O Despertar da Fênix
17 Ano Novo
A mais pálida lâmina de uma lua nova pairava a oeste de Ronan. O manto da noite estava coberto por mil estrelas, mas elas nem de longe brilhavam tanto quanto as lanternas de Ano Novo. O centro da cidade efervescia. Milhares de luzes se estendiam sobre as barraquinhas de venda e, aqui e ali, haviam pequenos tablados onde artistas faziam suas apresentações. Os trajes coloridos sarapintavam as ruas apinhadas com um sem-fim de tons diferentes e tudo parecia dançante e vivo.
Era difícil não se deixar envolver pela atmosfera festiva, mas, verdadeiramente, Lana sentia uma tristeza profunda crescendo em seu ser. Tudo parecia meio errado, talvez fora de lugar. Ela podia sentir a presença iminente do desastre, pois sabia que a vida de todas aquelas pessoas mudaria no ano que estava por vir.
Apesar disso, decidiu aproveitar os embalos da comemoração. Ela sabia que nunca antes, pelo menos não nessa vida, tinha exibido uma aparência tão imperial e era gostoso poder aproveitar sem se preocupar em se misturar com as massas, sem se preocupar em cumprir com as vontades de um senhor.
O traje de Lana era composto por uma longa túnica branca sobreposta por um manto cor de goiaba. As laterais do tecido colorido estavam cruzadas, formando um V na área do peito, e tudo era mantido preso por uma fita bordada amarrada na cintura. Suas mãos se perdiam nas longas mangas e ela levava sapatos de madeira nos pés. Aquela roupa tinha sido um presente de Tiana e, embora ela fosse belíssima, Lana não se sentia confortável ao usá-la. Era tradicional demais e representava uma terra a qual ela não pertencia. Sua única vontade era desmanchar o coque alto e vestir uma túnica clara igual à de Linete, pois ela parecia muito mais honesta em seus trajes simples. Apesar de desejar muito, ela jamais faria isso. Seria apenas uma noite, afinal de contas. Em outros tempos, ela tivera que se vestir daquele jeito durante toda uma vida.
Linete ainda não estava totalmente recuperada dos ferimentos, mas já havia retomado suas funções na cozinha e podia participar da festa desde que andasse com cuidado. Seu passo era lento, mas Lana não se incomodou em acompanhar. Haviam tantas cores e um cheiro tão maravilhoso de comida que era difícil não querer degustar cada detalhe.
Quando o primeiro desfile começou, a multidão que ocupava as ruas partiu-se ao meio para deixar os artistas passarem. Um grande bloco de músicos tomava a dianteira, tocando seus tambores, flautas e instrumentos de corda em perfeita harmonia. Lana reparou em como tudo neles parecia estar sincronizado, desde as passadas até a maneira com que faziam a música vibrar. Logo atrás vinha um grande fantoche de um dragão dourado, que ocupava mais da metade da rua. Era sustentado por várias pessoas vestidas de amarelo, que o movimentavam como se ele estivesse vivo. Seu corpo serpenteava em uma dança complexa e bela e, vez ou outra, a bocarra escancarada se erguia para soltar uma coluna de fogo em direção ao céu.
O dragão era o símbolo do Império e estava gravado na heráldica dos Navani antes mesmo deles serem uma casa influente. Lana sabia muito bem como funcionava esse tipo de demonstração pública de poder: bastava pegar o símbolo e associá-lo a algo divertido. A repetição impregnaria a imagem na mente do povo e ela seria sempre lembrada como um sinônimo dos bons tempos. Simples, mas efetivo. O pai de Lana sempre reforçava a importância de atos assim.
O dragão era seguido por um séquito de dançarinas que rodopiavam e agitavam belos tecidos ao redor de seus corpos. Se aproximavam muito rápido uma das outras, tanto que Lana temeu que se derrubassem, mas todas elas sempre acabavam parando no local exato. Seus movimentos, então, davam origem a padrões diferentes: uma hora, formavam uma estrela, noutra um lótus. Tudo era ritmado e tão belo quanto o nascer do sol.
Quando o desfile terminou, a plateia toda estava sem fôlego. As pessoas explodiram em aplausos e gritaria. Lana não pode evitar se juntar a eles. Tudo havia sido tão bonito que ela poderia ter ficado ali observando para sempre. Linete parecia tão feliz quanto alguém que havia descoberto uma moeda de ouro debaixo da cama. O festival só estava começando e elas mal poderiam esperar por mais.
Quando os Maldravos se aproximaram delas, Lana tinha um sorriso tão grande no rosto que era difícil dizer se ela ainda estava impressionada como desfile ou com a visão de seus amigos.
— Faz um bom tempo que eu não a vejo. — Heng comentou depois de todos os cumprimentos formais. — Na verdade, creio que não a vi desde que regressei de Noqua.
— Isso é um bom sinal, senhor. — Lana disse de maneira muito educada. — Significa que não se feriu.
— Se é assim, vou voltar com um arranhão ou dois da próxima vez. — e deu um meio sorriso para ela.
Nina soltou um barulhinho de animação diante das palavras do irmão. Lana sentiu que suas bochechas coraram e abaixou rapidamente a cabeça, temendo ser vista. Apesar disso, ela não pode evitar notar como os olhos do general estavam pousados nela. Ele me acha bela, ela pensou, e tomar ciência desse fato serviu para que ela rapidamente se sentisse um pouco mais confortável consigo mesma.
Heng também estava bastante elegante. As cores do traje dele combinavam com as do traje de sua irmã, uma clara alusão aos tons empregados na heráldica de sua casa. Ambos usavam dois longos roupões tradicionais bordados com linha dourada. O de Nina era vermelho em cima e possuía as saias negras, ao passo que o de Heng invertia o padrão. A moça estava coberta por joias, inclusive nos cabelos, mas Heng apenas usava um chapéu preto e uma espada no cinto. É uma das que ele disse que pertenceram ao seu avô, Lana observou.
— Eu não sei vocês, mas juro que esse movimento todo me deixou faminta. — Nina disse, agarrando o braço de Heng. — Você deveria me comprar um espetinho ou dois, irmão. Todos sabemos que não é possível aproveitar um festival como esse sem provar pelo menos um pouco da culinária local.
Heng se limitou a franzir a testa.
— Você comeu agora a pouco.
Nina lhe deu um tapinha na mão, muito suave, mas repreensor.
— Não seja avarento! O que acha que a Lana vai pensar? — fez um movimento de cabeça em direção a amiga e então abaixou o tom de voz. — Acha mesmo que uma mulher como ela gostaria de se casar com um homem tão mão fechada assim?
Heng não pode evitar olhar para ela. Lana respondeu com um gesto de cabeça, indicando que não se importava com espetinhos e muito menos com maridos. Parecia que, de repente, todo mundo havia decidido que os dois estavam envolvidos, mas isso estava longe da verdade. Não passavam de bons amigos.
Apesar disso, a estratégia de Nina pareceu funcionar. Tão logo, ela estava segurando um espetinho em cada mão e alternava as mordidas entre um e outro. O cheiro que as barraquinhas exalavam era magnífico, e Lana também estava sentindo seu estômago roncar. Ficou tentada a comprar alguma coisa, mas tinha pouco dinheiro consigo. Ela até recebia um salário agora que era assistente, mas ele não passava de algumas moedas de bronze, e ela se recusava a gastar a moeda de ouro que o Príncipe Otto havia lhe dado na ocasião do colar. Por causa disso, ela simplesmente se deu por satisfeita em gastar alguns cobres num saquinho de balinhas com formato de animais e dividi-lo com Linete. Esta, por sua vez, parecia extasiada com as formas que o doce assumia.
— Veja, senhora! — ela disse em dado momento, estendendo a palma para que Lana visse a pequena ave vermelha pousada no centro. — Você sabe qual passarinho é esse?
Lana deu uma longa olhada antes de responder.
— Parece um tordo.
— Não. — Nina interveio. — É uma fênix.
— Definitivamente. Ela parece bem mais bela que um tordo. — Linete estendeu o pequeno doce para Lana. — Combina bastante com você.
Para Lana, não passava de uma ave deformada e indefinível de açúcar, mas aceitou mesmo assim. Enquanto mastigava, fuçou no saquinho até encontrar uma pequena balinha de gato.
— Esse combina com você. — comentou enquanto estendia o docinho para Linete. — Você sempre foi esperta e dócil como um gato.
Linete soltou uma risada alta.
— Tenho pra mim que talvez você tenha se esquecido do gato da senhora sua mãe, o Patinhas.
Lana revirou os olhos.
— Aquilo não é um gato. É o demônio em forma de bola de pelos.
As duas riram baixinho. Nina tinha os olhos fixos nelas, entretanto.
— Ora, Lana. Eu tinha imaginado que você não tinha família.
Lana sentiu a garganta secar de nervosismo, mas limitou-se a dar de ombros, temendo que suas emoções fossem evidentes.
— Não é porque não tenho agora que eu não tive uma um dia.
Sentiu-se profundamente grata quando um mágico de rua interrompeu a conversa e convidou-os para assistir seu truque. O propósito da brincadeira era simples: sobre uma mesa improvisada, haviam três pequenas xícaras de argila e cabia ao expectador descobrir sob qual delas o artista tinha escondido uma pequena bolinha vermelha. O mágico colocou a bolinha na do meio, mas começou a mover as xícaras tão rapidamente que Lana não teve certeza se realmente estava conseguindo acompanhar suas mãos.
— Esquerda. — ela e Nina disseram em uníssono quando ele parou.
Com um sorriso arteiro, o artista levantou a xícara. Não havia nada debaixo dela. O suspiro consternado de Nina rapidamente se transformou em um som de surpresa quando o rapaz levantou as outras duas xícaras e revelou que elas também estavam vazias. Então, com um movimento rápido, o mágico se inclinou na direção de Nina e puxou a bolinha vermelha de trás da sua orelha. Fascinada, a garota bateu palmas animadamente.
— Faça outra vez!
Nina observou todo o truque de novo, mas desta vez, ao ser perguntada sobre a localização da bolinha, ela respondeu rapidamente.
— Está atrás da minha orelha, ora!
— Errado, senhora. — o homem respondeu, erguendo a xícara da esquerda e revelando que a bolinha estivera lá esse tempo todo.
Nina teria pedido para ver o truque uma terceira vez ainda se Heng não tivesse a puxado para longe.
O segundo desfile da noite revelou-se ser uma composição bela e sensível da trágica história de amor de Sonya e Luang-Lu. Os dançarinos se moviam tão suavemente ao som dos alaúdes que, por um momento, Lana acreditou que eles flutuavam. Suspiros foram arrancados quando o primeiro encontro do casal foi retratado. Sedas esvoaçantes faziam as vezes de céu, e o casal protagonista teve a honra de ter sua primeira dança entre elas. A forma como suas pernas se soerguiam, o toque de suas mãos... Tudo parecia um ato apaixonado. A plateia, é claro, se apaixonou junto com eles. Sonya parecia fabulosa em seu vestido carmim, tão bela quanto a filha do deus das tempestades provavelmente tinha sido, e o ator que emprestava sua face a Luang-Lu era tão imponente quanto o herói da lenda.
Os dois se perdiam em meio a dança, mas voltavam a se encontrar. Rodopiavam juntos e, em sincronia, representavam quedas da qual tornavam a se levantar. Uma nuvem figurante coroou Sonya com uma tiara feita de estrelas e, com movimentos adocicados, a plateia observou enquanto o casal se casava. A dança agora tinha outro caráter: os corpos dos dois pombinhos sempre permaneciam próximos, fosse através de um abraço apertado ou de um leve roçar de mãos. Estavam unidos em carne, para toda vida, e o que é assim unido jamais pode ser separado. Ou, era o que se pensava até o pai da noiva aparecer. O deus das tempestades parecia desafiador e cruel em seus trajes de nimbus, cercado por um séquito de nuvens escuras e carregando uma grande espada.
A história de amor ganhou contornos de aventura quando Luang-Lu duelou com seu sogro. A música lembrava o som do aço raspando em aço, a mais pura ode à uma batalha. A plateia reagiu com assombro sem igual quando o herói foi derrotado e precipitado dos céus, caindo na terra seca, onde jamais poderia ver o rosto de sua amada. Sonya agora bailava triste e sozinha. Era difícil não se emocionar com a dançarina quando ela demonstrava o sofrimento de sua personagem com tanta maestria. Os passos pareciam menos ordenados agora: eram trôpegos e doloridos, feitos por alguém que agia como se tivesse uma espada enfiada no peito. Sonya então atirou-se do céu, mas teve muito menos sorte que o seu amado. Caiu morta sobre o solo e seu pai, ao encontrá-la, sofreu dez vezes mais do que um dia sua filha havia sofrido.
Dançarinos vestidos de branco agitaram longos e alvos tecidos para representar o inverno que caíra sobre a terra depois da morte da moça. Os figurantes eram agora responsáveis por representar a decadência do povo, que estava sendo abatido pela friagem e pela morte das colheitas. O espírito de Sonya surgiu atormentado com o clamor do povo e apareceu diante de seu pai, pronto para advogar em prol das queixas de seu povo. Comovido, o rei decidiu findar com o inverno eterno e trouxe de volta a primavera, aplacando os pesares da população, mas não a dor do coração da filha. Para dar de descanso aos mortos, por fim, o deus das tempestades decidiu parar o sol e a lua no céu uma vez no ano, fazendo o dia e a noite terem a mesma duração. Naquela época, o tecido entre os mundos se afinaria e os amantes desafortunados poderiam finalmente se encontrar e celebrar o seu amor.
Pétalas de lótus choveram sobre os dançarinos e sobre a plateia que aplaudia ensandecida. Lana agarrou uma flor com a mão e a admirou sonhadoramente.
— Ah! — Nina suspirou, secando uma lágrima. — Eu adoro histórias de romance, mesmo as tristinhas. Você não adora, Lana?
— Pelo contrário, minha senhora. — o sorriso nos lábios de Lana era minúsculo. — A apresentação deles foi tão bonita, no entanto, que é difícil não se comover.
— Nunca entendi o motivo de todas as lendas sulistas parecerem falar de amores que não deram certo. — comentou Linete. — Por qual motivo as pessoas haveriam de querer se inspirar no fracasso alheio?
— São histórias vindas de famílias ricas. — Heng interveio. — Uma vez que a nobreza já possui tudo que o dinheiro é capaz de obter, ela perde seu tempo sonhando com aquelas coisas que jamais poderá conquistar. Coisas não vendáveis.
Nina deu um tapa furioso em seu braço, consternada por ouvi-lo falando dessa forma.
— Não fale assim!
Ao seu próprio modo, Lana concordava. O que eram os sonhos, afinal, além do desejo pelas coisas que ainda não temos?
Lana, que sentia que Heng estivera meio deslocado das festividades até então, recebeu com uma grata surpresa a mudança de expressão no rosto do general quando o grupo divisou uma barraca de vinhos. Nina parecia muito pouco interessada em se embebedar, então arrastou Linete até o vendedor de comida mais próximo. Lana, que sempre apreciara a oportunidade provar um bom vinho, acompanhou Heng sem titubear, interessada nas escolhas que ele faria.
Foram recebidos por um senhor pequeno e de rosto enrugado, cuja figura quase se perdia em meio aos odres carregados. Entusiasmado por ter dois clientes vestidos de modo tão rico, o velho logo tratou de arrumar um par de copinhos de barro para oferecer uma degustação daquilo que ele chamou de "um excelente vinho vindo das ilhas".
Lana torceu a cara assim que a bebida tocou seus lábios.
— Esse vinho não vem das ilhas. — ela protestou. — Um bom vinho das ilhas é suave e parece dançar sobre a sua língua. É tão delicioso que te fará beber um barril antes que você note que está bêbado. Eu diria que, no máximo, esse é um vinho de pêras vindo do nordeste.
Heng parecia surpreso. O velho soltou uma sonora gargalhada.
— Parece impossível enganar uma dama de tão nobre paladar. Casou-se com uma senhora de bom tato, meu bom lorde, pois uma mulher como essa jamais deixará que o passem para trás. — antes mesmo que o general pudesse negar a afirmação, o velho abaixou-se e sumiu de vista. Tornou a aparecer segurando um jarro pesado e todo enfeitado com arabescos. — Esse sim é um bom vinho das ilhas, minha senhora. É uma das minhas preciosidades e eu o estive guardando justamente para uma cliente como você.
Lana desconfiou do que o homem dizia, mas bastou dar um gole para perceber que seus ditos eram verdadeiros. O prazer causado pela boa bebida estava visível no rosto do general e ele nada precisou dizer para que ela soubesse que ele também concordava. Heng comprou dois odres por uma pequena fortuna e destampou um deles prontamente depois de realizar o pagamento. Ofereceu a bebida para Lana e sorriu quando a viu tomar direto do gargalo, sem nenhuma frescura.
— Jamais imaginei que uma donzela pudesse me ajudar a fazer um negócio tão bom. — ele comentou. — As mulheres geralmente não entendem só de costura e outras coisas domésticas?
Lana revirou os olhos. Apesar disso, sentia-se bem-humorada.
— Eu conheço muitas coisas, meu lorde. — lambeu os lábios para tirar o resto da bebida e sorriu faceiramente para ele. — E sou boa na maioria delas.
À medida que a bebida surtia efeito, o homem fechado cedeu espaço para um sujeito falante que tecia comentários a respeito da beleza das luzes e fazia piadinhas sobre os transeuntes. Quando Nina e Linete regressaram, os dois já tinham bebido mais da metade do primeiro odre e riam como patetas. Heng tentava manter a postura, mesmo sendo complicado. Enquanto o mundo todo parecia girar ao redor dele, Lana não demonstrava nenhum sinal de embriaguez.
— Perdemos alguma coisa? — Linete perguntou com um sorrisinho desconfiado.
— Absolutamente nada. — Heng respondeu, olhando para Lana.
Assim que ela captou o olhar, começou a rir desvairadamente, mesmo que não tivesse motivo nenhum para isso.
Reunido outra vez, o grupo decidiu seguir caminho para a parte do sul do festival, onde as barraquinhas com raridades estavam montadas. O fluxo de pessoas era bem menor naquela parte, o que permitia que eles apreciassem os produtos com maior tranquilidade.
— Doces! Doces de todas as feitas! Temos chocolate, temos cereja! — gritava uma mulherzinha diante de um tabuleiro coberto com doces de todos os tipos e cores.
— Instrumentos de música de uma centena de países!
— Lentes e óculos de todos os tipos! Troque seus olhos velhos por novos!
— Tente a sorte! Aproxime-se! Responda a uma charada simples e ganhe um apito de vento!
— Tecidos das ilhas! Sedas de inverno! Comprem os mais belos tecidos do mundo!
— Sonhos engarrafados, um cobre a garrafa!
— Espadas da fortuna! Varinhas do poder! Anéis da eternidade! Cartões da bem-aventurança! Venham, venham, por aqui!
— Bálsamos e unguentos, poções e panaceias!
Lana se deteve um minuto para avaliar as pedras de um vendedor que apregoava ter vindo do Norte, mas a qualidade de suas esculturas não a convenceu muito. Nina chamou a atenção para uma banca coberta de pequenos enfeites de cristal. O trabalho do artífice era tão vivaz e delicado que Lana teve a sensação de que não havia nada que suas mãos não pudessem reproduzir. Haviam objetos para todos os gostos: pequenos animais, caixilhos com paisagens e belas flores, tudo esculpido com esmero no vidro.
Nina se interessou por um conjunto de patinhos, mas desistiu automaticamente ao ouvir o preço deles.
— Imagina quanta comida eu consigo comprar!
Lana sequer deu-lhe atenção, pois só tinha olhos para a bela rosa de inverno. A flor era uma réplica perfeita da original: folhas delicadas brotavam de um grande caule esverdeado, coroadas por grandes pétalas que eram azuladas na ponta e rosadas no centro. Era como uma memória cristalizada de casa, pois rosas como aquela cresciam apenas no Norte e haviam estado presentes durante toda a sua infância.
— Você deveria ficar com ela. — Heng disse.
— É belíssima, senhor, mas eu jamais teria como comprar algo assim.
— Então considere como um presente.
Espantada, Lana o viu pagar quatro moedas de ouro pela rosa. Recebeu o presente com dedos trêmulos, ainda sem saber como agradecê-lo.
— Combina perfeitamente com você, mesmo que você seja infinitamente mais bela. — ele sussurrou para ela.
Naquele momento, seus olhares se cruzaram e Lana viu tanta intensidade nas pupilas dele que não pode evitar ficar vermelha como um tomate. Desviou o rosto e murmurou um agradecimento desconcertado, mas evitou olhá-lo novamente durante todo resto do percurso, mesmo que ainda se mantivesse próxima. Em determinado ponto do caminho, sua distração fez com que ela escorregasse na neve meio derretida. Heng agarrou sua cintura, mas não foi suficiente rápido para evitar uma queda, fazendo com que os dois caíssem sentados sobre a neve. Assim que se deu conta que sua rosa não havia quebrado, Lana se permitiu soltar um sorriso aliviado e o general começou a rir junto com ela.
— Eu não sabia que o general Heng podia sorrir desse modo, minha senhora. — Linete murmurou para Nina enquanto observava os dois.
— Eu também não. — Nina retrucou, sorrindo largamente.
Depois que os dois se levantaram, o grupo continuou sua jornada, rumando cada vez mais para o sul da feira. Em determinado ponto, Lana fez questão de parar numa banca cheia de aquários e gastar todas as suas moedas em duas carpinhas vermelhas. O vendedor entregou-as em um jarro de barro envolto em pele de carneiro e ela estendeu o recipiente para Heng quase no mesmo instante.
— Esse é o meu presente senhor. — ela disse. — Não é tão belo quanto o seu, mas dizem que esses peixinhos trazem sorte e longevidade para quem os possui.
Foi a vez de Heng ficar encabulado, mas ele já estava embriagado demais para disfarçar a própria gratidão. Teria feito um carinho na bochecha de Lana se sua irmã não estivesse perto, mas ele ainda não estava avoado o suficiente para perder o decoro. Precisou conter-se, mas agradeceu a Lana de todo coração assim mesmo. Não pode evitar de sentir um certo orgulho quando notou que ela tinha voltado a olhar para ele.
Uma música animada começou a vir de longe, indicando que o terceiro e último desfile da noite começava. Estavam distantes demais para voltar a tempo de assisti-lo por completo, então decidiram continuar seguindo em frente e aproveitar as maravilhas que surgiram diante de seus olhos. Em seu próprio tempo, cruzaram com outra melodia. Num pedaço cercado por árvores em floração, dois músicos tocavam uma canção suave e casais se aconchegavam em uma dança romântica. Alguém havia enrolado luzes ao redor do tronco das árvores, dando todo um charme especial aquele lugar. Nina, eufórica como sempre, tirou Linete para dançar, mas Heng decidiu não convidar Lana, pois ainda precisava segurar os peixinhos.
— Venha comigo. — ele pediu. — Há um lugar muito belo logo a diante.
E havia mesmo. Sobre um riacho erguia-se uma pequena ponte de madeira, formando um arco perfeito sobre a superfície congelada. Do outro lado, estendia-se um bosque cujas cerejeiras começavam a florescer depois do inverno cruel. O céu se revelava sem nenhum tipo de obstáculo e sobre eles um milhão de estrelas cintilava. A lua estava ali, bem de frente para os dois, e, mesmo que agourenta, Lana não pode evitar achá-la mais bela do que nunca.
Aquele lugar parecia um retiro isolado do resto do mundo. Era como se não houvesse ninguém mais no mundo além dos dois e até música que chegava aos seus ouvidos era abafada e distante. Lana estava profundamente grata de compartilhar um momento como aquele com alguém como Heng, e ele mais ainda por poder vivenciá-lo ao lado dela.
— É lindo aqui. — ela disse quando eles subiram na ponte e pararam de frente para o luar. — Como sabia que esse lugar existia?
— Ora, é meu dever conhecer cada canto dessa cidade. — ele respondeu sorrindo. — Você ficaria surpresa com as maravilhas que existem. Um dia, talvez eu possa te mostrar todas elas.
Lana assentiu com um sorriso tímido. Não parecia mesmo haver melhor companhia no mundo.
Naquele momento, fogos de artificio começaram a estourar no céu em uma centena de fagulhas coloridas, pintando a noite com uma miríade de belos tons. De pé naquela pequena ponte, os dois tinham uma visão mais privilegiada do que o resto do mundo e não puderam deixar de se encantar diante do primeiro sinal de um novo ano.
— Feliz ano novo, Lana.
— Não seja bobo! Não é ano novo ainda...
Heng a observou com curiosidade e apontou para as luzes que ainda pipocavam na noite.
— Essa barulheira toda me diz que você está enganada.
— Enganados estão todos os sulistas. — ela retrucou. — Onde já se viu comemorar a passagem de ano quando a lua está minguante! É um mau presságio, senhor. Toda pessoa sensata sabe que devemos celebrar na primeira lua cheia depois do inverno.
— Eu não me importo com nenhuma data, desde que você esteja em todas elas comigo.
Ele sorriu. Ela sorriu de volta.
Os pés de Heng o levaram para mais perto dela, tão perto que Lana podia sentir o calor que seu corpo emanava e o cheiro do vinho impregnado em sua pele. A mão direita do general pousou em seu rosto e os olhos dos dois se encontraram. Lana não se lembrava de ter sentido o coração batendo tão forte em toda a sua vida. Seus dedos tremelicaram ao redor da rosa e ela sequer conseguia conter a onda de sentimentos que a impelia a ficar ainda mais próxima dele. Heng mordeu o lábio inferior e seus olhos desceram até a boca dela, demorando-se longamente ali. Lana podia sentir todo desejo que emanava dele, todo fogo incontrolável que o guiava até ela. Mais do que isso, ela também podia se sentir envolvida nas ondas de seus próprios anseios, desejosa do beijo iminente.
Heng se inclinou em sua direção, encostando sua testa na dela. O general começou a acariciar o nariz dela com a ponta do seu próprio, num movimento afetuoso e muito delicado. Os lábios estavam tão próximos que Lana podia sentir seu quase-toque, e ela mesmo teria os juntado se Nina não tivesse interrompido.
— Oh! — Nina disse. — Eu não queria atrapalhar vocês dois.
Os dois se afastaram um do outro desajeitadamente, claramente envergonhados. Seus olhos se encontraram novamente, e muito embora seus lábios não tenham se movido, eles sorriram um para outro através do olhar. Heng estendeu uma mão para ela.
— Vamos, Lana. Já está bastante tarde, de qualquer forma.
Ela assentiu em silêncio e simplesmente o acompanhou. Os dois retornaram para feira de mãos dadas e, mesmo que Lana tentasse manter sua face imperturbável, ela não podia esconder de si mesmo tudo que agora se passava em seu coração.
Mais tarde, Lana sentiria que teria sido bem melhor se a noite tivesse acabado daquela forma, com os dois andando de mãos dadas sob as belas luzes do festival e voltando juntinhos para casa. Se as coisas pudessem ser como seu coração desejava, aquela teria sido a melhor noite de sua vida em muito tempo. Mas não havia paz na corte dos Navani e essa era uma lição que Lana deveria ter aprendido há pelo menos uma vida.
Quando ela retornou para casa naquela noite, encontrou o Curatório mergulhado em uma escuridão densa, rompida somente por uma vela que brilhava francamente em algum lugar. Na mesma hora, achou esquisito. Seus senhores não tinha aquele hábito.
Ao abrir a porta, deparou-se com o ambiente todo revirado. O balcão de atendimento estava tombado, o banco de aguardo partido ao meio. A grande estante estava meio inclinada para o lado e muitos fracos tinha caído dela, inundando o chão com uma meleca formada por todos os medicamentos possíveis. Lana sentiu o coração disparar, mas não foi de maneira positiva dessa vez. Desesperada, subiu as escadas, mas seus senhores não estavam em nenhuma parte do andar de cima.
Aflita, tornou a descer. Encontrou Lewie na sala dos leitos, ao lado da vela. O médico estava sentado no chão, envergando um olho roxo e lábios arrebentados. As pernas esticadas, os braços pendendo inertes... Quando ele olhou para ela, havia tanta dor em seus olhos que Lana sentiu seu estômago afundar.
— Levaram ela, Lana. — ele disse francamente. — Levaram Tiana...
Incapaz de conter as lágrimas, o médico caiu em um choro amargo e profundo. Lana se ajoelhou ao lado dele e o envolveu em um abraço apertado. Um aperto familiar tomou conta de sua garganta e então Lana se deu conta de que também chorava.
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