Desperto com o alarme do celular ao dar 7 da manhã. Não vejo a necessidade de acordar tão cedo, mas, vamos lá, começar mais um dia.

Faço tudo como todos os dias, antes das 8 já estou saindo de casa para pegar o metrô. Já me dirigindo ao meu destino, estou mandando mensagens para minhas amigas, avisando que já estou à caminho, quando o metrô dá um solavanco.

Até aí, um incômodo, mas não algo tão fora do comum pro horário. Só começo a me preocupar de verdade quando a energia começa a oscilar. A atendente no interfone avisa aos passageiros que tenham paciência que houve um problema na plataforma e que ficaremos alguns minutos parados até tudo se estabilizar. Pensando bem, para tão cedo em um feriado não prolongado, é um pouco esquisito sim ter ocorrido um problema. Ou não. Apenas parece pior por ser feriado. Acho que estou me preocupando à toa, porém, algo dentro de mim fica insistindo em me instigar esse pensamento de que é o prefácio de algo ruim.

Tento enviar outras mensagens, mas não há sinal. Para não entrar em pânico, começo a olhar para os lados. Ninguém parece desesperado, está todo mundo meio dormindo, olhando para o celular, ou apenas conversando. Todo mundo exceto uma senhora. Ela está inspirando e expirando profundamente, prestes a hiperventilar. Parece inevitável o que acontecerá e, mesmo sabendo que serei contagiada por seu ataque de pânico, não consigo evitar olhar.

Então enfim acontece. Ela começa a passar mal e, só de observar a cena, tenho que reunir todo meu autocontrole para não passar mal junto. As pessoas começam a cercá-la, o que só piora tudo. Até que uma moça, abrindo caminho, grita de forma imperativa:

— Se afastem! Ela precisa de espaço para respirar. Deixa que eu cuido disso, sou enfermeira.

Eu nem estava tão próxima assim, mas aproveitei a deixa para me afastar e não ter mais que ficar olhando para aquilo.

Quase no mesmo instante, o trem volta a se mover. E mais nada fora do comum acontece.

— Vocês não sabem o que aconteceu no caminho até aqui! – vou contando para minhas amigas o motivo do meu atraso. Elas já estavam me aguardando no Terraço Júpiter, o maior arranha-céu da cidade. Ainda que a parte de fato do terraço nem estivesse aberta ainda por ser muito cedo, o lugar já está lotado. Por dera, aqui será o lugar perfeito para avistar o fenômeno que ocorrerá daqui umas horas.

Por conta disso, acabei sendo “atropelada” por um rapaz que passava correndo.

— Que mal educado! Não vai nem se desculpar?! – uma das minhas amigas gritou para ele.

— Desculpe! – ele grita se voltando para trás, porém sem parar de correr. — Tenho que correr...

— Esta cidade está mesmo cheia de malucos...

— Está tudo bem. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo e eu estou bem. O que querem fazer enquanto esperamos o terraço abrir?

— Vamos visitar o bendito museu para contar como horas complementares para a faculdade. Acho que já está aberto. Foi pra isso que viemos, claro, não para ver a incrível chuva de meteoros.

E lá fomos nós. O terraço era dividido em várias alas. Havia até uns andares que serviam como moradia e alguns como restaurantes, incluindo o caríssimo logo abaixo do terraço a céu aberto. No caso do tal museu, ficava em um dos andares mais abaixo, da época em que o prédio servia apenas como moradia e contava apenas com 14 andares, ainda assim, foi o mais alto de sua época, e foi para não perder o título que resolveram expandi-lo em vez de construir outro mais alto. Enfim. O museu não é nada demais, é apenas uma reminiscência da década em que foi construído, sendo que os quartos foram preservados desde então exatamente como foram feitos. E vale as tais horas.

O coitado do guia apresentava a sociedade da época, quem foram os construtores e tudo o mais, para nós três e mais duas pessoas, e absolutamente nenhuma de nós cinco estava nem aí. Comecei até ficar com pena dele.

— É o horário. Está todo mundo com sono ainda – tentei amenizar o desinteresse.

— Que nada, está todo mundo mais entretido com a chuva de meteoros. Ei, quer saber uma curiosidade? – não necessariamente, mas assenti para não deixá-lo sem jeito. — Dizem que este lugar também já foi usado para experimentos do governo. Não estes andares... supostamente uns subterrâneos. Isso é bem mais empolgante que as histórias de guia, não? Mas se meu supervisor descobre que estou espalhando “boatos” para os visitantes, perco minha fonte de renda.

Quando terminamos nosso passeio, resolvemos parar numa lanchonete para já escrevermos o resumo da nossa visita antes que esquecêssemos o pouco que assimilamos, e aproveitamos para comer alguma coisa já que os restaurantes ficariam lotados no horário do almoço, se é que seria possível entrar sem reserva.

— Mil perdões! – estava distraída quando a garçonete derrubou o suco da minha amiga em cima das suas anotações. Eu mesma fiquei assustada, mas, quando vi que a moça parecia mais jovem do que nós e tinha olheiras enormes, fiquei com pena dela.

— Você estragou meu trabalho! Não acredito! Se não consegue nem colocar um copo na mesa, por que trabalhar numa lanchonete?!

— Sinto muito! Por favor, não fique brava! Vou dar um jeito num instante!

— Não tem o que dê um jeito no meu trabalho! Ai, que saco!

— Amiga, relaxa. Depois você copia de uma de nós – minha outra amiga tentou acalmá-la.

Eu estava entre olhar para elas, para a pobre garçonete, e para um homem estranho, que notei a presença somente agora há pouco, que começou a nos rondar. Quando repara no meu olhar, o homem se afasta, sumindo de vista.

O clima continuou tenso depois disso. Não foi somente aquele evento infeliz da lanchonete, havia algo mais no ar. Como se a expectativa do que estava para acontecer fosse mais próxima de algo ruim do que bom afinal.

Enfim chega o momento de subirmos ao terraço.

Como o esperado, está lotado e é difícil de encontrar um lugar na balaustrada. Ainda faltam alguns minutos até o fenômeno começar, então decido olhar mais para o canto se tem algum espaço sobrando.

No meio da multidão, acabo me perdendo das meninas. Isso acentua minha sensação de insegurança. Mas decido que posso ir me encontrar com elas depois. Virando uma brecha minúscula entre a balaustrada e um enorme pilar, que está ali para apoiar um teto solar para ter uma parte coberta, encontro um pedacinho praticamente vazio, há apenas um rapaz que, com o rosto virado para o outro lado, não para o céu, mas para baixo, mal consigo ver sua cara. Como ainda há uma distância considerável até onde ele está, bem na ponta, decido que não será tão constrangedor se permanecer ao lado do pilar. Até por que, quando dou por mim, a chuva de meteoros já está começando.

No começo, parece que está chovendo meia dúzia de estrelas-cadentes. Chega a ser meio ruim de enxergar porque é dia e o céu está claro, embora um pouco nublado. Porém, abruptamente o tempo vira de uma forma que nunca presenciei antes.

O céu fica quase completamente cinza. E, os fragmentos de meteoro que estão descendendo em chamas se assemelham a estrelas, e estão ficando mais próximos.

Um cheiro pungente, quase como de queima mas com algo mais, chega antes de mais nada e por fim percebo que o céu não está nublado, aquelas supostas nuvens cinzas são na verdade fumaça.

Em questão de segundos, vejo um pedaço de meteoro, grande como um carro, passar rente ao prédio e então cair no asfalto do quarteirão ao lado. Não deveria ser possível aqueles corpos celestes estarem ultrapassando a estratosfera do planeta, porém, ao longe, mais fragmentos pareciam cair. As pessoas começam a entrar em pânico aqui em cima. Não consigo vê-las, porém posso ouvir seus gritos. O rapaz que estava mais próximo de mim havia desaparecido. Fico tão atônita que não sei o que fazer. Sair correndo em pânico não parece uma boa ideia, poderíamos ser atingidos de qualquer lugar; ninguém havia se preparado para uma catástrofe dessas.

Meus olhos são atraídos de volta para onde aquele primeiro meteoro caiu, criando um buraco enorme na rua, a ponto dos prédios ao redor começarem a desmoronar. Não havia sido somente esse o estrago. Do buraco... Parecia estar saindo algo dali. O meteoro já não era mais visível, em seu lugar parecia que... insetos gigantescos de pele metalizada estavam se espalhando para todos os cantos.

Antes que tivesse tempo de assimilar aquilo, mais um ruído ensurdecedor me deixou atordoada.

E só tive tempo de ver que mais um meteoro vinha em cheio em minha direção quase que na velocidade da luz.

“Des...per...”

Desperto com o alarme do celular. São 7 da manhã do dia 29 de maio, quarta-feira. Exatamente como tinha programado.

Que sonho mais intenso! Nunca havia sonhado com tantos detalhes e com um episódio da minha vida que de fato aconteceria, ao menos em partes. Consigo me lembrar quase que claramente. E não quero esquecer, por mais que me deixe apreensiva comparar tal sonho macabro com a realidade. Mas algo me diz... que não foi por acaso.

Sem conseguir me livrar da tensão, vou fazendo tudo normalmente, até ficar ainda mais dura ao sair de casa e pegar o metrô. Tudo está tranquilo até o solavanco acontecer. Tudo bem, até aí, pode ser apenas uma coincidência.

Então a senhora começar a passar mal. Vou olhando freneticamente de pessoa a pessoa até avistar a tal enfermeira indo em direção a ela. Tudo se desenrola como no sonho.

— Vocês não vão acreditar no que aconteceu! – ao encontrar minhas amigas no Terraço, em vez de contar sobre o evento no metrô, conto sobre meu sonho.

— Caramba! Que loucura! Mas você não acha mesmo que isso é real, acha?

Lembro-me que, enquanto conversávamos, algo acontecia, mas já não conseguia mais me lembrar o quê. Burra. Deveria ter anotado tudo, já estou começando a me esquecer, com exceção daquele final macabro...

Um rapaz veio correndo tão rápido a ponto de tombar na minha amiga e derrubá-la no chão. Algo me diz que não era exatamente isso que deveria acontecer...

— Mil perdões! – ele diz se voltando para trás, porém sem parar de correr. – Mas não posso parar!

— Que maluco! Mal educado! Ignorante! – e os xingos foram infinitos.

Sem darem muita atenção ao que havia contado, minhas amigas sugerem que visitemos logo o museu para fazermos a tarefa que nos arrecadará horas complementares para nosso curso.

Consigo me recordar de que fizemos isso também, mas acho que nada de relevante aconteceu nessa parte. O guia parece meio chateado por ninguém estar dando muita bola a ele. Fora uns quartos vintages, não há nada de interessante a se ver.

A parte da lanchonete, consigo me lembrar melhor porque minha amiga ficou muito brava. Quando a garçonete surge no meu campo de visão, digo para as meninas tirarem seus materiais de cima da mesa para evitarem acidentes. Mesmo assim, a garçonete ainda consegue derrubar o suco e o suco continua a escorrer direto para as anotações da minha amiga.

— Perdão, moça! Pode deixar que darei um jeito nisso!

— Você estragou meu trabalho! Como vai consertar isso?!

Enquanto as duas discutiam, senti o olhar de alguém sobre nós e vi, à porta da lanchonete, um homem estranho olhando para nós. Ele faz contato visual comigo por um instante antes de sair...

— Hoje não é meu dia... Será que deveria voltar para casa?

— Qual é! Temos que assistir à chuva de meteoros!

— Acho que deveríamos todas voltarmos sim. Algo ruim irá acontecer! – afirmo com certa urgência, mais que decidida que meu sonho não foi apenas um sonho.

— Você não pode estar falando sério...

— Por favor. Podemos ver a chuva em outro lugar. Aqui estará lotado de qualquer forma.

Consegui convencer minhas amigas de alguma forma e decidimos ir para outro lugar, mais a céu aberto, porém nada de prédios altos. E, assim, fomos juntas até o metrô.

E eu ainda não me sentia segura.

Ainda mais depois de outro solavanco.

“Caros passageiros, por favor, seguirem para a plataforma de emergência. Caros passageiros...”

O trem parou completamente e, por um milagre, ainda deu tempo das portas se abrirem. Isso sim era inusitado. Não houve sequer uma explicação do que estava havendo, mas muitos já correram para a plataforma de emergência, aquela faixa estreita ao lado dos trilhos.

— O que está havendo...?!

Devido ao pânico, deixo que os outros sigam na frente para não ser esmagada pela aglomeração. Parada ali, penso ouvir um ruído vindo acima do trem. E então as pessoas que já saíram começam a gritar.

Elas começam a correr de volta para dentro, perseguidas por algum daqueles insetos gigantes que pensei ter visto saído do buraco causado pelo meteoro. De perto, eram ainda mais aterrorizantes, com uma cabeça esguia e longa coberta por dezenas de pares de olhos, e com seus três pares de membros afiados como navalhas e que os permitiam saltarem facilmente. Aquele mesmo saltava com as patas traseiras enquanto rasgava as pessoas a sua frente com as patas dianteiras.

Em meio aos gritos e ao som dos passos desajeitados, ainda podia ouvir o ruído acima da minha cabeça ficando mais alto.

Começo a correr também, porém, mal me viro e um buraco surge do teto, despencando uma daquelas criaturas bem diante de mim.

Tenho tempo apenas de fechar os olhos com força antes do pior acontecer.

“Des... per... te...”

Quando desperto pela terceira vez da mesma forma, tenho certeza de que o que estou vivendo não se trata de um mero sonho, embora não possa ter uma explicação plausível para o que está havendo.

Arrumo-me mais rápido que das outras duas vezes e fico me questionando se deveria continuar fazendo tudo da mesma forma, se deveria tentar ao menos pegar o metrô um pouco mais cedo ou mais tarde. Ou cancelar o passeio de vez.

Por fim, concluo que não há propósito nisso. Ainda que faça tudo diferente, não serão pequenas ações, exclusivas minhas, que mudará o que acontece durante a chuva de meteoros. Ainda que possa me salvar, não conseguiria impedir mais nada. Tenho é que descobrir o que está havendo. E, tenho a impressão, que não posso ser a única que está passando por isso.

No metrô, no momento em que a enfermeira passa por mim, a seguro pelo braço.

— Você sabe o que está acontecendo? – ela me olha de um jeito estranho, obviamente. Mas penso que, se este dia se reiniciará de alguma forma, acho que vale a pena passar por louca. Alguém deve saber de alguma coisa.

Ao mesmo tempo, parece que há algo em seu olhar que entende o que quero dizer. Até pelo tempo que ela demora para se desvencilhar de mim, que fica me encarando. Ela só volta a se mover quando vê que a senhora está quase caindo no chão. Fico observando a cena de forma completamente insensível.

Quando encontro minhas amigas, não digo nada. Fico olhando para o lado, esperando pelo momento que o rapaz passará correndo. Quando enfim aparece, faço como fiz com a enfermeira e o agarro pelo braço.

— Você sabe o que está acontecendo, não sabe? – por um instante, sua expressão, já bastante assustada, parece se intensificar ainda mais.

— Desculpa... Tenho que correr... – ele se desvencilha facilmente de mim e continua correndo.

— Menina, o que foi isso?! – minha amiga me questiona.

— Se contasse, você não acreditaria.

Então para o museu. No instante em que ninguém está dando atenção para o guia, o questiono:

— Você sabe o que ocorrerá hoje?

— Está falando da chuva de meteoros? – quando não confirmo, nem nego, ele me olha de forma semelhante à dos outros dois que abordei. Como se quase pudesse me entender. – Ou está falando de teorias da conspiração? De que seria uma invasão alienígena?

— Deixa pra lá.

Na lanchonete, assim que avisto aquele homem suspeito, corro até ele. E ele, tão rápido, ou mais rápido do que eu, corre de mim. Tento chegar até ele, porém acabo o perdendo de vista no meio da aglomeração de gente.

— E como fica o meu trabalho?! – quando retorno à mesa, a discussão ainda continua.

— Ei, aonde você foi?

— Moça, por que está tão nervosa? – pergunto à garçonete.

— É que cometi um acidente...

— Não. Antes disso. Quando veio nos atender, já estava bem nervosa – então ela me olha daquele jeito também, antes de ajeitar sua postura, como se decidindo o que me dizer.

— É que é meu primeiro dia de trabalho... – aquilo soou como uma mentira. Mas de que forma poderia arrancar a verdade?

O momento do terraço. Já mais nada poderia ser feito.

Deveria simplesmente aguardar pelo inevitável fim?

Lembro-me então do rapaz misterioso isolado num canto e decido questioná-lo também, por que não?

— Ei... Você sabe o que está havendo? – quando ele se volta para mim, com aquele olhar um tanto indiferente, fico um tanto deslumbrada. Não bem com sua aparência... não sei explicar.

— Você não?

Era só o que faltava! Alguém me vir com um enigma numa hora dessas!

Enquanto aguardo uma resposta satisfatória, o primeiro meteoro cai. Mas o rapaz não volta seu olhar para o chão, e sim para cima. Não na direção dos meteoros, para bem acima de nossas cabeças, e acabo olhando também. Tem algo passando pelo céu... Seria um avião?

— Você tem que despertar.

É tudo que ele precisava me dizer para que finalmente entendesse.

Desperto dentro de um robô gigantesco, uma espécie de mecha. Ao meu redor, estão mais sete outros desses, com formatos personalizados.

A chuva de meteoros está começando. Cabe a nós defender nosso mundo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!