O Despertar De Mewtwo
18 Resgate
Notas iniciais
Estava presa naquele barco e sem saber para onde iria. Eles também tinham me amordaçado. Me esforçava o máximo para me livrar daquelas correntes. Com muito esforço consegui liberar Houndoom da pokebola, e sua forte mordida quebrou as correntes.
Como no barco só havia eu e Professor Sebastian, meu plano era rendê-lo, amarrá-lo e pilotar o barco. E foi o que fiz. Mas as coisas não saíram como planejadas.
– Você já ouviu falar no ditado “quanto mais suicidas, menos suicidas”? – ele retirou uma granada do jaleco.
O que ele ganharia sacrificando a própria vida?
– Não faça isso!! – gritei para ele.
Ele arrancou o pino da granada e eu corri para a água. Estava chovendo e as ondas não eram nem um pouco amigáveis, mas não havia outro jeito. Mergulhei e só vi um clarão vermelho e laranja na superfície. Comecei a nadar rapidamente na direção oposta, mas havia algo errado.
Sentia como se meu corpo fosse puxado para baixo. Uma pressão enorme me impedia de subir. Coloquei a mão no bolso e retirei Weavile para me ajudar, mas não foi o suficiente.
Estava começando a sentir falta de ar.
Olhava para baixo e não enxergava o que poderia estar me puxando, e a superfície ficava cada vez mais escura. Weavile foi em direção a superfície e me deixou sozinha.
E eu comecei a sentir...
Que não demoraria muito para perder os sentidos.
Isso estava mesmo certo?
É justo eu morrer aqui por causa da Equipe Rocket?
É justo eu morrer sem ver Proton pela ultima vez?
De repente senti alguém me envolvendo em seus braços, e me levando a superfície, mas não conseguia ver quem era.
A superfície demorou a ficar clara de novo.
Só então vi aqueles cabelos vermelhos inconfundíveis.
– Cuidado Lance. – eu tentava falar, mas não tinha forças, queria avisar para ficar atento, pois eu sabia nadar, e algo me impedia de chegar à superfície.
– Calma Small Lady, a gente conversa depois, apenas tente se segurar em mim. – ele nadava até seu Gyarados vermelho, que também vinha até nós.
Mas novamente senti ser puxada, dessa vez com muito mais força. Eu me segurei com toda a força que tinha. Lance tentava me puxar consigo, mas ele também afundava. Mais uma vez pude notar que a superfície ficava distante e seu clarão fora desaparecendo.
Eu já começava a engolir água quando tudo ficou escuro de vez.
Deixei de sentir até os braços firmes dele em volta do meu corpo.
Acordei tossindo muito e vomitando água do mar. A chuva continuava a cair, acho que até mais forte.
– Isso, tenta expulsar toda a água que você engoliu. – foi naquele momento que percebi Lance ao meu lado batendo em minhas costas.
Meus olhos voltaram para ele. Ainda continuava enxergando um pouco embaçado. Ele se arriscou daquele jeito para me salvar?
Eu já estava cansada de bancar a forte, ninguém consegue ser o mestre pokemon invencível que resolve tudo o tempo todo. Eu desabei no choro como uma criança e no ombro do meu maior rival. E ele me abraçou e passou a mão em meus cabelos encharcados.
– Se você continuar chorando eu vou chorar também. – isso que ele falou soou tão bem. Por que você não é assim sempre Lance? – A chuva está um pouco forte, eu tenho uma casa de férias aqui perto. A gente pode dormir lá essa noite. – ele disse já me levantando em seu colo.
A casa era pequena para ser considerada uma casa de férias. Nem se comparava com a mansão de Viridian, apesar de ainda assim ser bonita. Lance tinha bom gosto para as coisas. Por dentro a casa se parecia com a que eu sempre morei em Lavender com meu pai, simples e sem grandes exageros.
– Lance. – eu o chamei enquanto ele tentava se entender com as luzes da casa.
– Pode falar.
– Obrigada por ter me salvado, pensei que fosse morrer – eu estava pingando no meio da sala – eu sei nadar, tinha alguma coisa lá embaixo me puxando.
– Agradeça ao Gyarados, Small Lady – ele desviou os olhos dos botões e sorriu para mim – você foi puxada porque o mar ficou muito agitado por conta da tempestade.
Ele saiu e foi em direção as escadas da casa.
– Comprei essa casa com o propósito de poder treinar nas férias, mas a Clair é quem costuma vir mais para cá – ele começou a subir as escadas – vou buscar algumas roupas secas para nós.
A casa era aconchegante, tinha um toque familiar, talvez fosse por causa de Clair. Na mesa da sala tinha várias fotos da família, comecei a olhar uma a uma. Tinha uma do Lance bem pequeno, devia ter uns dois anos, todo lambuzado de sorvete.
– O que você está olhando aí? – percebi que Lance já estava logo atrás de mim com uma pequena pilha de roupas.
– Sua foto tomando sorvete. – tudo aquilo me fez esquecer um pouco dos problemas que passei.
– Eu mato a Clair. – ele abaixou o porta-retrato – Acho que aqui tem tudo que você precisa. O banheiro é logo ali. Eu vou tomar banho no meu quarto. Já aproveitei e arrumei o quarto da Clair para você – ele deu aquele sorriso irônico de lado que tanto odeio – mas claro, se você quiser pode dormir comigo essa noite.
– Cala a boca Lance – senti meu rosto corar e fui a passos rápidos para o banheiro.
Enquanto tomava banho comecei a pensar em tudo que acontecera mais cedo. Ficamos perto de matar Mewtwo. Se Ash não tivesse aparecido, talvez tivéssemos conseguido, mas provavelmente teríamos morrido.
O que mais me preocupava era que ele já estava prestes a despertar, e agora seria muito mais difícil se infiltrar na Equipe Rocket. E provavelmente quando reencontrarmos Mewtwo ele já teria despertado.
Qual seria o próximo passo?
Tomei o banho e fui para a sala. A chuva continuava muito forte.
Outra coisa que me intrigava era Lance, ele salvou a minha vida, mas continuava o mesmo.
Por que fez isso? Ele foi sozinho me salvar.
Ele faz isso com todas?
“Se você quiser, pode dormir comigo essa noite”, bem que queria dormir com você, Lance.
Mas o que eu estou pensando? Preciso me concentrar.
Ele ainda tomava banho. Eu sabia que a Clair costumava usar roupas curtas, mas a camisola que Lance me entregou passava dos limites. Além de ser extremamente curta, era super decotada.
Ele só pode ter feito de propósito, escolheu a roupa mais curta da prima. Safado.
– Small Lady, eu esqueci de avisar, mas pode deixar a roupa estendida no banheiro que até amanhã já deve secar. – ele parou e começou a me observar, dos pés a cabeça.
Kami-sama.
Ninguém sabe o quanto luto para esquecê-lo. Meu coração pertence a Proton eu só posso sentir isso por ele, mais ninguém.
– Incrível como as roupas da Clair sempre ficam melhores em você do que nela.
– Acho que ela não iria gostar de ouvir isso – tentei desconversar.
– Ela não está aqui para ouvir – ele piscou.
– Onde estamos exatamente? – mudei de assunto e cobri o decote da camisola com o braço.
– Estamos a alguns quilômetros de Fuchsia. – ele começou a se encolher – Está esfriando. Eu vou deitar. Se tiver com fome tem comida no armário da cozinha. – ele começou a subir as escadas, me deixando sozinha.
– Você... só me usou, não foi? – não sei por que, mas achei que aquele era o único momento que teria para tocar naquele assunto.
– Do que você está falando? – ele parou no meio da escada e me fitou.
– Você... sabe do que estou falando – senti lágrimas virem aos meus olhos, só Arceus sabia o quanto doía desenterrar o passado – aquele dia que você me beijou na Victory Road um dia antes da nossa disputa pela liderança da Elite 4. – comecei a olhar para o chão, na tentativa de esconder meu rosto.
– Sim, a ideia era essa mesmo – por que eu tinha que gostar da pessoa que mais me causava dor e sofrimento? – mas depois me arrependi.
Permaneci calada, apenas olhando para o chão e lutando contra minhas emoções para não chorar na frente dele.
– Eu não podia perder aquela batalha, seria muito humilhante, principalmente para o meu avô. – ele parou de falar por um momento – Eu teria o desprezo dele pelo resto da vida. Acho que você o conhece suficiente para saber disso.
– E você acha que não foi humilhante para mim? – senti uma lagrima insistente escorrer pelo meu rosto e abaixei ainda mais a cabeça para que ele não notasse – Eu decepcionei minha avó.
– Eu fui muito egoísta. – ficamos em silêncio de novo – Você disse para mim que não era... mas eu sei que aquele foi seu primeiro beijo.
Não era uma pergunta e eu não precisava daquilo. Para mim foi a gota da água. Não bastou ter me humilhado naquela batalha na frente de todos?
Não foi o bastante para ele ficar se agarrando com a Liza na minha frente depois de roubar o meu primeiro beijo?
Não foi o bastante se referir a mim como “a putinha do Steven” ou como “a putinha do Bill” depois do meu aniversário?
Foi para isso que ele se deu o trabalho me de salvar? Para me humilhar mais uma vez?
– ISSO NÃO É IMPORTANTE! – minha voz saiu quase como um grito e ele estava bem ali na minha frente. Minha cabeça estava tão baixa que não notei quando ele se aproximou.
– Me desculpe – ele ergueu sua mão secando as lágrimas que escorriam pelo meu rosto – nada do que eu faça vai mudar o quanto te fiz sofrer durante todo esse tempo. Eu sinto muito.
Pode parecer ingenuidade, mas essas palavras me pareciam sinceras. Seus olhos sempre irônicos estavam tristes e sérios.
Ele está mesmo arrependido?
– Você tem o direito de me odiar para sempre – sua voz era suave e triste – depois que tudo isso acabar, podemos batalhar de novo pela liderança da Elite 4 e caso você ganhe, eu renuncio.
Ele está disposto a renunciar? Ele está mesmo arrependido de ter feito tudo aquilo?
Instintivamente, passei minha mão pelo seu rosto e comecei a acariciá-lo, ele fechou os olhos e suspirou como se aproveitasse cada momento do meu toque. Seu rosto estava quente. Eu queria tanto beijá-lo, mas aquilo não podia acontecer, nossa rivalidade não permitia.
Por que eu tinha que gostar justamente do meu rival?
– Lance você está quente.
– Adivinha quem me deixa assim? – ele abriu um largo sorriso.
– Mas é sério você está com febre.
– A culpa continua sendo sua. – ele se aproximou ainda mais de mim e começou a acariciar meus cabelos e logo em seguida beijou minha testa. Me arrepiei quando ele fez isso.
– Vá deitar Lance, eu vou procurar um antitérmico e te levo. – me afastei e fui correndo em direção a cozinha.
Eu precisava fugir dele e também de mim.
Revirei a cozinha atrás de algum remédio que abaixasse febre e achei depois de um tempo. O estilo daquela casa era mesmo parecido com a que morei em Lavender.
Fui até o quarto e ele estava deitado, coberto e com o rosto rosado.
– Você tem certeza que isso vai resolver? – ele perguntou enquanto tomava o remédio.
– Acho que sim. – olhei para a janela ao lado da cama dele, a chuva continuava a cair – Acredito que amanhã você já esteja melhor.
– Small Lady, você ainda tem medo de trovões? Lembro que quando a gente era criança você começava a chorar quando ouvia um.
– Lance, olhe bem para mim. Eu trouxe à paz a cidade de Lavender, e aos pokemons mortos que vivem lá. Libertei o espírito da mãe de vários Cubones que a Equipe Rocket assassinou friamente – voltei a olhar para ele – você acha que eu ainda teria medo de trovões depois de tudo que enfrentei?
Para dizer a verdade, eu ainda tinha medo de trovões, mas não diria isso a ele.
– Você se lembra de quando a gente se viu pela primeira vez? – ele me perguntou e eu me sentei na beirada da cama, como meu pai costumava fazer quando era hora de dormir.
Sorri e assenti. A gente tinha três anos e foi durante a confraternização de natal dos membros da Elite 4.
Eu havia ganhado do Clã um Eevee de pelúcia e fui até o jardim brincar com o meu novo brinquedo, mas a diversão não durou muito Lance apareceu e tomou o Eevee de mim.
– Devolve. – levantei e estendi minha mão ao menino ruivo e maior que eu.
– Então pega. – ele jogou o meu brinquedo no lago próximo ao jardim.
Aquela foi a primeira vez que fui desafiada a algo e também foi a primeira vez que alguém me tirou do sério.
Eu não quis pegar o Eevee no lago, eu não sabia nadar e tinha medo de afundar na agua. A minha unica reação enquanto o menino mais velho caia na risada foi jogá-lo no chão e puxar os seus cabelos espetados.
– Me solta! Eu vou contar pro meu avô! Socorro!! — ele gritava e esperneava enquanto eu sentada sobre suas costas puxava com força seus cabelos.
Até que minha avó apareceu e nos separou. Ela ficou bastante brava comigo.
– Onde já se viu fazer isso com seu amigo? Você é uma dama e damas não fazem isso. – eu abaixei a cabeça e deixei ela falar, mas desde aquele dia eu sabia que Lance e eu nunca seriamos amigos.
– Você sempre me surpreendendo... Eu imaginei que sua reação fosse chorar como qualquer outra criança de três anos, e não me agredir... – ele começou a se cobrir melhor. – Como está frio aqui.
– Quer mais uma coberta? – ele assentiu.
Fui até seu guarda roupas e peguei a coberta mais quente que encontrei. E o cobri. Notei que ele já começava a ficar sonolento por conta do remédio.
– Prometa para mim que nunca mais vai beijar o Bill e nem dançar com Steven... nem com mais outros caras? – do que ele está falando? Ele viu o Bill me beijar? – Você pode fazer essas coisas só comigo... – ele está delirando por causa da febre? – Eu fico louco... quando outro encosta em você... por isso... – a voz dele foi diminuindo até desaparecer.
– Lance? – chamei e ele lentamente abriu os olhos.
– Eu só preciso dormir um pouco. – e calou-se completamente.
Fiquei por um tempo o observando. Ele já começava a transpirar, mas seu rosto tinha uma expressão sofrida. Eu toquei na sua testa, ele queimava de febre.
Comecei a analisar seu rosto, era tão bonito. Eu podia ficar a noite inteira ali, apenas analisando cada traço. Mas fui em direção ao banheiro a procura de uma toalha e uma bacia.
Enchi a bacia de água, molhei a toalha, torci, coloquei na sua testa e sentei no chão, apenas observando. O rosto dele pareceu mais calmo depois do contato com a toalha molhada.
Eu gosto tanto dele.
E estar perto dele, apenas confirma meus sentimentos.
Ele sente ciúmes do Steven e do Bill?
Se ao menos fosse sua namorada eu poderia cuidar dele sempre que precisasse.
Não, eu não posso pensar nisso, eu pertenço a Proton.
E além do mais, ele fica com várias...
Seria só mais uma.
– Não me dê falsas esperanças Lance – sussurrei enquanto o observava.
A toalha já estava quente, voltei a molhá-la na bacia e depositá-la em sua testa. Fiz esse movimento inúmeras vezes. A febre ainda não tinha começado a abaixar e a água da bacia já ficava morna.
Até que comecei a sentir meus olhos pesarem. Olhei para o relógio e já eram 2h00.
Eu não posso dormir agora.
Primeiro preciso esperar sua febre abaixar.
Encostei apenas o rosto na beirada da cama e adormeci.
Eu estava tão cansada... e depois de tudo que aconteceu hoje...
Vi um clarão surgindo da janela e um enorme estrondo de trovão. Comecei a gritar e me encolhi o máximo que consegui no peito de alguém.
– Não precisa ficar com medo. – uma voz sussurrou perto de mim.
E só então notei que não estava mais no chão e sim nos braços de Lance.
Não sei se aquilo era um sonho ou se tinha acordado.
– Durma Small Lady. – disse ele bem baixinho e eu apertei a camisa dele.
Seu braço me puxou mais para o seu corpo, e ele beijou minha testa.
Aquilo era um sonho?
Outro estrondo me fez pular de medo, enterrei meu rosto na camisa dele. Senti algumas lágrimas escorrerem.
– Eu odeio trovões – sussurrei – enfrento qualquer coisa menos trovões. – disse ainda me apertando contra sua camisa.
Ele me apertou ainda mais contra seu corpo e eu gemi baixinho.
– Não precisa ter medo... Os trovões não têm como fazer mal a você... Deixa eu te proteger. – suas últimas palavras fizeram meus olhos se abrirem e me levantar para olhá-lo.
O quarto estava escuro, mas era possível ver seu rosto. Lance estava sério, mas me olhava de um jeito carinhoso. Aquelas palavras me causaram um impacto. Era como se a partir daquele momento eu dependesse apenas dele.
Levei minha mão até seu rosto e acariciei sua face lentamente, percorrendo meus dedos até seus lábios e os deixei ali. Vi quando outro clarão se aproximou, mas não era mais importante.
Aquilo era um sonho?
Por favor, diga que é. Assim posso fazer tudo que eu quero.
Eu me aproximei bem lentamente de seus lábios. E surpreso, ele abriu mais os olhos e parou de respirar.
– Small...
Sem que ele pudesse prever, eu o beijei. Seus lábios estavam quentes. Foi um beijo demorado, não queria parar, não queria mais voltar à realidade.
Mas ele quebrou o beijo, respirou fundo e voltou a me beijar. Era como se eu tivesse conseguido encontrar algo que havia perdido há muito tempo, não sabia o que era, mas era algo importante.
Durante aquele beijo uma felicidade inexplicável tomou conta da minha alma. Uma emoção que apenas era sentida pelo meu coração... aquele beijo me completava, completava a minha alma.
Ele colocou as mãos em minha cintura e senti o peso dele sobre meu corpo.
Definitivamente isso tem que ser um sonho.
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