O Desmoronar
1 Prólogo.
Notas iniciais
"É importante lutar, e recomeçar a lutar, e continuar a lutar, porque somente assim o mal pode ser acuado, embora jamais erradicado."
━ JK Rowling
O barulho da chuva prorrompeu no terraço, respirei fundo. É engraçado como sempre nos falam que há um arco-íris que cercará os céus depois da tempestade, mas nunca nos comunicam quando a tempestade passará. Sabemos o que acontece depois da chuva, sabemos que depois que toda a água cai, o sol aparece e irradia tudo e faz com que as coisas fiquem mais bonitas; mas quando, me diga exatamente quando, o sol irá aparecer para mim?
Olhei para a sala mal iluminada, e a imagem — se não fosse tão entristecida — me parecia cômica. Uma sala de estar cheia de pessoas que não gostariam de aqui estar. Isso é algo penoso. Cheio de pessoas com almas vazias. Passeando o olhar pelo rosto de casa um deles, eu posso perceber a pressa, o tédio, a inquietude e os poucos, bem poucos, com real pesar sobre a situação, mas nenhum merece receber os pêsames pelo sofrimento. Tampouco eu mereço.
Eu podia sentir o olhar de negação das pessoas que compareciam, eu podia sentir a ira, o desgosto, e até a curiosidade de cada um deles sobre meus ombros, eu não devia estar aqui. Mas seria muito pior se não estivesse. Engraçado, não? As pessoas fazem de situações ruins, ruínas; se você está mal não deves se preocupar: tudo vai piorar. O fundo do poço nunca vai chegar, e se o fizer, conseguiram cavar mais, para que se afunde em demasiado em suas dores, medos, horrores. As pessoas são monstros incontroláveis. E eu, sou duas vezes pior. E me abomino por isso.
Fabian? Está na hora.
Respirei fundo e caminhei até o centro da sala, convicto de que todos encaravam e estudavam cada passo, cada reação que eu dava ou pudesse dar. Analisei a figura gélida, quase como uma pedra, que jazia deitada em um lençol de rosas brancas, e lutei contra a minha vontade de sair dali e gritar ao mundo o quanto eu sentia por tudo, o quanto estava arrependido. Mas eu não poderia. Porque simplesmente, não tinha um pingo de arrependimento no pouco de alma que havia me restado.
Me aproximei mais da estátua que outrora estivera viva e radiante, e depositei uma única rosa vermelha no meio de suas mãos cruzadas sobre o colo. Inquietação. Nervosismo e confusão.A cor vermelha em excesso podia causar isso, e eu, é claro, sabia muito bem disso. Talvez esse tenha sido o motivo de escolher essa rosa, para essa ocasião.
Fechei os olhos e me afastei, senti mãos firmes tocar meu ombro sem nenhuma esperança de me reconfortar, sem pena ou pesar. Como eu odiava tudo aquilo. Depois de um longo tempo voltei a abrir os olhos, e, com um acenar de cabeça para os demais que circulavam o corpo, vi-os em poucos segundos lacrar o caixão.
O caixão onde jazia minha genitora.
Minha mãe, para todos os casos.
Fale com o autor