O Despertar
2 America em ruínas
Notas iniciais
Brasil, uma semana antes da epidemia...
Acordei com Matt jogando o jornal fedido na minha cara com mais força do que precisava. A claridade já invadira a sala pela janela embaçada, o que fazia meus olhos arderem.
– Porra Matt, isso é jeito de acordar alguém? – Me sentei no sofá e olhei de relance para o pedaço de papel pousado sobre o cobertor.
– Você já leu as noticias? – Seus olhos fixos em mim pareciam assustados.
– Não. – Balancei a cabeça e cocei a nuca, eu não conseguia entender como um cara tão alto pudesse parecer uma adolescente em crise agora andando de um lado para o outro na minha frente. – Eu deveria? – Franzi o cenho e sorri.
– Sabe Thiago, existi uma vida além de ficar dormindo no sofá de cueca e se empanturrando de Doritos e tomando essa porcaria de refrigerante.
– Em primeiro lugar, isso não é uma cueca, é uma samba canção. – Apontei para baixo. – Em segundo lugar, essa porcaria de refrigerante se chama Coca-cola e você deveria beber um pouco de vez em quando. E em terceiro lugar, o que foi que deu em você? – Me levantei e peguei o jornal que havia caído no chão, batendo com ele na cabeça de Matt. – Para quieto, cacete! – Falei entre os dentes
– Caralho, Thiago dá pra parar de reclamar que nem um menininha e ler a porcaria do jornal para você entender?
– E o que tem de tão importante nessa merda, hem?! – Abri o jornal na primeira página, aonde estava escrito em letras garrafais “EUA em ruínas”, então comecei a ler...
“Apesar dos esforços do governo americano para conter a maior epidemia de morte que o país já enfrentou, mais de 80% da população americana foi infectada e cerca de 60% morreram ou estão desaparecidas. O que é mais intrigante é que há relatos de que alguns corpos supostamente mortos estão voltando a vida e se alimentando de carne humana, algo que apavora os cidadãos sobreviventes. As regiões menos afetadas até agora são Ohio, Kansas e Washington DC que lutam incansavelmente para que a infecção não ganhe proporções maiores .
Outro problema enfrentado pelo país é a dificuldade de comunicação, que agrava ainda mais a situação, pois não há como pedir ajuda.
Há relatos de que a infecção se espalha pelo ar e que está atingindo outros continentes, como Europa e a Ásia. Ainda não há evidencias de que a infecção tenha chegado ao Brasil, mas as autoridades alerta para que a população fique atenta. (...)”
Levantei os olhos do jornal e dei um sorriso para Matt, que tinha os braços cruzados sobre o peito.
– Porra Matheus, você acha mesmo que eu vou acreditar numa coisa dessas?
Matt descruzou os braços e deu dois tapas nas laterais da minha cabeça.
– Quando é que você vai acordar, Thiago? A vida não é só ficar dormindo no sofá do meu apartamento.
– Mas você está querendo dizer que os mortos estão voltando a vida? Hem, Matt? Sério? – Franzi o cenho e ri.
– Eu ainda não sei, mas o capitão da minha unidade disse que se as coisas começarem a piorar, nós e alguns outros países iremos ajudar, só que nós ainda não sabemos ao certo como matar os “mortos vivos”. – Matt voltou a andar de um lado para o outro, visivelmente atormentado. – Tem centenas de vídeos na internet em que moradores de algumas cidades infectadas fuzilavam os desgraçados, mas eles continuavam vivos!
– Então o que eles são? – Me sentei no sofá. Não pode ser verdade! Não, não, não!
Matt passou a mãos nos cabelos loiros e curtos.
– Eu não sei, mas nós temos que sair dessa cidade. – Disse ele.
– Como assim? – Arregalei os olhos, boquiaberto.
– Temos que sair do nordeste... – Ele piscou. – Temos que ir para São Paulo.
– E como você vai sair do exercito assim de uma hora para outra?
– É simples. – Matt cruzou os braços sobre o peito e deu de ombros, tranquilamente. – Eu não vou sair, eu vou pedir transferência, e você vem comigo. – Ele apontou com o indicador para mim.
– Mas e os meus amigos? E a escola? – Protestei, me levantando do sofá.
– Eu sei que você tem seus amigo e a escola para terminar, mas eu... eu não posso arriscar. – Matt tentou me acalmar, apoiando suas mãos em meus ombros. – Nossa cidade pode ser uma das primeiras infectadas, por isso quero te levar para o Sudeste, até isso acabar. – Ele olhou fundo em meus olhos. – Ai nos voltamos para casa, se você quiser, tá bom?
– Tá bem, se você acha que vai ser melhor para nós... – Desviei os olhos para o jornal pousado na mesa de centro – Tudo bem. – Disse com relutância.
***
Três dias depois do inicio dos primeiros relatos de infectados na América do Sul, Matt e eu, fomos morar em São Paulo.
Mesmo fugindo, nós dois continuamos com medo do que possa acontecer daqui pra frente.
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