O Despertar da Rosa Branca

14 O Trono de Arenlindor


O bosque parecia guardar ainda o eco dos rugidos, ainda pairava um som estranho na atmosfera. Enquanto retomávamos a estrada, um silêncio pesado tomou conta da comitiva, como se todos temessem que qualquer palavra pudesse chamar de volta as bestas. O som dos cascos dos cavalos era ritmado, quase solene, mas dentro de mim havia apenas descompasso.

Havia uma diferença clara entre os níveis e classificações das criaturas mágicas. No patamar mais baixo estavam aquelas consideradas apenas criaturas mágicas: algumas inofensivas, outras naturalmente hostis, mas em geral fáceis de identificar como “boas ou ruins”. Acima delas vinham as bestas mágicas, dotadas de maior concentração de mana e instinto de violência. Seus ataques eram intensos e imprevisíveis enfrentá-las significava lutar pela própria sobrevivência. No topo da escala estavam as temidas feras mágicas: a expressão máxima de poder e brutalidade. Abater uma dessas exigia não apenas habilidade, mas também níveis extraordinários de ataque, defesa e resistência.

A Rosa permanecia quente em meu pulso, como se tivesse respirado junto comigo durante a luta. Cada batida do meu coração reverberava no bracelete. Fechei os olhos por um instante e vi uma centelha de luz prateada, cortando uma escuridão infinita. Junto dela um sussurro, distante como o vento:

"A rosa desperta… e com ela, o caminho se abre."

Suspirei e segurei firme as rédeas, tentando disfarçar. Ninguém pareceu notar, exceto Alarien, que me observava com seus olhos verdes, porém ela não disse nada.

Quando finalmente deixamos o bosque, o horizonte se abriu para as planícies douradas que levavam a Arenlindor. As muralhas brancas do reino surgiam ao longe, imponentes, refletindo o sol como lâminas. O príncipe Johan ergueu o olhar e sorriu, aliviado pela visão da segurança.

— Arenlindor nos recebe com sorte, ao menos por hoje — disse ele.

Mas eu sabia que aquilo não era sorte. Era apenas o início.


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As grandes portas de cristal se abriram, deixando que a luz prateada da lua inundasse o salão principal. O som dos sinos élficos ecoou suavemente, como se a própria floresta saudasse a chegada do visitante. O príncipe Johan entrou trajando um manto azul-escuro bordado em fios de prata, trazendo consigo o peso da expectativa de um futuro aliança. Seus passos firmes ecoaram sobre o mármore claro mas havia respeito em sua postura diante da nobreza élfica.

No trono de galhos entrelaçados e joias de luz natural, o rei Myndor Elenvan, cuja presença carregava a imponência das florestas antigas. Seus cabelos longos e loiros, desciam como fios de luar sobre os ombros e seus olhos de um verde profundo, pontuados por faíscas douradas guardavam tanto sabedoria quanto severidade. Havia nele uma nobreza natural, como se cada gesto fosse a extensão de séculos de linhagem.

— Príncipe Johan Selenar, futuro rei de Luminara — sua voz ecoou grave, como vento passando pelas raízes de uma floresta antiga.

— Arenlindor o recebe em honra e em confiança.— O rei continuou.

Ao seu lado, a rainha Elenya Elevan, envolta em um manto verde-escuro bordado com padrões que lembravam constelações. Sua beleza era incomum, quase intocável, a pele clara parecia refletir a claridade das tochas e seus olhos de safira transmitiam ao mesmo tempo doçura e mistério. Quando falava, sua voz soava como música distante ecoando em cada canto do salão, inclinou levemente a cabeça, saudando Johan com a graça que apenas os elfos possuíam.

— Que sua chegada traga harmonia entre nossos povos — disse ela, sua voz cristalina quase se confundindo com um cântico.

As princesas estavam postas ao lado dos pais. A mais velha, Sylwe Elevan a prometida do príncipe Johan. Seus traços delicados lembravam a própria rainha, mas seus cabelos tinham o brilho dourado suave do entardecer. Os olhos de um azul límpido, transmitiam tanto graça quanto determinação. Ela trazia um porte ereto, treinado, consciente do peso de ser herdeira e futura rainha em terras humanas. Cada passo dela parecia medido como se não houvesse espaço para erro.

— Alteza, é uma honra enfim recebê-lo em minha terra.

Johan inclinou-se respeitosamente o azul de seus olhos encontrando o dela por um instante que pareceu durar mais que o protocolo permitiria. O murmúrio discreto dos conselheiros ecoou ao fundo, mas o príncipe manteve a postura impecável.

Por fim, a mais jovem, Lirael Elenvan, ao lado da sua irmã. Seus cabelos eram negros como a noite, destoando do brilho da família e seus olhos, acinzentados, lembravam o nevoeiro da manhã. Embora trajasse a mesma elegância dos Elenvan, havia nela um ar insondável, quase rebelde. Diferente da irmã, ela não sorria nem cumprimentava com formalidade, limitou-se a inclinar levemente a cabeça, gesto mínimo, porém conforme os protocolos do reino.

O príncipe Johan inclinou-se em reverência.

— É uma honra ser recebido pela nobre casa Elenvan. Trago não apenas o respeito de meu reino, mas também o desejo de que esta união traga prosperidade a ambos os povos.

O rei assentiu, sua voz profunda ecoando pelo salão.

— O destino te trouxe até nós, príncipe Johan. Que esta noite seja lembrada como o início de um elo que transcenderá gerações.

Eu os observava de longe, enquanto cada gesto, cada palavra carregava o peso da formalidade entre reinos. Havia uma tensão no ar, sutil mas impossível de ignorar. O rei anunciara um baile para a noite seguinte, e embora o palácio estivesse coberto de esplendor, meu corpo ainda vibrava com a exaustão do caminho e da incerteza que me acompanhava desde que pisei nestas terras.

Meus olhos vaguearam pelo salão até se deterem no lado direito do trono. Ali estava um sacerdote, imóvel como uma sombra, mas seus olhos pousaram em mim com intensidade inquebrantável. O mundo pareceu silenciar. Um frio gélido percorreu minha pele, ao mesmo tempo em que o bracelete da Rosa queimou em meu braço com um calor súbito, quase vivo. Não era o fogo de um alerta, tampouco um aviso de perigo, mas o pulsar de algo prestes a se revelar.

Desde a noite em que a Rosa falara comigo pela primeira vez, o silêncio entre nós se tornara cada vez mais profundo. Era como tentar alcançar uma voz através de véus de névoa. Mas ali, diante daquele olhar enigmático e da atmosfera densa do reino élfico, algo despertava. Eu sentia como quem sente a tempestade antes do trovão que um segredo antigo, guardado em sombras e pétalas, estava prestes a encontrar o caminho até mim.