveita-lá agora. Eu nunca vi problema no jeito criança dela de ser, mas isso nunca tinha colocado minha vida em risco.
—Você quer que eu cuide de um tigre!? – perguntei incrédula. – Tipo com dentes e garras?- falei lembrando o tigre enorme que tinha visto na ala veterinária, com os olhos dourados e os dentes enormes e pontudos perfeitos para devorar uma garota de Malibu que decidiu passar as férias na casa da tia em Seattle.
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