Eu estava a caminho do reino Umbra-Nor. Do meu vilarejo até lá levaria cerca de dezesseis horas a cavalo. Fiz algumas paradas em vilarejos menores, tanto para alimentar e descansar meu cavalo quanto para ouvir, inadvertidamente, histórias sobre o príncipe e sua corte.

O príncipe Eryon é o tipo de homem que faz o fogo tremer.

— Ouvi dizer que onde ele passa, até as sombras se ajoelham.

— Ele é silencioso. Intimidador.

— Dizem que conjurou uma tempestade com os olhos semicerrados… e que, em outro dia, só com um olhar, fez um homem esquecer o próprio nome.

— É frio. Vazio como as florestas mortas ao norte.

— Dizem que sofreu muito nas mãos daquela mulher que hoje se diz rainha.

Minha curiosidade cresceu.

— O que aconteceu com ele? — perguntei, enquanto terminava meu copo d'água em uma taverna.

— A mãe dele morreu cedo. Era dela que vinha o sangue real. O pai depois, casou-se com a Lady Morwenna, e ela teve outro filho. — Um senhor respondeu em tom conspiratório.

— A rainha atual não tem linhagem real. Só Eryon carrega esse direito. — disse uma moça ao meu lado.

— O reino está dividido. E com tantos magos das sombras por lá… criaturas mágicas têm surgido aos montes. — completou outra mulher.

Depois de pagar pela refeição fui até a estrebaria. O sol já começava a se esconder quando vi no final da rua, uma tenda quase invisível, feita de panos negros e azul-escuros. Diante dela, sentava-se uma velha de olhos brancos, imóveis como névoa densa. Ela parecia cega… mas ao mesmo tempo parecia me ver por inteiro.

— Você… — sussurrou, sem mover os lábios. — Carrega o cheiro da rosa.

Gelei.

— O quê? — perguntei, com os lábios trêmulos.

— Entre.

Apesar do medo meus pés se moveram sozinhos. O interior da tenda era abafado. Uma vela tremeluzia junto a uma tigela com flores secas. Nela vi uma pequena rosa branca, parcialmente queimada, e uma pétala prateada que reluzia como luar em água escura.

A vidente estendeu as mãos sobre a tigela e começou:

Duas flores nascidas sob luas opostas...

A rosa, que floresce sem temer o frio.

A flor de lua, que desabrocha só quando ninguém vê.

O destino entrelaçou seus caminhos não por justiça, mas por equilíbrio.

Quando a rosa tocar a flor de lua, o tempo estremecerá.

Aquele nascido em trevas verá a luz pela primeira vez...

Ou se queimará nela.

A mulher ergueu o rosto em minha direção. Era como se ela enxergasse além da carne. Como se visse quem eu realmente era não Aurelis, mas o que existia por baixo.

Ele foi forjado em dor.

Você, moldada pela ausência.

O que unirá vocês será suave como brisa… e cortante como lâmina.

Cuidem-se.

Pois até flores podem sangrar.

A vela se apagou sozinha. O silêncio caiu, denso. Apavorada, acendi minha luz mágica e a tenda estava… vazia. Nem mulher, nem tigela, nem cheiro. Apenas o vazio. Mas sobre a minha capa, algo brilhava: uma pétala prateada. Guardei-a entre as páginas do meu caderno. A lembrança das palavras da vidente me arrepiava até os ossos.

*****

A névoa de Umbra-Nor era espessa como um segredo sussurrado. Ao cruzar os portões escuros, puxei o capuz. As ruas de pedra molhada refletiam a luz azulada das tochas encantadas. O mercado era um caos mágica barracas exóticas, criaturas com olhos cristalinos, especiarias que respiravam.

Só me faltavam dois itens da lista do Sr. Goty:

Cinza de Salamandra Escura e Folha de Corvaris.

— Não temos esses itens, senhora. — ouvi diversas vezes, até que um mercador cochichou:

— Tente naquela casa adiante. Um velho talvez possa ajudar…

Caminhei cerca de vinte minutos até encontrar a tal casa. Assim que me aproximei, senti a espada pulsar. Havia perigo ali. Mas controlei a vontade de invocá-la.

— Olha só… uma moça sozinha nessas ruas. — Um homem alto, sujo, com olhos carregados de más intenções, apareceu. Logo, estava cercada. Outro puxou meu capuz, revelando meu cabelo.

— O que veio buscar, florzinha? — zombou outro.

— Recebi informações de que aqui encontraria os itens que procuro — respondi firme.

Eles riram.

— Passaram a perna em você, gatinha. Eu vendo outras "coisas". Venha ver.

Não tive escolha. Entrei. O lugar era sombrio. Gaiolas com criaturas mágicas e elfos. Presos. Espremidos. Era um mercado ilegal.

— O que os elfos estão fazendo aí? — perguntei, incrédula.

— Só mostrei porque você vai virar mercadoria também. — Um dos homens tentou me agarrar. A espada respondeu. A luz me tomou. Lutei. A rosa branca brilhou. O combate foi rápido. Capangas tombaram. Mas o velho escapou, murmurando uma magia sombria. Sozinha, libertando as criaturas, senti um peso tristeza, dor. Eu parei de frente a uma criança elfa que agora estava sorrindo, apesar dos seus olhos estarem carregados de cansaço e tristeza. Foi então que ouvi e senti algo a ponta de uma espada sobe o meu pescoço.

— PARE. Você está presa.

Virei lentamente, senti a lâmina bem afiada cortar lentamente meu pescoço, com corte bem superficial.

E ali estava ele.

Eryon Thorne.