O Despertar da Rosa Branca
7 A Pétala Prateada
Eu estava a caminho do reino Umbra-Nor. Do meu vilarejo até lá levaria cerca de dezesseis horas a cavalo. Fiz algumas paradas em vilarejos menores, tanto para alimentar e descansar meu cavalo quanto para ouvir, inadvertidamente, histórias sobre o príncipe e sua corte.
— O príncipe Eryon é o tipo de homem que faz o fogo tremer.
— Ouvi dizer que onde ele passa, até as sombras se ajoelham.
— Ele é silencioso. Intimidador.
— Dizem que conjurou uma tempestade com os olhos semicerrados… e que, em outro dia, só com um olhar, fez um homem esquecer o próprio nome.
— É frio. Vazio como as florestas mortas ao norte.
— Dizem que sofreu muito nas mãos daquela mulher que hoje se diz rainha.
Minha curiosidade cresceu.
— O que aconteceu com ele? — perguntei, enquanto terminava meu copo d'água em uma taverna.
— A mãe dele morreu cedo. Era dela que vinha o sangue real. O pai depois, casou-se com a Lady Morwenna, e ela teve outro filho. — Um senhor respondeu em tom conspiratório.
— A rainha atual não tem linhagem real. Só Eryon carrega esse direito. — disse uma moça ao meu lado.
— O reino está dividido. E com tantos magos das sombras por lá… criaturas mágicas têm surgido aos montes. — completou outra mulher.
Depois de pagar pela refeição fui até a estrebaria. O sol já começava a se esconder quando vi no final da rua, uma tenda quase invisível, feita de panos negros e azul-escuros. Diante dela, sentava-se uma velha de olhos brancos, imóveis como névoa densa. Ela parecia cega… mas ao mesmo tempo parecia me ver por inteiro.
— Você… — sussurrou, sem mover os lábios. — Carrega o cheiro da rosa.
Gelei.
— O quê? — perguntei, com os lábios trêmulos.
— Entre.
Apesar do medo meus pés se moveram sozinhos. O interior da tenda era abafado. Uma vela tremeluzia junto a uma tigela com flores secas. Nela vi uma pequena rosa branca, parcialmente queimada, e uma pétala prateada que reluzia como luar em água escura.
A vidente estendeu as mãos sobre a tigela e começou:
— Duas flores nascidas sob luas opostas...
A rosa, que floresce sem temer o frio.
A flor de lua, que desabrocha só quando ninguém vê.
O destino entrelaçou seus caminhos não por justiça, mas por equilíbrio.
Quando a rosa tocar a flor de lua, o tempo estremecerá.
Aquele nascido em trevas verá a luz pela primeira vez...
Ou se queimará nela.
A mulher ergueu o rosto em minha direção. Era como se ela enxergasse além da carne. Como se visse quem eu realmente era não Aurelis, mas o que existia por baixo.
— Ele foi forjado em dor.
Você, moldada pela ausência.
O que unirá vocês será suave como brisa… e cortante como lâmina.
Cuidem-se.
Pois até flores podem sangrar.
A vela se apagou sozinha. O silêncio caiu, denso. Apavorada, acendi minha luz mágica e a tenda estava… vazia. Nem mulher, nem tigela, nem cheiro. Apenas o vazio. Mas sobre a minha capa, algo brilhava: uma pétala prateada. Guardei-a entre as páginas do meu caderno. A lembrança das palavras da vidente me arrepiava até os ossos.
*****
A névoa de Umbra-Nor era espessa como um segredo sussurrado. Ao cruzar os portões escuros, puxei o capuz. As ruas de pedra molhada refletiam a luz azulada das tochas encantadas. O mercado era um caos mágica barracas exóticas, criaturas com olhos cristalinos, especiarias que respiravam.
Só me faltavam dois itens da lista do Sr. Goty:
Cinza de Salamandra Escura e Folha de Corvaris.
— Não temos esses itens, senhora. — ouvi diversas vezes, até que um mercador cochichou:
— Tente naquela casa adiante. Um velho talvez possa ajudar…
Caminhei cerca de vinte minutos até encontrar a tal casa. Assim que me aproximei, senti a espada pulsar. Havia perigo ali. Mas controlei a vontade de invocá-la.
— Olha só… uma moça sozinha nessas ruas. — Um homem alto, sujo, com olhos carregados de más intenções, apareceu. Logo, estava cercada. Outro puxou meu capuz, revelando meu cabelo.
— O que veio buscar, florzinha? — zombou outro.
— Recebi informações de que aqui encontraria os itens que procuro — respondi firme.
Eles riram.
— Passaram a perna em você, gatinha. Eu vendo outras "coisas". Venha ver.
Não tive escolha. Entrei. O lugar era sombrio. Gaiolas com criaturas mágicas e elfos. Presos. Espremidos. Era um mercado ilegal.
— O que os elfos estão fazendo aí? — perguntei, incrédula.
— Só mostrei porque você vai virar mercadoria também. — Um dos homens tentou me agarrar. A espada respondeu. A luz me tomou. Lutei. A rosa branca brilhou. O combate foi rápido. Capangas tombaram. Mas o velho escapou, murmurando uma magia sombria. Sozinha, libertando as criaturas, senti um peso tristeza, dor. Eu parei de frente a uma criança elfa que agora estava sorrindo, apesar dos seus olhos estarem carregados de cansaço e tristeza. Foi então que ouvi e senti algo a ponta de uma espada sobe o meu pescoço.
— PARE. Você está presa.
Virei lentamente, senti a lâmina bem afiada cortar lentamente meu pescoço, com corte bem superficial.
E ali estava ele.
Eryon Thorne.
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